{"id":283,"date":"2015-09-09T16:39:00","date_gmt":"2015-09-09T19:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2015\/09\/09\/por-que-uma-educacao-de-qualidade-brasilia-hotel-windsor-11-agosto-2015\/"},"modified":"2015-09-09T16:39:00","modified_gmt":"2015-09-09T19:39:00","slug":"por-que-uma-educacao-de-qualidade-brasilia-hotel-windsor-11-agosto-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/por-que-uma-educacao-de-qualidade-brasilia-hotel-windsor-11-agosto-2015\/","title":{"rendered":"Por que uma educa\u00e7\u00e3o de Qualidade &#8211; Bras\u00edlia Hotel Windsor &#8211; 11 agosto 2015"},"content":{"rendered":"<p>POR QUE UMA EDUCA\u00c7\u00c3O DE QUALIDADE?<\/p>\n<p>Paulo Nathanael Pereira de Souza \u2013 Educador e membro da Academia Paulista de Letras.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Essa express\u00e3o: educa\u00e7\u00e3o de qualidade, frequente, na m\u00eddia e objeto de in\u00fameros discursos pol\u00edticos, al\u00e9m de refer\u00eancia de destaque nos textos das leis dirigidas ao ensino, apesar de sua difus\u00e3o de uso ainda est\u00e1 muito longe de ser bem compreendida pela maioria das pessoas, raz\u00e3o pela qual, vale a pena tentar fixar o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel de sua natureza, os termos dessa conceitua\u00e7\u00e3o. Para tanto, conv\u00e9m buscar ajuda nos documentos da UNESCO, onde comparece com intensidade a express\u00e3o educa\u00e7\u00e3o pertinente. Trata-se, pois, de uma educa\u00e7\u00e3o que busca instrumentar intelectualmente as novas gera\u00e7\u00f5es, dotando-as de capacidade para conhecer do passado humano aquilo que \u00e9 permanente e indispens\u00e1vel \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie, ao mesmo tempo que instrumenta os jovens, para enfrentar e vencer os desafios nascidos das mudan\u00e7as cada vez mais surpreendentes havidas ultimamente, dado o veloz avan\u00e7o da ci\u00eancia e da tecnologia. Em suma: educa\u00e7\u00e3o qualificada \u00e9 aquela que transmite aos jovens saberes e fazeres que pertinem ao ajustamento de cada qual ao meio e ao tempo em que vive. Ou tamb\u00e9m se pode dizer ser aquela que permite ao ser humano compreender o passado, agir no presente e enfrentar o futuro com seguran\u00e7a e compet\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>A serem verdadeiras essas conceitua\u00e7\u00f5es, chega a escandalizar o \u201cgap\u201d, que se estabeleceu, em nosso pa\u00eds, entre a miss\u00e3o da escola e as demonstra\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas de seus desastrosos resultados. Seja nas avalia\u00e7\u00f5es nacionais, como a do IDEB, seja nas internacionais, como no Pisa, os \u00edndices obtidos s\u00e3o sempre negativos. No primeiro caso o p\u00e9ssimo \u201cescore\u201d dos alunos da 1\u00aa s\u00e9rie e da \u00faltima do curso fundamental, bem como os das tr\u00eas s\u00e9ries do curso m\u00e9dio, numa escala de zero a dez, n\u00e3o chegou no Brasil todo a somar cinco pontos, isto \u00e9, nem \u00e0 metade do esperado pelos analistas. No que diz respeito ao Pisa, patrocinado pela OCDE, que re\u00fane 65 pa\u00edses (o Brasil comparece como convidado), a cada dois anos, para medir os ganhos de aprendizagem dos alunos, em Vern\u00e1culo, Ci\u00eancias e Matem\u00e1tica, j\u00e1 faz muitos anos que nos colocamos no \u00faltimo ter\u00e7o dos participantes e de l\u00e1 n\u00e3o mais conseguimos sair. Se fosse num campeonato de futebol, estar\u00edamos sempre na derradeira divis\u00e3o! Por isso \u00e9 que cresce nas escolas b\u00e1sicas brasileiras a incid\u00eancia dos chamados analfabetos funcionais \u2013 (hoje s\u00e3o 50 milh\u00f5es de jovens que chegam at\u00e9 a diplomar-se no curso que frequentam, sem carregar conhecimento algum, que lhes possa ser \u00fatil na vida). E o pior \u00e9 que se descobriu recentemente que quatro alunos em cada lote de dez, que cursam nossas universidades, est\u00e3o nessa categoria.\u00a0<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o s\u00e9ria que j\u00e1 corre jocosamente nos arraiais da educa\u00e7\u00e3o, que o Brasil pode arquivar as suas LDBs, porque o sistema prefere, hoje, obedecer \u00e0 Lei dos Comboios, aquela segundo a qual, qualquer conjunto naval tem necessariamente que submeter-se \u00e0 velocidade da unidade mais lenta: nas escolas brasileiras n\u00e3o s\u00e3o os alunos mais brilhantes que determinam o n\u00edvel do ensino, e sim, os mais ignorantes! Para ampliar esse quadro, que ficou assustador, os n\u00fameros referentes \u00e0s evas\u00f5es e reprova\u00e7\u00f5es dos cursos fundamental e m\u00e9dio principalmente cresceram desmensuradamente. E tudo, como se l\u00ea na m\u00eddia, porque os estudantes que d\u00e3o suas entrevistas aos peri\u00f3dicos acham a escola uma chatice, al\u00e9m de absolutamente alienada em rela\u00e7\u00e3o ao que esperam os jovens encontrar nos cursos em que se matriculam. O mais ir\u00f4nico \u00e9 que essa educa\u00e7\u00e3o se chama b\u00e1sica, e deveria por isso servir de sustenta\u00e7\u00e3o a tudo o mais que deve vir em seguida, seja no trabalho, seja no ensino superior.\u00a0<\/p>\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o entre a miss\u00e3o da escola, que \u00e9 sempre formativa, e deve preparar para o futuro, e os resultados negativos que temos tido, caracteriza o paradoxo que nos tem feito sofrer. Afinal como se pode educar o jovem de hoje para o futuro, com uma pedagogia de prefer\u00eancia voltada para o passado? A\u00ed est\u00e1 o X do problema, que n\u00e3o \u00e9 novo, e desde muito tempo preocupa as melhores cabe\u00e7as deste Pa\u00eds, como por exemplo, as dos subscritores do Manifesto dos Pioneiros em 1932, entre eles os saudosos Louren\u00e7o Filho, An\u00edsio Teixeira e Fernando de Azevedo. J\u00e1 diziam eles, que faltava aos sistemas educacionais brasileiros, um punhado de mudan\u00e7as em sua organiza\u00e7\u00e3o e nos seus arcaicos procedimentos herdados do passado. Quando no s\u00e9culo 20 se deu entre n\u00f3s a abertura democr\u00e1tica do acesso aos cursos b\u00e1sicos a uma popula\u00e7\u00e3o heterog\u00eanea, que inclu\u00eda ricos e pobres, negros e brancos, trabalhadores e o que mais fosse, seria necess\u00e1rio ter-se dotado esses cursos, (que at\u00e9 ent\u00e3o eram privil\u00e9gios de uma elite), de novos processos educativos ligados \u00e0s necessidades de cada segmento social. N\u00e3o poderiam eles ter continuado livrescos, decorativos e eruditos, como eram quando apenas serviam para refor\u00e7ar a condi\u00e7\u00e3o elitista das classes mais privilegiadas. Sua moderniza\u00e7\u00e3o implicava a adora\u00e7\u00e3o de nova funcionalidade novos temas curriculares, novas did\u00e1ticas de ensino, menos teorias e mais pr\u00e1ticas, aprendizagens voltadas de prefer\u00eancia para a aplicabilidade dos saberes adquiridos pelos alunos, e o fim das decorebas e do \u201cmagister dixit\u201d. Nada disso aconteceu e o resultado \u00e9 esse panorama desolador que a\u00ed est\u00e1 de escolas, que n\u00e3o ensinam e de jovens que n\u00e3o aprendem.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses emergentes da modernidade, como os \u201ctigres asi\u00e1ticos\u201d, (a Cor\u00e9ia do Sul \u00e0 frente), a Finl\u00e2ndia e os demais pa\u00edses escandinavos, essas mudan\u00e7as se fizeram intensamente e os resultados a\u00ed est\u00e3o, registrados para quem queira ver: ocupam eles os primeiros lugares nas listagens que atestam o sucesso pedag\u00f3gico de suas escolas. E por que isso n\u00e3o acontece no Brasil? Pelo simples fato de que a educa\u00e7\u00e3o por aqui, n\u00e3o chegou, ainda, a ser uma prioridade real para os projetos governamentais. Al\u00e9m do mais, a pr\u00f3pria sociedade nossa n\u00e3o conseguiu ainda atinar com a import\u00e2ncia de uma escolaridade qualificada para seus filhos. Em pesquisas divulgadas pela m\u00eddia, em que se procurava conhecer quais as prioridades dos brasileiros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas sociais, a educa\u00e7\u00e3o comparece em 8\u00ba lugar. Ora numa democracia, regime em que os governos s\u00f3 agem sob press\u00e3o do eleitorado, n\u00e3o se pode aceitar que a educa\u00e7\u00e3o dos jovens n\u00e3o esteja nos primeiros lugares.<\/p>\n<p>A grande pergunta que fica no ar \u00e9: Como mudar esse estado de cousas, visto que j\u00e1 se sabe o porqu\u00ea do problema e tamb\u00e9m todos aprendemos que sem uma popula\u00e7\u00e3o bem qualificada educacionalmente, ser\u00e1 imposs\u00edvel alcan\u00e7ar os nossos tr\u00eas maiores objetivos nacionais, a saber: desenvolvimento sustentado, democracia plena e justi\u00e7a social progressiva, tendo como meta a diminui\u00e7\u00e3o da pobreza? Ou ser\u00e1 que a grande maioria de nossa classe pol\u00edtica tem medo de que os eleitores aprendam a exercer a cidadania, passem a votar melhor e, com isso impe\u00e7am suas carreiras na vida p\u00fablica?\u00a0<\/p>\n<p>Respostas para essas quest\u00f5es n\u00e3o poder\u00e3o vir isoladamente de algum estudioso do problema, nem t\u00e3o pouco ser\u00e3o resolvidos com esse vezo t\u00e3o nosso de aplicar solu\u00e7\u00f5es de varejo aos desafios nascidos do atacado. Como se viu nos coment\u00e1rios acima feitos, a problem\u00e1tica da educa\u00e7\u00e3o nacional tem a ver com o sistema de ensino como um todo, raz\u00e3o pela qual nada se resolve apenas aumentando ou diminuindo a dura\u00e7\u00e3o de cursos, acrescentando mat\u00e9rias novas aos curr\u00edculos escolares ou multiplicando o casuismo das medidas que em nada contribuem para superar a crise. Lembro-me de um epis\u00f3dio que vivi nos anos 70, quando fazia parte, como Conselheiro do CFE ( Conselho Federal \u2013 hoje Nacional \u2013 de Educa\u00e7\u00e3o). Um senador apresentou no Congresso um projeto de lei, que institu\u00eda no curr\u00edculo do ensino colegial a disciplina \u201cPrepara\u00e7\u00e3o para a Morte\u201d (naquele tempo, o Conselho era t\u00e3o forte, que qualquer mexida por decreto ou lei na LDB, precisava, antes de tramitar na C\u00e2mara ou no Senado, ser aprovado pelo Colegiado da Educa\u00e7\u00e3o). Coube-me ser o relator da mat\u00e9ria. Ap\u00f3s espinafrar a medida proposta, que ali\u00e1s acabou arquivada, fiz a pergunta sobre onde encontrar professores para a nova disciplina, entre padres, pastores, pais de santos ou entre agentes funer\u00e1rios e coveiros? Ningu\u00e9m soube me dizer, raz\u00e3o pela qual sugeri ao ilustre autor do projeto, que lesse Montaigne, eis que com uma s\u00f3 frase matou o problema do despreparo humano em face da morte. Disse o mestre do Renascimento: \u201cQue ningu\u00e9m perca tempo em tentar explicar a morte, porque na hora certa todos saberemos morrer!\u201d<\/p>\n<p>Fiz esta digress\u00e3o para assinalar que de tanto inventarem medidas in\u00fateis como essa do senador, para qualificar a educa\u00e7\u00e3o brasileira, est\u00e3o \u00e9 matando o sistema de ensino neste Pa\u00eds! \u00c9 preciso muito mais do que propostas, como essa. Talvez tenhamos necessidade de algo assim como o que se fez na Cor\u00e9ia do Sul, a partir dos anos 60 e 70 do s\u00e9culo vinte. Por for\u00e7a de guerras devastadoras, que atingiram o pa\u00eds, e de tradi\u00e7\u00f5es retrogradas da popula\u00e7\u00e3o, que prejudicavam o esfor\u00e7o de moderniza\u00e7\u00e3o da economia e da educa\u00e7\u00e3o, todos os \u00edndices de desenvolvimento daquela na\u00e7\u00e3o apresentavam-se desastrosos e eram piores do que os do Brasil, logo depois do fim do conflito mundial de 39 a 45. Foi da\u00ed que as elites sobreviventes decidiram salvar o pa\u00eds, a come\u00e7ar, por assegurar ao povo uma educa\u00e7\u00e3o qualificada de ensino b\u00e1sico para todos e outra, altamente seletiva, nas unidades com vistas \u00e0 prioridade na forma\u00e7\u00e3o de engenheiros para dar sustenta\u00e7\u00e3o a uma industrializa\u00e7\u00e3o de ponta (siderurgia, ve\u00edculos auto-motores, estaleiros, computadores, etc.). Constituiu-se, para tanto, um Colegiado Superior, (integrado por educadores, intelectuais, empres\u00e1rios de escol, e at\u00e9 por consultores convidados do 1\u00ba mundo), que funcionaria como \u00f3rg\u00e3o de Estado, tipo Ag\u00eancia e n\u00e3o de Governo, junto ao Presidente da Rep\u00fablica, com plenos poderes para promover as mudan\u00e7as reclamadas pela adequa\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o ao novo modelo futuro de pa\u00eds. Duas d\u00e9cadas depois, ap\u00f3s anos de sacrif\u00edcios que exigiram de todos os coreanos enormes conten\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, fiscais e outras, foram aparecendo sinais da mudan\u00e7a, que iria levar a Cor\u00e9ia \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds emergente e com um p\u00e9 nas modernidades contempor\u00e2neas. Aqueles \u00edndices, piores do que os dos brasileiros no passado foram se modificando, a ponto de nos deixarem para tr\u00e1s. Hoje os coreanos desfrutam de um invej\u00e1vel n\u00edvel de vida; est\u00e3o classificados nos primeiros lugares na tabela mundial de IDH e destinam anualmente 20% de seu or\u00e7amento \u00e0 educa\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um \u201ccase\u201d que, se o Brasil resolvesse tomar como refer\u00eancia para fazer uma revolu\u00e7\u00e3o na sua educa\u00e7\u00e3o, talvez pudesse dar certo. Fica registrada a sugest\u00e3o, embora envolta num certo ceticismo, dadas as muitas experi\u00eancias j\u00e1 por n\u00f3s vivenciadas, e que acabaram, umas sem continuidade, outras com p\u00edfios resultados. Mas como educadores que somos n\u00e3o h\u00e1 como desanimar.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>POR QUE UMA EDUCA\u00c7\u00c3O DE QUALIDADE? 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