{"id":2981,"date":"2023-06-11T12:44:48","date_gmt":"2023-06-11T15:44:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=2981"},"modified":"2023-11-02T17:37:22","modified_gmt":"2023-11-02T20:37:22","slug":"artigo-o-fantasma-de-fahrenheit","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-o-fantasma-de-fahrenheit\/","title":{"rendered":"Artigo: O fantasma de Fahrenheit"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/prof05.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2985\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/prof05.jpg 600w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/prof05-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/prof05-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Hubert\nAlqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>De tempos em\ntempos a realidade imita a fic\u00e7\u00e3o. A recente onda de censura a livros em\nescolas e bibliotecas dos Estados Unidos nos faz lembrar da sociedade dist\u00f3pica\ne autorit\u00e1ria do livro \u201cFahrenheit 451\u201d, de Ray Bradbury. Na sociedade\nimagin\u00e1ria livros s\u00e3o proibidos e queimados pelo governo, com o objetivo de\ncontrolar o pensamento e a opini\u00e3o p\u00fablica. Publicado em 1953, Fahrenheit se\ntornou um cl\u00e1ssico da literatura. \u00c0 \u00e9poca, foi acusado de \u201cinfluenciar negativamente\na juventude\u201d. Seu autor virou suspeito de atividades antiamericanas, nos tempos\ndo macarthismo.<\/p>\n\n\n\n<p>As piras\ncontempor\u00e2neas nas quais ardem livros proibidos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as mesmas utilizadas\npelo bombeiro Guy Montag, protagonista do Fahrenheit 451. Mas, como na fic\u00e7\u00e3o,\nvivemos tempos de distopias, impulsionadas pela polariza\u00e7\u00e3o e por ondas de\nfundamentalismo religioso, xenofobia, racismo e discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.\nFahrenheit, continua entre n\u00f3s. Inclusive no ber\u00e7o da democracia moderna,\nprimeiro pa\u00eds a consignar na sua Constitui\u00e7\u00e3o os valores dos iluministas. Entre\neles a liberdade de express\u00e3o e de pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a\nAmerican Library Association, os pedidos de retirada de livros de escolas e\nbibliotecas em 2022 alcan\u00e7aram o maior n\u00famero nos \u00faltimos 20 anos. Esse dado \u00e9\ncorroborado pela ONG Am\u00e9rica Pen, segundo a qual no ano letivo de 2021-2022\nmais de 2.500 proibi\u00e7\u00f5es de livros foram emitidas por distritos escolares em 32\nestados americanos. Atingiram um universo de 5 mil escolas e 4 milh\u00f5es de\nalunos. <\/p>\n\n\n\n<p>A maioria\ndas proibi\u00e7\u00f5es envolve obras que abordam quest\u00f5es de identidade sexual ou\nracial, como \u00e9 o caso do livro \u201cNem todos os garotos s\u00e3o azuis\u201d, de George M.\nJohnson. No topo dos mais censurados nas escolas e bibliotecas est\u00e1 o HQ\n\u201cG\u00eanero Queer\u201d. Cl\u00e1ssicos como \u201cO olho mais azul\u201d e \u201cO sol \u00e9 para todos\u201d tamb\u00e9m\nentraram no index da nova onda macarthista.&nbsp;\n<\/p>\n\n\n\n<p>A explos\u00e3o\ndas proibi\u00e7\u00f5es de livros teve crescimento de 40% em um ano nos Estados Unidos.\nTornou-se uma quest\u00e3o nacional, invadindo a agenda da disputa presidencial. O\npresidente Joe Biden acusa seus advers\u00e1rios de atuarem como Girolamo\nSavonarola, padre dominicano que na Firenze renascentista queimou obras de\nDante, Ov\u00eddio e de Boticelli. Biden n\u00e3o deixa de ter raz\u00e3o. A maioria dos\npedidos de proibi\u00e7\u00e3o a livros vem de c\u00edrculos reacion\u00e1rios pr\u00f3ximos ao\ntrumpismo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um\nfen\u00f4meno exclusivamente americano e pode chegar at\u00e9 n\u00f3s. Ali\u00e1s, j\u00e1 chegou. A\nUniversidade Rio Verde, de Goi\u00e1s, retirou de sua lista de obras liter\u00e1rias\nrecomendadas o livro \u201cEu receberia as piores not\u00edcias dos seus lindos l\u00e1bios\u201d\npor press\u00e3o do deputado Gustavo Gayer, do Partido Liberal. Como presidente da\nFunda\u00e7\u00e3o Palmares, no governo passado, S\u00e9rgio Camargo quis retirar do acervo da\nFunda\u00e7\u00e3o mais de 300 obras sob o argumento de que tinham tra\u00e7os \u201cmarxistas,\nbandid\u00f3latras, pervers\u00e3o sexual e bizarrias\u201d. Na mesma linha, o ent\u00e3o prefeito\ndo Rio de Janeiro Marcelo Crivella mandou retirar, em 2019, da Feira Bienal do\nLivro o HQ \u201cVingadores: a cruzada das crian\u00e7as\u201d, por trazer na capa dois rapazes\nse beijando.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova onda\nde ca\u00e7a \u00e0s bruxas nos remete a tristes p\u00e1ginas da hist\u00f3ria da humanidade. A\ndestrui\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias \u00e9 t\u00e3o antiga como o pr\u00f3prio livro. Antecede \u00e0\ngrande inven\u00e7\u00e3o de Gutemberg, a imprensa, que democratizou o acesso ao conhecimento,\n\u00e0 cultura e, em especial, \u00e0 literatura. Tabletas de argila, papiros e\npergaminhos foram destru\u00eddos ao longo dos s\u00e9culos, por guerras ou por quest\u00f5es\nde natureza moral, pol\u00edtica, ideol\u00f3gica ou religiosa. As sucessivas destrui\u00e7\u00f5es\nda Biblioteca de Alexandria \u2013 com mais de um milh\u00e3o de livros \u2013 fez desaparecer\num acervo inestim\u00e1vel da literatura antiga.<\/p>\n\n\n\n<p>Fahrenheit\n451 j\u00e1 existia s\u00e9culos e s\u00e9culos antes de se transformar em uma grande obra. O\npoeta alem\u00e3o Heinrich Heine (1797- 1856) dizia: \u201cOs que queimam livros acabam\nqueimando homens\u201d. Hitler \u00e9 o maior exemplo.&nbsp;\nEm 10 de maio de 1931 livros queimavam em 22 cidades alem\u00e3s. Para n\u00e3o\nterem o mesmo destino dos milh\u00f5es de judeus mortos em c\u00e2maras de g\u00e1s e incinerados\nnos fornos de campos de concentra\u00e7\u00e3o, escritores como Bertolt Brecht, os irm\u00e3os\nThomas e Henrich Mann, Ernest Toller, cujos livros arderam nas fogueiras\nnazistas, tiveram de deixar a Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Savonarola\nentendia o Renascimento como s\u00edmbolo da frouxid\u00e3o moral e da degeneresc\u00eancia.\nPara livrar Firenze de seus males, patrocinou em 7 de fevereiro de 1497 a mais\ntr\u00e1gica de suas \u201cfogueiras da vaidade\u201d, queimando livros e obras de artes que,\nsegundo ele, incitavam o pecado da verdade. Depois, a Igreja mandou queimar\ntodos os escritos e serm\u00f5es de Savonarola. E ap\u00f3s ser condenado \u00e0 forca, seu\ncad\u00e1ver foi consumido nas mesmas chamas a que ele tinha condenado tantas obras\nliter\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A censura, a\nproibi\u00e7\u00e3o, a destrui\u00e7\u00e3o ou a queima de livros n\u00e3o s\u00e3o um monop\u00f3lio de regimes\nautorit\u00e1rios. Mesmo os Estados Unidos, pa\u00eds exemplo de democracia, tem em sua\nhist\u00f3ria p\u00e1ginas nas quais n\u00e3o tem motivos para se orgulhar. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 1956 a\nag\u00eancia americana FDA iniciou um processo para proibir a venda de livros do\npsiquiatra e sex\u00f3logo austro-americano Wilhelm Heich. Como consequ\u00eancia, alguns\nlivros de Reich foram confiscados e destru\u00eddos. Entre eles o cl\u00e1ssico \u201cA fun\u00e7\u00e3o\ndo orgasmo\u201d. Nem mesmo a obra prima-prima de James Joyce, Ulysses, escapou da\ncensura. Em 1922 sua publica\u00e7\u00e3o e venda foram proibidas porque, segundo os censores,\ntinha teor obsceno, \u201cal\u00e9m de conter pornografia e blasf\u00eamias\u201d. S\u00f3 em 1933 o\nlivro foi liberado &#8211; por decis\u00e3o judicial.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos\nmaiores romances russos do s\u00e9culo vinte, o \u00e9pico \u201cVida e Destino\u201d, de Vassili\nGrossman, escrito em 1962, s\u00f3 seria publicado na antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica mais de\n40 anos depois, j\u00e1 nos estertores da \u201cp\u00e1tria-m\u00e3e do socialismo\u201d, quando seu\nautor j\u00e1 tinha morrido. Segundo Mikhail Suslov, ide\u00f3logo do Partido Comunista\nsovi\u00e9tico desde o fim da segunda guerra, \u201cVida e Destino\u201d s\u00f3 poderia ser\npublicado \u201cdaqui a 250 anos\u201d pelas amea\u00e7as que representava ao regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se\ntransformam em pol\u00edtica de estado nos regimes totalit\u00e1rios, a persegui\u00e7\u00e3o a\nescritores e a destrui\u00e7\u00e3o de livros nos faz retroagir \u00e0 barb\u00e1rie. A pretexto de\nse livrar de \u201cQuatro velhos \u2013 velhas ideias, velhas culturas, velhos costumes e\nvelhos h\u00e1bitos\u201d, a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural de Mao Ts\u00e9 Tung mandou queimar todos os\ntextos sagrados e toda literatura ocidental. No Camboja do Kmer Vermelho a\nBiblioteca Nacional de Phnom Penh foi destru\u00edda e em sua porta penduraram um\nletreiro: \u201cN\u00e3o temos livros. O governo do povo triunfou\u201d. \u00c9 Fahrenheit em\nestado puro.<\/p>\n\n\n\n<p>Que seu\nfantasma deixe de rondar o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>______________________________________\n<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert\nAlqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e diretor do Col\u00e9gio\nBandeirantes. Foi Secret\u00e1rio Estadual de Educa\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res De tempos em tempos a realidade imita a fic\u00e7\u00e3o. A recente onda de censura a livros em escolas e bibliotecas dos Estados Unidos nos faz lembrar da sociedade dist\u00f3pica e autorit\u00e1ria do livro \u201cFahrenheit 451\u201d, de Ray Bradbury. Na sociedade imagin\u00e1ria livros s\u00e3o proibidos e queimados pelo governo, com o objetivo de controlar o pensamento e a opini\u00e3o p\u00fablica. 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