{"id":133,"date":"2011-02-14T19:06:32","date_gmt":"2011-02-14T21:06:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2011\/02\/14\/discurso-de-posse-do-academico-joao-grandino-rodas\/"},"modified":"2011-02-14T19:06:32","modified_gmt":"2011-02-14T21:06:32","slug":"discurso-de-posse-do-academico-joao-grandino-rodas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/discurso-de-posse-do-academico-joao-grandino-rodas\/","title":{"rendered":"Discurso de Posse do Acad\u00eamico Jo\u00e3o Grandino Rodas."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Discurso de Posse do Acad\u00eamico<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">JO\u00c3O GRANDINO RODAS<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">12\/4\/2010<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Prof. Paulo Nathanael Pereira de Souza, Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Dr. Rui Altenfelder, Presidente da Academia Paulista de Ci\u00eancias Jur\u00eddicas;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Dr. Luiz Gonzaga Bertelli, Presidente da Academia Paulista de Hist\u00f3ria;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Dr. Jos\u00e9 Renato Nalini, Presidente da Academia Paulista de Letras;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Acad\u00eamico Jo\u00e3o Gualberto de Carvalho Meneses, por quem tive a honra de ser indicado para esta Academia e saudado nesta ocasi\u00e3o;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Prof. Jos\u00e9 Augusto Dias, Secret\u00e1rio da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Reitor Fl\u00e1vio Fava de Moraes, Titular da Cadeira n\u00ba 1 da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, na pessoa de quem sa\u00fado os Acad\u00eamicos aqui presentes, na impossibilidade de saud\u00e1-los a todos, um a um;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Prof. Wellington Delitti, Diretor do Instituto de Bioci\u00eancias, em nome de quem reverencio a mem\u00f3ria do Acad\u00eamico Crodowaldo Pavan, meu ilustre antecessor na Cadeira n\u00ba 18 deste sodal\u00edcio;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Reitor Antonio Helio Guerra Vieira, aqui presente,<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Gostaria de saudar a todos os meus in\u00fameros professores aqui presentes, na pessoa do meu mais antigo professor, o Arcebispo D. Antonio Maria Lisboa;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Vice-Reitor Franco Lajolo, em nome de quem cumprimento todos os professores da Universidade de S\u00e3o Paulo aqui presentes;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Vice-Reitora Miriam Krasilchik;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0Membros do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, com quem privamos semanalmente com grande alegria;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0Membros do Conselho de Estudos Avan\u00e7ados da FIESP, em reuni\u00e3o mensal tamb\u00e9m extremamente prazenteira e proveitosa;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Meus familiares e amigos;<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhoras e Senhores.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cInfelizmente, o Brasil ainda n\u00e3o acreditou muito em Educa\u00e7\u00e3o\u201d. Estas palavras foram ditas por Crodowaldo Pavan, ao comentar que no Brasil 60% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda por analfabetos funcionais. Isto \u00e9 uma grande verdade se n\u00f3s olharmos a Hist\u00f3ria desde a Coroa Portuguesa, que fez tudo para impedir que algum tipo de sistema de educa\u00e7\u00e3o surgisse no Brasil, diferentemente do que aconteceu na Am\u00e9rica Espanhola. Isto aconteceu num momento em que o Brasil determinou o que come\u00e7a o sistema educacional brasileiro justamente pelo final, ou seja, estabelecendo Universidade. Isto tudo aconteceu quando, j\u00e1 na Rep\u00fablica, se estabelece o sistema de ensino brasileiro inicialmente extremamente fechado e para a elite; e finalmente acontece hoje, nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, quando o ensino fundamental e m\u00e9dio foi universalizado, mas na pr\u00e1tica nada restou de efetivo. Portanto tinha bastante raz\u00e3o de dizer numa forma coloquial o Prof. Crodowaldo que \u201cInfelizmente o Brasil ainda n\u00e3o acreditou muito em Educa\u00e7\u00e3o\u201d. Foi bondoso ao colocar o \u201cmuito\u201d, desta forma para minimizar essa circunst\u00e2ncia. Contudo aqui estamos para reverenciar tr\u00eas personalidades que s\u00e3o a raz\u00e3o de estarmos aqui, com toda a dificuldade da vida corrida de S\u00e3o Paulo, do tr\u00e2nsito de S\u00e3o Paulo, de todos os senhores e senhoras, que conheci a todos, que precisaram roubar um pouco do seu tempo para poder aqui chegar. Em primeiro lugar, Jos\u00e9 de Anchieta, que viveu no s\u00e9culo XVI, por parcos 63 anos, e Monteiro Lobato, que foi em expoente da primeira metade do s\u00e9culo passado, tendo vivido tamb\u00e9m, para os tempos atuais, simplesmente 63 anos. E finalmente um expoente da segunda metade do s\u00e9culo passado, o Prof. Crodowaldo Pavan, que alcan\u00e7ou os seus 89 anos. Todos n\u00f3s j\u00e1 ouvimos falar em Jos\u00e9 de Anchieta, aquele espanhol de origem basca, nascido em Tenerife, e que aos 14 anos vai a Coimbra para estudar no Col\u00e9gio Geral da Universidade; a partir da\u00ed se encanta com a doutrina jesu\u00edta e se transforma em novi\u00e7o e aos dezenove anos chegava a S\u00e3o Paulo, com o Segundo Governador Geral e sobe, depois de conhecer o Padre Manoel da N\u00f3brega, \u00e0 terra para chegar at\u00e9 este local que nada mais era ent\u00e3o do que o planalto conhecido pelos \u00edndios como Piratininga e que desta forma estava \u00e0 margem do Tiet\u00ea. Podemos perceber, portanto, que esta figura juvenil e ainda com problema grave conhecido ent\u00e3o como \u201cespinhela ca\u00edda\u201d, no entanto, realmente, este \u00e9 a meu ver um dos maiores her\u00f3is brasileiros. Aqui ele funda juntamente com o Padre Manoel a primeira escola, naquele povoado de S\u00e3o Paulo, que possu\u00eda naquela \u00e9poca somente 130 habitantes. E, se n\u00f3s, de certa forma, olharmos a vida daquele que se espraia n\u00e3o s\u00f3 em S\u00e3o Paulo, mas que posteriormente foi provincial dos jesu\u00edtas no Brasil e que acaba morrendo no Estado do Esp\u00edrito Santo e que muito embora estrangeiro, foi um grande her\u00f3i nacionalista? Se n\u00f3s lembrarmos de que aqui n\u00e3o estamos para fazer uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o aspecto religioso de Jos\u00e9 de Anchieta, mas aquele que foi o ap\u00f3stolo do Brasil, ele foi realmente multif\u00e1rio nas suas andan\u00e7as e nas suas realiza\u00e7\u00f5es? Foi professor, fundador do Col\u00e9gio de S\u00e3o Paulo, de que chegou a ser diretor. Foi poeta: todos n\u00f3s sabemos que com ele as manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias no Brasil foram as primeiras a acontecer e ainda versejando \u00e0 guisa dos versos medievais e escreveu muitos: e o mais famoso foi justamente o \u201cPoema \u00e0 Virgem\u201d, que \u00e9 retratado nesta medalha em que ele est\u00e1 escrevendo conforme diz a Hist\u00f3ria e tamb\u00e9m a lenda, nas areias de Iperoig, mais de 4.000, pra ser mais preciso, 4.127 versos. Al\u00e9m de poeta, ele foi teatr\u00f3logo; bastante conhecida a vertente de teatro do Padre Anchieta, ele seguia Gil Vicente naquele seu teatro saboroso de estile medieval; foi \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 gram\u00e1tico: comp\u00f4s a primeira gram\u00e1tica da l\u00edngua tupi e, de certa forma, al\u00e9m disso foi tamb\u00e9m escritor e historiador; de certa maneira, a certid\u00e3o de nascimento do Rio de Janeiro foi escrita por ele justamente naquela obra dos gloriosos tempos de Mem de S\u00e1,que morreu com ele, no seu colo e que de certa forma teve nele um grande aliado para lutar contra a Fran\u00e7a na Ba\u00eda da Guanabara; foi diplomata, quem de n\u00f3s n\u00e3o lembra dos tempos de estudos prim\u00e1rio e secund\u00e1rio, quando se dizia que a confedera\u00e7\u00e3o dos tamoios foi resolvida gra\u00e7as \u00e0 intermedia\u00e7\u00e3o justamente de Anchieta? Portanto nada mais l\u00f3gico que esta Academia que hoje faz quarenta anos ter como seu patrono maior justamente o Padre Jos\u00e9 de Anchieta que tem uma dimens\u00e3o incr\u00edvel muito al\u00e9m daquilo que se poderia esperar de uma pessoa das condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que ele possu\u00eda. E nada mais certo, portanto, que ternos aqui presentemente nesta medalha em que consta justamente uma frase em que se diz: \u201csapientiam praestans parvulis\u201d, ou seja, de uma forma mais lata, \u201ca sabedoria est\u00e1 colocada, est\u00e1 estendida aos pequenos\u201d, pequenos em todo o sentido, n\u00e3o s\u00f3 as crian\u00e7as, mas aqueles que est\u00e3o \u00e1vidos de crescer com o saber. Al\u00e9m dessa personalidade que infelizmente n\u00e3o \u00e9 reconhecida no Brasil, como deveria ser pela sua grandeza, nem teve sequer o mesmo reconhecimento at\u00e9 no seio da pr\u00f3pria Igreja para a qual ele tanto trabalhou, justamente porque, sendo reconhecido, ainda n\u00e3o ultrapassou o limite da beatitude, que j\u00e1 \u00e9 um limite alto, mas certamente se algu\u00e9m que na idade dele por hero\u00edsmo vai a uma outra terra e vive da forma como ele viveu, j\u00e1 era her\u00f3ico em vida e logo depois que morreu v\u00e1rias foram as bibliografias em que se exaltavam todas essas grandezas. Se uma pessoa como essa n\u00e3o \u00e9 santo, n\u00e3o sei quem que \u00e9. Mas passemos para Monteiro Lobato. Monteiro Lobato que teve sua inf\u00e2ncia rural em Taubat\u00e9, na Fazenda Boquira, de seu av\u00f4 materno, o Visconde de Trememb\u00e9, onde gra\u00e7as \u00e0 biblioteca enorme que seu av\u00f4 possu\u00eda, ele p\u00f4de, assim que conseguiu ler, passar a caminhar em todos os lugares do mundo a que permitiam os livros de seu av\u00f4, e justamente por isso e se n\u00e3o fosse talvez aquela biblioteca colocada naquela fazenda, n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos Monteiro Lobato, que ainda mo\u00e7o veio estudar naquilo que n\u00f3s poder\u00edamos chamar Proto-Universidade de S\u00e3o Paulo, que era a Faculdade de Direito do Largo de S\u00e3o Francisco, para a qual se dirigiam todos, mesmo aqueles que desejariam ser literatos, justamente porque era o \u00fanico lugar em que isto poderia ser feito. Monteiro lobato, que ao entrar funda a Arcada Acad\u00eamica juntamente com os seus colegas e no discurso de posse na Arcada Acad\u00eamica, ele nos d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o incr\u00edvel \u2013 ele fala, o t\u00edtulo \u00e9 \u201cSobre o ontem e sobre o hoje\u201d. Se n\u00f3s examinarmos esse discurso, n\u00f3s vamos perceber que naquela \u00e9poca, portanto no come\u00e7o desse s\u00e9culo, uma vez que ele entrou em 1904, ele j\u00e1 percebia bem a diferen\u00e7a que a tradi\u00e7\u00e3o da escola, que era o ontem e o hoje, deveria retratar a tradi\u00e7\u00e3o, mas que deveria estar com os olhos postos no futuro, tanto que, saindo da escola ele se transforma em Promotor de Justi\u00e7a. E poucos anos depois herdando naquela biblioteca da fazenda de seu av\u00f4 materno ele passa a fazendeiro e come\u00e7a a escrever e foi extremamente positivo, pois, se n\u00f3s n\u00e3o tiv\u00e9ssemos esse grande Monteiro Lobato certamente S\u00e3o Paulo e o Brasil teriam sido mais pobres. Vamos lembrar alguma coisa; como ele foi um contista, metade da sua obra, que \u00e9 bastante larga, foi ocupada por livros infantis, onde ele cria personagens ligados \u00e0 hist\u00f3ria brasileira, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica brasileira, mas ao mesmo tempo miscigenados com her\u00f3i de cinema, com her\u00f3i de quadrinhos, com her\u00f3i da literatura universal. Ele foi inclusive pioneiro da literatura paradid\u00e1tica. Ele procurava ensinar, de forma divertida, a Matem\u00e1tica, a Hist\u00f3ria, a Geografia e, al\u00e9m disso, ele foi um grande tradutor. S\u00f3 para citar uma obra, lembrar\u00edamos o Livro da Selva, de Kipling, que ele traduziu em 1933. Editor &#8211; quem n\u00e3o sabe que foi aquele que acreditou no livro publicado no Brasil. Enquanto os livros brasileiros eram publicados em Lisboa e em Paris, ele inicia a sua Companhia, de publica\u00e7\u00e3o Monteiro Lobato e Cia., depois justamente a grande Companhia editora Nacional em, que, n\u00e3o s\u00f3 publicava, mas teve uma nova vis\u00e3o: como apresentar o livro no cuidado gr\u00e1fico, como o livro did\u00e1tico deveria ser apresentado \u00e0s crian\u00e7as uma vez que, al\u00e9m de tudo ele era um grande caricaturista e fazia as pr\u00f3prias ilustra\u00e7\u00f5es de seus livros. Mas n\u00e3o ficou a\u00ed. Ele foi jornalista, fundador da Uni\u00e3o Jornal\u00edstica Brasileira. Foi empres\u00e1rio e talvez tenha sido a\u00ed o local onde ele n\u00e3o foi t\u00e3o bem sucedido. Todos sabem, ou relembram, que ele tentou explorar com alguns amigos, justamente de forma comercial o Viaduto do Ch\u00e1, que cobrava ped\u00e1gio naquela hora para pagar a sua constru\u00e7\u00e3o, mas muito mais, por incr\u00edvel que soe, tenho certeza tenha sido a Companhia de Petr\u00f3leo Brasileiro. Interessante, pois ele dizia textualmente: \u201cEra preciso explorar o petr\u00f3leo nacional para dar ao povo um padr\u00e3o \u00e0 altura de suas necessidades\u201d. Quando n\u00f3s falamos no pr\u00e9-sal em todas as discuss\u00f5es que tem havido, das mais certas \u00e0s mais erradas, no fundo est\u00e1 aquela ideia de que o petr\u00f3leo poderia de certa forma fazer com que o Brasil, agora com quase duzentos milh\u00f5es de habitantes, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pudesse alcan\u00e7ar, como que por milagre, o destaque dos mais importantes em v\u00e1rios aspectos econ\u00f4micos. Foi um diplomata, tendo sido, a partir de 1927, Adido Comercial nos Estados Unidos da Am\u00e9rica. Mas, mais que tudo, foi nacionalista. \u201cO esc\u00e2ndalo do petr\u00f3leo\u201d, de 1933: o livro que incendiou de certa forma o pa\u00eds, ent\u00e3o, em que se discutia, em termos muito diversos n\u00e3o se pode hoje usar a teoria de Monteiro Lobato; no mundo atual ela \u00e9 bastante discutida, mas ele advogava que o petr\u00f3leo deveria ser explorado somente por empresas brasileiras. E finalmente foi pol\u00edtico, pol\u00edtico com grande proximidade da pol\u00edtica velha e ao mesmo tempo com ojeriza a Get\u00falio Vargas, o que lhe custou grandes dissabores. N\u00f3s percebemos, fazendo uma pequena compara\u00e7\u00e3o entre Anchieta e Monteiro Lobato, que h\u00e1 encontros e contrastes, que s\u00e3o pessoas extremamente v\u00e1lidas, pessoas extremamente dotadas da vis\u00e3o social do Brasil e pessoas que se engajam em v\u00e1rios aspectos para fazer com a sua passagem pela terra possa ser justificada. Mas chegamos agora ao terceiro trip\u00e9 que nos garante esta noite: Crodowaldo Pavan. Aqui temos uma figura diferente. Enquanto Anchieta era descendente da nobiliarquia basca, enquanto Lobato era bisneto da nobiliarquia cabocla brasileira que criou o Segundo Imp\u00e9rio, Crodowaldo Pavan era um neto de imigrantes. Ele chega aqui pensando justamente em fazer Engenharia para poder tocar a f\u00e1brica de cer\u00e2mica de sua fam\u00edlia no interior de S\u00e3o Paulo, mas, assistindo um filme sobre Louis Pasteur, ele passou a se encantar pela Gen\u00e9tica e entra, em 1938, no curso de Hist\u00f3ria Natural na Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras ent\u00e3o nascente, uma faculdade inteiramente nova. Ele come\u00e7a sendo nada mais nada menos que assistente do Prof. Andr\u00e9 Dreyfus, que havia introduzido por assim dizer a Gen\u00e9tica no Brasil e, tendo tido sua carreira docente n\u00e3o s\u00f3 na USP, como na Universidade do Texas, em Austin, por v\u00e1rios anos e na UNICAMP, voltando posteriormente para g\u00e1udio de todos \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo. Foi geneticista e bio tecn\u00f3logo, pioneiro e precursor da Gen\u00e9tica no Brasil que como ci\u00eancia come\u00e7ara no S\u00e9culo XX. Para minorar a fome no mundo, com a qual ele j\u00e1 se preocupava, ele imaginou condi\u00e7\u00f5es para o aumento da quantidade e da qualidade dos alimentos que deviam ser defendidas e para isso acreditava no transg\u00eanico como uma solu\u00e7\u00e3o. Ecologista, ao mesmo tempo \u2013 pode parecer algo antin\u00f4mico ser pr\u00f3 alimentos transg\u00eanicos e ao mesmo tempo ecologista \u2013 mas ele, com conhecimento de causa, o era; e na Ecologia analisou justamente a influ\u00eancia dos fatores ambientais na muta\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. Mas foi como pesquisador que ele se sobressaiu. Os resultados das pesquisas que ele nunca paralisou foram veiculados em mais de cem artigos nas mais prestigiosas sociedades do organismo cient\u00edfico. Notabilizou-se tamb\u00e9m como diretor. Creio que n\u00e3o h\u00e1 quem possa ombrear-se a ele neste t\u00f3pico: ele foi diretor de importantes sociedades cient\u00edficas, tendo sido Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia \u2013 SBPC, Presidente do Conselho Nacional do Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico CNPq, e Presidente da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa, a FAPESP. Nada mais \u00e9 necess\u00e1rio para comprovar a import\u00e2ncia de Crodowaldo Pavan. Um aspecto que eu gostaria de lembrar afinal, ele tamb\u00e9m acreditou, como todos n\u00f3s acreditamos, que est\u00e1vamos na USP na d\u00e9cada de 70, na necessidade de uma associa\u00e7\u00e3o que unisse os professores; e todos n\u00f3s ainda continuamos acreditando obviamente, e foi justamente Crodowaldo Pavan o diretor da diretoria provis\u00f3ria da ADUSP, em 75 e 76. Percebemos, portanto, que estas tr\u00eas personalidades que hoje nos trazem aqui, t\u00eam, al\u00e9m de suas diferen\u00e7as, enormes parecen\u00e7as \u2013 e \u00e9 important\u00edssimo que isto ocorra, porque o Brasil, hoje principalmente, precisa muito de her\u00f3is. A educa\u00e7\u00e3o, mais ainda precisa de her\u00f3is, porque justamente sem eles, certamente n\u00f3s todos poderemos ouvir muitas vezes aquelas vozes muito bonitas, mas que no fundo nada mais s\u00e3o do que as vozes das sereias dos mares gregos. Diria, j\u00e1 encaminhando para terminar, da minha satisfa\u00e7\u00e3o de poder participar deste sodal\u00edcio t\u00e3o importante. Eu poderia dizer que j\u00e1 participava dele h\u00e1 muito tempo, uma vez que, se n\u00f3s olharmos os membros fundadores e principalmente se olharmos o seu passado e membros atuais, eu encontro a\u00ed exemplos de professores e muitos colegas est\u00e3o a\u00ed e especialmente a pessoa extremamente querida do Prof. Jo\u00e3o Gualberto Meneses, que foi meu professor justamente de Administra\u00e7\u00e3o Escolar na Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras, ao tempo ainda do Departamento de Educa\u00e7\u00e3o da Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras. Outro professor, que aqui me entregou o diploma, o Prof. Samuel Pfromm Neto, foi meu professor, e \u00e9 uma pena que eu n\u00e3o possa dizer todos aqueles que o foram, porque sen\u00e3o, certamente ter\u00edamos aqui na plat\u00e9ia pelo menos uma dezena de pessoas que estavam na Faculdade de Direito e na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o daquela \u00e9poca e que havia uma diferen\u00e7a fundamental, que para mim foi extremamente importante ter cursado estes dois cursos de Direito e de Pedagogia ao mesmo tempo, porque pude ver a diferen\u00e7a absoluta entre os dois. Para real\u00e7ar aquilo que estamos hoje comemorando, o ambiente familiar que \u00e9 a Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, mesmo antes de sua funda\u00e7\u00e3o ainda ao tempo da Faculdade de Filosofia. Realmente era algo extremamente prazenteiro, muito embora o curso noturno, que ia at\u00e9 \u00e0s onze e meia da noite, pudesse parecer o contr\u00e1rio. Portanto, eu diria o seguinte: realmente o meu sentimento \u00e9 n\u00e3o estar chegando agora. Cheguei h\u00e1 tempo, em 1976. O que eu gostaria neste momento seria dizer: muito embora como todos viram n\u00e3o dou valor a diploma, pelo diploma, mas, aspas: \u201co diploma nada mais \u00e9 do que um atestado que a pessoa precisa comprovar\u201d, muito mais neste Brasil de hoje, onde n\u00f3s temos diplomas em profus\u00e3o e que dever\u00edamos dar a maior seriedade \u00e0 entrega que se faz dele, para o bem, em primeiro lugar, da pr\u00f3pria pessoa que recebe. Entretanto, eu n\u00e3o poderia deixar de falar aqui, muito embora uma grande parte da minha vida tenha sido dedicada ao ensino superior, lembrar o seguinte: esta Academia, nos seus Estatutos, tem por obriga\u00e7\u00e3o discutir, tem por obriga\u00e7\u00e3o lembrar aos Poderes P\u00fablicos tudo aquilo que precisa ser feito pela educa\u00e7\u00e3o. E voltemos inicialmente \u00e0quilo que foi o motor inicial de nossa conversa: o Brasil ainda n\u00e3o acreditou muito na educa\u00e7\u00e3o. Eu diria o seguinte, n\u00e3o propugnaria aqui <strong>nada<\/strong> com refer\u00eancia ao ensino superior. Por qu\u00ea? Porque justamente considero que atualmente no Brasil onde n\u00f3s temos 25% do ensino superior dado em universidades p\u00fablicas e 75% em universidades privadas. Temos extremas car\u00eancias e \u00e9 nessas car\u00eancias que precisamos iniciar algo que ainda n\u00e3o se iniciou. Aquilo dito por Crodowaldo Pavan.<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discurso de Posse do Acad\u00eamico \u00a0 JO\u00c3O GRANDINO RODAS 12\/4\/2010 \u00a0 \u00a0 Prof. Paulo Nathanael Pereira de Souza, Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o; Dr. Rui Altenfelder, Presidente da Academia Paulista de Ci\u00eancias Jur\u00eddicas; Dr. Luiz Gonzaga Bertelli, Presidente da Academia Paulista de Hist\u00f3ria; Dr. Jos\u00e9 Renato Nalini, Presidente da Academia Paulista de Letras; Acad\u00eamico Jo\u00e3o Gualberto de Carvalho Meneses, por quem tive a honra de ser indicado para esta Academia e saudado nesta ocasi\u00e3o; Prof. Jos\u00e9 Augusto Dias, Secret\u00e1rio da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o; Reitor Fl\u00e1vio Fava de Moraes, Titular da Cadeira n\u00ba 1 da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-133","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-discursos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=133"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}