{"id":183,"date":"2011-06-06T18:28:41","date_gmt":"2011-06-06T21:28:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2011\/06\/06\/impressoes-sobre-a-producao-literaria-de-munlheres-na-ficcao-e-na-critica-contemporanea\/"},"modified":"2011-06-06T18:28:41","modified_gmt":"2011-06-06T21:28:41","slug":"impressoes-sobre-a-producao-literaria-de-munlheres-na-ficcao-e-na-critica-contemporanea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/impressoes-sobre-a-producao-literaria-de-munlheres-na-ficcao-e-na-critica-contemporanea\/","title":{"rendered":"Impress\u00f5es sobre a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de mulheres na fic\u00e7\u00e3o e na critica contempor\u00e2nea."},"content":{"rendered":"<p>Impress\u00f5es sobre a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de mulheres na fic\u00e7\u00e3o e na cr\u00edtica contempor\u00e2nea.<br \/>M\u00e1rcia L\u00edgia Guidin <br \/>Palestra proferida na IV Jornada Internacional de MULHERES ESCRITORAS. SESC Pinheiros. <br \/>S\u00e3o Paulo, dias 18 e 19 de maio de 2011.<\/p>\n<p>Fico muito honrada com o convite, no papel de editora, professora e estudiosa que fui por muitos anos da literatura feminina feita no Brasil por mulheres, e o consequente estudo da cr\u00edtica a essa produ\u00e7\u00e3o. <br \/>Para iniciar minhas impress\u00f5es, gostaria de lhes dar alguns dados gerais: O pr\u00eamio Jabuti de 2008, nas categorias de contos e romances, premiou 4 homens e duas mulheres; em 2009, premiou 6 homens e nenhuma mulher; em 2010, premiou 5 homens e uma mulher. <br \/>Um olhar mais afoito\u00a0 aos n\u00fameros diria que os homens se sobrep\u00f5em, \u201cporque o mundo \u00e9 patriarcal\u201d,\u00a0 \u201cporque as mulheres t\u00eam pouca repercuss\u00e3o\u201d, \u201cporque s\u00e3o menos editadas, pouco apoiadas pela cr\u00edtica\u201d etc. <br \/>Discordo frontalmente de tais coloca\u00e7\u00f5es. <br \/>\u00a0H\u00e1 menos mulheres premiadas, pois h\u00e1 menos mulheres escrevendo, e, muitas das que\u00a0 escrevem\u00a0 est\u00e3o atrasadas ao menos 40 anos em estilo, f\u00f3rmulas, temas e investiga\u00e7\u00e3o da linguagem contempor\u00e2nea adequada. Isso faz sentido? Creio que sim \u2013 at\u00e9 quanto \u00e0 cr\u00edtica: quantas mulheres fazem cr\u00edtica liter\u00e1ria hoje em dia? <br \/>\u00a0No Jornal Rascunho, um dos poucos s\u00edtios e impressos de cr\u00edtica liter\u00e1ria do pa\u00eds,\u00a0 tempos uma m\u00e9dia de 11 ou 12 cr\u00edticos para 3 cr\u00edticas por edi\u00e7\u00e3o. No ultimo Guia da Folha de S. Paulo para livros, filmes etc,\u00a0 ao menos o ultimo que li em maio de 2011, h\u00e1 uma (sim, somente uma) mulher para 14 resenhistas.<\/p>\n<p>QUAIS SERIAM AS RAZ\u00d5ES DESSA PARCA PRESEN\u00c7A FEMININA? <br \/>Usarei uma digress\u00e3o hist\u00f3rica para tentar encontrar respostas ao quadro, que me permito explicar por enumera\u00e7\u00f5es: <br \/>1.\u00a0Na d\u00e9cada de 1980, faz\u00edamos teses sobre Clarice Lispector (1920 a 1977) quando nasceu a Anpoll (Asssocia\u00e7\u00e3o das P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00f5es de todo o pa\u00eds); havia encontros anuais em v\u00e1rios estados. E dentro da Anpoll havia um grupo chamado \u201cGT A mulher na Literatura\u201d. Dele participaram estudiosas estrangeiras e brasileiras. (N\u00e1dia Battella Gotlib, Elza Min\u00e9, Const\u00e2ncia Lima Duarte e estrangeiras como a holandesa Ria Lemaire ou a americana Ellen Douglass.)<\/p>\n<p>2.\u00a0As mulheres estavam descobrindo mais vigorosamente as p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es e os estudos acad\u00eamicos. Foi um momento no Brasil, em que orientadores orientavam mais mulheres que homens; eles nos\u00a0 aceitavam porque, com qualidades discentes\u00a0 ou n\u00e3o, \u00e9ramos muitas. Houvera, pouco antes,\u00a0 um divisor de \u00e1guas, pois a carga de opress\u00e3o da ditadura mais negra (1964-74) tinha abrandado e, com ela, o recorrente estudo acad\u00eamico dos demais autores engajados, como Graciliano Ramos, por exemplo. A contracultura (1968), que chegou logo ao Brasil, exigia mostrar o \u201clugar do sujeito\u201d no mundo. Ou seja, as representa\u00e7\u00f5es dos desejos do indiv\u00edduo convertiam-se em necessidade de leitura e observa\u00e7\u00e3o. E, para isso, o texto feito por mulheres bem se prestava;\u00a0 e as mulheres gostavam de estud\u00e1-los. Assim, inicia-se um grande boom de estudos e textos femininos.<\/p>\n<p>3.\u00a0Nessa \u00e9poca, mais mulheres, professoras, artistas, celebridades escreviam em jornais e revistas e o jornalismo foi o lugar de muitas cronistas da \u00e9poca no Brasil, que passaram a fazer fic\u00e7\u00e3o ou at\u00e9 o contr\u00e1rio: da fic\u00e7\u00e3o foram para os jornais, como foi o caso de Clarice Lispector e outras. A exist\u00eancia da Revista Claudia, com seu \u201cfeminismo conservador\u201d (releve-se o paradoxo), ajudou muito a alocar mulheres comentadoras e resenhistas, bem como novos\u00a0 programas de TV.<\/p>\n<p>4.\u00a0Apareceu, com muito arru\u00eddo, um grande contingente de professoras e estudiosas tentando trazer \u00e0 tona, com seus estudos, escritoras do Brasil do s\u00e9culo 19 e 20, como N\u00edsia Floresta, Francisca Julia, Julia Lopes de Almeida, Carmen Dolores, Tereza Margarida da Silva Horta, Josefina \u00c1lvares de Azevedo. Tinham as estudiosas a inten\u00e7\u00e3o de mostrar qual feminista era o Brasil, antes dos anos 50. O tempo, contudo, mostrou que, apesar das pesquisas acad\u00eamicas e de algumas publica\u00e7\u00f5es posteriores, esses nomes n\u00e3o foram resgatados para eficiente ingresso na literatura brasileira feita por mulheres. Ou seja, poucas dessas mulheres foram resgatadas com sua literatura para instalar-se no pante\u00e3o das escritoras brasileiras. (E como o governo deu bolsas de estudos para tais pesquisas&#8230;)<\/p>\n<p>5.\u00a0Hoje, quando lemos os ensaios e os livros dessa \u00e9poca, vemos que muito da cr\u00edtica (quase feita s\u00f3 por mulheres) estava baseada no biografismo das antigas escritoras \u201clivres e independentes\u201d. As ensa\u00edstas, salvo exce\u00e7\u00f5es,\u00a0 buscavam revelar em seus estudos a independ\u00eancia mental e o poder que tais escritoras teriam exercido em sua regi\u00e3o de origem,\u00a0 em sua \u00e9poca \u2013 o que nem sempre deu certo ou foi efetivamente relevante.<\/p>\n<p>6.\u00a0Quero afinal dizer que os v\u00e1rios estudos cr\u00edticos, com honrosas exce\u00e7\u00f5es, liam nos textos das escritoras um vi\u00e9s feminista (sob conceito mais trivial, sem levar em considera\u00e7\u00e3o a especificidade do discurso liter\u00e1rio, a qualidade est\u00e9tica, po\u00e9tica, o aspecto liter\u00e1rio do texto em si, a mensagem enquanto c\u00f3digo \u2013 o que certamente \u00e9 bem maior que tem\u00e1ticas feministas, existentes ou n\u00e3o nos textos. Em resumo: muitas dessas escritoras reabilitadas por estudos escreviam mal e pouco.<\/p>\n<p>7.\u00a0Por outro lado, mulheres que escreviam \u201ccomo homens\u201d (dizia-se isso, sim! E ainda se diz) eram deixadas de lado nos estudos cr\u00edticos, como Raquel de Queiroz, Z\u00e9lia Gatai, N\u00e9lida Pinon, Hilda Hilst e algumas outras. Por seu lado, poetas, como Cec\u00edlia Meireles, Ad\u00e9lia Prado e Alice Vieira demandavam poucos estudos.<\/p>\n<p>CLARICE LISPECTOR: <br \/>8.\u00a0A maioria das estudiosas (incluindo-me a mim mesma) debru\u00e7ou-se sobre Clarice Lispector e, dado o grande interesse provocado pelo seu texto intimista, declarou Clarice como escritora feminista (excluindo-me a mim mesma e a poucas outras vozes). Clarice seria, segundo as cr\u00edticas, a herdeira brasileira de Virginia Woolf e Katherine Mansfield \u2013 escritoras que a teriam inspirado em seu suposto feminismo liter\u00e1rio e quanto ao discurso da introspec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>9.\u00a0Ou seja, os romances e contos de Clarice seriam todos produtos do desejo ostensivo de a escritora criar um universo ostensivo de mulheres belicistas quanto \u00e0 cultura patriarcal \u2013 para as leitoras mulheres e para o mundo moderno.<\/p>\n<p>10.\u00a0Clarice foi dissecada por brasileiras e estrangeiras. Havia pouqu\u00edssimos estudiosos homens de Clarice, jovens estudantes; um grande nome se destacou: Benedito Nunes, do Par\u00e1, que estudou dela o aspecto filos\u00f3fico e a constru\u00e7\u00e3o peculiar da l\u00edngua na estrutura da obra.<\/p>\n<p>EQU\u00cdVOCO:<\/p>\n<p>11.\u00a0Essa abordagem cr\u00edtica da obra clariceana, j\u00e1 na \u00e9poca, foi considerada equivocada por uma\u00a0 outra parte da cr\u00edtica (feita por homens e mulheres) que estava apoiada na psican\u00e1lise (caso de Cleuza Rios) ou na cr\u00edtica biogr\u00e1fico-hermen\u00eautica e interpretativa de grande f\u00f4lego (como N\u00e1dia Gotlib e Leyla Perrone Moyses).<\/p>\n<p>12.\u00a0 Muitos cr\u00edticos achavam que se criara um c\u00edrculo conc\u00eantrico e eg\u00f3tico em que mulheres ensa\u00edstas se debru\u00e7avam sobre escritoras mulheres, cujas protagonistas eram, na maioria, mulheres. Ou seja, estava criada uma esp\u00e9cie de c\u00edrculo vicioso das vozes femininas, que s\u00f3 conseguem fazer certo barulho se estivem assim enoveladas. Curiosamente, pouca gente da lingu\u00edstica ou da estil\u00edstica apareceu para estudar escritoras mulheres. As mulheres que estudavam as \u201ccolegas\u201d eram na maioria dos casos\u00a0 hostis ao \u201cmundo patriarcal\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>13.\u00a0Advers\u00e1rios do grupo \u201cMulheres na literatura\u201d tentaram mostrar v\u00e1rios equ\u00edvocos. Estudiosos, discretos ou n\u00e3o, diziam que Clarice Lispector era \u201cbem mais que uma escritora mulher\u201d, ao tratar de temas e afli\u00e7\u00f5es\u00a0 do feminino; era uma escritora quase p\u00f3s-moderna, que, tendo absorvido influ\u00eancias estil\u00edsticas e t\u00e9cnicas das escritoras europ\u00e9ia,s fora capaz de \u201clevar a l\u00edngua portuguesa a dom\u00ednios muito pouco explorados com suas met\u00e1foras ins\u00f3litas\u201d, como dissera Antonio Candido logo ao in\u00edcio da carreira da escritora. Eu tentei dizer isso muitas vezes. Clarice n\u00e3o foi feminista. Foi uma grande voz de desvelamento do mundo feminino, com todas as suas dores existenciais, e n\u00e3o de g\u00eanero. N\u00e3o fui ouvida, e ainda n\u00e3o sou.<\/p>\n<p>14.\u00a0 O fato \u00e9 que as mulheres cr\u00edticas de Clarice instalaram a escritora num feminismo beligerante contra o homem e transformaram suas protagonistas em queimadoras de suti\u00e3s e mulheres vingativas. Equ\u00edvoco. A Clarice dos contos, por exemplo, (La\u00e7os de Fam\u00edlia, A legi\u00e3o estrangeira, Felicidade Clandestina) era deixada de lado, pois suas protagonistas eram donas de casa que, depois de certas epifanias existenciais, desligavam o fog\u00e3o, o interruptor e iam dormir.<\/p>\n<p>15.\u00a0Em vez dos contos, liam-se os romances mais obscuros (o que possibilitou as mais extravagantes interpreta\u00e7\u00f5es), como A ma\u00e7\u00e3 no escuro, A Paix\u00e3o segundo G. H., O livro dos prazeres e \u00c1gua Viva, em que as protagonistas eram pintoras, escultoras, professoras, bebiam como homens, eram ricas e\/ou independentes, frequentavam lojas finas e tinham v\u00e1rias servi\u00e7ais, etc. Enfim, tinham uma vida invej\u00e1vel \u201cfora do lar\u201d. Chegaram a valorizar um romance bastante ruim,\u00a0 que at\u00e9 Clarice declarou detestar, Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.<\/p>\n<p>16.\u00a0Creio que a cr\u00edtica feminista aos escritos de Clarice parecia buscar glamour, fosse na personagem, ou na proje\u00e7\u00e3o pouco cient\u00edfica com que se debru\u00e7avam sobre o texto, \u00e0s vezes, de fato, criador de pedantismo social : Angela Pralini, de Um sopro de vida; G. H., de A paix\u00e3o segundo G,. H.; a tola L\u00f3ri, de O livro dos prazeres, ou a cr\u00f4nica O ch\u00e1, em que a narradora, de certa forma, exp\u00f5e seu mal-estar diante das criadas da casa.<\/p>\n<p>\u00a0MACAB\u00c9A<\/p>\n<p>17.\u00a0At\u00e9 Suzana Amaral, a cineasta que filmou A hora da estrela (1986), que foi entrevistada por mim para um livro sobre a obra de mesmo nome,\u00a0 buscou esse glamour. Eu lhe perguntei por que ela mudara o final do romance, por que dera\u00a0 Macab\u00e9a um del\u00edrio com noivo louro, um cavalo branco e um lindo vestido azul. Ela me respondeu: \u201cA vida dela era t\u00e3o triste, que ela merecia ter uma recompensa, uns \u2018morangos com chantilly\u2019\u201d. (p. 99 de A hora da estrela, Roteiro de leitura- Atica)<\/p>\n<p>18.\u00a0 A cr\u00edtica contr\u00e1ria insistia que o fato de suas protagonistas serem todas mulheres, terminando por Macabea (a mais miser\u00e1vel de todas), n\u00e3o transformou a escritora pura e simplesmente em escritora feminista. O que se disse, mas para poucos compreenderem, \u00e9 que Clarice avaliou, ao escrever, o doloroso processo da cria\u00e7\u00e3o e a fun\u00e7\u00e3o do escritor no mundo. E isso independe de ser o escritor homem ou mulher.<\/p>\n<p>19.\u00a0Essa interpreta\u00e7\u00e3o hoje encontrou um consenso mais justo para com a obra de Clarice. \u00c0s vezes ainda aparece um forasteiro, como Benjamin Moser, o jovem norte-americano que acha importante dizer que \u201ca m\u00e3e de Clarice teria sido\u00a0 estuprada na R\u00fassia, antes de vir ao Brasil. Como se isso fosse importante para a cr\u00edtica interpretativa da obra da escritora.<\/p>\n<p>PARA QUE DIGO TUDO\u00a0 ISSO? <br \/>20\u00a0.Porque, hoje, 35 anos depois do \u201cboom\u201d dos estudos cr\u00edticos sobre escritoras mulheres no Brasil, reconhece-se o quanto a cr\u00edtica (feminina) esteve equivocada, o quanto muitas das mulheres escreviam, mergulhadas no pr\u00f3prio umbigo, sobre seu momento interior exacerbado. E o quanto a cr\u00edtica se deleitava com tal desequil\u00edbrio interior&#8230; <br \/>a)\u00a0A experi\u00eancia est\u00e9tica mitopo\u00e9tica, se existiu, n\u00e3o foi vista. <br \/>b)\u00a0A escolha est\u00e9tica consciente, vigilante das escritoras, se existiu, n\u00e3o foi vista.<\/p>\n<p>20.\u00a0 Ou seja, temo que n\u00f3s ainda estejamos nesse diapas\u00e3o quando escrevemos ou quando fazemos cr\u00edtica ao texto escrito por mulheres. Creio que vale a pena pensarmos:<br \/>\u00a0<br \/>1)\u00a0As escritoras ainda est\u00e3o escrevendo para si mesmas, registrando somente a exacerbada experi\u00eancia interior, entregando-se ao fluxo do pensamento e despreocupadas com o enredo, apropriando-se de discursos ultrapassados, datados, e controversos desde que se impuseram \u00e0 cr\u00edtica? Um texto como o da \u00f3tima escritora Helo\u00edsa Seixas n\u00e3o resvala, a despeito dos tempos, nos textos clariceanos da d\u00e9cada de 50? Por exemplo:<\/p>\n<p>\u201cGuardou o segredo como se fosse um diamante, no fundo da uma caixa de veludo negro. E, um ap\u00f3s outro, amontoando-se, sedimentando-se, os anos se passaram. [&#8230;] Num turbilh\u00e3o, a paix\u00e3o que sentida pela vida inteira desprendeu-se do fundo de veludo negro e explodiu, em todas as dire\u00e7\u00f5es, enchendo o mundo, a atmosfera, a humanidade inteira, com seu veneno. Agora, letal.\u201d [\u201cCaixa de Pandora\u201d, p. 20] (Helo\u00edsa Seixas, 2009)<\/p>\n<p>2. O que seria hoje, a tal \u201cgram\u00e1tica feminina\u201d? Ela existe? Tem rela\u00e7\u00e3o com o g\u00eanero, o sexo\u00a0 de quem escreve? Hoje um escritor, bastante premiado, como Fabricio Carpinejar, escreve coisas assim, que sem a identifica\u00e7\u00e3o do sujeito passaria facilmente por \u2018gram\u00e1tica feminina\u2019.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sei como dizer isso: estou gr\u00e1vido de voc\u00ea. Talvez n\u00e3o descubra. Talvez nunca o veja. Mas o filho \u00e9 seu. Em meu ventre. Ventre de homem que se esconde como uma pedra de rio. Nosso filho abrir\u00e1 minha carne como um punhal verde e me far\u00e1 buscar seus tra\u00e7os mais do que os meus. Daquela noite, fiquei gr\u00e1vido. N\u00e3o nos falamos. O milagre de multiplicar sua aus\u00eancia. Tive medo de sua rea\u00e7\u00e3o e recusei contar. N\u00e3o queria que permanecesse comigo pela crian\u00e7a. N\u00e3o queria uma esmola e caridade. N\u00e3o, se eu n\u00e3o fui grande o suficiente para ser seu amor, n\u00e3o aceito ser motivo menor de compaix\u00e3o. Que me esque\u00e7a, n\u00e3o me recorde para fazer um favor. N\u00e3o vivemos de favor, vivemos para pagar tudo o que imaginamos em sil\u00eancio. Sei como dizer isso: estou gr\u00e1vido de voc\u00ea. Talvez n\u00e3o descubra. Talvez nunca o veja. Mas o filho \u00e9 seu. Em meu ventre.\u201d (Fabricio Carpinejar)<br \/>21.\u00a0 Ora, todas as batalhas do feminismo foram lutadas. E vencidas no tempo e na contemporaneidade que nos equilibrou: se ainda insistirmos na literatura feminina e\/ou feminista, estamos mantendo guetos envelhecidos como se houvesse (e h\u00e1 quem ache que sim) literatura dos \u00edndios, dos homossexuais, dos favelados, dos negros, dos oprimidos. Mulheres que escrevem como homens \u00e9 um paradoxo, j\u00e1 que mulheres e homens devem escrever como escritores, n\u00e3o como representantes de g\u00eanero.<\/p>\n<p>22.\u00a0Para encerrar, sugiro a leitura de trechos contempor\u00e2neos de escritoras muito bem posicionadas nas cr\u00edticas. Algumas delas escrevem como homens, mulheres ou o qu\u00ea?<\/p>\n<p>A velha est\u00e1 sentada \u00e0 mesa. As m\u00e3os tr\u00eamulas cruzadas \u00e0 frente, na altura do rosto, como se rezasse. Dessas m\u00e3os escorrem veias grossas que parecem carregar em sua seiva a hist\u00f3ria de muitas d\u00e9cadas. S\u00e3o m\u00e3os como troncos, como garras de p\u00e1ssaros, de pele \u00e1spera e desenhada por sulcos, veios, n\u00f3s. Traz manchas de v\u00e1rios matizes, mapas de segredos e descobrimentos. H\u00e1 beleza nessas m\u00e3os, nesses bra\u00e7os desfeitos. \u00c9 a mesma beleza que vemos nas constru\u00e7\u00f5es antigas, nas ru\u00ednas. S\u00f3 que ali \u00e9 pedra \u2013 e n\u00e3o a pele \u2013 que nos conta hist\u00f3rias. (A beleza das ru\u00ednas, Helo\u00edsa Seixas).<\/p>\n<p>Enquanto caminhava e olhava para os meus sapatos fodidos, eu pensava que a vida \u00e9 uma coisa engra\u00e7ada. Ela vai sozinha, como um rio, se voc\u00ea deixar. Voc\u00ea tamb\u00e9m pode botar um cabresto, fazer da vida seu cavalo. A gente faz o que quer. Cada um escolhe sua sina, cavalo ou rio. (O Matador, Patricia Melo)<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Lu\u00edsa, tenho trinta e sete anos e sempre julguei imposs\u00edvel terminar meu caso com M\u00e1rio. Passei a sofrer a s\u00edndrome do fracasso pr\u00e9vio, j\u00e1 tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Est\u00e1vamos juntos h\u00e1 mais de oito anos, mas M\u00e1rio s\u00f3 prometia casamento quando bebia al\u00e9m da conta. S\u00f3brio, tinha sempre um punhado de raz\u00f5es: o filho, os cachorros, a casa, a mulher, o papagaio, a m\u00e3e doente, a grana. No come\u00e7o foi um romance muito apaixonado. Acredit\u00e1vamos que hav\u00edamos nascido um para o outro. Hoje, aquele amor mais parecia um c\u00e2ncer ou v\u00edcio que n\u00e3o se cura. Sempre esperei que um milagre acontecesse. (Rond\u00f3, Ivana Arruda Leite)<\/p>\n<p>Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos bra\u00e7os sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de sil\u00eancio e n\u00e3o v\u00e1 embora batendo a porta, mas entenda que n\u00e3o o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e n\u00e3o se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba minha fragilidade e n\u00e3o ria de mim, nem se aproveite disso. Que se eu fa\u00e7o uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque tamb\u00e9m preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro n\u00e3o pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta quanto me do\u00eda id\u00e9ia da perda, e ouse ficar comigo um pouco \u2013 em lugar de voltar logo \u00e0 sua vida. (Can\u00e7\u00e3o das Mulheres, Lya Luft)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Impress\u00f5es sobre a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de mulheres na fic\u00e7\u00e3o e na cr\u00edtica contempor\u00e2nea.M\u00e1rcia L\u00edgia Guidin Palestra proferida na IV Jornada Internacional de MULHERES ESCRITORAS. SESC Pinheiros. S\u00e3o Paulo, dias 18 e 19 de maio de 2011. Fico muito honrada com o convite, no papel de editora, professora e estudiosa que fui por muitos anos da literatura feminina feita no Brasil por mulheres, e o consequente estudo da cr\u00edtica a essa produ\u00e7\u00e3o. Para iniciar minhas impress\u00f5es, gostaria de lhes dar alguns dados gerais: O pr\u00eamio Jabuti de 2008, nas categorias de contos e romances, premiou 4 homens e duas mulheres; em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-183","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=183"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/183\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}