{"id":177,"date":"2011-05-13T19:51:08","date_gmt":"2011-05-13T22:51:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2011\/05\/13\/raizes-da-crise-educacional-brasileira\/"},"modified":"2011-05-13T19:51:08","modified_gmt":"2011-05-13T22:51:08","slug":"raizes-da-crise-educacional-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/raizes-da-crise-educacional-brasileira\/","title":{"rendered":"Ra\u00edzes da Crise Educacional Brasileira"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Ra\u00edzes da Crise Educacional Brasileira<\/span><\/p>\n<p>Paulo Nathanael Pereira de Souza,<\/p>\n<p>Conselheiro da Fecom\u00e9rcio e Doutor em Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0I \u2013<span style=\"text-decoration: underline;\"> Proleg\u00f4menos<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como de praxe, seja-me permitido agradecer inicialmente a este qualificadissimo conselho, na pessoa do Isaac, seu coordenador, pela oportunidade que me foi dada de falar sobre este tema, de grande atualidade, e com o qual convivo h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas. Dentre os muitos e complexos problemas com que se debate hoje o Brasil para viabilizar sua moderniza\u00e7\u00e3o e concretizar seus dois maiores objetivos nacionais, a saber: o desenvolvimento socioecon\u00f4mico e a consolida\u00e7\u00e3o da democracia, ressalta o da educa\u00e7\u00e3o do povo, eis que o caminho de acesso ao primeiro mundo passa necessariamente pela escolariza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o como um todo. Foi assim no passado e \u00e9 cada vez mais, assim, no presente.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dadas \u00e0s for\u00e7osas limita\u00e7\u00f5es de tempo e mais a amplitude quase ilimitada do assunto, alerto preliminarmente para o fato de haver decidido centrar minhas observa\u00e7\u00f5es, de prefer\u00eancia, nos problemas de maior gravidade do chamado ensino b\u00e1sico, deixando o superior para outra oportunidade, bem como para o cuidado de n\u00e3o ultrapassar as lindes do ensino formal, aquele que conforma o sistema educacional do pa\u00eds. N\u00e3o que o ensino superior n\u00e3o arroste com sua cota de graves problemas; f\u00e1-lo, e com grande preju\u00edzo para a na\u00e7\u00e3o, mas, como acredito que, pelo menos a metade desses problemas advenha dos fracassos do ensino b\u00e1sico; corrigidos estes, aquele dever\u00e1 ter consider\u00e1vel al\u00edvio no seu desempenho. Outrossim, deixo de abordar a chamada educa\u00e7\u00e3o permanente, n\u00e3o porque dela n\u00e3o goste, mas sim, porque seus encantos e sua atual import\u00e2ncia no processo educativo s\u00e3o de tal significa\u00e7\u00e3o, que merece ela toda uma confer\u00eancia sobre suas caracter\u00edsticas e suas manifesta\u00e7\u00f5es, o que tamb\u00e9m deve ficar para uma pr\u00f3xima vez. Isto posto vamos ao tema que me foi encomendado, a saber: proceder a uma reflex\u00e3o sobre as ra\u00edzes da crise, que faz hoje da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica brasileira, uma empreitada praticamente falida come\u00e7arei pelas:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>II \u2013<span style=\"text-decoration: underline;\"> Li\u00e7\u00f5es do passado<\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ao contr\u00e1rio do que se viu na coloniza\u00e7\u00e3o inglesa da Am\u00e9rica do Norte, onde se desenvolveu nas in\u00f3spitas terras do Massachusets e da Virg\u00ednia, um processo civilizat\u00f3rio produzido por refugiados, sobreviventes das persegui\u00e7\u00f5es religiosas, a saber, r\u00e9us por quest\u00f5es de consci\u00eancia, raz\u00e3o pela qual se deram eles prioridade \u00e0 forma\u00e7\u00e3o espiritual e intelectual das novas gera\u00e7\u00f5es, aqui no Brasil a ocupa\u00e7\u00e3o do para\u00edso tropical das nossas costas mar\u00edtimas se daria dentro das estritas regras do pacto colonial do mercantilismo, segundo o qual a col\u00f4nia n\u00e3o seria objeto da forma\u00e7\u00e3o de uma nova nacionalidade e, sim, um centro de preda\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em favor de uma metr\u00f3pole em processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o de seu com\u00e9rcio. Em raz\u00e3o disso, a sociedade que resultou do povoamento das capitanias, teve estimulada a sua capacidade de trabalho e de explora\u00e7\u00e3o das riquezas nativas, enquanto se ignorou totalmente o potencial de desenvolvimento cultural da popula\u00e7\u00e3o. Durante mais de duzentos anos, n\u00e3o fora a preocupa\u00e7\u00e3o dos jesu\u00edtas e, em escala menor, de ordens outras religiosas, que desenvolveram entre os \u00edndios, negros e mesti\u00e7os a catequese ultramontana, com vistas a preservar as almas do aliciamento protestante, feito por piratas, cors\u00e1rios e invasores franceses, holandeses e ingleses, e nada teria havido aqui em mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 bem verdade que n\u00e3o se tratava de uma educa\u00e7\u00e3o letrada, como seria de esperar-se, e sim de um proselitismo cat\u00f3lico, apost\u00f3lico, romano, dentro da conjuntura das guerras religiosas europ\u00e9ias dos s\u00e9culos 16 e 17. A sociedade colonial cresceu, diversificou-se, interiorizou-se territorialmente, mas andou sempre muito longe da escola. At\u00e9 porque, com o regime escravo de trabalho ent\u00e3o vigente &#8211; de cada quatro pessoas, tr\u00eas eram escravos \u2013 n\u00e3o fazia muito sentido formar-se intelectualmente algu\u00e9m que n\u00e3o fosse livre. At\u00e9 porque filosoficamente, educa\u00e7\u00e3o e liberdade sempre andaram de m\u00e3os dadas pelo mundo.<\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 bem verdade que os jesu\u00edtas, com o passar dos anos, e tendo se formado os primeiros n\u00facleos populacionais, como Recife, Salvador, Rio de Janeiro, S\u00e3o Vicente e S\u00e3o Paulo, evolu\u00edram da rarefeita catequese inicial, para uns poucos col\u00e9gios, onde o trivium e o quadrivium da pedagogia medieval se praticaram com alguma intensidade, dada a necessidade de se atenderem os filhos da incipiente fidalguia cabocla, que, n\u00e3o raro, se dirigiam \u00e0 Europa para doutorar-se em direito ou teologia, e voltar \u00e0 col\u00f4nia, depois de formados, a fim de exercitar os poderes pol\u00edticos reservados \u00e0 elite econ\u00f4mica a que pertenciam. Como dizia Capistrano de Abreu: \u201c<em>Sem Jesu\u00edtas n\u00e3o teria havido um m\u00ednimo de processo civilizat\u00f3rio no Brasil colonial<\/em>\u201d. \u00a0<\/p>\n<p>Tudo pioraria com a expuls\u00e3o desses padres, determinada por Pombal em meados do s\u00e9culo 18. \u00c9 bem verdade, que para substitu\u00ed-los o rei criou classes leigas, denominadas Aulas R\u00e9gias, que n\u00e3o prosperaram por duas raz\u00f5es, que se tornaram inerentes a pouca import\u00e2ncia que sempre se deu por aqui \u00e0 educa\u00e7\u00e3o popular: falta de recursos financeiros para custe\u00e1-las (o subsidio liter\u00e1rio que lhes foi destinado revelou-se insuficiente) e falta de professores, dada a mis\u00e9ria, que se lhes pagava por aula.<\/p>\n<p>Como se sabe, em 1808, com a chegada da fam\u00edlia real \u00e0 col\u00f4nia e o bloqueio mar\u00edtimo da Europa, decretado por Napole\u00e3o, os filhos da elite brasileira, n\u00e3o mais podiam cursar o ensino superior de Coimbra, Salamanca, Paris ou N\u00e1poles. Pediu ela ao pr\u00edncipe regente a cria\u00e7\u00e3o de escolas, que os atendessem por aqui mesmo. No lugar de come\u00e7ar pelas escolas de base, D. Jo\u00e3o as criou superiores, como a de Medicina que foi a primeira (talvez porque os m\u00e9dicos abundassem na corte transladada, pela necessidade de cuidar dos males da rainha louca, D. Maria I). E assim come\u00e7ou no Brasil, o sistema educacional de ponta cabe\u00e7a, ou seja, do telhado para o alicerce, o que tornou todo o ensino formal naquilo que, desde ent\u00e3o, tem sido: cursos n\u00e3o integrados entre si, todos elitistas, livrescos, eruditos e voltados para as necessidades das minorias econ\u00f4micas e sociais.<\/p>\n<p>Como a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se constituiu, no passado brasileiro, em uma prioridade na prepara\u00e7\u00e3o do povo para a constru\u00e7\u00e3o e o fortalecimento do destino nacional, n\u00e3o estranha que, modernamente ainda, tenhamos que pagar um alto tributo por essa displic\u00eancia, e que a educa\u00e7\u00e3o do povo n\u00e3o venha satisfazendo \u00e0s exig\u00eancias conjunturais do desenvolvimento atual da na\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a primeira e a mais funda raiz da crise que a\u00ed est\u00e1. E o que dizer: \u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>III \u2013 <span style=\"text-decoration: underline;\">O ESTADO DA ARTE ATUAL DA EDUCA\u00c7\u00c3O BRASILEIRA<\/span>. \u00a0<\/p>\n<p>Ademais da falta, no passado, de valoriza\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, como instrumento fundamental do desenvolvimento nacional, o que se v\u00ea, no presente, \u00e9 o esfor\u00e7o do governo e da sociedade, no sentido de tentar resgatar o tempo perdido, com a realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da universaliza\u00e7\u00e3o do ensino b\u00e1sico para toda a popula\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m, com a conquista dos padr\u00f5es de qualidade para esse mesmo ensino, cujos resultados t\u00eam deixado a desejar, a ponto de se haver tornado essa prioridade muito mais presente nos discursos, do que nos fatos. Quanto \u00e0 extens\u00e3o das oportunidades de matr\u00edcula \u00e0s massas populares nos ensinos fundamental e m\u00e9dio, h\u00e1 que reconhecer um certo sucesso das pol\u00edticas atuais, sobretudo no que diz respeito ao fundamental, em que a oferta de vagas chega a quase cem por cento da demanda. O mesmo sucesso n\u00e3o se pode creditar ao ensino m\u00e9dio, eis que, nele, se localiza o calcanhar de Aquiles da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica deste pa\u00eds. N\u00e3o s\u00f3 no quantitativo de matriculas \u2013 apenas 1\/3 dos que se formam no fundamental chegam ao grau seguinte \u2013 mas tamb\u00e9m no qualitativo, eis que, os poucos matriculados nesse grau de ensino se evadem por desinteresse em rela\u00e7\u00e3o ao que lhes \u00e9 ensinado.<\/p>\n<p>A principal raz\u00e3o do insucesso e da falta de qualidade desses graus de escolaridade reside no fato de ainda n\u00e3o se ter conseguido obter um m\u00ednimo de pertin\u00eancia na sua ministra\u00e7\u00e3o. Pertin\u00eancia, senhores, \u00e9 um conceito criado pela UNESCO, para medir o grau de aproveitamento da aprendizagem entre os alunos do ensino formal, aproveitamento esse que se traduz pela intima coer\u00eancia entre o que e o como se ensina, dentro do requerido pelas aspira\u00e7\u00f5es das novas gera\u00e7\u00f5es e os reclamos da sociedade, em determinadas etapas de suas cont\u00ednuas transforma\u00e7\u00f5es. Nesta nossa era do conhecimento, em que as inova\u00e7\u00f5es cientificas e tecnol\u00f3gicas presidem as metamorfoses culturais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas, a escola n\u00e3o pode deixar de valorizar o saber geral m\u00ednimo a ser portado pelos alunos, nem outrossim, ignorar as linguagens did\u00e1ticas fundamentadas nos avan\u00e7os da tecnologia da comunica\u00e7\u00e3o, a qual dever\u00e1 referenciar todo o protagonismo de cidadania das gera\u00e7\u00f5es futuras. Apesar disso, o que faz hoje a escola brasileira? A n\u00e3o ser nas raras e conhecidas exce\u00e7\u00f5es, onde se consegue praticar um bom ensino, o que se v\u00ea como regra geral, \u00e9 a continuidade de a\u00e7\u00e3o dos modelos obsoletos, n\u00e3o s\u00f3 da organiza\u00e7\u00e3o escolar, mas tamb\u00e9m do linguajar pedag\u00f3gico, o que provoca o desinteresse dos alunos, o desperd\u00edcio dos recursos e a frustra\u00e7\u00e3o profissional dos professores. Estarei sendo severo demais? Ent\u00e3o, quero convid\u00e1-los a refletir sobre os dados que se seguem, frutos das avalia\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais para medir o estado da arte do ensino b\u00e1sico brasileiro na atualidade.<\/p>\n<p>Primeiro, os dados nacionais das sucessivas avalia\u00e7\u00f5es levadas a cabo na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, atrav\u00e9s das provas do SAEB (Avalia\u00e7\u00e3o do Ensino B\u00e1sico) e do IDEB (\u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica), promovidas ambos pelo MEC.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>IV \u2013 <span style=\"text-decoration: underline;\">SAEB, IDEB E PISA.<\/span><\/p>\n<p>Primeiro a SAEB, com a pontua\u00e7\u00e3o m\u00ednima em <strong>Portugu\u00eas<\/strong> no ensino fundamental (4\u00aa s\u00e9rie e 8\u00aa s\u00e9rie). Seria, respectivamente, de 200 e 300 pontos a meta a alcan\u00e7ar; o m\u00e1ximo que se teve em cada ciclo foi 169 e 232 pontos. No ensino m\u00e9dio, 3\u00aa s\u00e9rie, a pontua\u00e7\u00e3o m\u00ednima deveria atingir 350 pontos: no entanto o m\u00e1ximo obtido foi de 266.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 <strong>Matem\u00e1tica<\/strong>, a pontua\u00e7\u00e3o respectiva para a 4\u00aa e a 8\u00aa s\u00e9ries do fundamental deveria ser tamb\u00e9m de 200 e 300 pontos, mas s\u00f3 se conquistou o m\u00e1ximo de 177 e 245 respectivamente; na 3\u00aa s\u00e9rie do ensino m\u00e9dio, para um gabarito de 350 pontos, o que se conseguiu foi o escore de 278.<\/p>\n<p>Quanto aos resultados do IDEB (\u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o), em 2010, os n\u00fameros foram os seguintes no ensino fundamental: nas quatro primeiras s\u00e9ries, 4,2 para uma meta de 6,0; 3,7 nas quatro ultimas tamb\u00e9m para uma meta de 6,0. Quanto ao ensino m\u00e9dio como um todo, para a mesma meta 6,0, conseguiu-se o m\u00e1ximo de 3,6 na pontua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea n\u00e3o s\u00e3o pontos e sim desapontos! A escola brasileira de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica est\u00e1 longe de assegurar um m\u00ednimo aceit\u00e1vel de aprendizagem a seus alunos. O mesmo panorama se repete nas avalia\u00e7\u00f5es internacionais, de que o Brasil participa, a saber: \u201c<em>Educa\u00e7\u00e3o para todos<\/em>\u201d, da UNESCO e \u201c<em>Pisa<\/em>\u201d, da OCDE. Na avalia\u00e7\u00e3o da UNESCO, que mede o \u00edndice de desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o, o Brasil alcan\u00e7ou, em 2009, um \u00edndice pior do que o de 2005, o que significa estar havendo retrocesso e n\u00e3o avan\u00e7o na qualidade do ensino b\u00e1sico. Dos 128 pa\u00edses avaliados, o Brasil obteve o 88\u00ba lugar, o que o situa abaixo da Cro\u00e1cia, de Cuba, do Cazaquist\u00e3o, da Argentina, da Venezuela, da Bol\u00edvia, do Equador e de outros tidos como menores e qui\u00e7\u00e1 piores.<\/p>\n<p>Quanto ao PISA (Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos), nos \u201c<em>ranking<\/em>\u201d de Leitura, Matem\u00e1tica e Ci\u00eancias, o Brasil, entre os 65 pa\u00edses avaliados, ocupou em 2010, as posi\u00e7\u00f5es respectivas de 53\u00ba, 57\u00ba, o que o coloca, aqui na Am\u00e9rica Latina abaixo da Col\u00f4mbia, do Uruguai, do M\u00e9xico, do Chile; e no plano mundial com resultados piores do que os da Cor\u00e9ia do Sul, da Austr\u00e1lia, de Israel, de Portugal, da Turquia e da Tail\u00e2ndia. Sendo o escore de refer\u00eancia nessas provas a m\u00e9dia 6,0, o Brasil obteve 4,1 em Leitura, 3,8 em Matem\u00e1tica e 4,0 em Ci\u00eancias!<\/p>\n<p>Como explicar resultados t\u00e3o vergonhosos, como esses, sabendo-se, como se sabe, que tanto o desenvolvimento, quanto a democracia, se ap\u00f3iam fundamentalmente na boa educa\u00e7\u00e3o do povo? A explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na falta de pertin\u00eancia, a saber, na descorrela\u00e7\u00e3o existente dentro do sistema, entre os processos pedag\u00f3gicos e as aspira\u00e7\u00f5es das novas gera\u00e7\u00f5es, somadas \u00e0s tend\u00eancias contempor\u00e2neas do avan\u00e7o cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico. Os modelos praticados continuam caducos e repetem cansativamente a filosofia iluminista em educa\u00e7\u00e3o, segundo a qual, para culturalizar a popula\u00e7\u00e3o mais carente, material e intelectualmente, bastaria estender \u00e0s massas, que ultimamente invadiram as escolas, as mesmas li\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas do eruditismo, que s\u00f3 beneficia as elites. As novas gera\u00e7\u00f5es, que nascem e crescem familiarizadas com os processos digitais da comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais aceitam os cursos discursivos e livrescos do passado. Ao deparar-se com a escola museol\u00f3gica, abandonam os cursos, e se tornam aquilo que, nos pa\u00edses de l\u00edngua espanhola, se chama de gera\u00e7\u00e3o ni-ni (ni estuda, ni trabaja). A forma\u00e7\u00e3o apenas te\u00f3rica e decorativa nos conceitos de uma ci\u00eancia j\u00e1 obsoleta, voltada desde ontem para as elites e para o fortalecimento do \u201c<em>status<\/em>\u201d das c\u00fapulas s\u00f3cio-econ\u00f4micas (parafraseando Afr\u00e2nio Peixoto sobre a literatura, pode-se dizer que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o sorriso da sociedade), est\u00e1 fora de cogita\u00e7\u00e3o. Exige-se, hoje, que a escola n\u00e3o s\u00f3 transmita uma cultura b\u00e1sica, como tamb\u00e9m seja pr\u00e1tica e customizada em rela\u00e7\u00e3o ao futuro acad\u00eamico e\/ou profissional das novas gera\u00e7\u00f5es. Do contrario os diplomas, quando obtidos, poder\u00e3o ser in\u00fateis. \u00c9 preciso situar os alunos na riqueza contempor\u00e2nea do saber, usando a linguagem por eles requerida como f\u00e1cil de entender e com vistas a seu progresso pessoal e ao da na\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, a escola perder\u00e1 sua import\u00e2ncia como \u201c<em>player<\/em>\u201d principal do processo educativo eficaz, cedendo-a a agencias outras de educa\u00e7\u00e3o informal, que ultimamente pululam nos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, como fazer para reverter essa situa\u00e7\u00e3o de crise? As grandes reformas t\u00eam-se mostrado in\u00fateis, eis que seu texto reflete sempre mais a consolida\u00e7\u00e3o do poder dos burocratas do sistema, do que solu\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas endere\u00e7adas \u00e0 qualifica\u00e7\u00e3o do ensino. Cada reforma no Brasil parece guardar um pouco da li\u00e7\u00e3o de Lampeluza, no seu romance \u201c<em>O Leopardo<\/em>\u201d, a saber: faz-se reforma para que tudo permane\u00e7a como est\u00e1&#8230; Para cortar os males atuais da educa\u00e7\u00e3o brasileira ser\u00e1 preciso, antes de mais nada, formar melhor os professores, dando-lhes capacidade suficiente para que mostrem aos alunos o lado pr\u00e1tico e aplicativo de cada proposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos programas de ensino, al\u00e9m de dar-lhes a expertise para o uso did\u00e1tico das tecnologias da TI, em vez faz\u00ea-los meros repetidores de li\u00e7\u00f5es cedi\u00e7as e superadas sobre o saber antigo.Urge transforma-los em assessores e condutores dos alunos, na busca do saber que lhes conv\u00e9m, na pesquisa individual e permanente da Internet e das bibliotecas. Isso tudo, acompanhado do fortalecimento da carreira e dos sal\u00e1rios do magist\u00e9rio, eis que o professor brasileiro \u00e9 o mais mal pago dos profissionais de forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria neste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para tanto, faz-se mister libertar as escolas das amarras burocr\u00e1ticas que, hoje, as imobilizam na rotina, convertendo-se os \u00f3rg\u00e3os superiores do sistema a saber: MEC e Secret\u00e1rias de Educa\u00e7\u00e3o, de meros controladores de procedimentos ronceiros, em consultores pedag\u00f3gicos de cada unidade escolar, na elabora\u00e7\u00e3o de seus PDIs (Planos de Desenvolvimento Institucional), sempre em associa\u00e7\u00e3o com entidades empresariais e grupos sociais atuantes. At\u00e9 porque, se a raz\u00e3o \u00faltima de educar as pessoas est\u00e1 em dar-lhes o uso consciente da liberdade, \u00e9 muito dif\u00edcil usar para isso escolas destitu\u00eddas de liberdade na sua op\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica. Essas s\u00e3o algumas das ra\u00edzes atuais e pertinentes da crise que a\u00ed est\u00e1.<\/p>\n<p>Para finalizar, h\u00e1 tamb\u00e9m que gastar mais em educa\u00e7\u00e3o no Brasil \u2013 os 4% ou 4,5% do PIB, significam muito pouco \u2013 al\u00e9m de serem pessimamente geridos. H\u00e1 que aumentar esses percentuais e inverter as prioridades do sistema, eis que hoje se gasta mais com os alunos do ensino superior e menos com os dos cursos b\u00e1sicos. A Cor\u00e9ia do Sul gasta 19% do PIB com educa\u00e7\u00e3o sendo a parte do le\u00e3o endere\u00e7ada ao ensino b\u00e1sico. E na compara\u00e7\u00e3o entre o custeio dos diversos graus de ensino no Brasil, com os disp\u00eandios feitos pelos pa\u00edses da OCDE, fica claro que estamos longe do bom senso nessa mat\u00e9ria, se n\u00e3o, veja-se a seguinte tabela de custos do aluno ano:<\/p>\n<table cellpadding=\"0\" cellspacing=\"0\" border=\"1\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"288\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><strong>OCDE<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"291\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><strong>Brasil<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"579\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><strong><em>Ensino Fundamental<\/em><\/strong><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"288\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><em>US$6.437,00<\/em><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><em>US$1.556,00<\/em><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"576\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><strong><em>Ensino M\u00e9dio<\/em><\/strong><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"288\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><em>US$8.006,00<\/em><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><em>US$1.538,00<\/em><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"576\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><strong>Ensino superior<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"288\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><em>US$12.336,00<\/em><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"288\" valign=\"top\">\n<p align=\"center\"><em>US$10.294,00<\/em><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>*<strong>Dados da UNESCO, citados por Arnaldo Niskier numa sua confer\u00eancia, na Universidade da Columbia (USA).<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">CONCLUS\u00c3O<\/span><\/p>\n<p>Grato pelas aten\u00e7\u00f5es que me dispensaram e desculpem-me pela ma\u00e7ada desta longa exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Palestra proferida pelo Prof. Dr. Paulo Nathanael Pereira de Souza, Reitor da Unisciesp, e Doutor em Educa\u00e7\u00e3o, dia 12 de maio de 2011, sede da Fecom\u00e9rcio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ra\u00edzes da Crise Educacional Brasileira Paulo Nathanael Pereira de Souza, Conselheiro da Fecom\u00e9rcio e Doutor em Educa\u00e7\u00e3o. \u00a0 \u00a0 \u00a0I \u2013 Proleg\u00f4menos \u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como de praxe, seja-me permitido agradecer inicialmente a este qualificadissimo conselho, na pessoa do Isaac, seu coordenador, pela oportunidade que me foi dada de falar sobre este tema, de grande atualidade, e com o qual convivo h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas. Dentre os muitos e complexos problemas com que se debate hoje o Brasil para viabilizar sua moderniza\u00e7\u00e3o e concretizar seus dois maiores objetivos nacionais, a saber: o desenvolvimento socioecon\u00f4mico e a consolida\u00e7\u00e3o da democracia, ressalta [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-177","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=177"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/177\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}