{"id":3539,"date":"2023-11-09T14:45:01","date_gmt":"2023-11-09T17:45:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=3539"},"modified":"2023-11-16T13:02:46","modified_gmt":"2023-11-16T16:02:46","slug":"ricardo-viveiros-toma-posse-na-academia-paulista-de-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/ricardo-viveiros-toma-posse-na-academia-paulista-de-educacao\/","title":{"rendered":"Ricardo Viveiros toma posse na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_95.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3540\"\/><figcaption>Novo Acad\u00eamico Ricardo Viveiros de Paula<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Ao ocupar a Cadeira de n\u00famero 30 na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, o professor, jornalista e escritor Ricardo Viveiros de Paula homenageou o fundador e o patrono da cadeira, Professores Jos\u00e9 Bueno de Oliveira Azevedo Filho e Joaquim Silva. Viveiros tamb\u00e9m contou sobre suas experi\u00eancias profissionais na cerim\u00f4nia que aconteceu no dia 8 de novembro no audit\u00f3rio da FIESP.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Leia a \u00edntegra do discurso:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Muito boa noite!<br>Registro, com imenso respeito, que o fundador da cadeira que ocuparei nesta Academia, o professor Jos\u00e9 Bueno de Oliveira Azevedo Filho, carinhosamente tratado por seus colegas e alunos por \u201cBueninho\u201d, foi um educador exemplar. Pessoa de origem nobre teve permanente compromisso com a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica como professor de Hist\u00f3ria, por muitos anos. Com destaque na tradicional Escola Estadual Alexandre de Gusm\u00e3o, no bairro do Ipiranga, nesta Capital.<br>Tamb\u00e9m assinalo que o patrono desta mesma cadeira que ocuparei na APE, o jornalista e professor Joaquim Silva, igualmente merece ser lembrado pelo brilhante trabalho como educador e, em especial, pelos seus livros de Hist\u00f3ria \u2013 refer\u00eancias did\u00e1ticas no ensino da mat\u00e9ria. O per\u00edodo entre 1930 e 1945 foi marcado pela ascens\u00e3o dos regimes totalit\u00e1rios, a crise do capitalismo liberal, e o uso da viol\u00eancia como estrat\u00e9gia para resolu\u00e7\u00e3o de conflitos pol\u00edticos. Nesse cen\u00e1rio, a educa\u00e7\u00e3o escolar foi um palco privilegiado da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e o ensino de Hist\u00f3ria um de seus principais atores. Joaquim Silva, corajosa e fielmente, revelou em seus livros a trama discursiva da cultura pol\u00edtica, comprometida com reformas educacionais e interferindo no curr\u00edculo de Hist\u00f3ria naquele conflitante per\u00edodo.  <br> Muito honroso ter dois ilustres professores de Hist\u00f3ria me antecedendo na cadeira n\u00famero 30, pois tamb\u00e9m escrevo sobre esse mesmo tema. <br> Minha antecessora na cadeira que hoje passo a ocupar, \u00e9 a acad\u00eamica Maria de Lourdes Mariotto Haidar, professora e doutora pela USP, autora de obras referenciais sobre Educa\u00e7\u00e3o. Seus livros mais festejados, pela absoluta relev\u00e2ncia, s\u00e3o \u201cO Ensino Secund\u00e1rio no Brasil Imp\u00e9rio\u201d e \u201cA evolu\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica no Brasil: pol\u00edtica e organiza\u00e7\u00e3o\u201d. Mulher de fibra, capaz e realizadora aumenta, em muito, minha responsabilidade.<br>Espero corresponder a tudo isso ao integrar esta Casa do Conhecimento, mesmo que longe da qualidade profissional de t\u00e3o significativos acad\u00eamicos \u2013 os do passado e os do presente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_88.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3547\"\/><figcaption>M\u00e1rcia L\u00edgia Guidin saudou o novo acad\u00eamico que teve ao seu lado os presidentes da APE (Hubert Alqu\u00e9res), da FIESP (Josu\u00e9 Gomes da Silva) e do Conselho Estadual da Educa\u00e7\u00e3o (Roque The\u00f3philo).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Sinto-me muito feliz por estar sendo empossado na APE, aqui neste audit\u00f3rio da FIESP, por defer\u00eancia de seu presidente, meu amigo Josu\u00e9 Gomes da Silva. N\u00e3o apenas porque dedico-me ao cuidado com a Comunica\u00e7\u00e3o desta entidade maior da ind\u00fastria, mas, em especial, porque a FIESP tem se empenhado, de maneira ampla e respons\u00e1vel, nos desafios da Educa\u00e7\u00e3o e da Cultura. Obrigado, Josu\u00e9!<br> Minha gratid\u00e3o \u00e0 Prof\u00aa Dr\u00aa Marcia L\u00edgia Guidin, pela indica\u00e7\u00e3o do meu nome e pelas generosas palavras aqui proferidas a meu respeito, bem como a todas e a todos os demais acad\u00eamicos pela vota\u00e7\u00e3o un\u00e2nime que me elegeu. <br>Minha gratid\u00e3o ao Prof. Wander Soares que, em 4 de novembro de 2019, ent\u00e3o presidente da APE, concedeu-me o diploma de Membro Honor\u00e1rio da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. Naquela oportunidade, fui saudado pelo acad\u00eamico Prof. Walter Vicioni e recebi o diploma das m\u00e3os da acad\u00eamica Prof\u00aa. Dra. Rose Neubauer \u2013 educadores de alt\u00edssimo n\u00edvel. <br> Meu obrigado especial ao nosso presidente da APE, um guerreiro da Educa\u00e7\u00e3o, Prof. Hubert Alqu\u00e9res.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_107.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3541\"\/><figcaption>Ricardo Viveiros com seu filho Miguel e a esposa Marcia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><br>Registro o amor incondicional que tenho pela minha fam\u00edlia, que sempre compreendeu minha aus\u00eancia no trabalho como jornalista, escritor e professor. Marcia, minha esposa, \u00e9 jornalista, tradutora e professora. Ricardo, o filho mais velho e j\u00e1 falecido, era ilustrador de livros did\u00e1ticos. Felipe, o do meio, \u00e9 diplomata da Uni\u00e3o Europeia, vive e trabalha em Bruxelas (na B\u00e9lgica). Miguel, o ca\u00e7ula, est\u00e1 se formando em Direito na PUC-SP. Ambos muito estudiosos e leitores vorazes, dedicados ao h\u00e1bito de aprender. Meus netos, Juliana e Lucas, ela coordenadora de escola em Zurique (na Su\u00ed\u00e7a) e ele jornalista, tamb\u00e9m sempre respeitaram e buscaram a Educa\u00e7\u00e3o e a Cultura. Minha netinha ca\u00e7ula, Mariana, de sete meses, que morreu com o pai no acidente em que foram v\u00edtimas da falta de educa\u00e7\u00e3o de um motorista alcoolizado, tinha tudo para seguir os passos dos demais. <br> Senhoras e Senhores.<br> Quando rapazola, nas aulas de Ci\u00eancias do curso Ginasial no Col\u00e9gio Santo In\u00e1cio, no Rio de Janeiro, fui tomado por um encantamento, muito al\u00e9m do que o real desejo de aprender, na aula em que o professor explicou como nascia uma borboleta. Eu j\u00e1 arriscava escrever versos e, para um aprendiz de poeta, a borboleta \u00e9 algo inspirador \u2013 leveza, cor, magia.<br> Gostei de estudar a \u201cMetamorfose\u201d. J\u00e1 era rep\u00f3rter e n\u00e3o sabia, sempre fui muito curioso. Um eterno perguntador: Por qu\u00ea? Por qu\u00ea? Por qu\u00ea? E havia lido, embora muito jovem para entender, o livro de Franz Kafka e ficado meio confuso (sempre detestei baratas). No caso da borboleta, a possibilidade de viver um processo de transforma\u00e7\u00e3o que lhe permita a possibilidade de voar, descobrir novos lugares, pessoas, viveres \u00e9 fascinante. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_73.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3560\"\/><figcaption>A Acad\u00eamica Guiomar Namo de Mello levou Ricardo Viveiros para compor a mesa da cerim\u00f4nia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Tempos depois, j\u00e1 no final dos anos 1990, ao assistir ao dist\u00f3pico filme Matrix (vencedor de quatro Oscars), das irm\u00e3s norte-americanas Lilly e Lana Wachowski (uich\u00f3viske), observei que um dos personagens podia escolher entre \u201cdespertar\u201d ou seguir adormecido na sua \u201cmatriz\u201d. A metamorfose naquela falsa realidade capaz de libertar algu\u00e9m do mundo sonhado era como a das borboletas. Na \u00e9poca, j\u00e1 havia relido e entendido Kafka. Ent\u00e3o, era capaz de alcan\u00e7ar a transforma\u00e7\u00e3o pessoal das irm\u00e3s cineastas, no seu direito \u00e0 liberdade na mudan\u00e7a de sexo.<br> Hoje, diante das quest\u00f5es pol\u00edticas que nos perturbam, recordo os tempos do col\u00e9gio dos padres jesu\u00edtas, quando fascinado pelas descobertas biol\u00f3gicas que permitiam criar textos fora do \u201cmais do mesmo\u201d, achava instigante uma lagarta nojenta se transformar em uma arrebatadora borboleta. <br> O professor, educador sens\u00edvel e inteligente, ensinava de verdade \u2013 n\u00e3o deixava apenas decorar para passar nas provas. De maneira l\u00fadica, mostrou que a lagarta com o passar do tempo se tornava um ser guloso, esfomeado e, quando tanta comida a tornava obesa em muito ultrapassando suas necessidades metab\u00f3licas, come\u00e7ava a morrer. Nesse momento, acontecia algo fant\u00e1stico: surgiam as c\u00e9lulas imaginativas.<br> C\u00e9lulas imaginativas\u2026 Sim. N\u00e3o \u00e9 figura de linguagem, existem mesmo! Por serem novidade no sistema imunol\u00f3gico da esp\u00e9cie, s\u00e3o atacadas pelas \u00faltimas for\u00e7as da morredi\u00e7a lagarta. Como atuam em uma frequ\u00eancia pr\u00f3pria, n\u00e3o se deixam atingir. V\u00e3o se unindo, criando n\u00facleos e, na sequ\u00eancia, conectam-se e se tornam ainda mais fortes. E acontece algo determinante: um gene adormecido desperta e traz um novo ser, e a lagarta alimenta a borboleta que nasce. E n\u00e3o pode ser ajudada a se livrar do casulo, porque, caso isso aconte\u00e7a, n\u00e3o ter\u00e1 a necess\u00e1ria for\u00e7a para voar. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_74.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3561\"\/><figcaption>Roque The\u00f3philo, presidente do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, saudou o novo Acad\u00eamico<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A metamorfose transforma a lagarta em borboleta, dando-lhe, pela uni\u00e3o de objetivos comuns, uma nova exist\u00eancia capaz de \u2013 conscientemente \u2013 ser muito mais \u00fatil, porque na sua diversidade, que alcan\u00e7a 25 mil esp\u00e9cies, esse inseto exerce um papel essencial \u00e0 vida pela poliniza\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, fonte de alimento e bem-estar. Um exemplo motivador para n\u00f3s, humanos, do que seja, como diz a express\u00e3o em Ingl\u00eas, (\u00e9ueiquenen) awakening \u2013 o despertar.<br> Estamos vivendo tempos complexos, de inseguran\u00e7a e medo. N\u00e3o podemos morrer por desconhecimento, por falta de respeito comum. Devemos fazer como ensina a metamorfose da lagarta ao se tornar borboleta. Ter coragem para transformar, unir para vencer os desafios que se imp\u00f5em. Conscientes e motivados, apesar das adversidades, podemos ser muito mais fortes e mudar o destino. <br> A estrutura social deve evoluir no aprendizado, \u00e9 hora de sair do marasmo da simples aceita\u00e7\u00e3o do \u00f3bvio, das mesmices que a autoajuda oferece e construir um mundo novo. Vamos superar o medo, o consumismo irrespons\u00e1vel, o desamor, o ego\u00edsmo, a corrup\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica e derrubar a viol\u00eancia com educa\u00e7\u00e3o e cultura. Chega de obscurantismo! H\u00e1 espa\u00e7o para nos unirmos como as c\u00e9lulas imaginativas e formar n\u00facleos que gerem mudan\u00e7a, transmuta\u00e7\u00e3o, metamorfose.<br> O mundo \u00e9 nosso, a vida \u00e9 nossa. Vamos sonhar o sonho poss\u00edvel e vencer a ignor\u00e2ncia construindo novos tempos de paz, com liberdade e justi\u00e7a social. Com cultura e educa\u00e7\u00e3o para todos. A ind\u00edgena guatemalteca Rigoberta Mench\u00fa Tum, da etnia Quich\u00e9-Maia, Pr\u00eamio Nobel da Paz (1992), disse: \u201cEste mundo n\u00e3o vai mudar, a n\u00e3o ser que estejamos dispostos a mudar a n\u00f3s mesmos\u201d.<br> Neste contexto, est\u00e1 o desafio de educar. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_83.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3563\"\/><figcaption>Acad\u00eamicos Sonia Penin e Jos\u00e9 Renato Nalini, levaram a Medalha da Academia e o termo de posse para o novo Acad\u00eamico Ricardo Viveiros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> O franc\u00eas Jacques Delors tem, hoje, 98 anos. De origem humilde, formou-se em Economia pela Sorbonne e, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como banc\u00e1rio. Foi ministro da Economia e Finan\u00e7as da Fran\u00e7a e um dos principais autores do Tratado de (maastricti) Maastricht, que desenhou a cria\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia (UE). Presidiu a Comiss\u00e3o Europeia entre 1985 e 1995, indicado pelo conterr\u00e2neo Fran\u00e7ois Mitterrand e pelo alem\u00e3o Helmut Kohl. De 1992 a 1996, presidiu a Comiss\u00e3o Internacional sobre Educa\u00e7\u00e3o para o s\u00e9culo 21, da Unesco. Nesse per\u00edodo, foi autor do relat\u00f3rio \u201cEduca\u00e7\u00e3o, um tesouro a descobrir\u201d, em que se definem os \u201cQuatro pilares da Educa\u00e7\u00e3o\u201d.<br>  \u201c\u00c0 educa\u00e7\u00e3o cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a b\u00fassola que permite navegar atrav\u00e9s dele\u201d, afirmou Delors, doutor pela Universidade de Lisboa, Portugal.<br> Durante seu trabalho na Unesco, o economista que se tornou um grande educador apontou como principal consequ\u00eancia da sociedade do conhecimento a necess\u00e1ria aprendizagem ao longo de toda a vida, fundamentada em quatro pilares, que s\u00e3o, a um s\u00f3 e mesmo tempo, do conhecimento e da forma\u00e7\u00e3o continuada. Esses pilares, os saberes e as compet\u00eancias, s\u00e3o apresentados aparentemente divididos. Entretanto, as quatro vias est\u00e3o interligadas em perfeita sinergia com um objetivo \u00fanico: a forma\u00e7\u00e3o hol\u00edstica do indiv\u00edduo.<br> S\u00e3o os pilares de Delors: Aprender a conhecer \u2013 Porque \u00e9 necess\u00e1rio tornar prazeroso o ato de compreender, descobrir, construir e reconstruir o conhecimento para que n\u00e3o seja ef\u00eamero, para que se mantenha ao longo do tempo e para que valorize a curiosidade, a autonomia e a aten\u00e7\u00e3o de modo constante. \u00c9 preciso, tamb\u00e9m, pensar o novo, reconstruir o velho e reinventar o pensar. Fugir do \u201cmais do mesmo\u201d.<br> Aprender a fazer \u2013 N\u00e3o basta preparar-se com cuidados para se inserir no setor do trabalho. A r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o por que passam as profiss\u00f5es pede que o indiv\u00edduo esteja apto a enfrentar novas situa\u00e7\u00f5es de emprego e a trabalhar em equipe, desenvolvendo esp\u00edrito cooperativo e de humildade na reelabora\u00e7\u00e3o conceitual e nas trocas, valores necess\u00e1rios ao trabalho coletivo. Ter iniciativa e intui\u00e7\u00e3o, gostar de certa dose de risco, saber comunicar-se, resolver conflitos e ser flex\u00edvel. <br> Aprender a conviver \u2013 No mundo atual, este \u00e9 um important\u00edssimo aprendizado. \u00c9 valorizado quem aprende a viver com os outros, a compreend\u00ea-los, a desenvolver a percep\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia, a administrar conflitos, a participar de projetos comuns, a ter prazer no esfor\u00e7o comum.<br> Aprender a ser \u2013 \u00c9 importante desenvolver sensibilidade, sentido \u00e9tico e est\u00e9tico, responsabilidade pessoal, pensamento aut\u00f4nomo e cr\u00edtico, imagina\u00e7\u00e3o, criatividade, iniciativa e crescimento integral da pessoa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intelig\u00eancia. A aprendizagem precisa ser integral, n\u00e3o negligenciando nenhuma das potencialidades de cada indiv\u00edduo.<br> Com base nessa vis\u00e3o dos quatro pilares do conhecimento, podem-se prever grandes consequ\u00eancias na educa\u00e7\u00e3o. O ensino-aprendizagem voltado apenas para a absor\u00e7\u00e3o de conhecimento e que tem sido objeto de preocupa\u00e7\u00e3o constante dos professores deve dar lugar ao ensinar a pensar, ao saber comunicar-se e pesquisar, ao ter racioc\u00ednio l\u00f3gico, fazer s\u00ednteses e elabora\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, ao ser independente e aut\u00f4nomo; enfim, ao ser socialmente capaz.<br> Teria imaginado tudo isso algu\u00e9m que n\u00e3o tivesse lutado para vencer na vida? Uma pessoa que n\u00e3o tivesse sido salva da pobreza pela educa\u00e7\u00e3o? N\u00e3o sei. Jacques Delors uniu a consci\u00eancia do poder libertador do aprender ao conhecimento que, por m\u00e9rito pr\u00f3prio, soube conquistar para sua carreira. Economista e professor, estabeleceu ponte l\u00f3gica entre a forma\u00e7\u00e3o de qualidade e o mercado de trabalho. Foi te\u00f3rico e pr\u00e1tico na concep\u00e7\u00e3o de seus pilares da educa\u00e7\u00e3o, respeitados e adotados em todo o mundo. Delors \u00e9 uma das figuras internacionais que transcendeu as oportunidades pol\u00edticas, abandonou o pensamento individual e abra\u00e7ou o compromisso com o interesse coletivo. Recebeu pr\u00eamios e honrarias de v\u00e1rios pa\u00edses.<br> O sucesso da educa\u00e7\u00e3o no Brasil depende apenas de n\u00f3s mesmos. De nossas escolhas a cada nova elei\u00e7\u00e3o para que sejam criadas e realizadas pol\u00edticas p\u00fablicas respons\u00e1veis e de qualidade. Caminhos que nos garantam um futuro melhor, mais justo e capaz. Cultura e educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancias irm\u00e3s, garantem soberania, independ\u00eancia, liberdade, desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_96.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3565\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p> Senhoras e Senhores.<br> No mundo moderno, nestes velozes e competitivos tempos de informa\u00e7\u00e3o global on-line, o conhecimento mais do que nunca se tornou essencial \u00e0 sobreviv\u00eancia, ao progresso de qualquer ser humano. Sem educa\u00e7\u00e3o de qualidade \u2013 ali\u00e1s, como tal, n\u00e3o se pode conceber diferente \u2013, o mundo est\u00e1 condenado \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o, ao atraso. O progresso nasce no aprendizado, no crescimento, no saber cada vez mais amplo e melhor.<br> Do latim (signare) insignare, que significa \u201cassinalar\u201d no sentido de \u201cmostrar algo a algu\u00e9m\u201d, o professor, em todos os n\u00edveis, hoje transcendeu a esse distanciamento original e se integrou ao aluno na busca de um aperfei\u00e7oamento m\u00fatuo nas rela\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o. Ensinar e aprender s\u00e3o um s\u00f3 caminho de m\u00e3o dupla, permanente e humilde pr\u00e1tica de quem, de fato, quer evoluir. <br> O pioneiro educador, An\u00edsio Teixeira, que implantou o ensino p\u00fablico no Brasil, disse: \u201cQuando monto na asa de um pensamento, uma ideia, eu voo nessa ideia como se ela fosse uma ave\u201d. Como o sonho, o saber \u00e9 ilimitado. Aprende mais, quem busca mais. Quem tem a coragem de voar nas asas da cria\u00e7\u00e3o, descortinando outros inimagin\u00e1veis horizontes.<br> Hoje, a tecnologia de ponta oferece as chamadas \u201cm\u00e1quinas de ensino\u201d. \u00c9 o computador que, por meio de espec\u00edficos programas (lineares, ramificados etc.), educa \u00e0 dist\u00e2ncia. Adaptados \u00e0 estrutura mental dos alunos, os micros e os seus complexos softwares come\u00e7am a pretender substituir o professor na sala de aula. Engano. Nada substitui o olhar do mestre, o carinho pelo aluno, a capacidade de ler a alma de cada um e, com arte e compromisso, buscar a melhor forma para que consiga aprender.<br> Em entrevistas e palestras que dou, tenho recebido uma pergunta: \u201cO senhor est\u00e1 preocupado com a intelig\u00eancia artificial?\u201d. Minha resposta \u00e9 simples: \u201cA intelig\u00eancia artificial n\u00e3o me preocupa, o que me preocupa \u00e9 a burrice natural \u2013que segue viva e crescente!\u201d<br> Conheci e tive o privil\u00e9gio de conviver com dois emblem\u00e1ticos professores brasileiros, neste pa\u00eds de tantos abnegados e capazes mestres: Paulo Freire e Darcy Ribeiro, nascidos e mortos nas mesmas \u00e9pocas, ambos vieram ao mundo no in\u00edcio dos anos 1920 e desapareceram em 1997. Entretanto, seus ensinamentos e marcantes exemplos ficaram para a eternidade, como cabe aos homens e \u00e0s mulheres de boa vontade que n\u00e3o passam pelo mundo como apenas uma brisa, mesmo que de pura poesia.<br> Freire e Darcy, na melhor demonstra\u00e7\u00e3o do que significa ser professor num pa\u00eds pobre e em desenvolvimento, passaram suas vidas lutando pela democratiza\u00e7\u00e3o do ensino, pela erradica\u00e7\u00e3o do analfabetismo. Ambos se arriscaram na luta contra a obscuridade do populismo que, sempre, preteriu a educa\u00e7\u00e3o para melhor manipular o povo, triste v\u00edtima da desinforma\u00e7\u00e3o, do desconhecimento. Sob um compromisso acima das pr\u00f3prias realidades, foram perseguidos, presos, torturados e amargaram o ex\u00edlio em nome do direito \u00e0 liberdade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura para todos n\u00f3s.<br> Em 1994, na Alemanha, passei uns dias em companhia de Darcy Ribeiro e outros intelectuais brasileiros. Particip\u00e1vamos do evento internacional \u201cBrasil \u2013 Conflu\u00eancia de Culturas\u201d, quando nosso Pa\u00eds foi tema da quadrag\u00e9sima sexta Feira do Livro de Frankfurt. Darcy j\u00e1 estava bastante doente, v\u00edtima do c\u00e2ncer que acabou tirando-lhe a vida. Conversamos muito, rimos muito (ele sempre elegante e bem-humorado) e, num inesquec\u00edvel jantar, ele me disse que, entre tudo o que havia feito na vida (escritor, pol\u00edtico, antrop\u00f3logo e administrador p\u00fablico), nada lhe encantava mais do que ser educador. Darcy criou leis, defendeu crian\u00e7as e ind\u00edgenas, fundou universidades e foi o idealizador dos Centros Integrados de Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica, os Cieps, um conceito mais tarde implementado pela prefeita Marta Suplicy, na capital paulista, com os Centros Educacionais Unificados (Ceus).<br> Senhoras e Senhores. <br> Muito al\u00e9m de apenas no \u201cDia do Professor\u201d, a cada 15 de outubro, \u00e9 preciso todos os dias lembrar os mestres que, pelo imenso Brasil, mesmo muitas vezes sem o respeito e o sal\u00e1rio que merecem, iluminam (em alguns cantos, at\u00e9 com um lampi\u00e3o de querosene) os caminhos que garantem aos brasileiros um futuro de liberdade, justi\u00e7a, paz e desenvolvimento. Lembrar sempre, com ternura e gratid\u00e3o de quem nos ensinou as primeiras, segundas e terceiras letras. Porque t\u00e3o importante quanto saber ler, \u00e9 entender e pensar sobre cada conte\u00fado e transformar a vida para melhor. O que depender de mim, terei aqui na APE mais um espa\u00e7o de aprendizado, trabalho e luta. <br>Muito obrigado!&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE_posse_Viveiros_85.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3564\"\/><figcaption>Viveiros assina o Termo de Posse<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcia L\u00edgia Guidin saudou o novo acad\u00eamico que teve ao seu lado os presidentes da APE, da FIESP e do CEE, respectivamente Hubert Alqu\u00e9res, Josu\u00e9 Gomes da Silva e Roque The\u00f3philo.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3540,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-3539","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3539","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3539"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3539\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3572,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3539\/revisions\/3572"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3540"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}