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Beatriz Cardoso defende conhecimento pedagógico e formação de professores em discurso de posse na APE

By prof. Hubert
17 de setembro de 2026
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Em seu discurso de posse como Titular da Cadeira nº 38 da Academia Paulista de Educação, Beatriz Cardoso defendeu a valorização do conhecimento pedagógico, a formação continuada dos professores e a aprendizagem como eixos para a transformação da educação brasileira.

A cerimônia foi realizada no dia 16 de setembro, na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, em São Paulo. Ao explicar a escolha do local, Beatriz destacou sua concepção de que a educação acontece dentro e fora da escola e ressaltou o papel da literatura infantil na formação das crianças.

Em sua fala, a nova acadêmica prestou homenagem ao patrono da Cadeira nº 38, Norberto Souza Pinto, analisando sua atuação no contexto histórico em que viveu e os avanços posteriores na educação inclusiva. Também recordou seu antecessor, Jair Militão da Silva, destacando sua defesa da escola pública, da gestão democrática, da formação de professores e da aproximação entre escola e comunidade.

Ao abordar sua própria trajetória, Beatriz lembrou sua passagem da educação infantil à Universidade de São Paulo e sua atuação, nos últimos quase 15 anos, à frente do Laboratório de Educação (Labedu). Definiu como uma das marcas de seu trabalho a produção de “conhecimento aplicável à educação”, aproximando pesquisa, formação de educadores, políticas públicas e práticas concretas nas redes de ensino.

Um dos pontos centrais do discurso foi a defesa da especificidade do conhecimento pedagógico. Para Beatriz, a contribuição de outras áreas é importante, mas a transformação da educação exige compreender profundamente os processos de ensino e aprendizagem e sua tradução para a prática. Ao sintetizar sua própria trajetória profissional, afirmou ter “um ‘pé’ na academia e outro na escola e nas redes públicas de ensino”.

A nova acadêmica também chamou a atenção para a desigualdade educacional e para a necessidade de articulação entre sociedade civil e poder público. Em tempos de inteligência artificial, destacou a capacidade de leitura, compreensão e interpretação de textos como condição de justiça e igualdade e reafirmou seu compromisso para que todas as crianças tenham acesso, desde cedo, às aprendizagens necessárias para participar da sociedade contemporânea.

Ao concluir, Beatriz agradeceu às acadêmicas Rose Neubauer e Guiomar Namo de Mello, que indicaram seu nome para a Academia, e a Ghisleine Trigo Silveira, responsável pelo parecer sobre sua candidatura. Também homenageou familiares, colegas e parceiros que participaram de sua trajetória.

Abaixo, publicamos a íntegra do discurso de posse de Beatriz Cardoso.

Senhor Presidente da Academia Paulista de Educação, 

Senhores Acadêmicos, 

Componentes da Mesa, 

Marta Nosé, Diretora da biblioteca Monteiro Lobato

Meus queridos familiares (especialmente meus filhos), amigos, companheiras de trabalho e colegas do Conselho Municipal de Educação.

Um dia, Rose e Guiomar, durante o lanche do Conselho Municipal, me consultaram se eu aceitaria ter meu nome indicado para a Academia Paulista de Educação. Claro que só esta consulta, vinda de pessoas com quem tanto aprendi e tanto admiro, me deixou lisonjeada, mas confesso que não achei que fosse uma real possibilidade. Para minha enorme surpresa, meses depois chegou a notícia de que havia sido eleita. Fiquei quase sem graça e demorei a incorporar esta informação, pois me surpreendi muito com a indicação de meu nome para esta Academia, que congrega profissionais da educação por quem tenho a maior consideração. Estar entre algumas pessoas que foram modelos para meu percurso profissional e que contribuíram significativamente para a educação pública brasileira e, em especial, a paulista, me enche de orgulho.

Queria saudar nosso Presidente da Academia Paulista de Educação, Hubert Alquéres, cuja trajetória vem deixando marcas nas muitas instituições educacionais que lidera e liderou, sempre preservando a pluralidade e zelando por uma visão democrática.

Não posso deixar de reverenciar Maria Helena Castro, nossa mestra maior, que, com sua sabedoria e vitalidade, tem sido uma infatigável voz em defesa da educação pública brasileira e uma referência para tantas gerações de educadores, entre as quais me incluo. Maria Helena nos inspira a seguir pensando e fazendo educação.

Gostaria ainda de mencionar a alegria de passar a ser colega de alguns membros desta academia que atravessaram minha formação e trajetória de maneiras diversas.

Myriam Krasilchik foi diretora da FEUSP quando eu fui professora e, além de sempre muito generosa, contribuiu com a formação de toda uma geração na Universidade de SP.

Francisco Cordão, cuja trajetória na educação profissional e nos Conselhos de Educação sempre me chamou a atenção pela capacidade de articular conhecimento, política educacional e compromisso com a educação pública.

Bernardete Gatti, uma eterna mestra a quem sempre ouvimos com a maior atenção e aprendemos muito.

Marisa Lajolo, com quem aprendi tanto sobre o valor da literatura infantil e que, certamente, se sente em casa aqui nesta biblioteca.

Nilson José, que foi meu professor e colega, incansável na construção do conhecimento sobre a didática.

Sonia Penim, também professora e colega, trazendo sempre uma reflexão ampliada sobre os temas estruturantes do nosso campo.

Ghisleine Trigo, educadora que traduz a complexidade do dia a dia escolar em planejamento e políticas, ajudando há décadas a construir um arcabouço técnico para o campo.

E, por fim, Maria Inês Fini, recém-empossada, um exemplo de dedicação técnica e compromisso com a aprendizagem.

Sem falar da alegria de ter a oportunidade de estar mais uma vez num colegiado ao lado de Rose Neubauer e Guiomar Namo de Mello, referências e sustentáculos da educação pública paulista. Aliam conhecimento e compromisso e sempre colocaram a aprendizagem como norte.

Academicos Rose Neubauer, Guiomar Namo de Melo, Sonia Penin, Beatriz Cardoso, Ghsleine Trigo e Hubert Alqueres

Queria também agradecer a Marta Nosé pela parceria e disponibilidade para nos acomodar neste espaço, que para mim é tão significativo! Tem um sentido simbólico realizar minha posse na primeira biblioteca infantil brasileira. Para mim, educação acontece dentro e fora da escola e qualquer ação pedagógica deve ser permeada pela literatura infantil. É também por isso que tenho me engajado no bairro e, especialmente, na praça, procurando zelar pelas crianças da região.

É com imensa honra e um profundo senso de responsabilidade que me dirijo a vocês nesta ocasião tão significativa. Tomar posse na Cadeira 38, que tem como patrono Norberto Souza Pinto, é um momento que transcende minha trajetória pessoal e profissional. É uma oportunidade de reconhecer e celebrar a contribuição inestimável de um educador que voltou sua atenção à escolarização de crianças que permaneciam à margem das oportunidades educacionais.

        Norberto Souza Pinto (1895-1968), patrono da Cadeira 38 da Academia Paulista de Educação, foi um professor e jornalista, tendo sido também reconhecido na história da psicologia por suas contribuições. Em 1960 fundou, em Campinas, o Instituto de Pedagogia Terapêutica, que hoje leva seu nome — uma das primeiras iniciativas do gênero na cidade, fruto de décadas de trabalho dedicado à causa. Mas sua atuação foi além da educação: destacou-se também no jornalismo e foi fundador da Associação Campineira de Imprensa, em 1927, tendo sido seu presidente por dez anos.

        Embora em um contexto histórico muito distinto do atual (a visão na época carregava um enorme preconceito e pressupunha uma solução segregacionista), sua iniciativa contribuiu para a constituição do campo posteriormente reconhecido por Educação Especial.

        Hoje, as denominações e os fundamentos médico-pedagógicos, presentes naquele período já passaram por uma revisão crítica, por revelarem concepções classificatórias. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que Norberto contribuiu para introduzir uma resposta educacional onde predominavam o abandono, a invisibilidade e a institucionalização. Seu legado deve, assim, ser compreendido em sua historicidade: valorizado pelo pioneirismo, sem que se projetem sobre sua obra conceitos atuais, nem se deixem de reconhecer os limites de seu tempo.

A trajetória de Norberto Souza Pinto nos ajuda a reafirmar que a educação não é apenas um direito, mas a base fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. Ao refletir sobre sua vida e obra, somos convocados a vislumbrar um longo processo que só muito recentemente passou, de fato, a receber atenção da política educacional e começa a se materializar em leis, normas e decretos. É nossa missão, como acadêmicos e educadores, continuar esse legado, buscando incessantemente formas de aprimorar a educação pública e encontrar soluções que garantam que todos os estudantes tenham acesso a oportunidades de aprendizado significativas.

Em resumo, Norberto Souza Pinto foi uma figura visionária que lutou para dar dignidade e oportunidades de aprendizado a um grupo que era marginalizado pela sociedade. Seu legado é homenageado em diversas instituições de ensino e nesta Academia Paulista de Educação.

Me pergunto o que diria Norberto hoje sobre o avanço das políticas de inclusão e equidade?

Da minha observação atenta das redes públicas e das instâncias decisórias, me parece que este é um dos temas cruciais que o dia a dia escolar vem enfrentando. Avançamos muito, garantimos direitos subjetivos, mas ainda há muitos ajustes a serem feitos para que na prática todos sejam incorporados com qualidade.

A nós, décadas depois, cabe reconhecer a magnitude do gesto naquele momento histórico e destacar o mérito de Norberto Souza Pinto, que, com as ferramentas e a linguagem de seu tempo, teve a coragem e a visão de colocar na agenda assunto de tamanha relevância. Se pensarmos no tempo histórico, temos que reconhecer que, graças a contribuições como a dele, em relativamente pouco tempo avançamos muito. Nas últimas décadas, demos passos significativos no reconhecimento jurídico do direito à educação das pessoas com deficiência. Permanece, entretanto, o desafio de converter as garantias legais em condições concretas de acesso, participação, aprendizagem e pertencimento. As mudanças sociais são lentas, e os avanços graduais. São sempre resultado de muitas contribuições que vão se encadeando e que dependem de intencionalidade na política pública para ganhar forma e alcance.

Cada um de nós, assim como Norberto Souza Pinto e Jair Militão, meu antecessor, é uma gota de água num oceano imenso dos sistemas educacionais que vão consolidando conquistas. Nós, que somos todos educadores aqui, sabemos que nosso trabalho é necessariamente coletivo, tanto na relação com cada indivíduo que formamos, quanto na contribuição geral para a sociedade. Podemos ser o melhor professor ou professora de uma série ou de uma instituição, mas isso representa um momento da vida escolar: o investimento feito, se não tiver continuidade pelo colega que recebe essa criança, pode se enfraquecer. São experiências que vão se somando e que podem se potencializar ou diluir. A escolaridade tem um tempo histórico próprio que se reflete na história de cada um!

É imprescindível também prestar uma homenagem ao meu antecessor, o Professor Jair Militão da Silva, com quem partilhei espaço profissional na FEUSP. Naquele momento, não tivemos oportunidade de conviver ou de ter uma troca profissional mais próxima. Mas, curiosamente, nos encontramos tardiamente na paixão pela formação de professores.  Ele nos deixou um caminho a seguir, pautado pela busca incessante por uma educação de qualidade, que respeite a individualidade de cada estudante e valorize a profissão docente. Seu trabalho traduz uma preocupação constante com a articulação entre democracia, responsabilidade institucional e humanização da escola. É com gratidão que reconheço suas contribuições e com admiração que assumo, como sua sucessora, este lugar.

Com o intuito de trazer a presença e contribuição de Jair Militão de maneira mais concreta, fui em busca de conversar com quem conviveu e se formou com ele. Trago as palavras do meu querido colega Rodnei Pereira, que foi seu aluno e depois colega na UNICID:

“No contexto da linha de pesquisa de Políticas Públicas em Educação, deixou muitas marcas. Assumiu, durante muitos anos, a disciplina de Introdução à Pesquisa em Educação. As aulas eram densas e instigantes; nos oferecia um curso de Epistemologia fundamentado, rigoroso e transformador. Jair era um professor querido por todos os alunos da UNICID. Como um importante democrata, foi um defensor ferrenho da escola pública, laica e gratuita, tendo teorizado sobre a gestão democrática como princípio constitucional. Ele acreditava em uma educação viva e permeável; defendia, com entusiasmo, que a escola não deveria se fechar em seus muros, mas permanecer de portas abertas para a comunidade aos finais de semana.

Era um homem muito religioso, mas nunca, em momento algum, fez qualquer tipo de proselitismo. Pelo contrário: sua visão de mundo era de um acolhimento absoluto. Era extremamente aberto e sensível ao debate sobre temas complexos e urgentes. De fato, agia com empatia, praticava a aceitação incondicional e nutria uma consideração positiva e genuína por cada um de nós. Ele nos ouvia com uma atenção rara, validando nossas inquietações e nos encorajando a ir além.

Falar de Jair Militão é falar de uma humanidade que faz falta, de uma saudade que inspira e de uma trajetória que continua viva nas práticas e nos corações de todos nós que fomos seus alunos, colegas e amigos.”

Jair Militão foi um pesquisador comprometido com a construção de uma sociedade democrática e justa. A temática de seus estudos reflete sua escolha: Educação Comunitária, Educadores e o Cotidiano Escolar, Políticas Públicas de Educação, Formação de Profissionais e Gestão Educacional. Ou seja, Militão transitou entre os diferentes atores do sistema, indo da criança aos professores e diretores, sem esquecer da relevância das comunidades no processo educacional. E, a cada projeto de pesquisa, jogou luz em conceitos estruturantes do campo.

Tanto o patrono desta cadeira quanto meu antecessor procuraram responder a questões educacionais em seus contextos de formação e profissão, desafios diferentes em suas características, mas com um lastro comum: a luta por uma educação de qualidade, mais aprofundada e adequada às gerações vindouras. Me junto a eles no mesmo propósito! Cada um de nós está sempre em busca de resposta para a questão crucial: afinal, o que entendemos por qualidade da educação?

Como educadora, dediquei-me a buscar ambientes onde pudesse aprender e aprimorar meu conhecimento sobre estratégias educacionais mais potentes. De professora de jardim de infância a professora na Universidade de São Paulo e diretora de ONG, venho promovendo práticas pedagógicas inovadoras, ancoradas em pesquisa e sintonizadas com o desafio da formação dos quadros educacionais. Minha trajetória tem sido motivada por questões estruturais do e no setor público: acredito que é só por meio da política pública que alcançaremos uma transformação para todos. Torço para que, na próxima década, sejamos capazes de considerar a formação de professores como a base dessa transformação — o que exige recursos técnicos e financeiros para investigar tanto os processos de formação em si quanto os de implementação. Nosso Norte deve ser a sistematização de conhecimentos sobre contextos que favoreçam a aprendizagem tanto das crianças quanto dos adultos responsáveis por sustentar esses espaços. Para isso, em vez de investir em prescrição, precisamos valorizar o desenvolvimento de repertório pedagógico e colocar no centro a convicção de que toda criança tem potencial para aprender.

Academicos Francisco Cordão, Bernardete Gatti, Beatriz Cardoso e Hubert Alqueres

Meu caminho tem sido marcado pela imersão na prática cotidiana dos ambientes educacionais, sempre buscando aprofundar esse conhecimento também no plano conceitual. Há mais de três décadas, desde o doutorado, minha pesquisa se dedica a entender como os professores aprendem para se tornarem bons profissionais. Nos últimos quase 15 anos, à frente da sensacional equipe do Laboratório de Educação (Labedu), temos desenvolvido o que chamamos de conhecimento aplicável à educação — conduzindo pesquisas e projetando metodologias que apoiam a implementação de projetos inovadores, tanto no nível da política pública quanto na formação de professores, diretores e supervisores. Essa é a marca distintiva do Labedu, e também o que tem guiado minha vida profissional: produzir uma interação constante entre a realização tangível, a compreensão profunda e a sistematização.

O desafio central que o Brasil e outros países da América Latina enfrentam hoje na educação é o de criar, ao mesmo tempo, ambientes saudáveis e desafiadores para as crianças e capacidade profissional para os adultos que atuam nesse processo. A aprendizagem deve ser o ponto de partida e de chegada: qualquer inovação nesse campo precisa considerá-la como parte de um sistema, em que todos os níveis — da criança ao professor — precisam ser reconhecidos, estudados e levados em conta. Esses processos são distintos, simultâneos e interdependentes: precisamos abrir espaço e apoiar ambos.

Por mais irônico que possa parecer, ainda é preciso afirmar que é por meio da construção de conhecimento pedagógico que poderemos superar muitos dos problemas atuais da educação. O olhar e a contribuição das outras áreas do conhecimento são sempre bem-vindos, desde que não se superponham e/ou desconsiderem o que é próprio do conhecimento pedagógico. É bem verdade também que nosso campo às vezes se perde em discussões acadêmicas sem se aprofundar em como traduzir esses fundamentos em práticas concretas — e é exatamente nesse ponto de encontro, entre a formação acadêmica e a participação efetiva na qualificação dos sistemas públicos de ensino, que tenho procurado atuar.

Me considero uma empreendedora social (inclusive, sou Fellow Ashoka), com um “pé” na academia e outro na escola e nas redes públicas de ensino. A boa pedagogia é resultado de recursos e conhecimentos práticos construídos no contexto da ação, mas amparados em fundamentos sólidos — e são as pequenas escolhas pedagógicas, no fim das contas, que constroem os grandes projetos e reformas educacionais. Para mudar a realidade de aprendizagem da criança brasileira, precisamos de um jogo entre o micro e o macro, numa perspectiva incremental. Mas, a esta altura da minha carreira, reafirmo: sem conhecimento pedagógico como eixo das transformações, será difícil avançar.

Sou grata à minha família e, especialmente, à abertura de mundo e visão que meus pais me propiciaram. Tendo pais tão extraordinários, é difícil imaginar contribuição maior; por outro lado, a caminhada ao lado deles me ensinou tanta coisa, me deu tanta oportunidade, mas acima de tudo me convocou para uma responsabilidade com nossa sociedade. Escolhi a educação pública como a esfera em que me dedicaria para fazer alguma diferença. Esta nomeação significa muito para mim como reconhecimento de uma vida profissional dedicada a encontrar caminhos e contribuir. Aproveito para homenagear minha mestra de uma vida inteira, a professora Ana Teberosky, que me deu, como diria Gilberto Gil: “Régua e Compasso”. Foi ao lado dela por 38 anos que aprendi, levei “bronca”, estudei e juntas desenvolvemos muitas iniciativas.

Minha carreira é marcada por um tipo de aprendizado que não é apenas por instrução direta, mas por viver com exemplos. Desde cedo, fui seduzida pelo mundo da escola e pela relação de ensino-aprendizagem. Sempre busquei ambientes que me permitissem aprender e aplicar as pedagogias que favorecessem o desenvolvimento integral das crianças. Essa busca me levou a coordenar creches e pré-escolas, a viajar e conhecer redes de escolas por este Brasil afora, onde tive a oportunidade de mergulhar na complexidade da realidade educacional brasileira.

Com a determinação e a engenhosidade da juventude, abracei a oportunidade de estudar em Barcelona com a Professora Ana Teberosky. Essa experiência me proporcionou novas referências, rigor científico e conhecimento prático que moldaram a espinha dorsal da minha carreira. Ao voltar ao Brasil, ingressei na Universidade de São Paulo, onde dei continuidade à minha atuação como educadora e pesquisadora, sempre focada na formação de professores e na transformação das oportunidades de aprendizado infantil.

Acredito firmemente que a educação é um dos principais elementos na transformação e criação de infraestrutura de um país. Justiça e igualdade, em tempos de IA, equivalem a sermos capazes de desenvolver nos estudantes a capacidade de leitura, compreensão e interpretação de textos.

Meu compromisso sempre foi o de trabalhar persistentemente para garantir que todas as crianças, desde muito cedo, independentemente de sua origem, tenham direito a essa aprendizagem que entrega as ferramentas para a contemporaneidade. É essa convicção que me move e que dá sentido ao meu cotidiano profissional.

No entanto, sabemos que a desigualdade permanece como uma barreira estrutural. Acredito que o papel da sociedade civil organizada é fundamental para moldar o futuro da educação no país. A interação entre os setores público e privado é crucial, e devemos trabalhar juntos para garantir que a educação seja um espaço de aprendizado, diálogo e inclusão.

Neste contexto, é necessário que os projetos que empreendemos busquem impulsionar as políticas educacionais, criando condições para que cada criança e cada professor possa aprender. Insisto: a formação continuada dos educadores (não entendida como treinamento ou apenas repasse de conteúdos) deve ser prioridade e o aprendizado o fio condutor de nossas ações. É nossa responsabilidade abrir espaço para que todos os envolvidos no processo educacional possam crescer e se desenvolver.

Convido todos vocês a se unirem a mim nessa jornada. Que possamos, juntos, honrar o legado de Norberto Souza Pinto e do Professor Jair Militão da Silva, e trabalhar incansavelmente pela educação que todos desejamos e que nosso país merece. Que esta Academia continue a ser um espaço de reflexão, inovação e compromisso com a educação, contribuindo para a formação de cidadãos críticos, solidários e preparados para os desafios do futuro, que não são poucos!

Quero finalizar agradecendo profundamente a honra de ter sido indicada por duas grandes educadoras, Rose Neubauer e Guiomar Namo de Mello. Este reconhecimento, junto ao parecer favorável elaborado pela vice-presidente da Academia, Ghisleine Trigo Silveira, é um testemunho de que a trajetória que construí ao longo dos anos, embora não ortodoxa, é valorizada por aquelas que compartilham a mesma paixão pela educação.

Não posso deixar de reconhecer o lugar dos meus filhos, Julia e Pedro, nesta jornada, pois desde muito pequenos são meus melhores interlocutores!

Beatriz Cardoso com Julia e Pedro

Quero também reconhecer que sou uma pessoa do coletivo e tudo o que construí contou com a colaboração de muita gente que cruzou meu caminho. Várias estão aqui presentes!

Em especial, Andrea e Nicole, parceiras muito especiais e de longa data nesta caminhada!

Agradeço a cada um de vocês por acreditarem em meu trabalho e por me acolherem nesta respeitável Academia.

Na pessoa do Sr. Presidente da Academia, Prof. Hubert Alquéres, agradeço a recepção amiga de cada um de vocês.

A todos os meus parceiros de jornada, família, amigos, colegas de trabalho e alunos, meu muito obrigada pelo constante estímulo.

Muito obrigada!

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