{"id":132,"date":"2011-02-14T19:01:12","date_gmt":"2011-02-14T21:01:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2011\/02\/14\/discurso-de-posse-do-academico-jose-augusto-dias\/"},"modified":"2011-02-14T19:01:12","modified_gmt":"2011-02-14T21:01:12","slug":"discurso-de-posse-do-academico-jose-augusto-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/discurso-de-posse-do-academico-jose-augusto-dias\/","title":{"rendered":"Discurso de Posse do  Acad\u00eamico Jos\u00e9 Augusto Dias."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">ACADEMIA PAULISTA DE EDUCA\u00c7\u00c3O\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Discurso de Posse do Acad\u00eamico Titular<br \/>\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">JOS\u00c9 AUGUSTO DIAS<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">21\/11\/1989<br \/><\/span><\/span> <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhor Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhores Acad\u00eamicos<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhoras e Senhores<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A magnanimidade da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, trazendo-me para desfrutar seu agrad\u00e1vel conv\u00edvio e participar de suas nobres atividades, constitui para mim motivo de desvanecimento e gratid\u00e3o. Desvanecimento, porque vejo aqui reunidas algumas das mais expressivas figuras do magist\u00e9rio paulista, que, merc\u00ea de atua\u00e7\u00e3o fecunda em favor da educa\u00e7\u00e3o, souberam merecer a admira\u00e7\u00e3o e o respeito de todos. Sinto-me tamb\u00e9m agradecido por ter recebido a honra de poder inscrever-me nos quadros da Academia.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Neste momento marcado pela emo\u00e7\u00e3o, procurando justificar perante mim mesmo uma distin\u00e7\u00e3o t\u00e3o significativa, que nunca imaginei merecer, eu rememoro estes anos, que j\u00e1 v\u00e3o longos, em que estive vinculado \u00e0s lides do magist\u00e9rio. E assim, de maneira quase autom\u00e1tica, irresist\u00edvel, minha mente se volta para minhas origens e eu me ponho a recordar os anos de Escola Normal, a forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica recebida na terra natal, Santa Cruz do Rio Pardo. Para minha imensa satisfa\u00e7\u00e3o, verifico que a simples men\u00e7\u00e3o a esta cidade n\u00e3o \u00e9 indiferente para muitos de meus colegas acad\u00eamicos. Santa Cruz do Rio Pardo faz parte da hist\u00f3ria de vida de nosso Presidente Samuel Pfromm Netto, que mais de uma vez me confidenciou o carinho com que se recorda dos tempos em que l\u00e1 esteve; faz parte tamb\u00e9m do curr\u00edculo de D\u00e9cio Grisi \u2013 de quem fui aluno em Santa Cruz -, de Carlos Corr\u00eaa Mascaro, como tamb\u00e9m de outros que j\u00e1 n\u00e3o se encontram entre n\u00f3s, como Antonio d\u2019\u00c1vila e Alberto Rovai. Estou seguro de que a velha Escola Normal de Santa Cruz do Rio Pardo pode ser inclu\u00edda entre as institui\u00e7\u00f5es que inspiram, nesta Academia, o generoso movimento no sentido de restabelecer o ensino normal no Estado de S\u00e3o Paulo, com a nobre esperan\u00e7a de revigorar a forma\u00e7\u00e3o para o magist\u00e9rio de 1\u00ba grau, t\u00e3o desfigurada pela recente legisla\u00e7\u00e3o do ensino. Aquela vener\u00e1vel escola, que teve a felicidade de contar com colaboradores t\u00e3o ilustres, formou e deu a S\u00e3o Paulo alguns educadores expressivos que se t\u00eam destacado no magist\u00e9rio paulista com seu trabalho prof\u00edcuo nas salas de aula ou em outras posi\u00e7\u00f5es da carreira e at\u00e9 mesmo em postos de alta responsabilidade na administra\u00e7\u00e3o superior do ensino.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nesta rememora\u00e7\u00e3o de minha forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, permitam-me um momento de homenagem a duas pessoas a quem muito devo: Benedicto Dem\u00e9trio Dias e Em\u00edlia Casteletti Dias, meus pais. N\u00e3o se trata apenas de tributo afetivo de filho agradecido: posso afian\u00e7ar-lhes que \u00e9, muito mais que isto, uma quest\u00e3o de justi\u00e7a, Benedicto Dem\u00e9trio, posso invocar o testemunho dos Acad\u00eamicos Mascaro e Grisi, que o conheceram, foi um homem extraordin\u00e1rio pela intelig\u00eancia, pela honradez, pelo altru\u00edsmo e pelo esp\u00edrito de lideran\u00e7a. N\u00e3o tivesse t\u00e3o cedo problemas de sa\u00fade e n\u00e3o tivesse morrido t\u00e3o mo\u00e7o, com pouco mais de quarenta anos de idade, certamente teria podido destacar-se na vida p\u00fablica, que era sua inclina\u00e7\u00e3o natural. Minha m\u00e3e, deixada vi\u00fava com cinco filhos menores, soube mostrar-se forte no momento em que a vida dela tanto exigiu. Antes t\u00e3o fr\u00e1gil, t\u00e3o t\u00edmida, marcada por aquela s\u00f3lida forma\u00e7\u00e3o religiosa que atribui \u00e0 mulher uma postura de recato e recolhimento, afrontou a dura tarefa de assumir o comando da fam\u00edlia em circunst\u00e2ncias terrivelmente adversas e se desdobrou em esfor\u00e7os e sacrif\u00edcios, at\u00e9 entregar a S\u00e3o Paulo quatro professores e um sacerdote. A meus pais, a quem devo enobrecedores e indel\u00e9veis li\u00e7\u00f5es de vida, deixo aqui registrado esta singela e comovida homenagem.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Durante minha trajet\u00f3ria na vida escolar, quer como estudante, quer como profissional do magist\u00e9rio, tenho tido o privil\u00e9gio de receber a influ\u00eancia de grandes educadores, desde minha primeira professora, d. Armandina d\u2019\u00c1vila Santos, irm\u00e3 do inesquec\u00edvel Acad\u00eamico Antonio d\u2019\u00c1vila. Na pessoa de d. Armandina, que guiou meus primeiros passos na vida escolar, quero aqui prestar minha homenagem a todos os meus mestres da Escola Prim\u00e1ria. No Gin\u00e1sio e na Escola Normal pude contar tamb\u00e9m com professores competentes e dedicados, entre os quais posso incluir, como j\u00e1 disse, o eminente Acad\u00eamico D\u00e9cio Grisi. Nessa mesma \u00e9poca a Escola Normal era dirigida por um educador en\u00e9rgico e culto e que certamente tem tamb\u00e9m sua parcela de influ\u00eancia em minha forma\u00e7\u00e3o: Alberto Rovai.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No curso de Pedagogia, da ent\u00e3o Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da USP tive a honra de receber ensinamentos de eminentes professores universit\u00e1rios, dentre os quais destaco muito especialmente os Professores Jos\u00e9 Querino Ribeiro e Carlos Corr\u00eaa Mascaro. Al\u00e9m de meus professores no curso de Pedagogia, Querino e Mascaro passaram a ser meus orientadores na incipiente carreira do magist\u00e9rio superior, no ent\u00e3o Setor de Administra\u00e7\u00e3o Escolar e Educa\u00e7\u00e3o Comparada da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da Universidade de S\u00e3o Paulo. Depois de alguns anos, nosso grupo foi enriquecido com a presen\u00e7a do Professor Jo\u00e3o Gualberto de Carvalho Meneses, cuja jovialidade e intelig\u00eancia sempre me impressionaram e a quem desde ent\u00e3o me sinto ligado pelos la\u00e7os de s\u00f3lida e gratificante amizade. \u00c0s incont\u00e1veis gentilezas de que lhe sou devedor, devo acrescentar agora esta de ser saudado por ele no dia de minha posse na Academia. O Professor Querino, que tem sido para mim um insubstitu\u00edvel mentor espiritual, deu-me orienta\u00e7\u00e3o muito segura, no momento em que isto significava elemento decisivo para meu destino profissional. Quando cheguei ao Setor que ele dirigia com esp\u00edrito aberto e democr\u00e1tico, numa \u00e9poca em que a C\u00e1tedra conferia poderes quase ilimitados, o Professor Querino recebeu-me com as seguintes palavras, que, descobri depois, dirigia a todos os novos assistentes: \u201cLeia os meus escritos. N\u00e3o espero que voc\u00ea concorde com minhas ideias, quero apenas que voc\u00ea saiba o que penso.\u201d Presenteou-me tamb\u00e9m com um exemplar de sua tese de C\u00e1tedra, a que ap\u00f4s a seguinte dedicat\u00f3ria: \u201cAo Jos\u00e9 Augusto, com muita estima e muita esperan\u00e7a\u201d. N\u00e3o sei at\u00e9 que ponto pude corresponder \u00e0s esperan\u00e7as do mestre, mas ele continua sendo para mim uma constante fonte de inspira\u00e7\u00e3o e est\u00edmulo.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Tamb\u00e9m deve muito ao Professor Mascaro, que, ocupando importantes cargos na Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o do Estado e no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, sempre me convocou para tarefas que me valeram experi\u00eancias preciosas. Ele, com sua largueza de esp\u00edrito, nunca fez a menor refer\u00eancia a isto, mas estou seguro de que devo ao Professor Mascaro minha condu\u00e7\u00e3o ao Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A passagem pelo Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o foi para mim uma rara oportunidade de enriquecimento espiritual e profissional. Pude ali conviver com eminentes educadores paulistas. Guardo dos anos que passei no Conselho as mais gratas recorda\u00e7\u00f5es, quer pela oportunidade de informar-me melhor a respeito das complexas quest\u00f5es que envolvem o funcionamento do sistema escolar, quer pelo agrad\u00e1vel conv\u00edvio com ilustres representantes da escola p\u00fablica e da escola particular de todos os n\u00edveis.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A maior parte de minha vida profissional foi dedicada \u00e0 Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo. Sempre considerei um privil\u00e9gio incompar\u00e1vel trabalhar naquela Institui\u00e7\u00e3o e naquele campus universit\u00e1rio, num ambiente social e num ambiente f\u00edsico extremamente agrad\u00e1veis e estimulantes. Quando entrei para o Departamento, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 60, este funcionava ainda na rua Maria Antonia e passou a ter, com a minha chegada, quatro docentes, para o atendimento de pouco mais de uma centena de alunos do curso de Pedagogia. Hoje, o Departamento de Administra\u00e7\u00e3o Escolar e Economia da Educa\u00e7\u00e3o assumiu novas responsabilidades e tem um corpo docente bem mais numeroso. Do conv\u00edvio com estes colegas ilustres guardo as mais ricas experi\u00eancias. Mas n\u00e3o posso e n\u00e3o devo deixar de mencionar tamb\u00e9m o interc\u00e2mbio vivo e enobrecedor mantido, semana ap\u00f3s semana, semestre ap\u00f3s semestre, com meus alunos. \u00c9 no esfor\u00e7o para ensinar que mais aprendemos, \u00e9 no af\u00e3 de tornar claras nossas ideias que estas se tornam mais significativas para n\u00f3s mesmos, mas \u00e9 sobretudo o perquirir constante de nossos alunos que nos obriga \u00e0 renova\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de nossos pr\u00f3prios horizontes.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Este arrolamento de influ\u00eancias que fizeram de mim o que sou seria incompleto se eu n\u00e3o mencionasse tamb\u00e9m o quanto devo \u00e0 minha esposa, Alba, cuja presen\u00e7a carinhosa tem sido para mim uma fonte inestim\u00e1vel de est\u00edmulo, compreens\u00e3o e apoio. A ela e a nossos dois filhos, Maria S\u00edlvia e Jos\u00e9 Augusto, devo o agrad\u00e1vel conv\u00edvio de um lar no sentido pleno da palavra, ref\u00fagio certo para todos os momentos.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Hoje inicio oficialmente minha participa\u00e7\u00e3o na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. Agrade\u00e7o de todo cora\u00e7\u00e3o aos nobres Acad\u00eamicos, que, com seu voto, abriram-me as portas da Academia. Tal como aquela fundada por Plat\u00e3o nos jardins de Academo, esta \u00e9 tamb\u00e9m, antes de tudo, uma escola e aqui tenho certeza de que continuarei aprendendo. Sinto-me muito honrado em poder juntar minhas for\u00e7as \u00e0s de meus ilustres companheiros na defesa de ideias t\u00e3o justas quanto as que constam da pauta da Academia, especialmente, a da valoriza\u00e7\u00e3o e restabelecimento da dignidade do magist\u00e9rio. Nunca o professor foi t\u00e3o maltratado como nos dias atuais. Uma sociedade que aspire a prosperidade e o crescimento n\u00e3o pode permitir-se dispensar tratamento t\u00e3o inadequado aos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o. Assim sendo, \u00e9 altamente merit\u00f3ria a luta da Academia no sentido de exigir para o professor um tratamento condigno e com muito empenho e com muita esperan\u00e7a junto-me a ela nesta empreitada.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Voltando \u00e0 influ\u00eancia recebida durante minha forma\u00e7\u00e3o, devo mencionar ainda dois autores cujas obras eram adotadas na velha Escola Normal e nas quais encontrei ensinamentos util\u00edssimos. Refiro-me a Antonio d\u2019\u00c1vila, com suas <em>Pr\u00e1ticas Escolares<\/em> e a Almeida J\u00fanior, autor de <em>Anatomia e Fisiologia Humanas.<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Considero uma distin\u00e7\u00e3o muito acima de meu merecimento ocupar agora, nesta Academia, a Cadeira n\u00ba 10, que tem por patrono Almeida J\u00fanior.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Almeida J\u00fanior<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Com inteira justi\u00e7a, o nome de Antonio Ferreira de Almeida J\u00fanior \u00e9 inclu\u00eddo na galeria dos grandes educadores brasileiros, ao lado de figuras do porte de An\u00edsio Teixeira, Fernando de Azevedo e Louren\u00e7o Filho, que, ali\u00e1s, t\u00eam em comum, dentre outros, o fato de serem todos eles signat\u00e1rios do c\u00e9lebre Manifesto dos Pioneiros da Educa\u00e7\u00e3o Nova.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Almeida Jr. impressiona pela amplitude de seus conhecimentos e pela riqueza de sua experi\u00eancia. Ap\u00f3s breve in\u00edcio no magist\u00e9rio prim\u00e1rio, foi logo convocado para outras atividades docentes, tendo, ao longo de sua vida, lecionado franc\u00eas, pedagogia, biologia, higiene, fisiologia do trabalho, medicina legal. No magist\u00e9rio ocupou cargos que v\u00e3o de professor prim\u00e1rio at\u00e9 catedr\u00e1tico da Universidade de S\u00e3o Paulo, passando pelos postos administrativos de diretor de escola secund\u00e1ria, diretor do Servi\u00e7o M\u00e9dico-Hospitalar do Estado de S\u00e3o Paulo, Diretor Geral do Ensino do Estado de S\u00e3o Paulo, Secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade do Estado e membro do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Observador e cr\u00edtico arguto de nossa realidade educacional, participou entusiasticamente de atividades tendentes \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es para a educa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de assinar o Manifesto dos Pioneiros, colaborou efetivamente em v\u00e1rios projetos de reforma do ensino, tais como a reforma Sampaio D\u00f3ria, de 1920; reforma Fernando de Azevedo, de 1933; organiza\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo, criada em 1934; estudos preliminares para o projeto do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o; projeto de diretrizes e bases da educa\u00e7\u00e3o nacional.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Merece destaque a rica bibliografia produzida em fun\u00e7\u00e3o de sua viv\u00eancia dos problemas de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Para mencionar apenas os trabalhos voltados para o ensino, podemos incluir: <em>Cartilha de Higiene<\/em> (1922), <em>No\u00e7\u00f5es de Puericultura<\/em> (1927), <em>A Escola Pitoresca<\/em> (1934), <em>Anatomia e Fisiologia Humanas<\/em> (1939), <em>Os objetivos da escola prim\u00e1ria rural<\/em> (1944), <em>Biologia Educacional<\/em> (1948), <em>Problemas do Ensino Superior<\/em> (1956), <em>A repet\u00eancia na escola prim\u00e1ria<\/em> (1956), <em>Tradi\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas \u2013 de Bologna ao Largo de S\u00e3o Francisco<\/em> (1957), <em>E a Escola Prim\u00e1ria?<\/em> (1959). Em todos estes escritos, Almeida Jr. deixou registrada, de maneira indel\u00e9vel, a marca de seu g\u00eanio e de seu profundo senso de humanidade.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Que falar a respeito de Almeida Jr. de maneira a retrat\u00e1-lo com fidelidade? Sua grandeza escapa a esta minha fr\u00e1gil tentativa de fazer-lhe justi\u00e7a. Felizmente existem algumas p\u00e1ginas de seu livro <em>A Escola Pitoresca<\/em> que podem ajudar-me de forma espl\u00eandida nesta tarefa. Em cap\u00edtulo que intitulou \u201cP\u00e1gina de mem\u00f3rias\u201d, Almeida Jr. registrou, sob forma de perguntas e respostas, alguns epis\u00f3dios mais significativos de sua carreira e no-los apresenta de maneira magistral, permitindo-nos aquilatar o imenso valor de sua nobre personalidade. Pe\u00e7o licen\u00e7a, pois, para ler este verdadeiro autorretrato do homenageado:<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Por onde come\u00e7ou o exerc\u00edcio do magist\u00e9rio?<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Pelo melhor come\u00e7o, ou seja, pelo ensino prim\u00e1rio, que representa uma escola de humildade. Foi em Santos, na Ponta da Praia (bairro de pescadores), em abril de 1910. Tinha eu ent\u00e3o pouco menos de dezoito anos. Ordenado: 240 mil r\u00e9is, e dele devia tirar minhas despesas pessoais, o transporte di\u00e1rio entre a cidade e a escola e o aluguel da sala de aulas. Os alunos, meninos paup\u00e9rrimos, mal nutridos, de aspecto doentio, vinham descal\u00e7os e esfarrapados. Esse mesmo quadro encontrei-o, posteriormente, no Estado todo, quando vim a exercer fun\u00e7\u00f5es administrativas; e creio que ainda hoje representa o panorama de boa parte do Brasil. Ali\u00e1s, surge ele sempre \u00e0 minha lembran\u00e7a quando vejo o luxo de certas escolas p\u00fablicas de grau m\u00e9dio ou superior, ou quando ou\u00e7o o clamor de uns tantos grupos de estudantes universit\u00e1rios que, embora j\u00e1 favorecidos por um sem-n\u00famero de privil\u00e9gios proporcionados \u00e0 custa do er\u00e1rio p\u00fablico, querem ainda mais, sem se compenetrarem de seus deveres em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Que influ\u00eancias o conduziram atrav\u00e9s da carreira?<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Devo dizer que fiquei pouco tempo em Santos: menos de dois meses. Passado esse prazo, recebi telegrama do diretor da Escola Normal da Capital, chamando-me a S\u00e3o Paulo. Por que me convocaria com tanta urg\u00eancia Rui de Paula Sousa, que durante o curso se havia tomado de grande amizade por mim? No Alto da Serra comprei um jornal do dia e tive a explica\u00e7\u00e3o: L\u00e1 estava, na terceira p\u00e1gina, em lugar de destaque, minha nomea\u00e7\u00e3o para uma cadeira considerada, \u00e0quele tempo, de alta categoria profissional, a da Escola Modelo Isolada, anexa \u00e0 Escola Normal da Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, e ocupada at\u00e9 ent\u00e3o por um mestre not\u00e1vel, o prof. Teodoro de Morais. Foi um deslumbramento e, como primeiro impulso, levantei-me do duro banco de madeira de segunda classe, para saltar fora do trem e correr com destino a S\u00e3o Paulo. Felizmente a porta do vag\u00e3o estava trancada&#8230; Voltei ao meu banco e, precisando abrir-me com algu\u00e9m, exibi a grande not\u00edcia ao meu vizinho de banco \u2013 um italiano velho e gordo, de bigodeira branca e cachimbo \u00e0 boca. O homem custou a entender; mas, ao consegui-lo, bateu-me familiarmente no ombro e exclamou: <em>Molto bene! Benissimo!<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Outras nomea\u00e7\u00f5es se sucederam a essa dentro em pouco: Escola Complementar, Escola Normal Prim\u00e1ria de Pirassununga, Instituto Disciplinar, auxiliar de Diretor Geral do Ensino, etc&#8230; Se somar todas elas at\u00e9 1962, ser\u00e3o talvez umas trinta. Pode-se pensar que eu era um mo\u00e7o bem apadrinhado. Puro engano. N\u00e3o tive parente rico ou influente na pol\u00edtica; e o \u00fanico cargo importante exercido por meu pai foi o de prefeito municipal, isso mesmo num Munic\u00edpio pobre at\u00e9 hoje. N\u00e3o tive protetores, a n\u00e3o ser meus pr\u00f3prios mestres ou diretores, que notaram meu gosto pelo trabalho. Tamb\u00e9m nunca pedi nomea\u00e7\u00f5es para mim, quer diretamente, quer por interposta pessoa. Por vezes nomearam-me \u00e0 minha revelia e v\u00e1rios convites que recebi foram recusados. Digo isso, n\u00e3o por jact\u00e2ncia ou para condenar os que solicitam nomea\u00e7\u00f5es e sim para assinalar aos jovens que, entre os diferentes modos de emprego, existe um que s\u00f3 os espertos (como eu) conhecem: \u00e9 a dedica\u00e7\u00e3o ao trabalho.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Devo, entretanto, para ser rigorosamente exato, abrir uma exce\u00e7\u00e3o. Ensinei Franc\u00eas durante quatro anos (1911-1914) na Escola Normal de Pirassununga, por indica\u00e7\u00e3o de meu professor dessa disciplina, Rui de Paula Sousa. Pirassununga, atualmente uma bela e progressiva cidade da Estrada de Ferro Paulista, era \u00e0quele tempo de grosseira politicagem, o feudo de um grupo retr\u00f3grado e fa\u00e7anhudo, que com frequ\u00eancia se utilizava de capangas para atacar os desafetos. Esse grupo controlava todas as nomea\u00e7\u00f5es para os cargos p\u00fablicos e procurava disciplinar at\u00e9 mesmo as rela\u00e7\u00f5es sociais de servidores como o juiz de direito, o promotor p\u00fablico, o delegado e os professores. Com a inexperi\u00eancia de meus dezoito anos e com o imenso desejo de servir honestamente ao ensino, n\u00e3o tomei em considera\u00e7\u00e3o aquelas condi\u00e7\u00f5es an\u00f4malas e pus-me a trabalhar na Escola Normal sem preocupar-me com os mand\u00f5es da terra. Fui advertido pelos cabos pol\u00edticos; fui amea\u00e7ado; mandaram-me convites para que renunciasse ao cargo. Permaneci surdo a tudo isso e mantive invariavelmente a mesma linha de conduta; consegui desse modo levar ao cansa\u00e7o e ao des\u00e2nimo o mandonismo local. S\u00f3 depois disso, s\u00f3 depois de sentir durante um ano que minha posi\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o estava amea\u00e7ada, foi que decidi remover-me. Tendo sido fundada a Faculdade de Medicina de S\u00e3o Paulo, pareceu-me poss\u00edvel apresentar-me \u00e0s suas provas vestibulares e frequent\u00e1-la, desde que obtivesse uma cadeira prim\u00e1ria, noturna, na Capital. Foi ent\u00e3o que, por interm\u00e9dio de Rui de Paula Sousa, fiz ao deputado representante da zona o primeiro e \u00fanico pedido de minha carreira docente: disse-lhe que me demitiria da Escola Normal se ele me conseguisse uma escola noturna em S\u00e3o Paulo. \u201cAt\u00e9 duas&#8230;\u201d foi a resposta do deputado.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Refiro o epis\u00f3dio de Pirassununga porque julgo que ele muito contribuiu para fortalecer a minha capacidade de resist\u00eancia. \u201cRobusteceu-me o car\u00e1ter\u201d, diriam os psicologistas de nossa Penitenci\u00e1ria. Minha timidez constitucional como que se revestiu desde a\u00ed de uma carapa\u00e7a impenetr\u00e1vel. \u00c9 por isso que considero o quatri\u00eanio de Pirassununga como o \u201cper\u00edodo heroico\u201d de minha vida.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">E outras influ\u00eancias?<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Uma delas, e das melhores, foi a de um est\u00e1gio de seis meses na Europa, em 1913, com demora especial na Cidade-Luz. As economias mi\u00fadas deixadas por minha m\u00e3e, e que meu pai me entregara aos dezoito anos, juntei outras, de Pirassununga. Tudo reunido deu pouco mais de seis contos de r\u00e9is. Pedi seis meses de licen\u00e7a e decidi a viagem. Pre\u00e7o da passagem de ida e volta, pela Mala Real Inglesa, em primeira classe: 820 mil r\u00e9is. Passaporte? N\u00e3o se exigia&#8230; Em Paris fui assessorado pelo Prof. Georges Dumas, que, segundo sua \u201cbonne\u201d, gostava muito dos brasileiros. (Contei-lhe isso vinte anos mais tarde, quando em sess\u00e3o solene, falando em nome do Conselho Universit\u00e1rio Paulista, o saudei ao lhe ser conferido o t\u00edtulo de professor honor\u00e1rio). Indo em viagem direta de Pirassununga a Paris, tomei um verdadeiro banho de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esta modalidade de lavagem cerebral, que me ensejou a abertura de novos horizontes, pesou bastante em meu esp\u00edrito para fazer-me esquecer as turras de Pirassununga. Ou para entend\u00ea-las melhor. E me convenceram da conveni\u00eancia de mudar-me para a Capital, onde poderia tentar o vestibular da Faculdade de Medicina. Foi o que fiz em setembro de 1914.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Desempenhou algum cargo administrativo de seu especial agrado?<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Sim, desempenhei, e se n\u00e3o o tivesse feito, creio que me sentiria infeliz: fui diretor geral do ensino paulista, no governo de Armando de Sales Oliveira. N\u00e3o pedi esse cargo a ningu\u00e9m, nem nunca manifestei a quem quer que fosse o desejo de ocup\u00e1-lo. Mas pressentia que mais cedo ou mais tarde ele me viria \u00e0s m\u00e3os. Quem me convidou e apresentou-me ao Governador foi o prof. Cantidio de Moura Campos, Secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o e meu antigo mestre na Faculdade de Medicina. Exerci com verdadeiro amor a honrosa miss\u00e3o, da qual s\u00f3 me desliguei quando a ditadura de 1937 se instalou fa\u00e7anhuda, na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Tudo quanto pude fazer naquele cargo, em que fui ajudado sobretudo por um excelente estado-maior de delegados regionais de ensino, ficou registrado em dois volumosos Anu\u00e1rios do Ensino que ent\u00e3o publiquei: o de 1935 e o de 1936. Foi essa, sem d\u00favida, a fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica que mais me agradou. E com ela cheguei \u201cao meio do caminho da minha vida\u201d profissional.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Aqui Almeida Jr. encerra sua p\u00e1gina de mem\u00f3rias. N\u00e3o pude resistir \u00e0 ideia de l\u00ea-la, por entender que apresenta, de forma espont\u00e2nea e magn\u00edfica, a rica personalidade deste extraordin\u00e1rio educador. De sua imensa contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 causa da educa\u00e7\u00e3o seriam muitos os aspectos a serem destacados. Para encerrar, gostaria de mencionar, de modo especial, sua magn\u00edfica defesa da escola prim\u00e1ria.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Almeida Jr. foi entusi\u00e1stico e aguerrido defensor da escola prim\u00e1ria, que apontava como elemento de \u201cimport\u00e2ncia primordial\u201d. Seu livro <em>E a Escola Prim\u00e1ria?<\/em>, publicado em 1959, \u00e9 um vigoroso libelo contra o descaso em rela\u00e7\u00e3o a um ensino que \u00e9 b\u00e1sico para a constru\u00e7\u00e3o da nacionalidade. Dizia ele, no pref\u00e1cio:<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Sugiro simplesmente que esse t\u00edtulo \u2013 \u201cE a Escola Prim\u00e1ria?\u201d \u2013 seja lido, n\u00e3o em tom de pergunta vadia, como se o leitor pretendesse satisfazer uma simples curiosidade, mas com a \u00eanfase temperada de irrita\u00e7\u00e3o e censura, de quem indaga reclamando contra grave e demorado esquecimento, capaz de alterar para pior, irremediavelmente, a vida de um homem ou os destinos de uma Na\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao mesmo tempo, pois, em que esclarece a maneira como deve ser interpretada a pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, Almeida Jr. aponta-nos as graves consequ\u00eancias da omiss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a um n\u00edvel de ensino que tem sido a \u201cgata borralheira\u201d da \u201cfam\u00edlia educacional brasileira\u201d (Estou agora reproduzindo express\u00f5es suas \u00e0 p\u00e1gina 33 do livro). E adverte:<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">De que vale, por exemplo, dar \u00e0s Universidades uma organiza\u00e7\u00e3o perfeita, se continua mau no pa\u00eds o ensino prim\u00e1rio? Numa democracia, sem ensino prim\u00e1rio generalizado e eficiente n\u00e3o pode haver ensino m\u00e9dio que valha. Sem este, o ensino superior n\u00e3o alcan\u00e7ar\u00e1 justificar o nome que lhe damos. \u00c9 a li\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia (p. 12-13).<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mais adiante, acrescenta, de forma enf\u00e1tica:<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Cuidemos a s\u00e9rio da escola prim\u00e1ria (p. 177).<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Pois bem, n\u00e3o podemos deixar cair por terra esta bandeira que Almeida Jr. defende de forma t\u00e3o convicta e veemente. Passados trinta anos desde a publica\u00e7\u00e3o de seu livro, se algo mudou foi apenas a nomenclatura pedag\u00f3gica: chamamos de ensino de 1\u00ba grau o que antes se denominava ensino prim\u00e1rio. Quanto ao mais, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma, talvez pior. Nota-se o mesmo descaso, a mesma neglig\u00eancia para com um n\u00edvel de ensino em que se assentam as bases da forma\u00e7\u00e3o de um povo.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Em artigo publicado em abril deste ano (1989) no jornal <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, cham\u00e1vamos a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que nos \u00faltimos anos v\u00eam decrescendo as matr\u00edculas no ensino de 1\u00ba grau. Isto constitui um fato sumamente grave, se levarmos em conta que ainda existem muitos milh\u00f5es de brasileiros fora do ensino fundamental. Esta situa\u00e7\u00e3o exige provid\u00eancias en\u00e9rgicas e imediatas, sob pena de termos agravadas, de forma inconceb\u00edvel e injustific\u00e1vel, as condi\u00e7\u00f5es culturais de nosso pa\u00eds. A queda da matr\u00edcula no ensino de 1\u00ba grau significa, inexoravelmente, o aumento do \u00edndice de analfabetismo nos anos futuros. Corremos o s\u00e9rio risco de chegar ao ano 2000, que j\u00e1 est\u00e1 perto, com uma taxa de analfabetismo maior ainda que a atual, que j\u00e1 nos envergonha. Eventuais campanhas de alfabetiza\u00e7\u00e3o ser\u00e3o t\u00e3o ineficazes quanto as j\u00e1 tentadas no passado. Somente a dissemina\u00e7\u00e3o de escolas de 1\u00ba grau alcan\u00e7ar\u00e1 o efeito duradouro e leg\u00edtimo de que precisamos.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhores, saibamos ouvir Almeida Jr. N\u00e3o sei de melhor homenagem que se lhe possa prestar que a de atentar para sua voz prudente e s\u00e1bia apontando-nos o bom caminho.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Muito obrigado.<\/span><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\"> Audit\u00f3rio do Centro do Professorado Paulista, 21\/11\/89<\/span><\/span><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ACADEMIA PAULISTA DE EDUCA\u00c7\u00c3O\u00a0 Discurso de Posse do Acad\u00eamico Titular\u00a0 JOS\u00c9 AUGUSTO DIAS 21\/11\/1989 Senhor Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o Senhores Acad\u00eamicos Senhoras e Senhores A magnanimidade da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, trazendo-me para desfrutar seu agrad\u00e1vel conv\u00edvio e participar de suas nobres atividades, constitui para mim motivo de desvanecimento e gratid\u00e3o. Desvanecimento, porque vejo aqui reunidas algumas das mais expressivas figuras do magist\u00e9rio paulista, que, merc\u00ea de atua\u00e7\u00e3o fecunda em favor da educa\u00e7\u00e3o, souberam merecer a admira\u00e7\u00e3o e o respeito de todos. Sinto-me tamb\u00e9m agradecido por ter recebido a honra de poder inscrever-me nos quadros da Academia. 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