{"id":3590,"date":"2023-12-28T00:20:30","date_gmt":"2023-12-28T03:20:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=3590"},"modified":"2024-03-19T12:47:03","modified_gmt":"2024-03-19T15:47:03","slug":"%ef%bb%bfa-quem-interessa-o-sistema-de-reprovacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/%ef%bb%bfa-quem-interessa-o-sistema-de-reprovacao\/","title":{"rendered":"\ufeffArtigo &#8211; A quem interessa o sistema de reprova\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/APE_USP_115-_-rose.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3735\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Este artigo da Acad\u00eamica Titular Rose Neubauer foi publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>ROSE NEUBAUER<\/strong><br><br>Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 20, ficou evidente que as escolas n\u00e3o poderiam continuar convivendo com rela\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas t\u00e3o autorit\u00e1rias como as at\u00e9 ent\u00e3o existentes. Para as velhas teorias, o centro da aprendizagem era o professor, onisciente, e os alunos, passivos e mudos. Esse clima era coroado com a reprova\u00e7\u00e3o. O bom professor, pasme, era aquele que reprovava muitos alunos. O saber era propriedade de uma elite. O caminho para atingi-lo era o mais in\u00f3spito poss\u00edvel. Se um aluno fosse reprovado, toda a aprendizagem feita no ano era desconsiderada.<\/p>\n\n\n\n<p>A &#8220;boa&#8221; escola brasileira dos anos 50 era assim. Somente 36% da popula\u00e7\u00e3o de 7 a 14 anos estava na escola. O propalado &#8220;ensino de qualidade&#8221; era aquele em que a maioria ficava fora e os que ficavam dentro fracassavam em massa. Perdas de 60% (evas\u00e3o e reprova\u00e7\u00e3o) eram consideradas normais. Parece c\u00ednico nos admirarmos com as taxas de analfabetismo da popula\u00e7\u00e3o de 40 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o de escola come\u00e7a a ser questionada. Ao modelo pedag\u00f3gico autorit\u00e1rio, elitista e excludente, contrap\u00f5e-se um onde o aluno torna-se o centro do processo. Com a ado\u00e7\u00e3o de modelos democr\u00e1ticos nos pa\u00edses ocidentais e o crescimento da classe m\u00e9dia e do proletariado, as elites foram obrigadas a aceitar o compromisso de democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e do saber. Ao professor \u00e9 atribu\u00eddo o importante papel de facilitador do processo. N\u00e3o basta ensinar, \u00e9 preciso levar o aluno a aprender.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modelo traz premissas b\u00e1sicas fundamentadas cientificamente: o ser humano apresenta ritmos e estilos diferentes para realizar a aprendizagem; esta n\u00e3o pode ser interrompida ou sofrer retrocessos, pois implicaria preju\u00edzos tanto \u00e0 auto-imagem do aprendiz quanto \u00e0 sua motiva\u00e7\u00e3o para aprender; toda crian\u00e7a, quando exposta a situa\u00e7\u00f5es motivadoras, \u00e9 capaz de aprender.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a escola mudava em muitos pa\u00edses, aqui o modelo do medo ainda era aplicado. Estudos desenvolvidos em todo o mundo, inclusive no Brasil, mostram os efeitos perversos da reprova\u00e7\u00e3o: na d\u00e9cada de 80, 50% dos alunos abandonavam ou evadiam-se da escola depois de ter ficado de 6 a 8 anos &#8220;estacionados&#8221; na segunda ou terceira s\u00e9rie do ensino fundamental; de cada 100, menos de 10 crian\u00e7as completavam o ensino fundamental em oito anos. \u00c9 poss\u00edvel crer que toda a popula\u00e7\u00e3o escolar do pa\u00eds estivesse retardada mentalmente?<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda em 1995, mais da metade de toda a popula\u00e7\u00e3o escolar brasileira de 7 anos era reprovada na primeira s\u00e9rie. Nenhum outro pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina tinha estat\u00edsticas t\u00e3o perversas. Entretanto conviv\u00edamos tranquilamente com a situa\u00e7\u00e3o. Se a reprova\u00e7\u00e3o fosse t\u00e3o boa, dever\u00edamos ser um pa\u00eds de s\u00e1bios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que algumas tentativas foram feitas. Em 1968, pelo professor da USP, liberal e democrata Jos\u00e9 Mario Pires Azanha, colaborando com Ulhoa Cintra na Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o; em 1984, pelo governador Montoro; e no in\u00edcio dos anos 90, na administra\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o municipal, com Paulo Freire. Creio que essas figuras n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de ser identificadas como malandros. Nem o educador Darcy Ribeiro, inspirador da nova Lei de Diretrizes e Bases Nacionais. \u00c9 nela que est\u00e1 claramente proposta a aprendizagem em progress\u00e3o continuada na forma de ciclos.<\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00f3rmula, na rede estadual paulista, foi a de garantir, a partir de 1996, as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao sucesso dos ciclos: amplia\u00e7\u00e3o da jornada escolar de 720 horas para 1.000 horas, para 90% dos alunos do diurno, e para 800 horas, no per\u00edodo noturno; recupera\u00e7\u00e3o paralela para todos os alunos com dificuldades; o pagamento de horas de trabalho na escola, fora da sala de aula, para capacita\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o dos professores etc.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 depois dessas mudan\u00e7as e ap\u00f3s a confirma\u00e7\u00e3o das quedas dr\u00e1sticas nos \u00edndices de evas\u00e3o e reprova\u00e7\u00e3o, o Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o prop\u00f4s, em 1998, para o ensino fundamental, a ado\u00e7\u00e3o da progress\u00e3o continuada em ciclos. O modelo talvez ainda assuste alguns setores da sociedade. Afinal, a quem incomoda a mudan\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que o sistema de ciclos desvela a incompet\u00eancia da escola e do sistema. A progress\u00e3o continuada n\u00e3o permite mais a puni\u00e7\u00e3o unilateral, impede a farsa. Na reprova\u00e7\u00e3o, a marca do fracasso era do aluno; na progress\u00e3o continuada, a marca do fracasso \u00e9 da escola, da falta de trabalho coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse o caminho que precisamos buscar e que devemos ter coragem de trilhar. Continuar com o discurso e a pr\u00e1tica da reprova\u00e7\u00e3o \u00e9 c\u00f4modo, mas resvala no imoral. A reprova\u00e7\u00e3o continua sendo o instrumento, por excel\u00eancia, para afastar os alunos da escola. Com rela\u00e7\u00e3o ao acesso ao saber, pode ser comparada aos cremat\u00f3rios do Terceiro Reich. A quem interessa atribuir ao sistema de ciclos a id\u00e9ia de caos? Aos professores? Certamente n\u00e3o. Eles sabem que o dom\u00ednio do medo facilita o controle, mas n\u00e3o garante a aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 estamos com uns cem anos de atraso. Resta acreditar, como diz o educador portugu\u00eas Rui Can\u00e1rio, que &#8220;a idade de ouro da educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 por vir&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo da Acad\u00eamica Titular Rose Neubauer foi publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo. ROSE NEUBAUER Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 20, ficou evidente que as escolas n\u00e3o poderiam continuar convivendo com rela\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas t\u00e3o autorit\u00e1rias como as at\u00e9 ent\u00e3o existentes. Para as velhas teorias, o centro da aprendizagem era o professor, onisciente, e os alunos, passivos e mudos. Esse clima era coroado com a reprova\u00e7\u00e3o. O bom professor, pasme, era aquele que reprovava muitos alunos. O saber era propriedade de uma elite. O caminho para atingi-lo era o mais in\u00f3spito poss\u00edvel. Se um aluno fosse reprovado, toda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3735,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-3590","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3590"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3590\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4150,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3590\/revisions\/4150"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}