{"id":221,"date":"2012-09-24T12:54:47","date_gmt":"2012-09-24T15:54:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2012\/09\/24\/um-bate-papo-com-padre-vieira\/"},"modified":"2012-09-24T12:54:47","modified_gmt":"2012-09-24T15:54:47","slug":"um-bate-papo-com-padre-vieira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/um-bate-papo-com-padre-vieira\/","title":{"rendered":"Um bate-papo com Padre Vieira"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um bate-papo com Padre Vieira<\/p>\n<p>Vieira \u00e9 quase unanimidade. A maioria se refere a ele como tendo sido o maior expoente da nossa l\u00edngua, tanto na arte de falar quanto na arte de escrever.\u00a0 Mesmo os que o colocam em p\u00e9 de igualdade e at\u00e9 em posi\u00e7\u00e3o inferior a um seu contempor\u00e2neo, o autor de &#8216;Nova floresta&#8217;, Padre Manuel Bernardes, n\u00e3o deixam de reconhecer seus m\u00e9ritos. <br \/>O fil\u00f3logo Silveira Bueno, com quem tive o privil\u00e9gio de conviver durante seus \u00faltimos anos de vida, ao se referir \u00e0 excel\u00eancia dos textos produzidos por Rui Barbosa, disse: ningu\u00e9m escreveu melhor que Rui Barbosa, somente o Padre Vieira, que foi o professor dele.<br \/>H\u00e1 pessoas que valeria a pena ter conhecido. Sem d\u00favida o Padre Antonio Vieira \u00e9 uma delas. Imagino como seria instigante trocar dois dedos de conversa com esse g\u00eanio da orat\u00f3ria sacra. Com base em sua obra e sua biografia resolvi imaginar essa conversa. As respostas, com algumas \u201clicen\u00e7as po\u00e9ticas\u201d, est\u00e3o em seus pr\u00f3prios escritos.<br \/>Polito &#8211; Algumas pessoas julgam que o senhor tenha nascido no Brasil, porque fazem essa confus\u00e3o? Quem foram seus pais?<br \/>Vieira &#8211; Talvez pelo fato de eu ter vindo ainda menino para o Brasil. Nasci em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608 e vim para o Brasil quando ainda n\u00e3o havia completado 8 anos. Sou filho de Cristov\u00e3o Vieira Ravasco e de D. Maria de Azevedo.<br \/>P &#8211; Como nasceu sua voca\u00e7\u00e3o para o sacerd\u00f3cio?<br \/>V &#8211; Iniciei meus estudos no col\u00e9gio da Companhia de Jesus, na Bahia, e encontrei ali campo f\u00e9rtil para despertar minha voca\u00e7\u00e3o. Na verdade, descobri de um momento para outro que esta seria a vida que desejava. Em 1623 ouvi uma prega\u00e7\u00e3o do Padre Manuel do Carmo, que falava sobre as penas infernais, e fiquei encantado. Naquele momento senti que seria sacerdote. <br \/>P &#8211; Como foi o in\u00edcio de seus estudos para se tornar sacerdote?<br \/>V &#8211; Entrei para a Companhia de Jesus aos 15 anos de idade. N\u00e3o foi f\u00e1cil porque meus pais foram muito resistentes a essa minha decis\u00e3o. Tive de fugir para ingressar no Col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas, e pude professar ainda jovem, com 17 anos, no dia 6 de maio de 1625.<br \/>P &#8211; Seu gosto pela orat\u00f3ria tamb\u00e9m come\u00e7ou cedo?<br \/>V &#8211; Aos 18 anos atuei como professor de ret\u00f3rica em Olinda. Escolhi como tema das minhas aulas as obras de S\u00eaneca e Ov\u00eddio. Confesso, entretanto, que n\u00e3o me sentia bem com essa atividade fechada em sala de aula, meu anseio era o de me envolver com a vida mission\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio do meu contempor\u00e2neo Manuel Bernardes, que sempre foi mais contemplativo, eu desejava a\u00e7\u00e3o.<br \/>P &#8211; N\u00e3o vejo o Padre Manuel Bernardes como sendo um homem apenas contemplativo.<br \/>V &#8211; Eu n\u00e3o disse que ele foi apenas contemplativo, mas sim que foi mais contemplativo. E estava fazendo essa observa\u00e7\u00e3o apenas para tentar esclarecer a vida que escolhi para mim.<br \/>P &#8211; Quando se tornou padre?<br \/>V &#8211; Os jesu\u00edtas pediram que eu ficasse na Bahia para concluir os estudos de Filosofia e Teologia. Assim, pude ser ordenado padre em 1635. Sempre gostei do p\u00falpito. Em 1640 proferi um dos meus serm\u00f5es preferidos, Serm\u00e3o contra os holandeses &#8211; Bom sucesso das armas de Portugal contra a Holanda. <br \/>P &#8211; N\u00e3o foi nesse serm\u00e3o que o senhor confrontou e interpelou Deus?<br \/>V &#8211; Absolutamente. Meu objetivo foi o de levantar o \u00e2nimo da nossa gente, usando argumentos leg\u00edtimos para persuadir Deus a nos ajudar. Jamais poderia confrontar Deus sendo eu um de seus servos mais fieis.<br \/>P &#8211; O senhor disse, entretanto, nesse serm\u00e3o &#8211; &#8216;N\u00e3o hei de pregar hoje ao povo, n\u00e3o hei de falar com os Homens, mais alto h\u00e3o de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito Divino se h\u00e1 de dirigir todo o serm\u00e3o&#8217;.<br \/>V &#8211; Sim, disse. Foi apenas um recurso ret\u00f3rico para chamar a aten\u00e7\u00e3o daqueles que me ouviam. Se na verdade eu desejasse apenas que Deus me ouvisse faria sozinho uma prece silenciosa, n\u00e3o um serm\u00e3o.<br \/>P &#8211; Acho dif\u00edcil entender.<br \/>V &#8211; Entenderia melhor se voc\u00ea estivesse l\u00e1 no ano de 1640, diante de uma batalha.<br \/>P &#8211; O senhor foi acusado de misturar religi\u00e3o com pol\u00edtica. Em algum momento suas atividades favoreceram os poderosos?<br \/>V &#8211; Essa \u00e9 uma invencionice daqueles que nunca se conformaram com a sinceridade das minhas prega\u00e7\u00f5es. No Serm\u00e3o dos Escravos, que preguei no ano de 1653, em S\u00e3o Luis do Maranh\u00e3o, para a 1\u00aa Dominga da Quaresma, enfrentei os mais poderosos pleiteando que libertassem os \u00edndios do cativeiro, pois considerava pecado mortal escraviz\u00e1-los. <br \/>E respondendo diretamente \u00e0 sua pergunta uso as palavras que disse nesse mesmo serm\u00e3o: &#8216;Subir ao P\u00falpito para dar desgosto, n\u00e3o \u00e9 de meu \u00e2nimo, e muito menos a pessoas a quem eu desejo todos os gostos, e todos os bens. Por outra parte, subir ao P\u00falpito e n\u00e3o dizer a verdade \u00e9 contra o of\u00edcio, contra a obriga\u00e7\u00e3o, contra a consci\u00eancia; principalmente em mim, que tenho dito tantas verdades, e com tanta liberdade, e a t\u00e3o grandes ouvidos. Por esta causa resolvi trocar um servi\u00e7o de Deus por outro: e ir-me doutrinar os \u00edndios por essas aldeias&#8217;. Se disser o que eu disse com tanta coragem \u00e9 ser pol\u00edtico, ent\u00e3o eu fui um pol\u00edtico.<br \/>P &#8211; Embora, de certa forma, a nossa conversa n\u00e3o esteja ligada apenas a arte de falar em p\u00fablico, gostaria de ser mais espec\u00edfico neste assunto. Lendo seus serm\u00f5es ser\u00e1 poss\u00edvel aprender a falar em p\u00fablico?<br \/>V &#8211; N\u00e3o produzi os serm\u00f5es com essa finalidade. O objetivo das minhas prega\u00e7\u00f5es sempre foi o de levar \u00e0s pessoas a palavra de Deus. Por outro lado, n\u00e3o posso ser hip\u00f3crita e ficar com falsa humildade dizendo que n\u00e3o. Os serm\u00f5es que proferi, embora tenham sido respaldados na verdade e na sinceridade, foram elaborados no que pude encontrar de melhor na arte orat\u00f3ria. A leitura criteriosa e cr\u00edtica poder\u00e1 dar ao leitor um bom caminho para o aprendizado da comunica\u00e7\u00e3o em p\u00fablico.<br \/>P &#8211; O senhor recomenda algum em especial?<br \/>V &#8211; O mais apropriado para essa finalidade \u00e9 o Serm\u00e3o da Sexag\u00e9sima, que preguei na Capela real em 1655. Nessa prega\u00e7\u00e3o mostrei aos padres como deveriam agir para planejar e proferir seus serm\u00f5es. Foi na verdade uma aula de orat\u00f3ria. Trato ali de todos os aspectos relevantes sobre o orador, o tema e os ouvintes. A respeito do orador analiso suas cinco &#8216;circunst\u00e2ncias&#8217;: a Pessoa, o Estilo, a Ci\u00eancia, a Mat\u00e9ria e a Voz.<br \/>P &#8211; O senhor julga que esses princ\u00edpios pregados h\u00e1 mais de 300 anos teriam aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica nos dias de hoje?<br \/>V &#8211; Tenho certeza que sim. Quer algo mais apropriado para os dias de hoje que o trecho desse serm\u00e3o?: &#8216;Sabem, Padres Pregadores, por que fazem pouco abalo os nossos serm\u00f5es? Porque n\u00e3o pregamos aos olhos, pregamos s\u00f3 aos ouvidos. Por que convertia o Batista tantos pecadores? Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos.&#8217; <br \/>Diga-me, ser\u00e1 que existe mat\u00e9ria mais atual que essas palavras? J\u00e1 pensou se os nossos pol\u00edticos, governantes, educadores, pregadores, todos, enfim, seguissem esses mesmos conselhos?!<br \/>P &#8211; O senhor poderia deixar r\u00e1pidas orienta\u00e7\u00f5es para quem deseja aprender a falar em p\u00fablico?<br \/>V &#8211; Com prazer. Vou selecionar frases do Serm\u00e3o da Sexag\u00e9sima.<br \/>\u2022\u00a0Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao cora\u00e7\u00e3o, s\u00e3o necess\u00e1rias obras. <br \/>\u2022\u00a0O estilo h\u00e1 de ser muito f\u00e1cil e muito natural. <br \/>\u2022\u00a0O Serm\u00e3o h\u00e1 de ter um s\u00f3 assunto e uma s\u00f3 mat\u00e9ria. <br \/>\u2022\u00a0O que sai s\u00f3 da boca, para nos ouvidos; o que nasce do ju\u00edzo penetra e convence o entendimento. <br \/>\u2022\u00a0E como os brados no mundo podem tanto, bem \u00e9 que bradem algumas vezes pregadores, bem \u00e9 que gritem. <\/p>\n<p>Reinaldo Polito \u00e9 Mestre em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o, palestrante, professor de Orat\u00f3ria e escritor. Membro titular e diretor bibliotec\u00e1rio da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. Publicou 20 livros sobre a arte de falar em p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um bate-papo com Padre Vieira Vieira \u00e9 quase unanimidade. A maioria se refere a ele como tendo sido o maior expoente da nossa l\u00edngua, tanto na arte de falar quanto na arte de escrever.\u00a0 Mesmo os que o colocam em p\u00e9 de igualdade e at\u00e9 em posi\u00e7\u00e3o inferior a um seu contempor\u00e2neo, o autor de &#8216;Nova floresta&#8217;, Padre Manuel Bernardes, n\u00e3o deixam de reconhecer seus m\u00e9ritos. 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