{"id":3085,"date":"2023-07-07T13:32:53","date_gmt":"2023-07-07T16:32:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=3085"},"modified":"2024-03-19T12:45:12","modified_gmt":"2024-03-19T15:45:12","slug":"2013-um-grito-de-angustia-coletiva-%ef%bb%bf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2013-um-grito-de-angustia-coletiva-%ef%bb%bf\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; 2013: um grito de ang\u00fastia coletiva \ufeff"},"content":{"rendered":"\n<p>por Hubert Alqu\u00e9res <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/prof04.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3086\"\/><figcaption>Acad\u00eamico Hubert Alqu\u00e9res, presidente da APE<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dez anos\ninaugurava-se no Brasil uma nova forma de mobiliza\u00e7\u00e3o, com as jornadas que\nreuniram multid\u00f5es em diversas cidades do pa\u00eds. Fen\u00f4meno semelhante tinha\nacontecido antes, com a chamada \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d e os \u201cIndignados\u201d na Espanha.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Em comum,\ntais movimentos fugiram do escopo das manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais, organizadas\nde forma vertical por partidos pol\u00edticos, sindicatos ou movimentos sociais, na\nmaioria das vezes de esquerda. O novo fen\u00f4meno foi chamado de \u201cenxameamento\u201d\nporque as pessoas saiam espontaneamente das redes sociais para as ruas sem\nestruturas hierarquizadas e de forma horizontal. A presen\u00e7a de estudantes sempre\nfoi expressiva nestas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje\nn\u00e3o h\u00e1 consenso na comunidade acad\u00eamica e no mundo pol\u00edtico sobre o significado\ndas jornadas de junho de 2013. Muitas vezes o debate vem contaminado por um vi\u00e9s\nideol\u00f3gico, impedindo uma leitura desapaixonada sobre o junho que abalou o\nBrasil. Mas, no campo da esquerda tradicional e de muitos intelectuais que\norbitam em torno do Partido dos Trabalhadores, foi constru\u00edda uma narrativa\nmajorit\u00e1ria, segundo a qual 2013 foi o ovo da serpente da ascens\u00e3o da\nextrema-direita ao poder, com a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro cinco anos ap\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Interessante observar que essa narrativa foi constru\u00edda a posteriori. Nos dias em que ocorreram as manifesta\u00e7\u00f5es o Governo Dilma as viu como produto dos avan\u00e7os sociais dos anos dourados do PT, definidos por Lula, no seu costumeiro hiperbolismo, como um \u201cmomento m\u00e1gico\u201d. Para o partido estava acontecendo apenas um fen\u00f4meno absolutamente natural: \u201cquando se conquista avan\u00e7os sociais, as pessoas querem sempre mais\u201d, como dizia a ent\u00e3o presidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto a primeira leitura do partido sobre aqueles acontecimentos era positiva. Tanto que seu presidente, Ruy Falc\u00e3o, prometeu transformar as manifesta\u00e7\u00f5es em um mar vermelho, com os militantes petistas enchendo as ruas com bandeiras do Partido. Quando a juventude petista aderiu aos atos, foi surpreendida por um coro gigantesco: \u201dsem partido, sem partido\u201d. O coro se explicava parcialmente pelo fato do PT ter ca\u00eddo de paraquedas em manifesta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o convocou e muito menos liderou. <\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade,\na esquerda no poder estava catat\u00f4nica diante daqueles acontecimentos. Como na\nm\u00fasica de Caetano, n\u00e3o estava entendendo quase nada do que as ruas diziam. Dez\nanos depois Ideli Salvatti, ex- ministra das Rela\u00e7\u00f5es Institucionais do governo\nDilma Roussef confessou: \u201daquilo terminou e n\u00e3o&nbsp;\nconseguimos entender o que movia tudo. Era algo novo\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 a partir\ndo impeachment de Dilma foi constru\u00edda a narrativa baseada em causalidades\nentre as jornadas de junho, o impeachment de Dilma, a Lava-Jato, a pris\u00e3o de\nLula e a vit\u00f3ria de Bolsonaro. Essa interpreta\u00e7\u00e3o mecanicista caiu como uma\nluva para aplacar a consci\u00eancia de uma esquerda refrat\u00e1ria a reconhecer seus\nerros, inclusive os de natureza \u00e9tica. Mas n\u00e3o explica os acontecimentos de dez\nanos atr\u00e1s. Torna-se necess\u00e1rio retomar o debate.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem viseiras\nideol\u00f3gicas, o cientista pol\u00edtico Jonas Marcondes de Medeiros faz uma leitura\nessencialmente positiva do junho que abalou o Brasil. Segundo ele, naquele\njunho \u201chavia uma demanda de democratizar a democracia, para aprofundar os\nvalores da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988\u201d. Convenhamos, isso nada tem a ver com a prega\u00e7\u00e3o\ngolpista que redundou no 8 de janeiro de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>As jornadas\nde 2013 foram, como a descreveu o cientista pol\u00edtico Marco Aur\u00e9lio Nogueira em\nseu livro As ruas e a democracia, \u201cum grito de ang\u00fastia coletiva\u201d, decorrente\nde dois fatores: o mau funcionamento do Estado de Bem-Estar Social criado pela\nConstitui\u00e7\u00e3o de 1988 e a crise de representa\u00e7\u00e3o de um sistema pol\u00edtico\nimperme\u00e1vel e descolado dos sentimentos da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_usp.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3089\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Esses dois\nsentimentos se traduziam, de forma cristalina em duas palavras de ordem dos\nmanifestantes: \u201cQueremos Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o padr\u00e3o Fifa\u201d e \u201cVoc\u00eas n\u00e3o nos\nrepresentam\u201d. Sim, havia mir\u00edades de slogans em seus cartazes, escritos de\npr\u00f3prio punho. Desde \u201cmeu \u00fatero \u00e9 laico\u201d at\u00e9 a emblem\u00e1tica \u201canote a\u00ed; eu n\u00e3o\nsou ningu\u00e9m\u201d. O recado dos manifestantes era claro: \u201dpara o sistema eu n\u00e3o sou\nningu\u00e9m, mas estou aqui, me manifestando\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As\nmanifesta\u00e7\u00f5es fugiam ao figurino tradicional. Os manifestantes queriam realizar\na cidadania por outros meios, de forma horizontal, por meio de um novo fen\u00f4meno\nque se alastrava, inclusive nas periferias: a forma\u00e7\u00e3o de coletivos,\norganizados em torno de bandeiras tang\u00edveis, n\u00e3o dispostos a sacrificar-se por\num futuro intang\u00edvel. Nesse sentido, junho de 2013 \u00e9 parte de uma onda de\nrevolta democr\u00e1tica que varreu o mundo, al\u00e9m da Primavera \u00c1rabe ou dos\nIndignados na Espanha, ocorreram grandes manifesta\u00e7\u00f5es na Gr\u00e9cia e o Ocupy Wall\nStreet.<\/p>\n\n\n\n<p>O grito de\nang\u00fastia coletiva de 2013 coloriu as ruas brasileiras, atraindo jovens das\nperiferias, fen\u00f4meno que n\u00e3o se viu em jornadas anteriores. As redes sociais\ntinham tornado dispens\u00e1veis a exist\u00eancia de grandes aparatos ou dos grandes\nmeios de comunica\u00e7\u00e3o para o \u00eaxito de manifesta\u00e7\u00f5es. O \u201cM\u00eddia Ninja\u201d inovou com\nsua cobertura de dentro das manifesta\u00e7\u00f5es. As pessoas saiam das redes para as\nruas. Como dizia o cartaz de um manifestante: \u201cSa\u00ed do facebook para entrar para\na hist\u00f3ria!\u201d. Tinham na mente um sentimento reformista, como alardeava um de\nseus cartazes improvisados: \u201dDesculpem o transtorno, estamos reformando o Brasil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"511\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3088\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_3.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_3-400x266.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Como\ncaracterizar ideologicamente esses jovens? Marco Aur\u00e9lio Nogueira entendeu a\nrevolta das ruas como o \u201cesp\u00edrito de uma nova esquerda, anunciando aquilo que a\nvelha esquerda deixou de valorizar: mais importante do que \u2018chegar ao poder\u2019 \u00e9 elaborar\nnovas maneiras de organizar a conviv\u00eancia e compartilhar poderes. Uma esquerda\nmais cultural e participativa, refrat\u00e1ria a ordens unilaterais e hierarquia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estava\nescrito nas estrelas que as manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 desaguariam na vit\u00f3ria de\nBolsonaro. Se isso aconteceu foi devido a incapacidade das for\u00e7as que tinham\nconduzido a transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, principalmente quem estava no poder, de dar\numa resposta institucional e sist\u00eamica aos justos anseios de uma sociedade cansada\nde pagar impostos altos para receber, em troca, servi\u00e7os de terceiro mundo. Em\noutras palavras, os partidos, o parlamento, o poder executivo, os sindicatos, a\nsociedade civil organizada, foram incapazes de trazer para dentro do mundo da\npol\u00edtica, as justas aspira\u00e7\u00f5es de um povo cansado de ficar calado.<\/p>\n\n\n\n<p>O sistema\nfalhou e ao falhar abriu espa\u00e7o para o antissistema, para a antipol\u00edtica.\nQuando isso acontece, n\u00e3o resulta em boa coisa. Bolsonaro foi a forma perversa\n&#8211;&nbsp; por isso mesmo a n\u00e3o-resposta &#8211; da\nincapacidade de se equacionar, pela via democr\u00e1tica, a demanda que vinha das\nruas. H\u00e1 muito a se cobrar de todos, antes de se p\u00f4r o dedo em riste nas\njornadas de junho de 2013. A come\u00e7ar da esquerda encastelada no poder e\nindiferente ao grito das ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderia ser\ndiferente. Perto de n\u00f3s temos o exemplo do Chile, com sua convuls\u00e3o de 2019. O\n\u201cEstalido social\u201d foi muito mais antissistema do que nosso junho de 2013. No\nentanto, os partidos chilenos foram capazes de encontrar uma sa\u00edda\ninstitucional, trazendo para dentro da pol\u00edtica a demanda das ruas. Isso\nredundou na elei\u00e7\u00e3o de Gabriel Boric e no processo constituinte. <\/p>\n\n\n\n<p>No nosso caso faltaram lideran\u00e7as e institui\u00e7\u00f5es capazes de canalizar e dar uma resposta satisfat\u00f3ria \u00e0s duas grandes demandas de junho de 2013: servi\u00e7os p\u00fablicos de padr\u00e3o do primeiro mundo e um sistema de representa\u00e7\u00e3o sintonizado com os anseios da sociedade. Elas continuam perenes. O grito de ang\u00fastia coletiva de 2013 ainda est\u00e1 preso na garganta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3087\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_2.jpg 800w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/manifesta\u00e7\u00e3o2013_2-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Hubert Alqu\u00e9res H\u00e1 dez anos inaugurava-se no Brasil uma nova forma de mobiliza\u00e7\u00e3o, com as jornadas que reuniram multid\u00f5es em diversas cidades do pa\u00eds. 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