{"id":135,"date":"2011-02-18T16:40:28","date_gmt":"2011-02-18T18:40:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2011\/02\/18\/uma-meta-para-o-proximo-presidente-todo-aluno-sai-da-escola-alfabetizado\/"},"modified":"2011-02-18T16:40:28","modified_gmt":"2011-02-18T18:40:28","slug":"uma-meta-para-o-proximo-presidente-todo-aluno-sai-da-escola-alfabetizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/uma-meta-para-o-proximo-presidente-todo-aluno-sai-da-escola-alfabetizado\/","title":{"rendered":"Uma meta para o pr\u00f3ximo presidente: todo aluno sai da escola alfabetizado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">T\u00edtulo <\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Uma meta para o pr\u00f3ximo presidente: todo aluno sai da escola alfabetizado<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Fonte:\u00a0Gustavo Ioschpe \u2013 revista Veja.<br \/><\/span><\/span> <\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">8\u00a0 DE SETEMBRO DE 2010<\/span><\/span><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esta elei\u00e7\u00e3o para presidente trouxe de volta algo que n\u00e3o se via desde o tempo da Rep\u00fablica do Caf\u00e9 com Leite. Pela primeira vez depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma quest\u00e3o candente que divida os candidatos. Essa modorra d\u00e1 a impress\u00e3o de que as quest\u00f5es estruturais do Brasil j\u00e1 est\u00e3o resolvidas, ou pelo menos encaminhadas, e transforma o debate sobre os rumos da na\u00e7\u00e3o em uma conversa que se assemelha a uma escolha de gerente de banco. Cada um quer mostrar que administra melhor ou que \u00e9 o mais adequado para manter o que est\u00e1 dando certo.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A percep\u00e7\u00e3o de que agora basta gerenciar \u00e9 ilus\u00f3ria. A maioria dos brasileiros ainda n\u00e3o se deu conta, mas estamos em guerra, e uma guerra total em pelo menos uma frente, a da deseduca\u00e7\u00e3o. Mesmo que mantenhamos a infla\u00e7\u00e3o sob controle e o super\u00e1vit prim\u00e1rio: mesmo que resolvamos todos os gargalos de infraestutura e que tomemos a tributa\u00e7\u00e3o mais racional; mesmo que acabemos com a corrup\u00e7\u00e3o, os problemas na sa\u00fade p\u00fablica e a viol\u00eancia urbana; ainda assim n\u00e3o nos tornaremos um pa\u00eds de Primeiro Mundo se continuarmos formando t\u00e3o poucos jovens e com qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e3o baixa.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Grosso modo, s\u00f3 h\u00e1 duas maneiras de fazer uma economia crescer. A primeira \u00e9 aumentar os fatores de produ\u00e7\u00e3o (trabalho e capital). A segunda \u00e9 aumentar a produtividade. A longo prazo, s\u00f3 a segunda \u00e9 sustent\u00e1vel. Sempre \u00e9 poss\u00edvel colocar mais gente no mercado, trabalhando mais horas, e mobilizar mais capital, mas essas alternativas t\u00eam um limite, que \u00e9 a finitude dos fatores. Para super\u00e1-lo, \u00e9 preciso ser mais produtivo, alcan\u00e7ar um resultado maior com os mesmos insumos. O caminho para o aumento sustentado de produtividade \u00e9 um s\u00f3, a educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nesse quesito, estamos falhando barbaramente. Os dados s\u00e3o ruins em todos os n\u00edveis. Na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, \u00e1rea respons\u00e1vel pela gera\u00e7\u00e3o da pesquisa que leva \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de bens de alto valor agregado, temos apenas 58.000 pessoas fazendo doutorado em todo o pa\u00eds _ e 31.000 destas concentradas em apenas dois estados (SP e RJ). Segundo os \u00faltimos dados da Unesco, no Brasil h\u00e1 213.000 pessoas envolvidas em pesquisa. A China tem 1,5 milh\u00e3o, no Jap\u00e3o s\u00e3o 935.000 e na R\u00fassia, 916.000. Para piorar, ainda que o volume de pesquisa venha crescendo, ela tem na maioria das vezes um interesse meramente acad\u00eamico, com pouca ou nenhuma relev\u00e2ncia para o mundo real, o n\u00edvel de gradua\u00e7\u00e3o, a taxa de matr\u00edcula no Brasil anda em tomo dos 20%, enquanto mesmo pa\u00edses subdesenvolvidos como Peru, Chile e Venezuela t\u00eam o dobro disso. Os pa\u00edses desenvolvidos est\u00e3o na casa do 60%, 70%, superados apenas por Coreia do Sul e Finl\u00e2ndia, ambos pr\u00f3ximos dos 100%.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O setor universit\u00e1rio brasileiro \u00e9 t\u00e3o mirrado. em parte, porque formamos muito pouca gente no ensino m\u00e9dio. \u00c9 um n\u00edvel de ensino arcaico, academicista, que entope o aluno com um curr\u00edculo muito extenso e ensina pouco. E o faz dentro de um \u00fanico modelo, sem dar ao estudante a op\u00e7\u00e3o de um curso de vi\u00e9s t\u00e9cnico ou profissionalizante.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Hoje o ensino m\u00e9dio nos pa\u00edses desenvolvidos prepara para a vida, n\u00e3o apenas para a universidade. No Brasil, n\u00e3o se faz uma coisa nem outra. A qualidade do ensino \u00e9 sofr\u00edvel. No teste Pisa, que analisa o aprendizado de alunos de 15 anos de idade em 57 pa\u00edses, o Brasil ficou em 54\u00b0 em matem\u00e1tica, 52\u00b0 em ci\u00eancias e 49\u00b0 em linguagem. O ensino m\u00e9dio \u00e9 limitado porque, al\u00e9m da sua rigidez e arca\u00edsmo conceituais, poucos estudantes chegam at\u00e9 ele, oriundos do ensino fundamental. A baixa qualidade do nosso ensino faz com que os alunos repitam o ano m\u00faltiplas vezes, at\u00e9 que desistam e abandonem a escola.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">J\u00e1 nos \u00faltimos quatro anos do fundamental, em que os alunos deveriam ter entre 11 e 14 anos de idade, um em cada quatro tem 15 anos ou mais. Esse \u00e9 um contingente de incr\u00edveis 3,6 milh\u00f5es de pessoas.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esse problema n\u00e3o come\u00e7a nos anos derradeiros da escolariza\u00e7\u00e3o, mas vem desde o seu in\u00edcio. Temos a\u00ed o dado que \u00e9 o mais cabal indiciamento das nossas possibilidades de sonhar com a constru\u00e7\u00e3o de uma Roma tropical: as pesquisas que medem o grau de alfabetiza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o mostram que s\u00f3 um em cada quatro brasileiros \u00e9 plenamente alfabetizado. Setenta e cinco por cento da nossa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiria entender uma mat\u00e9ria desta revista. N\u00e3o pense que isso \u00e9 apenas rescaldo de tempos passados, que se trata de gente idosa que n\u00e3o foi \u00e0 escola. N\u00e3o. At\u00e9 hoje a maioria das escolas brasileiras n\u00e3o consegue ter \u00eaxito na tarefa de alfabetizar seus alunos nos dois primeiros anos de estudo. Os dados do Saeb do ano passado mostram que quase sete em cada dez alunos n\u00e3o alcan\u00e7am o n\u00edvel de conhecimento de portugu\u00eas considerado ideal pelo Compromisso Todos pela Educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um susto, n\u00e3o? Pois, agora, sente-se. O mesmo estudo revela que 25% dos alunos da 4\u00aa s\u00e9rie s\u00e3o basicamente analfabetos (depois de quatro anos de escola!).<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O insucesso na alfabetiza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, em pleno ano de 2010, n\u00e3o \u00e9 apenas um dificultador do desenvolvimento. \u00c9 uma verdadeira chaga coletiva, uma vergonha nacional. A &#8220;tecnologia&#8221; da alfabetiza\u00e7\u00e3o em massa para crian\u00e7as j\u00e1 foi dominada por alguns pa\u00edses em desenvolvimento. H\u00e1 100 anos esse passo foi dado na Argentina e no Uruguai _ e, em muitos pa\u00edses desenvolvidos, h\u00e1 200 anos. Se a medicina brasileira estivesse no mesmo n\u00edvel de desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o, ainda operar\u00edamos sem anestesia e usar\u00edamos sanguessugas. Se fosse na nossa ind\u00fastria automotiva, estar\u00edamos na etapa do motor a vapor.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o incompreens\u00edvel, e totalmente inaceit\u00e1vel. O que mais desafia a compreens\u00e3o \u00e9 que j\u00e1 existem, no Brasil, dezenas de escolas e professores, mesmo em regi\u00f5es paup\u00e9rrimas, que alfabetizam 100% de seus alunos na 1\u00aa s\u00e9rie. H\u00e1 ONGs que atacam o problema com altas taxas de sucesso. Portanto, existem solu\u00e7\u00f5es aqui mesmo. Elas s\u00e3o perfeitamente replic\u00e1veis, a baixo custo.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Uma das trag\u00e9dias do subdesenvolvimento, ainda mais em um pa\u00eds democr\u00e1tico. \u00e9 que as demandas populares s\u00e3o sempre maiores do que a capacidade do pa\u00eds de atender a elas. Isso gera uma tenta\u00e7\u00e3o para que as lideran\u00e7as pol\u00edticas abdiquem de uma de suas fun\u00e7\u00f5es cardinais, que \u00e9 escolher prioridades. O excesso de problemas da nossa educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um convite ao populismo: qualquer l\u00edder que n\u00e3o ataque simultaneamente todos os problemas educacionais corre o risco de ser tachado de desalmado ou elitista. E a\u00ed seguimos em uma rotina em que se faz de tudo um pouco, menos o essencial. Porque o essencial, que \u00e9 fazer com que os alunos aprendam e assim saiam da escola preparados para o mundo, requer altera\u00e7\u00f5es radicais, que provocam protestos das corpora\u00e7\u00f5es do ensino. Podemos tocar o barco assim por certo tempo, mas algum dia, mais cedo do que tarde, o crescimento do Brasil ser\u00e1 interrompido pela falta de gente qualificada. Quando notarmos, ser\u00e1 tarde. Teremos perdido mais uma gera\u00e7\u00e3o. Ou podemos reconhecer que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea priorit\u00e1ria para qualquer pa\u00eds, e que nela o Brasil vai muito mal.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O presidente americano John Kennedy (1917-1963) prometeu colocar um homem na Lua e traz\u00ea-lo de volta a salvo. O estadista ingl\u00eas Winston Churchill (1874-1965) urrou como um le\u00e3o que seu pa\u00eds nunca se renderia aos agressores nazistas.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Nelson Mandela tra\u00e7ou como objetivo de vida de ter uma \u00c1frica do Sul sem a odiosa mancha do racismo. As vis\u00f5es grandiosas desses l\u00edderes tornaram-se tamb\u00e9m as de seus povos. Que n\u00e3o seja apenas um sonho termos um dia um l\u00edder brasileiro que assuma o seguinte compromisso: &#8220;Ao fim do meu mandato, nenhuma crian\u00e7a sair\u00e1 do 2\u00b0 ano da escola sem saber ler e escrever&#8221;. Tenho confian\u00e7a de que essa \u00e9 uma vis\u00e3o capaz de mobilizar a sociedade brasileira. A alfabetiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente para o nosso desenvolvimento, mas \u00e9 necess\u00e1ria. Indispens\u00e1vel. E, com ela, boa parte dos demais problemas &#8211; n\u00e3o s\u00f3 da educa\u00e7\u00e3o, mas da infraestrutura, da sa\u00fade e de quase todas as \u00e1reas &#8211; j\u00e1 come\u00e7aria a se resolver. Depois da primeira vit\u00f3ria militar inglesa contra tropas nazistas na batalha de EI Alamein, no norte da \u00c1frica, em 1942, Churchill resumiu brilhantemente o est\u00e1gio da luta contra Hitler:<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">&#8220;N\u00e3o \u00e9 o fim. N\u00e3o \u00e9 nem o come\u00e7o do fim. Mas talvez seja o fim do come\u00e7o&#8221;.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">No Brasil do s\u00e9culo XXI, a alfabetiza\u00e7\u00e3o pode ser o primeiro e decisivo passo na constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que encontra o futuro e se reconcilia com a hist\u00f3ria.<\/span><\/span><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00edtulo Uma meta para o pr\u00f3ximo presidente: todo aluno sai da escola alfabetizado Fonte:\u00a0Gustavo Ioschpe \u2013 revista Veja. 8\u00a0 DE SETEMBRO DE 2010 Esta elei\u00e7\u00e3o para presidente trouxe de volta algo que n\u00e3o se via desde o tempo da Rep\u00fablica do Caf\u00e9 com Leite. Pela primeira vez depois da redemocratiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma quest\u00e3o candente que divida os candidatos. Essa modorra d\u00e1 a impress\u00e3o de que as quest\u00f5es estruturais do Brasil j\u00e1 est\u00e3o resolvidas, ou pelo menos encaminhadas, e transforma o debate sobre os rumos da na\u00e7\u00e3o em uma conversa que se assemelha a uma escolha de gerente de banco. 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