{"id":238,"date":"2013-04-30T21:42:26","date_gmt":"2013-05-01T00:42:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2013\/04\/30\/cousas-nossas\/"},"modified":"2013-04-30T21:42:26","modified_gmt":"2013-05-01T00:42:26","slug":"cousas-nossas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/cousas-nossas\/","title":{"rendered":"Cousas Nossas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">COUSAS NOSSAS<br \/>Paulo Nathanael Pereira de Souza<br \/>Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um samba de Noel Rosa, que ap\u00f3s referir-se a alguns desprop\u00f3sitos do comportamento das pessoas, conclui a estrofe com o estribilho: \u201cCousas nossas, cousas nossas!\u201d Passou-se o tempo, mas poucas cousas ter\u00e3o mudado no brasileir\u00edssimo modo de ver e praticar as a\u00e7\u00f5es de cada dia. \u00c9 o caso destas p\u00e9rolas, que andei ca\u00e7ando nos jornais.<br \/>1.\u00a0O menino que matou o estudante. A not\u00edcia diz que um menor a tr\u00eas dias de atingir os dezoito anos, matou um jovem estudante, por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha. N\u00e3o pode ser preso, ter\u00e1 que ser apreendido (lindo este eufemismo do politicamente correto) e n\u00e3o ir\u00e1 para a cadeia e sim para uma dessas casas de recolhimento e reeduca\u00e7\u00e3o, em cuja tabuleta fronteira s\u00f3 falta estampar entre par\u00eanteses: \u201conde se aprende a delinquir\u201d. Tudo por causa do c\u00e9lebre Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA), uma lei que impede a puni\u00e7\u00e3o de infra\u00e7\u00f5es e crimes (ainda que hediondos) cometidos por menores de idade, que ao completarem dezoito anos, saem livres com uma ficha completamente limpa. \u00c9 lei, (como tantas que andam por a\u00ed), que a prop\u00f3sito de darem prote\u00e7\u00e3o a pessoas, ditas carentes, socialmente exclu\u00eddas, ou supostamente exploradas por patr\u00f5es de alma empedernida, na verdade acabam por desampar\u00e1-las ainda mais, al\u00e9m de criar seri\u00edssimos problemas sociais e econ\u00f4micos, pondo em risco a seguran\u00e7a coletiva. No caso do Eca, que escuda menores, tem ocorrido que \u00e0 sombra de cada garoto ou garota que delinq\u00fce, quase sempre esconde-se um bandido que os usa como laranjas no crime.<br \/>\u00a0\u00a0Claro que h\u00e1 que proteger os mais fracos, mas \u00e9 preciso n\u00e3o tratar todos como se iguais fossem: h\u00e1 entre eles quem mere\u00e7a toda a prote\u00e7\u00e3o e reeduca\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m h\u00e1 quem deva, ao atingir a maioridade, responder criminalmente pelos atos praticados no tempo da menoridade. O mal dessas legisla\u00e7\u00f5es \u00e9 a generaliza\u00e7\u00e3o indiscriminada dos benef\u00edcios e a irrealidade das situa\u00e7\u00f5es concretas. Afinal, o Brasil parece, por vezes, querer salvar o mundo \u00e0 sombra de utopias rom\u00e2nticas, sem se aperceber que, na pr\u00e1tica, a teoria \u00e9 sempre outra!<br \/>2.\u00a0A sobrecarga dos curr\u00edculos escolares. O papel da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 essencialmente, o de dar aos jovens um conjunto de saberes indispens\u00e1veis, que os situe no entorno hist\u00f3rico-geogr\u00e1fico do seu tempo, fa\u00e7a-os utilizar-se do vern\u00e1culo com clareza e corre\u00e7\u00e3o, leve-os a executar com exatid\u00e3o e compet\u00eancia as opera\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas no seu uso cotidiano, e lhes facilite o entendimento das solu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas da modernidade. Complementarmente, a organiza\u00e7\u00e3o escolar poder\u00e1 acrescentar pr\u00e1ticas esportivas e art\u00edsticas, bem como a inicia\u00e7\u00e3o em l\u00ednguas vivas e mortas, e exerc\u00edcios variados de uso das linguagens digitais. E nada mais, eis que, capacitando-os devidamente nesses campos, estar\u00e3o prontos para enfrentar os desafios existenciais, que venham a se interpor a seus passos. O resto, a vida se incumbir\u00e1 de prover.<br \/>Da\u00ed que, n\u00e3o cabe \u00e0s escolas abordar, nessa fase formativa da personalidade de cada ser, todo o conhecimento acumulado pela humanidade. <br \/>A parte da escola \u00e9 estritamente aquela que acima se arrolou: se conseguir ela faz\u00ea-lo com pertin\u00eancia ter\u00e1 cumprido otimamente a sua miss\u00e3o. Tudo o mais deve ficar por conta de outras ag\u00eancias, que tamb\u00e9m educam, se bem que informalmente, a saber: a fam\u00edlia, a m\u00eddia, os ambientes de trabalho e lazer, a igreja, etc., etc. \u00c9 uma ilus\u00e3o essa pr\u00e1tica, hoje t\u00e3o disseminada, de se sobrecarregarem os curr\u00edculos escolares de tantas mat\u00e9rias, que acabar\u00e3o por se mostrar in\u00fateis na educa\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es. Precisam os jovens do saber m\u00ednimo bem aprendido e n\u00e3o dos saberes m\u00e1ximos desperdi\u00e7adamente abordados.\u00a0 O eruditismo dos programas de ensino, pelo qual tudo se ensina e nada se aprende, \u00e9 contraproducente a quem se educa.<br \/>Essas reflex\u00f5es me ocorrem, quando leio na imprensa, que a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo poder\u00e1 exigir a obrigatoriedade de uma nova disciplina na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, ministrada pelas escolas do munic\u00edpio da capital: Hist\u00f3ria da \u00c1frica. \u00c9 de se perguntar de que \u00c1frica? A mu\u00e7ulmana? A tribal? A colonizada pelas pot\u00eancias europ\u00e9ias? E para que? Acredito que essa decis\u00e3o deve estar na linha da atual (e legitima) preocupa\u00e7\u00e3o brasileira para com seu passado escravocrata: h\u00e1 uma d\u00edvida social a ser resgatada para com os africanos que, no passado, deram seu sangue para ajudar a construir o Brasil. Mas a forma de faz\u00ea-lo, n\u00e3o \u00e9 criando essa nova disciplina sem p\u00e9, nem cabe\u00e7a, e sim transversalmente, atrav\u00e9s de \u00eanfases a serem dadas ao tema, quando do estudo desse cap\u00edtulo da hist\u00f3ria nacional, intitulado: Escravid\u00e3o ou Aboli\u00e7\u00e3o ou, ainda, contribui\u00e7\u00e3o negra \u00e0 forma\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E viva Noel Rosa!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>COUSAS NOSSASPaulo Nathanael Pereira de SouzaPresidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. 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