{"id":2540,"date":"2022-02-14T09:37:39","date_gmt":"2022-02-14T12:37:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=2540"},"modified":"2025-01-06T20:11:34","modified_gmt":"2025-01-06T23:11:34","slug":"aumenta-o-numero-de-criancas-que-nao-sabem-ler-nem-escrever-por-reinaldo-polito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/aumenta-o-numero-de-criancas-que-nao-sabem-ler-nem-escrever-por-reinaldo-polito\/","title":{"rendered":"Aumenta o n\u00famero de crian\u00e7as que n\u00e3o sabem ler nem escrever &#8211; Por Reinaldo Polito"},"content":{"rendered":"<p>A pandemia trouxe muito sofrimento para o mundo todo. Centenas de milhares de pessoas perderam a vida, al\u00e9m de tantas outras que sobreviveram, mas s\u00e3o obrigadas a carregar sequelas das mais diversas naturezas. Outra consequ\u00eancia perversa da pandemia \u00e9 o fato de que entre 2019 e 2021 aumentou em 66,3% o n\u00famero de crian\u00e7as entre 6 e 7 anos que n\u00e3o sabem ler nem escrever.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o assustadores. Segundo resultados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domic\u00edlios Cont\u00ednua, do IBGE, nesse per\u00edodo o n\u00famero de crian\u00e7as n\u00e3o alfabetizadas dentro dessa faixa et\u00e1ria passou de 1,4 milh\u00e3o para 2,4 milh\u00f5es. Esse \u00e9 um dano irrepar\u00e1vel. Quantos anos ser\u00e3o precisos para que o pa\u00eds preencha essa lacuna educacional?!<\/p>\n<p>Esse despreparo ter\u00e1 influ\u00eancia em todos os setores de atividades. No momento em que a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica mais precisar\u00e1 de pessoas bem-preparadas, contaremos com muitos indiv\u00edduos sem condi\u00e7\u00f5es de enfrentar os novos desafios. Esses que hoje, na tenra idade, n\u00e3o se alfabetizaram no tempo adequado ter\u00e3o dificuldade para fazer c\u00e1lculos, desconhecer\u00e3o os conceitos b\u00e1sicos de ci\u00eancia, n\u00e3o conseguir\u00e3o entender o que leem e, praticamente, n\u00e3o saber\u00e3o redigir textos de qualidade.<\/p>\n<p>Quando uma crian\u00e7a \u00e9 alfabetizada depois dos 7 anos, que \u00e9 a idade recomendada pela Base Nacional Comum Curricular, sofrer\u00e1 preju\u00edzos no seu desenvolvimento e no seu futuro. Para preencher essa lacuna na alfabetiza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 preciso empreender uma opera\u00e7\u00e3o de guerra. Os resultados que deveriam ser atingidos em dois ou tr\u00eas anos agora precisam ser antecipados para um ano.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 mundial. Cerca de 1,5 bilh\u00e3o de crian\u00e7as ficaram fora da escola por causa da pandemia. \u00c9 evidente que os pa\u00edses pobres sofreram mais com a crise. Neles, o n\u00edvel de analfabetismo que j\u00e1 era alto foi agravado. Nas na\u00e7\u00f5es com desigualdades sociais e econ\u00f4micas como o Brasil, as diferen\u00e7as passam a ser ainda mais acentuadas.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o sendo o ideal, o ensino a dist\u00e2ncia possibilitou que as crian\u00e7as de fam\u00edlias mais abastadas pudessem continuar com o processo de aprendizagem. Bem ou mal tiveram os professores online ministrando as aulas e cobrando tarefas. As menos afortunadas, infelizmente, n\u00e3o puderam contar com o apoio tecnol\u00f3gico. Deixaram de aprender e constituem a maior parte dos que n\u00e3o sabem ler nem escrever.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos olhar para fora de nossas fronteiras para buscar exemplos de pa\u00edses que se encontram em situa\u00e7\u00e3o igual ou pior que a nossa. \u00a0N\u00e3o, esse \u00e9 um problema nosso. N\u00f3s \u00e9 que temos a responsabilidade de resolver. Cada na\u00e7\u00e3o tem suas peculiaridades, sua hist\u00f3ria, sua cultura. Tentar trazer para dentro de casa os modelos externos sem o devido cuidado com as adapta\u00e7\u00f5es \u00e9 um grande equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>At\u00e9 dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds, a Base Nacional Comum Curricular estabelece diferen\u00e7as no ensino para atender as condi\u00e7\u00f5es regionais. As realidades s\u00e3o distintas e assim precisam ser consideradas. N\u00e3o significa, todavia, que tudo seja diferente. Nos m\u00e9todos de alfabetiza\u00e7\u00e3o h\u00e1 pontos comuns que podem ser adotados de forma at\u00e9 generalizada.<\/p>\n<p>Sabemos, por exemplo, que no Cear\u00e1 a atua\u00e7\u00e3o do governo em conjunto com os munic\u00edpios deu certo. Ora, talvez seja o momento mais apropriado para adotar o que esteja funcionando. Com certeza, outras regi\u00f5es tamb\u00e9m obtiveram resultados positivos. \u00a0No instante em que precisamos diminuir o analfabetismo entre as crian\u00e7as, toda ajuda ser\u00e1 muito bem-vinda.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 momento para disputas ideol\u00f3gicas. Os educadores devem deixar de lado suas vaidades, e, com toda humildade que puderem ter, implantar em sua regi\u00e3o os modelos de alfabetiza\u00e7\u00e3o que foram exitosos em outros centros.<\/p>\n<p>Como vimos, o estudo remoto na atual realidade do nosso pa\u00eds j\u00e1 se mostrou ineficiente. Pode ser que mais adiante, quando as fam\u00edlias puderem contar com apoio tecnol\u00f3gico de melhor qualidade, seja boa solu\u00e7\u00e3o, mas por enquanto n\u00e3o deu certo. Assim, vamos deixando de lado o que n\u00e3o possa contribuir para resolver essa dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o e voltar os olhos para o que efetivamente funciona.<\/p>\n<p>Infelizmente o maior n\u00famero de crian\u00e7as que tiveram seu aprendizado prejudicado \u00e9 de pais com baixa forma\u00e7\u00e3o escolar e de condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sofr\u00edvel. Por isso, teriam dificuldade para auxiliar nesse processo de alfabetiza\u00e7\u00e3o. Se, entretanto, puderem ajudar nessa tarefa, que eles tamb\u00e9m arregacem as mangas e ensinem.<\/p>\n<p>Eu me lembro de que certa vez o propriet\u00e1rio de um antigo sebo do centro velho de S\u00e3o Paulo me disse que um dos livros que ele mais comercializava era a cartilha \u201cCaminho suave\u201d. Perguntei se ele sabia o motivo. Sua resposta foi a de que os pais compravam para ensinar seus filhos em casa. Tentavam dessa forma dar a eles forma\u00e7\u00e3o parecida com a que tiveram. E como haviam se alfabetizado por esse livro, estavam mais familiarizados com o m\u00e9todo.<\/p>\n<p>De maneira geral, por falta de conhecimento pedag\u00f3gico, os pais n\u00e3o s\u00e3o as pessoas mais indicadas para ensinar. Em situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica como essa que estamos vivenciando, entretanto, com certeza a ajuda deles ser\u00e1 de grande utilidade.<\/p>\n<p>Precisamos preparar essas crian\u00e7as para que tenham futuro mais auspicioso. Embora n\u00e3o seja simples, n\u00e3o seria imposs\u00edvel contornar a situa\u00e7\u00e3o. Todas as pessoas envolvidas com a educa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a situa\u00e7\u00e3o exige esfor\u00e7o conjunto, precisariam se unir nessa empreitada. Ministro, secret\u00e1rios, professores, educadores, autoridades dos mais distintos n\u00edveis. Enfim, ningu\u00e9m poderia dizer agora que essa responsabilidade n\u00e3o \u00e9 sua. Qualquer neglig\u00eancia de nossa parte ser\u00e1 cobrada pelos brasileiros de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Reinaldo Polito \u00e9 Mestre em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o e professor de orat\u00f3ria nos cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Marketing Pol\u00edtico, Gest\u00e3o Corporativa e Gest\u00e3o de Comunica\u00e7\u00e3o e Marketing na ECA-USP. Presidente Em\u00e9rito da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. Escreveu 34 livros com mais de 1,5 milh\u00e3o de exemplares vendidos em 39 pa\u00edses. Siga no Instagram @polito pelo facebook.com\/reinaldopolito pergunte no contatos@polito.com.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia trouxe muito sofrimento para o mundo todo. Centenas de milhares de pessoas perderam a vida, al\u00e9m de tantas outras que sobreviveram, mas s\u00e3o obrigadas a carregar sequelas das mais diversas naturezas. 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