{"id":2946,"date":"2023-04-18T12:05:51","date_gmt":"2023-04-18T15:05:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=2946"},"modified":"2024-03-19T12:44:09","modified_gmt":"2024-03-19T15:44:09","slug":"novo-ensino-medio-caos-instalado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/novo-ensino-medio-caos-instalado\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Novo ensino m\u00e9dio: caos instalado"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Nacim Walter Chieco<\/p>\n\n\n\n<p>Em mar\u00e7o de 2017, logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 13.415 de 16 de fevereiro daquele ano, fiz um artigo denominado \u201cReforma do ensino m\u00e9dio: prevenindo o caos\u201d, divulgado no site da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o (APE). Basicamente, minha tese era a de que a dita reforma tinha grandes perspectivas de enorme fracasso. Mas, lei posta, posta est\u00e1 e precisa ser cumprida. Sugeria, ent\u00e3o, caminhos e medidas, principalmente de concilia\u00e7\u00e3o entre, de um lado, as escolhas dos chamados itiner\u00e1rios formativos pelos alunos e, de outro, as ofertas vi\u00e1veis das escolas isoladamente ou em parceria com outras unidades de cada regi\u00e3o. Tudo dependeria, obviamente, de condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de recursos materiais, tecnol\u00f3gicos e humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o primeiro contato com a reforma, procurei colocar-me na posi\u00e7\u00e3o de um diretor escolar, que teria de encarar um tremendo desafio de conciliar os interesses dos alunos com a capacidade de atendimento da escola. Teria de administrar encontros e desencontros, conflitos e converg\u00eancias, fantasias e mundo real. Muita pedreira pela frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, decorridos seis anos, com a reforma em processo de implanta\u00e7\u00e3o, observo que, segundo depoimentos pontuais, o caos est\u00e1 instalado nas escolas, em S\u00e3o Paulo e no Brasil afora. Como se diz no jogo de snooker, chutando a mod\u00e9stia para o mato, \u201ccantei essa bola\u201d. \u00c9 certo que esse estado de coisas precisa ser adequadamente verificado e avaliado, conforme o MEC, pressionado por correntes m\u00faltiplas, se disp\u00f5e a tal dentro do prazo de noventa dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Noto, por\u00e9m, que o caos \u00e9 ainda maior. Pode-se identificar, ao menos, tr\u00eas correntes ou for\u00e7as nesse campo de batalha. Em primeiro lugar, como j\u00e1 disse, est\u00e3o os alunos e escolas que sentem na pele o peso, ben\u00e9fico ou mal\u00e9fico a conferir, das mudan\u00e7as. Ao que parece, mas por ora \u00e9 s\u00f3 impress\u00e3o, exageraram na dose de fragmenta\u00e7\u00e3o curricular sob a diretriz de oferta de infind\u00e1veis oportunidades formativas. Tudo sem as tais condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 ideia de abrir o leque de escolhas aos jovens no ensino m\u00e9dio, lembro que na d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo passado os concluintes do gin\u00e1sio, correspondente aos quatro \u00faltimos anos do atual ensino fundamental, tinham pela frente, a escolher, quatro caminhos: o cient\u00edfico, voltado \u00e0s exatas; o cl\u00e1ssico, com foco em letras e humanas; o normal, profissionalizante e formador de professores; e o t\u00e9cnico, profissionalizante para as diferentes \u00e1reas produtivas. A grande cr\u00edtica contra esse leque de ofertas (cabe assinalar, \u00e0 \u00e9poca, reduzidas e insuficientes ofertas) era a precocidade das escolhas. Muitos alunos descobriam, durante ou ao t\u00e9rmino do curso, que a escolha n\u00e3o correspondia aos seus reais interesses e aptid\u00f5es. H\u00e1 universidades estrangeiras de ponta em que essa escolha \u00e9 feita somente ap\u00f3s um ano de forma\u00e7\u00e3o superior b\u00e1sica, ou seja, por volta dos 18 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra for\u00e7a, defendendo a manuten\u00e7\u00e3o da reforma ainda que com ajustes e aprimoramentos, consiste justamente nas lideran\u00e7as dos \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pela gest\u00e3o da reforma e figuras de destaque nos meios acad\u00eamicos e corporativos que, desde o in\u00edcio, apontavam as fragilidades e mazelas do modelo anterior e defendiam a nova proposta como salva\u00e7\u00e3o da lavoura. Apontam, com raz\u00e3o, que uma anunciada parada geral na implanta\u00e7\u00e3o da reforma deve produzir incertezas e inconsist\u00eancias no Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (ENEM). Mais confus\u00e3o \u00e0 vista. <\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, tamb\u00e9m, inflamadas manifesta\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias e detratoras da reforma em curso. De universidades e de movimentos organizados de alunos e de profissionais da educa\u00e7\u00e3o. Apregoam uma revoga\u00e7\u00e3o total do aparato legal e normativo da reforma. Significa, pois, que o caos \u00e9 maior do que eu imaginava. Para continuar a imagem inicial do snooker, \u201cn\u00e3o cantei a ca\u00e7apa\u201d. Nesse cen\u00e1rio, pululam fal\u00e1cias, mentiras e meias verdades. Ali\u00e1s, isso j\u00e1 aconteceu nos idos de montagem da reforma. O principal argumento era o de que a causa da desgra\u00e7a do ensino m\u00e9dio era o curr\u00edculo. Pois bem, esse argumento precisaria ser rigorosamente escrutinado e avaliado. Afinal, in\u00fameras escolas privadas e a pr\u00f3pria rede p\u00fablica federal ofereciam ensino de excelente padr\u00e3o com a estrutura curricular ent\u00e3o vigente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1971, com a Lei n\u00b0 5.692 de diretrizes e bases para o ensino de 1\u00b0 e 2\u00b0 graus (este correspondia ao atual ensino m\u00e9dio), foram extintos o cient\u00edfico e o cl\u00e1ssico. O 2\u00b0 grau tornou-se obrigatoriamente profissionalizante. Canoa furada. N\u00e3o fazia sentido nem havia condi\u00e7\u00f5es. Desastre total. Recuo em 1982, com a Lei n\u00b0 7.044 que aboliu a profissionaliza\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, chego a pensar que a legisla\u00e7\u00e3o educacional brasileira assemelha-se a um fant\u00e1stico laborat\u00f3rio de experimentos aloprados e mal sucedidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem tudo, por\u00e9m, \u00e9 um mar de lama. Por exemplo, a partir de 1996 foi concebida e implantada uma vigorosa e eficiente pol\u00edtica de avalia\u00e7\u00e3o educacional externa. <\/p>\n\n\n\n<p>Na atual reforma, o conceito central de \u201citiner\u00e1rio formativo\u201d precisaria ser aprofundado e, talvez, redefinido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas n\u00e3o profissionalizantes. Mas esse \u00e9 tema para outra conversa. <\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e profissional, por seu turno, em fun\u00e7\u00e3o de demandas sociais e econ\u00f4micas, sempre ter\u00e1 lugar desde o in\u00edcio do ensino m\u00e9dio. Seja na forma de aprendizagem, que conjuga forma\u00e7\u00e3o e emprego, seja na qualifica\u00e7\u00e3o e na forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, em atendimento a necessidades dos jovens, das fam\u00edlias e dos setores produtivos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sensata e oportuna a provid\u00eancia de se verificar o que, de fato, est\u00e1 acontecendo no ch\u00e3o das escolas. Ver e ouvir alunos, professores, gestores, fam\u00edlias e comunidades. S\u00f3, ent\u00e3o, fortalecer, redefinir ou criar novos rumos e destinos. Com vis\u00e3o de Estado e sem dogmatismos conceituais e ideol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________ <\/p>\n\n\n\n<p>Nacim Walter Chieco \u00e9 Titular da Cadeira 08 da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Nacim Walter Chieco Em mar\u00e7o de 2017, logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 13.415 de 16 de fevereiro daquele ano, fiz um artigo denominado \u201cReforma do ensino m\u00e9dio: prevenindo o caos\u201d, divulgado no site da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o (APE). Basicamente, minha tese era a de que a dita reforma tinha grandes perspectivas de enorme fracasso. Mas, lei posta, posta est\u00e1 e precisa ser cumprida. 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