{"id":178,"date":"2011-05-13T20:10:24","date_gmt":"2011-05-13T23:10:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2011\/05\/13\/discurso-de-posse-do-academico-titular-solon-borges-dos-reis\/"},"modified":"2011-05-13T20:10:24","modified_gmt":"2011-05-13T23:10:24","slug":"discurso-de-posse-do-academico-titular-solon-borges-dos-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/discurso-de-posse-do-academico-titular-solon-borges-dos-reis\/","title":{"rendered":"Discurso de Posse do Acad\u00eamico Titular S\u00f3lon Borges dos Reis."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">ACADEMIA PAULISTA DE EDUCA\u00c7\u00c3O<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Discurso de Posse do Acad\u00eamico Titular\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">S\u00d3LON BORGES DOS REIS<\/span><\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhor Presidente,<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhores Acad\u00eamicos,<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Dignas Autoridades,<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Senhoras e Senhores:<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Chegar \u00e0 Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o pelo voto solid\u00e1rio dos que a integram, \u00e9 honra que agrade\u00e7o de p\u00fablico a cada um e a todos os acad\u00eamicos, ilustres todos, pelo conhecimento e pela a\u00e7\u00e3o, e prestantes todos ao longo da vida devotada sempre \u00e0 causa humana e social da educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mas, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a honraria que agrade\u00e7o. Tamb\u00e9m a oportunidade dupla: de conviver com os companheiros da institui\u00e7\u00e3o o conv\u00edvio privilegiado dos que comungam ideais e partilham ideias e o de atuar, pelo pensamento e pela palavra, pela posi\u00e7\u00e3o e pela a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, num cen\u00e1culo em que a motiva\u00e7\u00e3o para meditar e dizer, para assumir e fazer, \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o, mais do que um problema que cabe aos especialistas estudar e equacionar suas solu\u00e7\u00f5es, uma causa, humana, social e c\u00edvica, a que todos n\u00f3s, especialistas ou n\u00e3o, nos devemos dedicar, no extremo limite das nossas possibilidades, por obriga\u00e7\u00e3o e interesse, dever e responsabilidade.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao investir-me hoje, formalmente, neste ato, nos encargos e prerrogativas acad\u00eamicas, emposso-me com a consci\u00eancia do galard\u00e3o que representa para um educador o pr\u00eamio da Cadeira n\u00ba 32, cujo Patrono \u00e9 Hor\u00e1cio Silveira, honrada pelo saudoso professor Arnaldo Laurindo.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Uma vida inteira dedicada ao ensino, o paranaense Hor\u00e1cio Augusto da Silveira, cujo centen\u00e1rio de nascimento transcorrer\u00e1 no pr\u00f3ximo dia 1\u00ba de janeiro, foi uma figura estelar no magist\u00e9rio de S\u00e3o Paulo. Daqueles que tiveram o privil\u00e9gio de crescer \u00e0s margens do Piracicaba e ali armar-se para as lides do ensino na hist\u00f3rica Escola Normal Oficial criada em 1897, \u201cconvivendo com colegas como Sud Mennucci, Thales de Andrade, Fernando Costa e outros a quem a fortuna reservava papel saliente em \u00e2mbito nacional\u201d. Come\u00e7ou a carreira no magist\u00e9rio com a suprema gl\u00f3ria de que se podia orgulhar um educador: a de professor de escola isolada na zona rural, a Escola do Bairro do P\u00e2ntano, em S\u00e3o Sim\u00e3o. Fez carreira. Chegou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o de escola no ensino prim\u00e1rio. Mas o campo de atua\u00e7\u00e3o em que p\u00f4de projetar, em escala muito mais abrangente, sua capacidade de trabalho, poder de iniciativa e esp\u00edrito organizador, situou-se no ensino profissional, mais tarde chamado de industrial, o ensino t\u00e9cnico. Organizador e primeiro diretor do Departamento do Ensino Profissional, que dirigiu de 1934 a 1947, deixou marcada sua passagem pela alta administra\u00e7\u00e3o estadual do ensino com o trabalho s\u00e9rio com que impulsionou e deu estrutura ao ensino t\u00e9cnico, de que j\u00e1 nos orgulhamos no passado e que tanta falta faz hoje ao nosso desenvolvimento humano, social e econ\u00f4mico.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Homens de m\u00e9rito nem sempre recebem de seus contempor\u00e2neos a justi\u00e7a a que fazem jus. Criador dos primeiros cursos de dietistas e de puericultura no Brasil, disseminador de cursos profissionais na \u00e1rea ferrovi\u00e1ria e portu\u00e1ria e para a complementa\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica e integra\u00e7\u00e3o cultural do trabalhador da ind\u00fastria, antes do advento do SENAI, estruturador da carreira do magist\u00e9rio profissional, part\u00edcipe importante na elabora\u00e7\u00e3o da Lei Org\u00e2nica do Ensino Industrial, de especial significado para esse ramo do ensino no pa\u00eds dos anos 40, Hor\u00e1cio Augusto da Silveira recebeu o reconhecimento oficial de seu valor pelas homenagens p\u00f3stumas que lhe prestaram os professores e os poderes p\u00fablicos, quando faleceu em 1959. Dentre as homenagens merecidas, significativa a que deu o nome do mestre \u00e0 Escola de sua \u00e1rea em Bauru. Mas a homenagem maior lhe seria prestada por Arnaldo Laurindo, ao escolher, como escolheu, o nome de Hor\u00e1cio Silveira para seu Patrono, na Cadeira n\u00ba 32, na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Partindo de quem partiu, a escolha vale como um depoimento sobre a personalidade, a vida e a obra de Hor\u00e1cio Silveira. Porque Arnaldo Laurindo foi, antes de tudo, comedido, consequente, s\u00f3brio. Palavra que proferia, opini\u00e3o que dava, gesto que tinha, posi\u00e7\u00e3o que assumia, era sempre pra valer, correspondendo indefectivelmente ao que ele sentia, ao que ele pensava. Privilegiado aquele que mereceu, assim, o reconhecimento p\u00fablico e p\u00f3stumo pela iniciativa sempre honrada e honrosa de um educador da estirpe de Arnaldo Laurindo. Se, em Hor\u00e1cio Silveira, reputamos importante ter estudado na tradicional Escola Normal de Piracicaba, em Arnaldo Laurindo cabe assinalar o fato de, paulistano, ter feito seu curso na Normal de Botucatu. Diplomado em 1928, Professor de Escola Isolada, como Hor\u00e1cio, mais tarde professor e diretor de Grupo Escolar, passou pelo ensino comercial e pelo agr\u00edcola. Mas, o campo de a\u00e7\u00e3o administrativa e educacional em que projetou sua grande capacidade de trabalho, aliada a um amplo conhecimento das quest\u00f5es de sua \u00e1rea, foi a dire\u00e7\u00e3o geral do ensino profissional do Estado. Na alta administra\u00e7\u00e3o do ensino p\u00fablico, integrou o gabinete do Secret\u00e1rio da Educa\u00e7\u00e3o e chegou a uma folha de servi\u00e7os que abrangeu empreendimentos tanto de ordem t\u00e9cnica como administrativa, tanto na \u00e1rea do antigo ensino b\u00e1sico quanto na do antigo ensino m\u00e9dio. Representou o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura no Conselho T\u00e9cnico do SENAI, em S\u00e3o Paulo; presidiu ao Conselho de Coopera\u00e7\u00e3o do Fundo de Assist\u00eancia ao Menor, na Secretaria da Justi\u00e7a, e integrou o Conselho de Pol\u00edtica da Agricultura do Estado. Nomeado pelos governos estadual e federal, destacou-se em diferentes comiss\u00f5es que exigiam muito trabalho, conhecimento de causa e senso de responsabilidade, n\u00e3o s\u00f3 na \u00e1rea do ensino mas na da a\u00e7\u00e3o social e da cultura, campo em que foi distinguido pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Cultura com o Diploma e a Medalha de Rui Barbosa. Sua passagem ficou assinalada no Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, pelo devotamento e capacidade com que desempenhou as fun\u00e7\u00f5es que ali lhe estavam afetas. Nunca se limitou \u00e0s atividades pr\u00f3prias de sua profiss\u00e3o ou de seus encargos no ensino e na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Deu sempre algo mais de si em prol da comunidade. Foi sempre assim. Desde Batatais e Jacare\u00ed, onde desempenhou, com amor, as fun\u00e7\u00f5es gratuitas de Comiss\u00e1rio de Menores, at\u00e9 \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica em que, sob o signo da coer\u00eancia, da fidelidade, do trabalho e da responsabilidade, chegou \u00e0 Assembleia Legislativa do Estado, desempenhando, como suplente, o mandato parlamentar com seriedade e sem demagogia, como demonstram os Anais da Vida Parlamentar do Estado e as leis de interesse p\u00fablico, todas no campo do ensino, que resultaram de oportunos projetos de sua autoria. Preocupado ainda com o papel do professor na obra da educa\u00e7\u00e3o, figura central de toda a estrutura escolar, a servi\u00e7o do aluno, integrou-se Arnaldo Laurindo no Centro do Professorado Paulista, fundado em 1930, e hoje a maior entidade de classe do magist\u00e9rio em toda a Am\u00e9rica do Sul. Eleito para o Conselho Superior e Presidente da entidade, em sua gest\u00e3o fecunda registra-se al\u00e9m da defesa dos direitos e leg\u00edtimos interesses dos professores e do trabalho pelo ensino, dentre outras iniciativas no campo interno da entidade, e constru\u00e7\u00e3o da primeira Col\u00f4nia de F\u00e9rias, instalada em Mongagu\u00e1, na Praia Grande, no Litoral Paulista. Tais foram os servi\u00e7os que prestou, como s\u00f3cio, conselheiro e Presidente do CPP, que, por decis\u00e3o da Assembleia Geral, depois de ter deixado a presid\u00eancia, recebeu o t\u00edtulo honroso de \u201cDiretor Honor\u00e1rio\u201d. Um educador que, dignificando a sua classe, serviu \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0 juventude, ao pa\u00eds, intensamente, devotadamente, no ensino, na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, no parlamento. E, onde quer que lhe cometessem um encargo, dele se desincumbia, sem rejeitar trabalho, infenso ao brilho superficial e ef\u00eamero das luzes da ribalta, concentrado no af\u00e3 cont\u00ednuo, persistente e silencioso, de sua operosidade sem alarde.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Quanta honraria, senhores acad\u00eamicos, para um professor que, como eu, provindo igualmente de uma daquelas dez tradicionais escolas normais oficiais do Estado, a de Campinas, t\u00e3o decisiva, se n\u00e3o mais do que os cursos universit\u00e1rios posteriores de Pedagogia e Direito, passou pelo ensino prim\u00e1rio, secund\u00e1rio, normal e superior, esteve na administra\u00e7\u00e3o do ensino, desempenhou tamb\u00e9m o mandato parlamentar, na mesma Assembleia, honra-se no mesmo Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, s\u00f3cio, conselheiro e presidente do mesmo Centro do Professorado Paulista e hoje, pela decis\u00e3o dos companheiros, toma assento na mesma Academia, sob o signo desse mestre de todos n\u00f3s, enquanto vivo e ainda agora pelo exemplo edificante que nos legou a todos: Arnaldo Laurindo.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A um p\u00fablico que comparece a cerim\u00f4nia como esta, numa Academia de Educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 por que encarecer a import\u00e2ncia que a educa\u00e7\u00e3o assumiu como direito, obriga\u00e7\u00e3o e necessidade. Apenas lembro de passagem que meus av\u00f3s, imigrantes portugueses e italianos, eram analfabetos, enquanto meus netos frequentam cada um deles duas Faculdades, porque em pouco tempo tudo j\u00e1 mudou tanto.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Ao assumir esta Cadeira na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, trago nos ouvidos, na mente e no cora\u00e7\u00e3o as palavras, a linha e o alento do discurso de posse do acad\u00eamico que me precedeu, quando se empossou, em junho, o eminente professor Samuel Pfromm Neto, ao responder \u00e0 espl\u00eandida sauda\u00e7\u00e3o do acad\u00eamico Jo\u00e3o Gualberto de Carvalho Meneses, com um pronunciamento de vigor, atualidade, encarando a realidade educacional brasileira sem disfarces nem preconceitos, como tamb\u00e9m sem modismos nem concess\u00f5es demag\u00f3gicas ao que quer que seja. E \u00e9 o de que estamos urgentemente precisando. A an\u00e1lise da realidade, das necessidades, a avalia\u00e7\u00e3o das possibilidades e perspectivas da conjuntura educacional, para servir apenas e exclusivamente ao direito natural e \u00e0s exig\u00eancias humanas, sociais e nacionais da nossa gente e da nossa terra.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Enquanto aqui nos reunimos, ao redor de uma institui\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o positiva de f\u00e9 no que pode e deve fazer a educa\u00e7\u00e3o, fora, o clamor ultraiconocl\u00e1stico. Pelo que gritam os \u201cslogans\u201d, nada presta. Nada se fez at\u00e9 agora, ou melhor, tudo o que se fez foi errado, por incompet\u00eancia ou por c\u00e1lculo e porque \u00e9 prejudicial tem que ser enxovalhado. Tudo tem que ser arrasado, para que se levante ent\u00e3o sobre os escombros do que existe o para\u00edso social.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Na realidade, o clamor contra a qualidade da educa\u00e7\u00e3o e do ensino foi sempre uma constante em nosso pa\u00eds. Um levantamento documental dos relat\u00f3rios e ju\u00edzos feitos sobre o ensino brasileiro, em qualquer \u00e9poca, demonstra \u00e0 saciedade a insatisfa\u00e7\u00e3o de todas as gera\u00e7\u00f5es que nos precederam com o ensino de seu tempo. N\u00e3o se tem not\u00edcia nos arquivos, nos jornais, nos livros, na cr\u00f4nica de \u00e9poca alguma, em que se encontrasse o conformismo dos cr\u00edticos, especialistas ou leigos em educa\u00e7\u00e3o e ensino, com as condi\u00e7\u00f5es de estrutura e funcionamento da escola no respectivo tempo. Hoje, como sempre, todos n\u00f3s nos insurgimos contra a escola que temos e nos voltamos, muitas vezes com raz\u00e3o, para os bons tempos de antes. \u00c9 uma insatisfa\u00e7\u00e3o natural. A escola teria feito mais, no passado, do que est\u00e1 conseguindo agora. Com um alunado diferenciado por condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas e tamb\u00e9m pelo voluntariado dos que, embora sem as mesmas possibilidades financeiras e sem o mesmo \u201cstatus\u201d social, chegavam \u00e0s salas de aula impulsionados pela predisposi\u00e7\u00e3o natural, potencial biopsicol\u00f3gico e moral, a fim de aproveitar ao m\u00e1ximo a escola para abrir caminho. O alunado hoje \u00e9 o mais heterog\u00eaneo que se possa imaginar. Ensino obrigat\u00f3rio, educa\u00e7\u00e3o como um direito, educa\u00e7\u00e3o uma necessidade imposterg\u00e1vel, todos v\u00e3o \u00e1 escola. E todos pretendem ultrapassar o ensino b\u00e1sico, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas de quatro, mas de oito anos obrigat\u00f3rios. Al\u00e9m do segundo grau, as multid\u00f5es batem \u00e0s portas da Universidade. Todos sabemos, contudo, que um percentual da popula\u00e7\u00e3o escolar matriculada nas primeiras s\u00e9ries do ensino de primeiro grau, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es biopsicol\u00f3gicas, e, portanto, naturais, para frequentar, com proveito, uma escola comum, e precisaria, isso sim, do ensino especializado. O professor de ontem, que trabalhava com classes homog\u00eaneas, ao menos pela origem da clientela escolar, podia, por isso, seguir em frente, acompanhado pela classe. Hoje, s\u00f3 excepcionalmente isso pode ocorrer, em escolas favorecidas pela localiza\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e prop\u00f3sitos. Na escola comum, \u00e9 trabalhar com classes extremamente heterog\u00eaneas, superlotadas, em condi\u00e7\u00f5es adversas. \u00c9 que o crescimento dos recursos destinados \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento do ensino est\u00e1 longe de acompanhar o crescimento das necessidades sequer quantitativas da popula\u00e7\u00e3o em idade escolar. \u00c9 duro, mas \u00fatil reconhecer que neste mesmo Estado, o mais rico, o mais adiantado da Na\u00e7\u00e3o, continuamos a oferecer escolas com apenas um peda\u00e7o de dia letivo. Assim mesmo, aos que conseguiram matr\u00edcula, pois embora as estat\u00edsticas continuem desatualizadas e inseguras, como sempre foram, h\u00e1 afirma\u00e7\u00f5es oficiosas e at\u00e9 oficiais de que centenas de milhares de crian\u00e7as continuam sem escola na faixa et\u00e1ria dos 7 aos 14 anos. Enquanto continuarmos sem poder oferecer nem mesmo um m\u00ednimo de horas di\u00e1rias de escola, aos que dela t\u00eam direito, e at\u00e9, pela Constitui\u00e7\u00e3o, a ela s\u00e3o obrigados, pouco ou nada h\u00e1 para esperar em mat\u00e9ria de ensino. Porque a igualdade de oportunidades em educa\u00e7\u00e3o exige que implantemos um regime escolar em que a crian\u00e7a permane\u00e7a o dia todo na escola: um per\u00edodo em sala de aula, outro em atividades educativas, t\u00e3o importantes e \u00e0s vezes at\u00e9 mais do que as da sala de aula. O que temos, no entanto, \u00e9 uma contrafa\u00e7\u00e3o do dia letivo, reduzido \u00e0 express\u00e3o m\u00ednima, a ponto de autoridades escolares n\u00e3o se pejarem de confessar que continuamos com escolas de 3, 4, 5, 6 e at\u00e9 7 per\u00edodos num mesmo dia. E isso vale dizer que a crian\u00e7a frequenta v\u00e1rios anos a escola para aproveitar apenas a escolaridade de um ano. Tudo por n\u00e3o ter ainda a Na\u00e7\u00e3o optado pela educa\u00e7\u00e3o como prioridade nacional e os governos continuarem a tirar o corpo, procurando apenas se desvencilhar do problema. N\u00e3o h\u00e1 nenhum sintoma \u00e0 vista de que se pretenda mesmo partir um dia para enfrentar a quest\u00e3o como \u00e9 preciso: objetiva e corajosamente.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A queixa da opini\u00e3o p\u00fablica, por esse prisma, \u00e9 procedente. Para as enormes necessidades da atualidade, na criamos condi\u00e7\u00f5es nem mobilizamos recursos compat\u00edveis com o m\u00ednimo sequer do que \u00e9 preciso.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Mas, a grita contra a qualidade, por parte de intelectuais, inclusive de entendidos, comporta outro enfoque. Se entendermos que a educa\u00e7\u00e3o perde em qualidade, devemos analisar a quest\u00e3o partindo do conceito de qualidade. Que \u00e9 a qualidade, afinal de contas, em mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o?<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A qualidade da educa\u00e7\u00e3o tem sido geralmente considerada superficialmente em termos de rendimento do trabalho escolar apenas. Quanto a isto, quanto ao rendimento do trabalho escolar, a escola, para dar cumprimento \u00e0s suas novas, mais amplas e complexas responsabilidades, promovendo, como hoje se quer, a educa\u00e7\u00e3o integral, precisa rever a sua estrutura, atualizando-a, ampliando-a, na conformidade das necessidades do seu tempo. Enriquecer a estrutura com institui\u00e7\u00f5es escolares que possam complementar a a\u00e7\u00e3o da sala de aula. Sem a sala de aula, onde mais comumente se cultivam valores intelectuais como a intelig\u00eancia, a racioc\u00ednio, a mem\u00f3ria, \u00e9 dif\u00edcil caracterizar uma escola. Mas, s\u00f3 com a sala de aula n\u00e3o d\u00e1 mais para a escola cumprir com seus objetivos atuais. \u00c9 preciso recorrer a outras institui\u00e7\u00f5es, t\u00e3o importantes como a sala de aula e \u00e0s vezes apontadas, por equ\u00edvoco, como auxiliares da escola, quando na realidade s\u00e3o t\u00e3o escolas como a pr\u00f3pria sala de aula. A estrutura e o funcionamento da escola devem adaptar-se aos compromissos atuais da escola e isso implica em transforma\u00e7\u00e3o e enriquecimento de curr\u00edculos, de metodologia, do regime escolar, do ambiente e da utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos tecnol\u00f3gicos contempor\u00e2neos. Tudo em fun\u00e7\u00e3o do aluno, pedra angular de todo o trabalho, para o qual a escola foi criada. E, depois do educando, o educador, tanto para a fun\u00e7\u00e3o docente quanto para as demais da vida escolar em que a figura do diretor que pode ser um entrave ou uma garantia, desanimando ou motivando. Porque continua verdadeira a afirma\u00e7\u00e3o de que uma escola ser\u00e1 o que for o seu diretor. E quando se menciona o profissional do magist\u00e9rio, h\u00e1 a considerar toda a sua problem\u00e1tica: desde a forma\u00e7\u00e3o e o processo de recrutamento, \u00e0 garantia no trabalho, \u00e0 carreira, \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o, \u00e0 aposentadoria.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A qualidade da educa\u00e7\u00e3o e do ensino est\u00e1, por\u00e9m, em fun\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m de sua adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade socioecon\u00f4mica. O homem n\u00e3o \u00e9 um ser abstrato. Nem isolado. Vive inapelavelmente inserido num contexto socioecon\u00f4mico que pode n\u00e3o ter inventado, mas do qual n\u00e3o consegue escapar e que condiciona em alta escala a sua vida toda. A prepara\u00e7\u00e3o profissional, assim como a educa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica constitui uma necessidade imperiosa, imposterg\u00e1vel. Tanto para o indiv\u00edduo quanto para a comunidade. E, neste cap\u00edtulo, o da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 luz das condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, entra a fundo todo o sistema de forma\u00e7\u00e3o profissional em face das perspectivas do mercado de trabalho e da pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o pessoal do educando sem apriorismos nem preconceitos.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A qualidade da educa\u00e7\u00e3o, t\u00e3o discutida e universalmente condenada, pode ser considerada \u00e0 luz do rendimento do trabalho escolar, em termos de escolaridade, sob o ponto de vista exclusivamente pedag\u00f3gico. Deve tamb\u00e9m ser entendida em suas implica\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, dado que a escola est\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o da comunidade que a cria e mant\u00e9m e \u00e0 qual serve e que a prepara\u00e7\u00e3o profissional \u00e9 uma necessidade irrecorr\u00edvel a cada um e a todos em qualquer parte, sob qualquer regime.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Antes, por\u00e9m, tem que ser conceituada principalmente nos aspectos que concernem \u00e0 filosofia da educa\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 preliminar, e tudo o mais \u00e9 decorr\u00eancia. Pois, antes e acima de tudo, \u00e9 a\u00ed que se situa o fulcro, o n\u00facleo de toda a verdadeira e dific\u00edlima problem\u00e1tica educacional. Antes de adentrar quaisquer outros setores da quest\u00e3o, antes de pensar em financiamento, planejamento ou avalia\u00e7\u00e3o, metodologia ou did\u00e1tica, antes de verificar tudo o mais que possa haver mat\u00e9ria de educa\u00e7\u00e3o e ensino, \u00e9 preciso pensar na filosofia da educa\u00e7\u00e3o, que deve aflorar naturalmente da pr\u00f3pria filosofia da vida.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A an\u00e1lise das virtudes e dos defeitos do sistema escolar com que contamos passa necessariamente por uma defini\u00e7\u00e3o de valores. Porque todo e qualquer esfor\u00e7o, em termos de educa\u00e7\u00e3o, estar\u00e1 comprometido e pode anular-se, ou mesmo chegar a resultados contraproducentes, se n\u00e3o partir de uma n\u00edtida compreens\u00e3o dos fins que, impl\u00edcita ou explicitamente, se tem em vista.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A primeira pergunta que se coloca a quem quer que assuma a responsabilidade diante do problema educacional, governos, pessoas ou institui\u00e7\u00f5es, s\u00f3 pode ser a teleol\u00f3gica: Quais os fins? Para qu\u00ea? Para onde? Que pretendemos fazer, ou melhor, oferecer \u00e0queles cuja educa\u00e7\u00e3o nos foi confiada? Em que dire\u00e7\u00e3o encaminhar a inf\u00e2ncia que a\u00ed est\u00e1? Que futuro desejamos para a mocidade de agora?<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 onipotente. O educador n\u00e3o pode tudo. Seu poder tem limites muito fortes, a partir da natureza do educando. Se fossemos onipotentes, se pud\u00e9ssemos tudo, como educadores, que far\u00edamos da inf\u00e2ncia e da juventude cuja educa\u00e7\u00e3o nos houvesse sido confiada? Preparar\u00edamos atletas analfabetos? Ou s\u00e1bios raqu\u00edticos? Ou atletas eruditos, mas c\u00ednicos? Ou ainda s\u00e1bios atl\u00e9ticos, mas desleais? Ou mesmo s\u00e1bios, atletas, patriotas, ateus e perdul\u00e1rios? Que tipo de homens sonhamos surgir das crian\u00e7as e dos jovens cuja educa\u00e7\u00e3o nos est\u00e1 confiada? Qual \u00e9 o prop\u00f3sito que nos inspira para definir, pelos rumos, a obra da educa\u00e7\u00e3o?<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Definir, antes de tudo, uma filosofia da educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 tarefa fundamental. Se o prop\u00f3sito fosse apenas instruir, tudo seria muito, mas muito f\u00e1cil. Mas, educar, mais do que transmitir informa\u00e7\u00f5es, dar conhecimentos, propiciar habilidades, \u00e9 mais complexo do que instruir. \u00c9 preciso formar h\u00e1bitos, mudar procedimento. Saber que se deve ser pontual, \u00e9 uma coisa. Ser pontual \u00e9 outra, muito mais importante. A informa\u00e7\u00e3o obt\u00e9m-se mais facilmente, fora da escola, atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa, r\u00e1dio, cinema, televis\u00e3o, publicidade, com motiva\u00e7\u00e3o mais penetrante do que a da escola. A grande dificuldade, o n\u00f3 g\u00f3rdio, o ponto de estrangulamento do imenso desafio educacional da atualidade, em qualquer parte do mundo, n\u00e3o \u00e9 o problema da instru\u00e7\u00e3o, aquisi\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, transmiss\u00e3o de conhecimentos, dom\u00ednio de habilidades. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Mas, a necessidade maior da forma\u00e7\u00e3o integral, o que pressup\u00f5e postura, atitudes, h\u00e1bitos, procedimento. E para essa dificuldade maior, a da forma\u00e7\u00e3o, a responsabilidade da escola hoje \u00e9 a transmiss\u00e3o de valores.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Numa \u00e9poca em que a t\u00e9cnica, aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica da ci\u00eancia, com o seu impacto formid\u00e1vel sobre a sociedade, faz estremecer o estabelecido, amedrontando as gera\u00e7\u00f5es adultas ao mesmo tempo em que as fascina com a mudan\u00e7a deslumbrante que acarreta, o educador, pai ou mestre, sente a perplexidade da r\u00e1pida revis\u00e3o e sucess\u00e3o de valores. E essa perplexidade o leva a indagar de si mesmo, a cada instante, se o melhor \u00e9 condescender e facilitar, soltar a crian\u00e7a e o jovem, aluno ou filho, ao sabor da moda, a imita\u00e7\u00e3o do presente, ou cont\u00ea-lo, em conson\u00e2ncia com o costume, a imita\u00e7\u00e3o do passado, com o pressuposto de estar procurando sempre o que seria melhor para ele. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo um processo finalista. Educar, queira-se ou n\u00e3o, \u00e9 nortear, com um fim em vista. E a dificuldade parece crescer, o terreno mover-se e fugir sob nossos p\u00e9s, quando os valores mudam t\u00e3o depressa e o que ontem era corrente, pacificamente v\u00e1lido, hoje pode n\u00e3o ser. Nortear para o amanh\u00e3. Mas, como ser\u00e1 o amanh\u00e3? Educar para o que h\u00e1? Para o que j\u00e1 houve? Para o que supomos que haver\u00e1? Ou para o que gostar\u00edamos que houvesse? Como ser\u00e1 o amanh\u00e3? Para os educadores, crist\u00e3os, humanistas pela natureza de sua miss\u00e3o, nunca se h\u00e1 de perder de vista a convic\u00e7\u00e3o dos valores permanentes. Por mais que mudem as condi\u00e7\u00f5es sociais, h\u00e1 valores perenes, imanentes \u00e0 pr\u00f3pria criatura humana. Evolua a t\u00e9cnica como evoluiu, transformem-se as sociedades como se transformaram, o educador n\u00e3o educar\u00e1 nunca para a hipocrisia, a deslealdade, a bajula\u00e7\u00e3o, a subservi\u00eancia, a cal\u00fania, a covardia, a intoler\u00e2ncia, a perversidade, a ingratid\u00e3o, a injusti\u00e7a ou a indignidade. E n\u00e3o subestimar\u00e1 jamais o homem e seu potencial de generosidade, integrado, sim, na conting\u00eancia social, mas insepar\u00e1vel sempre de sua condi\u00e7\u00e3o humana. As metamorfoses da civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o atingir\u00e3o jamais a subst\u00e2ncia, o cerne da natureza humana.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Acusa-se a escola de ser exclusivamente conservadora, de concorrer, como instrumento das classes dominantes, para perpetuar iniquidades da ordem pol\u00edtica e econ\u00f4mica, como obst\u00e1culo \u00e0 justi\u00e7a social, base imprescind\u00edvel da vida democr\u00e1tica.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Apesar de eminentemente conservadora, recorrendo continuamente ao passado a fim de cumprir sua miss\u00e3o de transmissora da heran\u00e7a cultural, a educa\u00e7\u00e3o carrega no recesso de suas entranhas o g\u00e9rmen da sua pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o. Ao espica\u00e7ar o esp\u00edrito inventivo e propiciar as bases e instrumentos para dar \u00e0 luz o que \u00e9 novo, a educa\u00e7\u00e3o lan\u00e7a os alicerces do futuro e se projeta sobre o amanh\u00e3. ]<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A escola \u00e9 o ponto de intersec\u00e7\u00e3o, o ponto em que se cruzam o ontem, o hoje e o amanh\u00e3, o passado, o presente e o futuro.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A escola espelha na realidade a sociedade que a mant\u00e9m. Mas n\u00e3o se pode negar a a\u00e7\u00e3o dupla que desempenha. \u00c9 conservadora, sim, na medida em que mant\u00e9m, e deve manter, e propaga, e deve propagar, de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o, a heran\u00e7a social, que \u00e9 o que garante o progresso com o seu nome novo, o desenvolvimento. Sem essa a\u00e7\u00e3o transmissora e preservadora de todo o acervo cultural que as gera\u00e7\u00f5es anteriores somaram e acumularam para n\u00f3s, at\u00e9 onde regredir\u00edamos? \u00c0 idade da pedra lascada? Mas a escola inova em extens\u00e3o e profundidade. Acende as luzes do caminho. Arma, com as armas b\u00e1sicas, para o prosseguimento da jornada. N\u00e3o inculca necessariamente nada de definitivo, mas abre perspectivas no essencial, principalmente a escola b\u00e1sica, sem a qual a posterior n\u00e3o tem sentido. Da mesma escola em que sa\u00edram sempre os reformadores e os revolucion\u00e1rios, sa\u00edram em todos os tempos os que sustentaram posi\u00e7\u00f5es e teorias diferentes, e at\u00e9 antag\u00f4nicas, seus opositores.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, no sentido lato do termo, \u00e9 inerente \u00e0 pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o da escola, e por isso mesmo \u00e9 universal e existiu e existe em todos os tempos e regimes.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Constatei \u201cin loco\u201d, nas escolas dos Estados Unidos, de 1\u00ba, 2\u00ba e 3\u00ba grau, a mensagem de vida identificada com os valores sociais, econ\u00f4micos, morais e c\u00edvicos, que emanam da filosofia da educa\u00e7\u00e3o, adotada hist\u00f3rica e atualmente pela na\u00e7\u00e3o americana. Vi nos campos de pioneiros da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica as crian\u00e7as de idade pr\u00e9-escolar, reverentes ao culto da personalidade, len\u00e7o vermelho no pesco\u00e7o, sob os par\u00e2metros do regime, diante do nicho de L\u00eanin, altar sagrado, tabu indispens\u00e1vel em todas as escolas e demais recintos p\u00fablicos do grande pa\u00eds. Iniciadas nos valores marxistas, \u00e9 sob sua \u00e9gide que crescem e desenvolvem a personalidade, atrav\u00e9s de todo o sistema escolar, que \u00e9 monop\u00f3lio do Estado, inclusive a Universidade, que em Moscou tamb\u00e9m se chama L\u00eanin, submetendo a inf\u00e2ncia e a juventude, como o povo todo, a uma integra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria e exclusiva dos valores marxistas-leninistas, sem qualquer outra alternativa. Tudo isso com a facilidade que n\u00e3o temos de dizerem a escola, a imprensa, o r\u00e1dio, a televis\u00e3o, o teatro, o governo e o partido, assim como tudo o mais que possa influir na postura e no procedimento das pessoas e da coletividade, numa orquestra\u00e7\u00e3o un\u00e2nime, monocordiamente, a mesma coisa, para sustentar a mesma e indiscut\u00edvel verdade oficial.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">E assim \u00e9 em toda parte. Ainda agora, acabo de regressar da \u00c1frica Negra e do Marrocos, onde pude comprovar o que todos j\u00e1 sabemos, de que nas salas de aula se consagra na pr\u00e1tica a compatibiliza\u00e7\u00e3o do ensino e da educa\u00e7\u00e3o com a filosofia de vida que inspiram aqueles povos. Nas Medinas de Fez ou de Marrakesh, como em qualquer cidade ou aldeia mu\u00e7ulmana, a crian\u00e7a marroquina j\u00e1 \u00e9 iniciada, compulsoriamente, nas salas da pr\u00e9-escola, nas verdades intoc\u00e1veis do Alcor\u00e3o, nos postulados da religi\u00e3o maometana, que fundamenta, orienta, disciplina e condiciona, sem qualquer questionamento, toda a educa\u00e7\u00e3o dos povos que vivem a filosofia de vida do Isl\u00e3.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">N\u00e3o h\u00e1 como ser diferente. S\u00f3 por ignor\u00e2ncia, mas \u00e9 quase sempre por m\u00e1 f\u00e9, que se nega todo e qualquer valor \u00e0 escola brasileira do passado e do presente, na base de uma prega\u00e7\u00e3o sofismada, de uma pol\u00edtica de terra arrasada, como se a solu\u00e7\u00e3o fosse a implos\u00e3o de tudo o que foi constru\u00eddo at\u00e9 agora para, sobre os escombros do que nos trouxe at\u00e9 aqui, partir para uma aventura cujo prop\u00f3sito ningu\u00e9m se prop\u00f5e a honestamente definir.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Esses riscos e dificuldades n\u00e3o s\u00e3o, no entanto, privativos do Brasil. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o comuns a toda a chamada civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, que est\u00e1 pagando o pre\u00e7o da livre iniciativa e do empenho em preservar a liberdade. A preserva\u00e7\u00e3o da liberdade custa o pre\u00e7o do estado de contesta\u00e7\u00e3o e antagonismo permanente e o esfor\u00e7o pela democracia est\u00e1 ininterruptamente exposto \u00e0s press\u00f5es que querem reduzir tudo, numa ditadura irrevers\u00edvel, ao mesmo denominador comum, em que a dignidade pessoal n\u00e3o conta e em que a unidade ser\u00e1 substitu\u00edda pela uniformidade. Caso em que n\u00e3o haveria mais o que questionar, porque n\u00e3o sobraria mais lugar para a diverg\u00eancia.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A intermit\u00eancia do processo democr\u00e1tico, com seus longos e frequentes per\u00edodos de abstin\u00eancia pol\u00edtica por parte do povo, responde em parte pela deforma\u00e7\u00e3o educacional, atrofiada a dimens\u00e3o pol\u00edtica, mesmo no caso dos que puderam cultivar bastante, e, \u00e0s vezes no mais alto grau, os melhores valores de outra ordem: intelectuais ou f\u00edsicos, morais ou sociais, profissionais, est\u00e9ticos ou religiosos e mesmo c\u00edvicos, que n\u00e3o s\u00e3o exatamente os mesmos do plano pol\u00edtico.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A defici\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9, no entanto, apenas consequ\u00eancia da instabilidade das nossas institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m causa. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que estamos a\u00ed diante de um c\u00edrculo vicioso.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">De nossa parte, reputamos que tr\u00eas medidas s\u00e3o, em qualquer hip\u00f3tese, essenciais \u00e0 educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das novas gera\u00e7\u00f5es: a) \u2013 informar as gera\u00e7\u00f5es novas sobre o significado, as institui\u00e7\u00f5es, as estruturas e o desenvolvimento do processo pol\u00edtico; b) \u2013 ensejar a pr\u00e1tica da din\u00e2mica da pol\u00edtica por parte dos jovens; c) \u2013 despertar e acoro\u00e7oar o esp\u00edrito cr\u00edtico nas gera\u00e7\u00f5es que crescem, com a convic\u00e7\u00e3o de que uma gera\u00e7\u00e3o bem informada e que houver desenvolvido suficientemente seu esp\u00edrito cr\u00edtico n\u00e3o ser\u00e1 presa jamais de qualquer totalitarismo de esquerda, nem de direita.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">O quadro de valores para inspirar o nosso processo de educa\u00e7\u00e3o e ensino encaminha-nos, por certo, a uma forma\u00e7\u00e3o integral da juventude, de modo que se compatibilize o preparo t\u00e9cnico imprescind\u00edvel \u00e0 condi\u00e7\u00e3o social do homem e o acrisolamento dos pendores humanos, de modo que o papel social se case com a realiza\u00e7\u00e3o pessoal.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Se desse quadro fosse oportuno pin\u00e7ar um valor capaz de concorrer para o desenvolvimento nacional e a realiza\u00e7\u00e3o pessoal, n\u00e3o ter\u00edamos d\u00favida em destacar o cumprimento do dever como a maior car\u00eancia dos nossos tempos, segundo lembrou bem Kennedy, e que, ao lado da luta pelos direitos humanos, tem que ser cultivado no interesse da comunidade e da pessoa. A responsabilidade pessoal em todos os n\u00edveis e em todos os setores e momentos da vida individual e coletiva h\u00e1 de ser cultivada.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">C\u00edcero j\u00e1 havia dito que \u201cn\u00e3o h\u00e1 per\u00edodo na vida, p\u00fablica ou particular, isento de deveres\u201d. E o ap\u00f3stolo Paulo, na ep\u00edstola \u201cAd Galatas\u201d, deixou a mensagem: \u201ccada qual carregue sua pr\u00f3pria carga\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">A consci\u00eancia do dever cumprido d\u00e1 uma satisfa\u00e7\u00e3o \u00edntima muito importante para se emprestar sentido \u00e0 vida e valoriz\u00e1-la sempre. Sem nenhum dever a cumprir, disse Jouvert, em seus \u201cPens\u00e9es\u201d: \u201cA vida \u00e9 alguma coisa fl\u00e1cida e sem esqueleto, e n\u00e3o pode manter-se de p\u00e9\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Que cada um fa\u00e7a o seu dever, condi\u00e7\u00e3o sem a qual a ningu\u00e9m \u00e9 l\u00edcito esperar que s\u00f3 os outros cumpram a parte que lhes compete. Como dependemos constantemente da responsabilidade alheia, parece-nos sempre razo\u00e1vel esperar que os outros fa\u00e7am, sem falhar, o que devem fazer. O mesmo, ent\u00e3o, ser\u00e1 igualmente v\u00e1lido por parte dos outros em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s. Eles tamb\u00e9m contam conosco.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">E deixar de lado o desempenho de um dever, por pequeno que seja, \u00e9 abrir o caminho para negligenciar os grandes, como lembrava madame Necker.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 Kant que eleva mais alto a apologia do dever quando, na \u201cCr\u00edtica da Raz\u00e3o Pura\u201d, confessa n\u00e3o conhecer sen\u00e3o duas coisas belas no universo: \u201cO c\u00e9u estrelado sobre nossas cabe\u00e7as e o sentimento do dever\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">Saint-Exup\u00e9ry, generoso exemplo de humanista de a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, testemunha eloquente de que n\u00e3o h\u00e1 incompatibilidade entre o aviador e o poeta, em cuja personalidade, vida e obra se conjugaram a poesia e a t\u00e9cnica, a reflex\u00e3o filos\u00f3fica e a miss\u00e3o militar, o que combateu pela p\u00e1tria e amou ao pr\u00f3ximo como a si mesmo, escreveu na sua obra-prima \u201cO Pequeno Pr\u00edncipe\u201d: \u201cTu te tornas eternamente respons\u00e1vel por aquilo que cativas. Tu \u00e9s respons\u00e1vel pela rosa&#8230;\u201d E em \u201cPiloto de Guerra\u201d: \u201cCada um \u00e9 respons\u00e1vel por todos. Compreendo, pela primeira vez, um dos mist\u00e9rios da religi\u00e3o donde saiu a civiliza\u00e7\u00e3o que reivindico como minha&#8230; Carregar os pecados dos homens&#8230; e cada um de n\u00f3s carrega os pecados de todos os homens\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial,helvetica,sans-serif;\"><span style=\"font-size: 12pt;\">\u201cA coragem de Saint-Exup\u00e9ry em \u2018Terra dos Homens\u2019\u201d, diz Guilaumet, \u201c\u00e9, antes de tudo, um efeito de sua probidade. Sua verdadeira qualidade n\u00e3o \u00e9 essa. Sua grandeza \u00e9 a de sentir-se respons\u00e1vel. Respons\u00e1vel por, pelo avi\u00e3o, pelos companheiros que o esperam. Ele tem nas m\u00e3os a tristeza ou a alegria desses companheiros. Respons\u00e1vel pelo que se constr\u00f3i de novo l\u00e1 entre os vivos, constru\u00e7\u00e3o da qual ele deve participar. Respons\u00e1vel um pouco pelo destino dos homens, na medida do seu trabalho. Ser homem \u00e9, precisamente, ser respons\u00e1vel. \u00c9 experimentar vergonha em face de uma mis\u00e9ria que n\u00e3o parece depender de si. \u00c9 ter orgulho de uma vit\u00f3ria dos companheiros. \u00c9 sentir, colocando a sua pedra, que contribui para construir o mundo\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p>Em toda a magn\u00edfica obra de Saint-Ex, como o chamavam os \u00edntimos, o sentido da responsabilidade permanece presente. Desde \u201cO Pequeno Pr\u00edncipe\u201d \u00e0 \u201cTerra dos Homens\u201d. Como no \u201cPiloto de Guerra\u201d, em que ele disse: \u201cPara ser \u00e9 preciso, antes de tudo, receber um fardo. (&#8230;) Cada um \u00e9 respons\u00e1vel por todos. A Fran\u00e7a era respons\u00e1vel pelo mundo\u201d.<\/p>\n<p>Duas for\u00e7as antag\u00f4nicas se enfrentam no homem. O ego\u00edsmo e o altru\u00edsmo. O ego\u00edsmo \u00e9 natural na criatura humana. Nasce invariavelmente com ela. H\u00e1 quem entenda que o homem nasce naturalmente mau, ou pelo menos ego\u00edsta. Em termos b\u00edblicos, depois do pecado original, o homem nasce mau e \u00e9 redimido posteriormente, a come\u00e7ar pelo batismo, atrav\u00e9s da inicia\u00e7\u00e3o religiosa. Ego\u00edsta, ciumenta, destruidora, a crian\u00e7a nasce m\u00e1? Que instintos e tend\u00eancias a conduzem, antes que a educa\u00e7\u00e3o a encaminhe, com o ideal para a conviv\u00eancia com o semelhante, em termos de solidariedade e de amor. Nunca foi necess\u00e1rio estimular o ego\u00edsmo para que os homens pensassem em si mesmos e agissem em fun\u00e7\u00e3o de seus interesses e conveni\u00eancias. O mandamento necess\u00e1rio foi o do amor ao pr\u00f3ximo. A prega\u00e7\u00e3o de mil\u00eanios continua a ser a mesma: pensa tamb\u00e9m no teu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>A cada minuto a op\u00e7\u00e3o tem que ser tomada. Pensar s\u00f3 em si ou tamb\u00e9m no pr\u00f3ximo? Nas decis\u00f5es maiores, nas grandes encruzilhadas da vida ou no cotidiano, o dilema \u00e9 sempre constante. Cedo ou n\u00e3o cedo meu lugar no \u00f4nibus ao mais velho, fraco, doente ou necessitado? Ceder \u00e9 atender ao impulso do altru\u00edsmo? Mas&#8230; o comodismo \u00e9 outro nome do ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>Narciso, o enamorado de si mesmo, seria talvez o extremo. Em termos caricatos, est\u00e3o exagerados os tra\u00e7os de considera\u00e7\u00e3o exclusiva a si mesmo. Mas, n\u00e3o \u00e9 preciso chegar a extremos para encontrar a cada passo a presen\u00e7a do ego\u00edsmo. S\u00e3o as for\u00e7as que a natureza colocou no homem. O instinto de conserva\u00e7\u00e3o do ser ou da esp\u00e9cie com todas as implica\u00e7\u00f5es, das ostensivas \u00e0s mais sutis. E as deriva\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, objeto de estudos psicanal\u00edticos. De Freud, Adler, Young e seus seguidores: a necessidade de afirma\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia \u00e0 competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O altru\u00edsmo h\u00e1 que ser acoro\u00e7oado. Se para a proje\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo n\u00e3o se faz necess\u00e1rio est\u00edmulo, o altru\u00edsmo pode e deve ser motivado, estimulado, incrementado. O ego\u00edsmo \u00e9 for\u00e7a necess\u00e1ria \u00e0 sobreviv\u00eancia. Pois, o altru\u00edsmo \u00e9 indispens\u00e1vel \u00e0 vida social, e esta, por sua vez, \u00e9 igualmente natural. Ego\u00edsmo \u00e9 preocupar-se consigo mesmo e s\u00f3 agir em fun\u00e7\u00e3o dessa preocupa\u00e7\u00e3o. Altru\u00edsmo \u00e9 preocupa\u00e7\u00e3o com os outros e em fun\u00e7\u00e3o disso proceder. Aqui entra a responsabilidade, que \u00e9 um novo nome para o amor.<\/p>\n<p>Ocupar-se e preocupar-se exclusivamente consigo mesmo \u00e9 eximir-se da responsabilidade. E isso nada tem a ver com o amor. Amor \u00e9 pensar, sentir e agir em fun\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m do interesse do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>A responsabilidade deve ser predominante em qualquer escala de valores inspirada numa filosofia de fundo crist\u00e3o ou, em qualquer hip\u00f3tese, espiritualista e humanista.<\/p>\n<p>Mais do que a obstinada busca do ideal, do que o permanente servi\u00e7o ao bem comum, responsabilidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o acrisolamento crist\u00e3o, espiritualista e humanista, do dever. Responsabilidade \u00e9 amor.<\/p>\n<p>Comecei este pronunciamento agradecendo. Quero termin\u00e1-lo tamb\u00e9m agradecendo. Agrade\u00e7o, na pessoa do presidente Val\u00e9rio Giuli, a recep\u00e7\u00e3o amiga de cada um e de todos os companheiros da Academia. Agrade\u00e7o aos companheiros do Centro do Professorado Paulista a investidura nesta Casa. Agrade\u00e7o a todos os que aqui vieram a presen\u00e7a solid\u00e1ria, a aten\u00e7\u00e3o encorajadora, o est\u00edmulo de confian\u00e7a. Agrade\u00e7o especialmente ao Acad\u00eamico Rosalvo Florentino de Souza a generosidade de sua sauda\u00e7\u00e3o. Trata-se de um companheiro de ideais e de ideias, de iniciativas e lutas, amigo certo nas horas incertas, com quem me identifiquei ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas e a quem agrade\u00e7o agora o pr\u00eamio da sua amizade e a bondade da sua palavra.<\/p>\n<p>Eu agrade\u00e7o sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ACADEMIA PAULISTA DE EDUCA\u00c7\u00c3O Discurso de Posse do Acad\u00eamico Titular\u00a0 S\u00d3LON BORGES DOS REIS \u00a0 Senhor Presidente, Senhores Acad\u00eamicos, Dignas Autoridades, Senhoras e Senhores: \u00a0 Chegar \u00e0 Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o pelo voto solid\u00e1rio dos que a integram, \u00e9 honra que agrade\u00e7o de p\u00fablico a cada um e a todos os acad\u00eamicos, ilustres todos, pelo conhecimento e pela a\u00e7\u00e3o, e prestantes todos ao longo da vida devotada sempre \u00e0 causa humana e social da educa\u00e7\u00e3o. Mas, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a honraria que agrade\u00e7o. 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