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Artigo – Você sabia que citações de grandes autores podem não ter sido deles?

By prof. Hubert
20 de setembro de 2026
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0

por Reinaldo Polito

“Não é o mais forte que sobrevive, mas o que mais se adapta às mudanças”. Talvez você já tenha lido ou ouvido esta citação e gostado dela. Principalmente depois de saber que ela é de autoria de Charles Darwin, o autor do livro A Origem das Espécies. Afinal, quem somos nós para discordar desse gênio da humanidade?

Você, provavelmente, cairá de costas ao descobrir que essa citação profunda e tão revestida de verdade não é de Darwin, mas sim de Leon C. Megginson, um professor americano que se dedicou a escrever livros na área de recursos humanos e gestão de pequenos negócios.

A credibilidade do autor

A frase continua profunda e instigante ainda que não seja de Darwin, pois como disse Shakespeare em Romeu e Julieta: “O que há num nome? Aquilo que chamamos de rosa, com qualquer outro nome, teria o mesmo perfume”. Aparentemente, sim, mas a aura que acompanha o nome de um autor pode influenciar o leitor de forma diferente. Uns têm mais credibilidade que outros.

Por isso, muitas vezes, as pessoas lançam mão de determinados pensamentos e atribuem a sua autoria a alguém que seja famoso e respeitado em seu campo de atuação. Os exemplos são incontáveis. Provavelmente, algumas das citações que você admira e até utiliza em seus textos e conversas não sejam de quem imagina ser.

Não é de Borges

Veja alguns exemplos de frases que normalmente levam a enganos. Uma bastante famosa é de Nadine Stair, quase sempre atribuída a Jorge Luis Borges. É quase certo que conheça este início: “Se eu pudesse viver novamente a minha vida…”. Há outra tida como sendo de Voltaire que, na verdade, é de Evelyn Beatrice Hall: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-las”.

Nosso país não poderia ficar de fora desse anedotário. Dizem ser de Charles de Gaulle, mas é do embaixador brasileiro Carlos Alves de Souza: “O Brasil não é um país sério”. Mais duas para encerrar. Uma atribuída a Abraham Lincoln, mas que é de William J. H. Boetcker: “Você não ajuda o pobre destruindo o rico”. Outra que é um provérbio árabe antigo, mas que costuma aparecer com o nome de Mário Quintana: “Quem não entende um olhar jamais entenderá uma longa explicação”.

Machado de Assis

As citações são importantes para ajudar no esclarecimento de determinada ideia e dar a ela mais consistência. Paulo Rónai, em seu Dicionário universal de citações, menciona alguns depoimentos a esse respeito. Ou seja, ele se vale de citações para confirmar a importância delas.

Um deles é de Machado de Assis: “Sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para os discursos de sobremesa, de felicitação, ou de agradecimento”. Eno T. Wanke também se mostra adepto dessa prática: Diz em Pensamentos moleques que “Os provérbios são telegramas que os antigos nos deixaram para nos transmitir notícias de sua sabedoria”.

O contraponto

Há quem não concorde. Um deles é o crítico e dramaturgo francês, Jules Lemaître: “Os pensamentos e máximas são um gênero esgotado e um gênero fútil”. Pois é, como quase tudo na vida, há quem concorde e quem discorde.

Por isso, é preciso cautela. O uso de um pensamento pelo pensamento apenas, máximas e provérbios incluídos, talvez não seja tão útil e pode até provocar certa frustração. Mas, se ele identifica um contexto, instiga à reflexão e motiva à procura da obra que o originou, poderá influenciar de maneira decisiva na formação intelectual. É uma observação que pode contemplar tanto os críticos quanto os defensores dessa prática.

O que “ele” pensa?

Para que um pensamento seja adequado é fundamental que ele seja usado de forma justa e sensata. Nós é que devemos decidir com inteligência a melhor maneira de incluí-los com propriedade na nossa comunicação, escrita ou oral. Temos de considerar ainda que o uso excessivo de pensamentos, quase sempre, motiva críticas: afinal, o que “ele” pensa sobre esse assunto? Será que não sabe raciocinar por si, e por isso só recorre ao que os outros disseram?

Lançar mão de uma frase de maneira adequada pressupõe, portanto, senso de oportunidade. Em circunstâncias que podem produzir tanto resultados positivos quanto negativos, dependendo de fatos e acontecimentos sobre os quais não haja controle, por exemplo, caberia com perfeição a frase de Machado de Assis: “O acaso é um Deus e um diabo ao mesmo tempo”. Uma frase curta e completa, com começo, meio e fim.

Devemos também ter cuidado com as frases batidas, que pelo excesso de uso se transformaram em chavões banalizados, como, por exemplo: quem não se comunica se trumbica, o sol nasce para todos, a união faz a força, uma andorinha só não faz verão, e outras pérolas semelhantes.

Esses são alguns cuidados que devemos ter com as autorias falsas, para que possamos fazer bom uso dos pensamentos, máximas e provérbios.

________________________________________

Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 36 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br

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