{"id":1808,"date":"2018-07-10T17:17:10","date_gmt":"2018-07-10T20:17:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=1808"},"modified":"2018-07-10T17:26:02","modified_gmt":"2018-07-10T20:26:02","slug":"para-o-mestre-com-carinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/para-o-mestre-com-carinho\/","title":{"rendered":"Para o Mestre com carinho"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">Marisa Lajolo \u2013 Titular da cadeira n\u00ba 26<\/h2>\n<h3><strong>I <\/strong><\/h3>\n<h3>Na obra do Professor Antonio Candido, h\u00e1 tr\u00eas textos aos quais retorno com frequ\u00eancia. Enumero-os aqui na sequ\u00eancia de sua produ\u00e7\u00e3o \/ publica\u00e7\u00e3o :<\/h3>\n<h3><em>A literatura e a forma\u00e7\u00e3o do homem\u00a0 <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>&#8211;\u00a0 ensaio que se originou de palestra na 24<sup>a<\/sup>. Reuni\u00e3o Anual (1972) \u00a0\u00a0da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) . Outro \u00e9 o livro <u>Na sala de aula<\/u> : <em>Caderno de an\u00e1lise liter\u00e1ria<\/em> <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Sua primeira edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1985 e seu t\u00edtulo j\u00e1 sugere espa\u00e7o e \u00a0situa\u00e7\u00e3o para a qual os textos nele reunidos foram concebidos . O terceiro \u00e9 o artigo que inspira o evento que d\u00e1 nome \u00e0 <em>Ocupa\u00e7\u00e3o Antonio Candido<\/em>: o ensaio<em> O direito \u00e0 literatura<\/em> :\u00a0 Palestra na <em>Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a e Paz <\/em>(1988), foi inclu\u00eddo no ano seguinte em <u>Direitos Humanos e &#8230;<\/u> <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> , livro organizado por Antonio Carlos Fester . Posteriormente, o texto frequentou outras publica\u00e7\u00f5es e hoje se encontra na colet\u00e2nea <u>\u00a0V\u00e1rios escritos <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/u><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>I I\u00a0 <\/strong><\/h3>\n<h3>Estes tr\u00eas textos t\u00eam sua origem ou seu entorno \u00a0em situa\u00e7\u00f5es de\u00a0 oralidade. <em>A literatura e a forma\u00e7\u00e3o do homem<\/em> e <em>\u00a0O direito \u00e0 literatura <\/em>resultam de palestras . E <u>Na sala de aula<\/u> resulta do preparo de suas aulas, como informa o pref\u00e1cio:<\/h3>\n<h3>As vers\u00f5es iniciais destas e muitas outras an\u00e1lises foram redigidas h\u00e1 bastante tempo . Na maioria, entre 1958 e 1960, quando eu lecionava Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia de Assis, SP . \u00c0 medida que as utilizava nas aulas (&#8230;) elas iam sendo acrescidas e modificadas ; ( p. 06)<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>I I I <\/strong><\/h3>\n<h3>Penso \u2013 com a aval do professor <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> &#8211; que a lapidar formula\u00e7\u00e3o de 1988, <em>O direito \u00e0 literatura <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a>\u00a0 <\/em>retoma, desenvolve e radicaliza a reflex\u00e3o proposta na palestra da d\u00e9cada anterior ( <em>\u00a0A literatura e a forma\u00e7\u00e3o do homem<\/em>, 1972). J\u00e1 a partir de seu t\u00edtulo, a palestra de 1972 apresenta a literatura como fundamental para a forma\u00e7\u00e3o do ser humano , apontando \u201c <em>a fun\u00e7\u00e3o humanizadora da literatura, isto \u00e9, (&#8230;) \u00a0a capacidade que ela tem de confirmar a humanidade do homem<\/em>.\u201d<\/h3>\n<h3>\u00a0Ao longo de seu desenvolvimento, o texto articula o car\u00e1ter formador da literatura com a ideia de que seres humanos t\u00eam \u201c<em>necessidade universal de fic\u00e7\u00e3o e de fantasia<\/em>\u201d\u00a0\u00a0 (&#8230;) e que \u201c<em>a literatura\u201d\u00a0 (&#8230;)\u00a0 \u201c \u00e9 uma das modalidades que funcionam como resposta a esta necessidade universal<\/em> \u201c <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/h3>\n<h3>Esta <em>fun\u00e7\u00e3o formadora da literatura<\/em>, formulada a partir de sua perten\u00e7a ao reino da fic\u00e7\u00e3o, da fantasia e da imagina\u00e7\u00e3o , \u00a0desdobra-se . Logo a seguir, o professor \u00a0sublinha o estabelecimento de la\u00e7os \u2013 na literatura, isto \u00e9, nos textos liter\u00e1rios &#8211;\u00a0 \u201c<em>entre imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e realidade concreta do mund<\/em>o\u201d<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>I V <\/strong><\/h3>\n<h3>\u00c9 a partir desta s\u00edntese entre ( de um lado)\u00a0 fantasia &amp; imagina\u00e7\u00e3o e ( de outro)\u00a0 realidade concreta do mundo, que penso ser poss\u00edvel discutir o aprofundamento que o texto de 1988imprime ao de 1972:<\/h3>\n<h3>( &#8230;) se ningu\u00e9m pode passar vinte e quatro horas sem mergulhar\u00a0 no universo da fic\u00e7\u00e3o e da poesia , a literatura concebida no sentido amplo a que me referi parece corresponder a uma necessidade universal , que precisa ser satisfeita e cuja satisfa\u00e7\u00e3o constitui um direito <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0\u00a0 (p. 242 )<\/h3>\n<h3>Vale a pena observar que, para o professor, a express\u00e3o <em>sentido amplo<\/em> que envelope o <em>conceito <\/em>de literatura na cita\u00e7\u00e3o acima expande e \u2013 expandindo-\u00a0 democratiza de forma exponencial o tipo de texto recoberto pela express\u00e3o<em> literatura <\/em>:<\/h3>\n<h3>Durante a vig\u00edlia a cria\u00e7\u00e3o ficcional ou po\u00e9tica, que \u00e9 a mola da literatura em todos os seus n\u00edveis e modalidades, est\u00e1 presente em cada um de n\u00f3s, analfabeto ou erudito, como anedota, causo, hist\u00f3ria em quadrinhos, notici\u00e1rio policial, can\u00e7\u00e3o popular, moda de viola, samba carnavalesco. Ela se manifesta desde o devaneio amoroso ou econ\u00f4mico no \u00f4nibus, at\u00e9 a aten\u00e7\u00e3o fixada na novela de televis\u00e3o ou na leitura seguida de um romance (p. 174-175 )<\/h3>\n<h3>\u00c9 com base nesta reflex\u00e3o ( que confere identidade liter\u00e1ria tamb\u00e9m a produtos da ind\u00fastria cultural ) que o texto se encerra reafirmando que<\/h3>\n<h3>\u00a0Uma sociedade justa pressup\u00f5e o respeito dos direitos humanos, e a frui\u00e7\u00e3o\u00a0 da arte e da literatura \u00a0em todas as modalidades e em todos os n\u00edveis \u00e9 um direito inalien\u00e1vel ( p.191)<\/h3>\n<h3><strong>\u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3><strong>V <\/strong><\/h3>\n<h3>Os dois textos de que venho tratando at\u00e9 aqui, em paralelo com sua cerrada argumenta\u00e7\u00e3o, mencionam alguns escritores: Dostoievsky, Tom\u00e1s Antonio Gonzaga, Victor Hugo entre outros.<\/h3>\n<h3>Apesar destas esparsas men\u00e7\u00f5es a autores consagrados, <em>A literatura e a forma\u00e7\u00e3o do homem <\/em>\u00a0e <em>O direito \u00e0 literatura <\/em>det\u00eam-se, no que talvez se possa chamar de<em> aportes te\u00f3ricos <\/em>para uma concep\u00e7\u00e3o de literatura como uma das pr\u00e1ticas culturais de profundas implica\u00e7\u00f5es sociais. <em>Aportes te\u00f3ricos<\/em> porque ambos os textos apresentam uma tese: a leitura liter\u00e1ria \u00e9 formadora, reformadora ( e ser\u00e1 que talvez \u00e0s vezes tamb\u00e9m deformadora ? \u00a0\u00a0) de valores, comportamentos, cren\u00e7as , sentimentos e normas e, como tal, direito humano.<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>V I <\/strong><\/h3>\n<h3>\u00a0Este vi\u00e9s te\u00f3rico, no entanto, abandona o protagonismo no livro de 1985-\u00a0 <u>Na sala de aula<\/u>. Nele, o professor arrega\u00e7a as mangas e encena ( e encenando, ensina) maneiras de, no exerc\u00edcio profissional da doc\u00eancia ( e tamb\u00e9m em textos cr\u00edticos ) , democratizar o acesso \u00e0 literatura .<\/h3>\n<h3>No pref\u00e1cio, o livro \u00e9 apresentado como \u201c<em>instrumento de trabalho\u201d (p.06)<\/em>. \u00c9 constitu\u00eddo pela analise de seis poemas <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>,\u00a0 \u00a0apresentados na sequ\u00eancia de estilos que, por representarem as \u00e9pocas em que a hist\u00f3ria liter\u00e1ria brasileira geralmente distribui seu objeto, comparecem a cursos da disciplina \u201cliteratura brasileira\u201d e a livros did\u00e1ticos.<\/h3>\n<h3><em>\u00a0<\/em><\/h3>\n<h3><strong>V I I <\/strong><\/h3>\n<h3>Desrespeitando a cronologia do livro, vou abri-lo no seu quarto cap\u00edtulo, que trata do poema<em> Fant\u00e1stica <\/em>de Alberto de Oliveira .<\/h3>\n<h3>Adoro este poema !\u00a0 ( E me desculpo pelo subjetivismo da escolha pela passagem de <em>\u00a0Cr\u00edtica e mem\u00f3ria <\/em>\u00a0em que o professor resgata o direito do cr\u00edtico ao gosto pessoal e \u00e0 prefer\u00eancia por um ou por outro texto <a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> ) .<\/h3>\n<h3>\u00c9 a partir da an\u00e1lise que o professor faz dele que vou comentar algumas passagens que ilustram procedimentos discursivos pelos quais \u2013 penso- temos uma li\u00e7\u00e3o\u00a0 de como <em>\u00a0democratizar a leitura e a discuss\u00e3o da literatura<\/em>. Isto \u00e9 \u2013 como torn\u00e1-las acess\u00edveis . Pois s\u00f3 democratizando a leitura e a discuss\u00e3o da literatura me parece ser poss\u00edvel fomentar a demanda pela literatura e a luta pelo pleno acesso a ela como um <em>\u00a0direito humano<\/em>: direito a ser reivindicado, e n\u00e3o concedido por benevol\u00eancia .\u00a0 <em>\u00a0<\/em><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>V I I I \u00a0<\/strong><\/h3>\n<h3>Nas an\u00e1lises do professor, o leitor est\u00e1 sempre explicitamente presente.<\/h3>\n<h3>Na discuss\u00e3o do poema <em>Fant\u00e1stica<\/em>, que recebe o sugestivo nome de<em> No cora\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio<\/em>, creio que os leitores ficam com a sensa\u00e7\u00e3o de que era exatamente a cada um deles que o professor se dirigia. E que era exatamente a ela\/ele que o professor atribu\u00eda ( e aplaudia) \u00a0uma determinada rea\u00e7\u00e3o ao texto .<\/h3>\n<h3>Assim:\u00a0 definindo o poema de Alberto de Oliveira como uma <em>\u00a0descri\u00e7\u00e3o pura <\/em>e contrapondo este tra\u00e7o \u00e0 presen\u00e7a de uma primeira pessoa nos dois poemas que antecederam o de Alberto de Oliveira ( de Tom\u00e1s Antonio Gonzaga e de \u00c1lvares de Azevedo ) , o professor se faz int\u00e9rprete solid\u00e1rio de eventuais rea\u00e7\u00f5es do seu\u00a0 leitor :<\/h3>\n<h3>Situado de fora, o leitor v\u00ea um quadro feito para existir por si mesmo, aut\u00f4nomo e sem v\u00ednculos (p.55 ),<\/h3>\n<h3>Tornando, assim, o leitor seu interlocutor, o professor o traz para dentro do seu texto. Os procedimento textuais respons\u00e1veis por tais efeitos de sentido repetem-se em outras passagens da an\u00e1lise de<em> Fant\u00e1stica<\/em>, bem como na an\u00e1lise de outros poemas :<\/h3>\n<h3>Habituado \u00e0s neblinas da poesia contempor\u00e2nea, <em>o leitor fica meio perplexo<\/em> com este discurso despojado e sem mist\u00e9rio, que parece entregar tudo \u00e0 primeira vista; mas <em>nota que<\/em> ele \u00e9 fruto de uma contens\u00e3o elaborada &#8230; ( p. 22, na an\u00e1lise da Lira de Tom\u00e1s Antonio Gonzada .Todos os it\u00e1licos das cirta\u00e7\u00f5es s\u00e3o\u00a0 meus \u00a0)<\/h3>\n<h3>Com efeito, <em>pensa o leitor<\/em>, numa plan\u00edcie onde bebem sombras , os pianos podem ser soltos ( p. 85, na an\u00e1lise de\u00a0 O pastor pianista\u00a0 de Murilo Mendes. )<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>I X<\/strong><\/h3>\n<h3>Na sequ\u00eancia da nomea\u00e7\u00e3o do leitor como um <em>outsider <\/em>\u00a0( situado de fora) do poema de Alberto de Oliveira, refor\u00e7ando o envolvimento do leitor com o que l\u00ea, o professor p\u00f5e em cena uma primeira pessoa do plural :<\/h3>\n<h3>Aqui <em>estamos<\/em> no reinado dos objetos, n\u00e3o dos sujeitos (p.55)<\/h3>\n<h3>Este <em>n\u00f3s<\/em>, generosamente assumido ao longo de quase todos os textos\u00a0 ( e tamb\u00e9m em textos de outros livros ) propicia identifica\u00e7\u00e3o entre quem escreve ( Antonio Candido) e cada leitor \u00a0que est\u00e1 lendo seu ensaio.<\/h3>\n<h3>Na an\u00e1lise de \u00a0<u>Caramuru<\/u> e de <em>\u00a0O Rond\u00f3 dos Cavalinhos<\/em> a mesma primeira pessoa do plural compartilha interpreta\u00e7\u00f5es:<\/h3>\n<h3>De todos os poetas mineiros do s\u00e9culo XVIII Dur\u00e3o \u00e9 o que provavelmente <em>conhecemos<\/em> melhor como homem \u00a0\u00a0( p. 08)<\/h3>\n<h3>Observando a pontua\u00e7\u00e3o, <em>percebemos<\/em> o seguinte ( An\u00e1lise de <em>O Rond\u00f3 dos Cavalinho<\/em> p. 70)<\/h3>\n<h3>Este compartilhamento com seus leitores de pontos de vista apresentados ( no limite, a <em>autoria <\/em>da an\u00e1lise ?) talvez intensifique o envolvimento e, consequentemente, a ades\u00e3o de seus leitores-alunos \u00e0 leitura proposta pela an\u00e1lise, j\u00e1 que ela n\u00e3o \u00e9 oferecida por uma terceira pessoa \u2013 eventualmente distante e superior- mas foi constru\u00edda pela colabora\u00e7\u00e3o do autor com seu leitor.<\/h3>\n<h3>Ou seja; o leitor sente-se capacitado para ler e discutir textos liter\u00e1rios. Como se diria hoje: \u00a0opera-se aqui o <em>\u00a0empoderamento <\/em>do leitor .<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>X <\/strong><\/h3>\n<h3>A este generoso compartilhamento de pontos de vista soma-se um sucessivo desbastamento de interpreta\u00e7\u00f5es \/ \u00a0afirma\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas. Ao inv\u00e9s de leituras e interpreta\u00e7\u00f5es <em>definitivas<\/em>, apresentadas como <em>indiscut\u00edveis<\/em> e <em>verdadeiras<\/em>, leituras e interpreta\u00e7\u00f5es propostas pelo professor pautam-se por tom predominantemente <em>sugestivo, hipot\u00e9tico .<\/em><\/h3>\n<h3>Num tempo como o que vivemos hoje por estas bandas, t\u00e3o sufocado por certezas p\u00e9treas, vale a pena observar o respeito com que o professor trata n\u00e3o s\u00f3 seus leitores \/alunos mas o pr\u00f3prio texto que est\u00e1 analisando.<\/h3>\n<h3>\u00a0Assumindo, na leitura que apresenta dos textos com que trabalha, que sua leitura n\u00e3o \u00e9 nem indiscut\u00edvel, nem definitiva, ao apresentar suas formula\u00e7\u00f5es como<em> hip\u00f3teses<\/em>, Antonio Candido aproxima-se de concep\u00e7\u00f5es bastante contempor\u00e2neas que postulam a<em> abertura <\/em>da obra liter\u00e1ria. Analisando o poema de Alberto de Oliveira, por exemplo, o professor limita-se a sinalizar uma poss\u00edvel \u2013 <em>apenas poss\u00edvel<\/em> ! &#8211;\u00a0 interpreta\u00e7\u00e3o para uma bela passagem:<\/h3>\n<h3>Rio parado \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o em termos, pois a natureza dos rios \u00e9 fluir. No entanto, existe um nestas condi\u00e7\u00f5es: o Aqueronte, que, na mitologia grega \u00e9 ao mesmo tempo barreira defensiva e caminho de ingresso ao reino dos mortos. <em>\u00a0Isto faz crer que o <\/em>\u00a0rio \u201cimoto \u201c cercando o pal\u00e1cio, como fosso protetor, indique a entrada de um lugar desse tipo \u00a0( p. 57\u00a0 )<\/h3>\n<h3>O mesmo procedimento encontra-se em praticamente todas as outras an\u00e1lises do livro, como por exemplo a dedicada ao poema <em>Meu sonho <\/em>de \u00c1lvares de Azevedo: <em>\u00a0<\/em><\/h3>\n<h3><em>\u00a0<\/em>O sonho deste poema <em>parece mais<\/em> um pesadelo &#8230; ( p;. 48, Meu sonho )<\/h3>\n<h3>Mais adiante, a prop\u00f3sito de<em> O pastor pianista <\/em>o adverbio <em>talvez <\/em>e o futuro do pret\u00e9rito relativizam qualquer tra\u00e7o impositivo da leitura apresentada:<\/h3>\n<h3>Entre os pianos e os homens <em>talvez <\/em>haja uma correla\u00e7\u00e3o mais funda, que <em>unificaria<\/em> de maneira dial\u00e9tica a parte\u00a0 impertinente e a pertinente \u00a0\u00a0( p.95 \u00a0)<\/h3>\n<h3>Outros t\u00edtulos da obra de professor valem-se de procedimento id\u00eantico. Em texto de 1943, a prop\u00f3sito de Stendhal, afirma\u00e7\u00f5es categ\u00f3ricas s\u00e3o substitu\u00eddas por um enunciado que manifesta em \u00a0plenitude o procedimento aqui apontado<\/h3>\n<h3>:\u00a0\u00a0 (&#8230;) <em>talvez se possa dizer<\/em> que \u00e9 um psic\u00f3logo mais completo que ambos ( Benjamin Constant\u00a0 &amp; Balzac, ml ) , estando a chave de seus livros &#8230; <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. ( p. 60 )<\/h3>\n<h3>\u00a0Tamb\u00e9m um dos documentos expostos na <em>Ocupa\u00e7\u00e3o Antonio Candido <\/em>materializa, no manuscrito \u00e0 margem, a corre\u00e7\u00e3o pretendida para o texto impresso, o que ilustra a extens\u00e3o deste procedimento na produ\u00e7\u00e3o intelectual do professor, inclusive em \u00e1reas que n\u00e3o se referem a literatura .<\/h3>\n<h3>Trata-se de separata do artigo<em> Poss\u00edveis ra\u00edzes ind\u00edgenas de uma dan\u00e7a popular<\/em>.<em> <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><strong>[12]<\/strong><\/a> <\/em><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<table style=\"height: 386px;\" width=\"616\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"284\">\n<h3 style=\"text-align: center;\">Vers\u00e3o publicada<\/h3>\n<\/td>\n<td width=\"284\">\n<h3 style=\"text-align: center;\">\u00a0Corre\u00e7\u00e3o manuscrita \u00e0 margem<\/h3>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"284\">\n<h3>Com efeito, dentro da melhor verossimilhan\u00e7a, <em>esta se deu<\/em> por interm\u00e9dio da catequese jesu\u00edtica , tendo se desenvolvido em &#8230;<\/h3>\n<\/td>\n<td width=\"284\">\n<h3>\u00a0 Com efeito, <em>o mais plaus\u00edvel \u00e9 que esta tenha ocorrido<\/em> por meio\u00a0 da catequese jesu\u00edtica , tendo se desenvolvido em &#8230;<\/h3>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td colspan=\"2\" width=\"568\">\n<h3 style=\"text-align: center;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 esta se deu\u00a0 &gt; o mais plaus\u00edvel \u00e9 que esta tenha ocorrido \u00a0\u00a0&#8230;<\/h3>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>X I\u00a0 <\/strong><\/h3>\n<h3>Em texto de 1957 a prop\u00f3sito de Jos\u00e9 Lins do Rego o recurso se alarga, deixando de manifestar-se a prop\u00f3sito de uma ou de outra passagem interpretativa, e recobrindo a interpreta\u00e7\u00e3o \/ cr\u00edtica em sua totalidade :<\/h3>\n<h3>Este artigo <em>pretende sugeri<\/em>r que a sua obra se desenvolveu por altos e baixos&#8230;<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> \u00a0( <em>A compreens\u00e3o da realidade<\/em>: in <u>\u00a0O observador liter\u00e1rio <\/u>. p. 31 \u00a0<em>)<\/em><\/h3>\n<h3>O <em>pretende sugerir \u00a0<\/em>da transcri\u00e7\u00e3o acima substitui, com vantagem a assertividade de <em>provar<\/em>, <em>demonstrar, afirmar <\/em>que pontilham tantos textos cr\u00edticos .<\/h3>\n<h3>Como se v\u00ea, vem, assim, \u00a0j\u00e1 nas primeiras publica\u00e7\u00f5es do professor \u2013 ent\u00e3o um jovem soci\u00f3logo que fazia cr\u00edtica liter\u00e1ria em jornais paulistanos enquanto lecionava em Assis \u2013 a consci\u00eancia da import\u00e2ncia do leitor \/ p\u00fablico em assuntos de literatura.\u00a0 Em artigo de 1957 \u2013 rebatizado em <u>Literatura e sociedade<\/u> ( 1<sup>a<\/sup>. ed. 1965) como <em>\u00a0Literatura e vida social<\/em> o professor aponta os tr\u00eas elementos fundamentais da comunica\u00e7\u00e3o art\u00edstica : <em>autor \/ obra \/ p\u00fablico<\/em> ( p. 24)<\/h3>\n<h3>Articula-se com este texto \u00a0a meridiana clareza com que, na \u00a0<u>Forma\u00e7\u00e3o da literatura brasileira<\/u> &#8211; cuja primeira edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1959- \u00a0o professor, a prop\u00f3sito da literatura brasileira,\u00a0 exp\u00f5e a no\u00e7\u00e3o de <em>sistema liter\u00e1rio<\/em>. No segundo par\u00e1grafo do cap\u00edtulo de abertura, l\u00ea-se que a partir do conceito de <em>literatura <\/em>como <em>um sistema de obras ligadas por denominadores comuns <\/em>\u00a0( p. 25)\u00a0 pode-se pensar na literatura como<\/h3>\n<h3>&#8230; um conjunto de produtores liter\u00e1rios mais ou menos conscientes de seu papel, um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de p\u00fablico, sem os quais a obra n\u00e3o vive ;\u00a0 (&#8230;) um mecanismo transmissor ( de modo geral uma linguagem traduzida em estilos) que liga uns a outros <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> (p. 25<strong>)<\/strong><\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3>\u00c9 nesta acurada e precoce percep\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do leitor em discuss\u00f5es \/ reflex\u00f5es sobre a literatura que \u2013 penso \u2013 ancora-se a ideia retomada\u00a0 respectivamente\u00a0 em <em>A literatura e a forma\u00e7\u00e3o do homem <\/em>\u00a0( 1972) <em>\u00a0\u00a0<\/em>e em\u00a0 <em>\u00a0O direito \u00e0 literatura <\/em>\u00a0( 1988) <em>\u00a0<\/em>.<\/h3>\n<h3><\/h3>\n<h3><strong>X I I <\/strong><\/h3>\n<h3>Se \u00e9 veross\u00edmil este percurso do professor na discuss\u00e3o da import\u00e2ncia da literatura como<em> formadora <\/em>\u00a0e, portanto, como um <em>\u00a0direito humano <\/em>, entrevista recente constitui nova e instigante inflex\u00e3o do tema.<\/h3>\n<h3>Trata-se de entrevista ao jornal <u>Brasil de Fato<\/u> publicada em \u00a0agosto de \u00a02011 <a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. E \u00a0que refor\u00e7a a import\u00e2ncia da limpidez do texto cr\u00edtico como fator essencial para a discuss\u00e3o e ensino da literatura\u00a0 :<\/h3>\n<h3>Acho que a clareza \u00e9 um respeito pelo pr\u00f3ximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ci\u00eancias humanas, apesar de serem chamadas de ci\u00eancias, s\u00e3o ligadas \u00e0 nossa humanidade, de maneira que n\u00e3o deve haver jarg\u00e3o cient\u00edfico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. (&#8230;) acho que a clareza \u00e9 necess\u00e1ria inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privil\u00e9gio e se tornar um bem comum<\/h3>\n<h3>Uma coisa que sempre me preocupou muito \u00e9 que os te\u00f3ricos da literatura dizem: \u00e9 preciso fazer isso, mas n\u00e3o fazem.<\/h3>\n<h3>O professor Antonio Candido faz \u00a0&#8230;<\/h3>\n<h3>Faz n\u00e3o apenas n<em>o que diz <\/em>, mas no <em>como diz o que diz<\/em> \u00a0&#8230;<\/h3>\n<h3>E ser\u00e1 muito bom que aprendamos com ele.<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Foi publicado em primeira m\u00e3o na revista<em> Remate de males <\/em>\u00a0( 1999 \u00a0ISSN 2316-5758 )\u00a0 do Departamento de Teoria Liter\u00e1ria da UNICAMP.\u00a0 Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/revistas.iel.unicamp.br\/index.php\/remate\/article\/view\/3560\">http:\/\/revistas.iel.unicamp.br\/index.php\/remate\/article\/view\/3560<\/a><\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> SP. Editora \u00c1tica. S\u00e9rie <em>\u00a0Fundamentos <\/em>.<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u00a0Antonio Carlos Fester ( org) SP: Editora Brasiliense, \u00a01989 .<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <u>V\u00e1rios escritos <\/u><em>. <\/em>Duas Cidades \/ Ouro sobre azul. S.P \/.RJ. 2004 p. 169-191<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> \u00a0<em>\u00a0<\/em>\u00a0Cf. <em>O direito \u00e0 literatura. Op cit. <\/em>\u00a0p.176<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <u>V\u00e1rios escritos <\/u><em>. <\/em>\u00a0Duas Cidades \/ Ouro sobre azul. S.P \/.RJ. 2004 p. 169-191<br \/>\nInspirado neste texto , Aldo Lima organiza a obra <u>O Direito \u00e0\u00a0Literatura <\/u>\u00a0que reproduz o texto do professor. \u00a0Recife: Ed. Universit\u00e1ria da UFPE, 2012.<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Todas as cita\u00e7\u00f5es de <em>\u00a0A literatura e a forma\u00e7\u00e3o do homem <\/em>\u00a0prov\u00eam da vers\u00e3o digital dispon\u00edvel na j\u00e1 mencionada <em>Remate de Males<\/em><\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Todas as cita\u00e7\u00f5es de <em>\u00a0O direito \u00e0 literatura <\/em>\u00a0vem <u>V\u00e1rios escritos <\/u><em>. <\/em>\u00a0Duas Cidades \/ Ouro sobre azul. S.P \/.RJ. 2004 p. 169-191<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Caramuru ( Santa Rita Dur\u00e3o) , Lira 77 ( Tom\u00e1s Antonio Gonzaga), Meu sonho ( \u00c1lvares de Azevedo) , Fant\u00e1stica ( Alberto de Oliveira ), O rondo dos cavalinhos ( Manuel Bandeira ), O pastor pianista ( Murilo Mendes)<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> (\u2026) um cap\u00edtulo vivo da periferia da cr\u00edtica seria o que registrasse com o devido senso de oportunidade a hist\u00f3ria de nossa experi\u00eancia afetiva com as obras ( &#8230;)\u00a0 <em>\u00a0Cr\u00edtica e mem\u00f3ria <\/em>in <u>\u00a0O albatroz e o chin\u00eas <\/u>\u00a0RJ: Ouro sobre azul.2004\u00a0 P.33<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0 <em>Uma dimens\u00e3o entre outras . <\/em>in <u>\u00a0O observador liter\u00e1rio <\/u>. SP : Conselho Estadual de Cultura. 1959 p. 60<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u00a0 <u>Revista de Antropologia<\/u> da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras . v. 4. No. 1. Junho de 1956<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> <em>A compreens\u00e3o da realidade. <\/em>in <u>\u00a0O observador liter\u00e1rio <\/u>. SP : Conselho Estadual de Cultura. 1959 p. 31<\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> <u>\u00a0<\/u>Antonio Candido.<u> Forma\u00e7\u00e3o da literatura brasileira<\/u> . RJ. Ouro sobre azul. 2006 p. 25<strong>)<\/strong><\/h3>\n<h3><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> A\u00a0 entrevista, na \u00edntegra e com coment\u00e1rios de leitores, est\u00e1 dispon\u00edvel\u00a0 em <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/6819\/\">https:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/6819\/<\/a><\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marisa Lajolo \u2013 Titular da cadeira n\u00ba 26 I Na obra do Professor Antonio Candido, h\u00e1 tr\u00eas textos aos quais retorno com frequ\u00eancia. Enumero-os aqui na sequ\u00eancia de sua produ\u00e7\u00e3o \/ publica\u00e7\u00e3o : A literatura e a forma\u00e7\u00e3o do homem\u00a0 [1]&#8211;\u00a0 ensaio que se originou de palestra na 24a. Reuni\u00e3o Anual (1972) \u00a0\u00a0da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) . Outro \u00e9 o livro Na sala de aula : Caderno de an\u00e1lise liter\u00e1ria [2]. Sua primeira edi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1985 e seu t\u00edtulo j\u00e1 sugere espa\u00e7o e \u00a0situa\u00e7\u00e3o para a qual os textos nele reunidos foram concebidos . 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