Ricardo Terra e a importância de uma educação em permanente transformação

Em seu discurso de posse como titular da Cadeira nº 7 da Academia Paulista de Educação, Ricardo Terra percorreu os principais encontros e referências que marcaram sua formação pessoal e seus mais de 44 anos de trajetória no SENAI-SP. Ao recordar familiares, educadores e lideranças que contribuíram para sua vida profissional, Terra apresentou a educação como um processo permanente de aprendizagem entre pessoas e gerações.
O novo acadêmico também prestou homenagem à história da Cadeira nº 7, anteriormente ocupada por Paulo Nathanael Pereira de Souza, e refletiu sobre a contribuição que pretende oferecer à Academia. Ao final, projetou sua fala para o futuro: defendeu que a educação esteja em permanente transformação e que seja capaz de preservar os princípios construídos ao longo do tempo sem abrir mão da coragem de inovar e ousar. Terra definiu assim o compromisso que assume na Academia: contribuir para “um movimento vigoroso e dinâmico, com olhar para o futuro”.
Abaixo, a íntegra do discurso de posse de Ricardo Terra.

“Há momentos na vida da gente que nos convidam à reflexão, a olhar para a nossa história e pensar como chegamos até aqui, o caminho que ainda queremos trilhar e o legado que desejamos deixar. Ao receber o honroso convite para me juntar a esta Academia me vi exatamente assim, refletindo sobre minha trajetória e como esta pode ser uma oportunidade de contribuir ainda mais com aquilo que é o meu grande compromisso de vida – a educação.
Trabalhei e convivi com pessoas generosas, que me mostraram um mundo muito maior do que eu poderia sonhar sozinho. Tenho um currículo simples e modesto, mas penso que a riqueza dele está relacionada às oportunidades que tive de aprender com essas pessoas brilhantes, e meu único mérito consiste em ter lidado com cada um desses relacionamentos como uma situação de aprendizagem.
À princípio isso se conecta com os três Robertos da minha vida.
O primeiro, Roberto Terra, meu pai. Um homem íntegro que, junto com minha mãe Cléo, me passou uma sólida formação humana. Eles são minhas raízes e me proporcionaram os valores e a ética que orientam o meu caminho. Posso dizer que minha paixão pela educação começou com eles, dentro de casa. Essa paixão alimentada desde cedo me levou a uma carreira de mais de 44 anos no SENAI São Paulo, em que tive oportunidade de atuar inicialmente como professor, passando depois por cargos como coordenador e diretor de escola, e alcançando a posição de executivo que ocupo hoje, como diretor regional de uma instituição que me enche de orgulho, por ser transformadora da vida de tantas pessoas.
Roberto Simonsen, articulador político e idealizador institucional do SENAI, que assim como eu viveu em Santos, e lutou incansavelmente pela qualidade da educação profissional. Sua força e atuação dinâmica o levaram a presidir a FIESP, características que reconheço também na figura do presidente Paulo Skaf, que além de ter sido um exemplo de determinação, coragem e ousadia, com sua sensibilidade, me fez uma homenagem inesquecível. Designou-me patrono da escola SENAI de Paulínia, eternizando a minha permanência no lugar que mais amo na vida: uma escola.
E o último Roberto, Roberto Mange, formulador dos princípios pedagógicos que até hoje norteiam a educação profissional, com a valorização da competência técnica e do fazer bem-feito que, aliadas à sua sensibilidade e ao seu arrojo, permitiram construir a obra-prima que é o SENAI e que persiste há mais de 80 anos.
Com os precursores do SENAI e meu atual líder, Paulo Skaf, aprendi a desenvolver o espírito visionário e o otimismo de quem enxerga os desafios como oportunidades.
Somam-se a eles outros homens brilhantes, de um passado mais recente, que também marcaram minha trajetória, como Paulo Ernesto Tolle, que ocupou por mais de 20 anos a cadeira que hoje eu ocupo como Diretor Regional, responsável por expandir e internacionalizar o SENAI-SP, transformando-o em uma das maiores redes de educação profissional da América Latina, sempre pautado por princípios éticos e morais essenciais à formação plena, que orientam até hoje o nosso fazer educacional.
Walter Vicioni Gonçalves, que também foi diretor regional do SENAI-SP e me ensinou que tradição e modernidade não são inimigas. Um homem notável que sempre pautou suas ações com criatividade e ousadia responsável.

A ousadia também se destaca na personalidade de John Franklin Arce, um grande inspirador, que me ensinou que a redescoberta do mundo é condição fundamental ao avanço das organizações, dando relevante contribuição à modernização tecnológica da nossa instituição.
Minha trajetória no Senai me apresentou outros mestres, cujas vidas se confundem com a história da educação no Brasil, como o Francisco Aparecido Cordão, Nacim Walter Chieco, Maria Helena Guimarães, Maria Inês Fini, Bernadete Angelina Gatti, Guiomar Namo de Mello, Hubert Alquéres. E agora, sendo membro desta academia, terei a honra de conviver com grandes educadores.
Reconheço também a importância da minha família nessa trajetória. Aprendo todos os dias com a minha esposa Yolanda, que compartilha comigo as alegrias e os desafios da vida a dois, e com meus queridos filhos Victória e Ricardo, que me trazem uma visão muito atual da vida, me ensinando novas formas de olhar para as questões desse mundo.
Não posso deixar de mencionar que a cadeira de número 07, ocupada pelo meu antecessor, Paulo Nathanael Pereira de Souza, que se destacou por sua densa trajetória profissional e por suas publicações a respeito da qualidade da educação brasileira, também foi honrada por outros grandes nomes da educação brasileira, como o patrono, Padre Leonel Edgard da Silveira Franca, que foi membro do Conselho Nacional de Educação em 1931, e o fundador, Alberto Mesquita de Camargo, que também foi um dos fundadores da Universidade São Judas Tadeu e da APEOESP.
Sabiamente, o poeta inglês John Donne afirmou que ninguém é uma ilha e a morte de qualquer ser humano diminui a humanidade inteira. Ouso acrescentar que a vida de cada ser humano engrandece toda a humanidade. A vida de cada um de nós é esse grande mosaico, formado pela soma das experiências que vivemos e das pessoas que nos inspiram.
Mas, com tudo isso, me pergunto: como posso eu também contribuir com esta Academia? Como a minha vida e a minha experiência também podem ser colocadas a serviço dos nossos objetivos comuns?
Aqui recorro a mais um grande sábio, este não ligado diretamente à educação, mas à história do nosso país: Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte e um dos principais artífices da redemocratização brasileira, ao promulgar a Constituição de 1988, que ele próprio denominou Constituição Cidadã, afirmou: “A Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar.”
Penso que também a educação precisa estar em permanente transformação, de modo a sustentar a construção de um futuro mais próspero e sustentável. Cabe a nós preservar os princípios que nos trouxeram até aqui, mas, ao mesmo tempo, ter a coragem de inovar, de ousar e de dar um novo ritmo às nossas instituições. É esse o compromisso que assumo hoje ao ingressar nesta Academia. Provocar um movimento vigoroso e dinâmico, com olhar para o futuro.
Agradeço a confiança de vocês e garanto que a educação que habita meu coração e minha alma será eterna.
Muito obrigado!”




