{"id":3609,"date":"2023-11-26T13:32:59","date_gmt":"2023-11-26T16:32:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=3609"},"modified":"2023-11-29T17:10:58","modified_gmt":"2023-11-29T20:10:58","slug":"carlos-vogt-toma-posse-na-academia-paulista-de-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/carlos-vogt-toma-posse-na-academia-paulista-de-educacao\/","title":{"rendered":"Carlos Vogt toma posse na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE-posse-vogt-01.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3622\"\/><figcaption>Acad\u00eamica Sonia Penin acompanhou o professor Carlos Vogt para compor a mesa de sua posse na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O Professor e Poeta Carlos Vogt discursou e declamou um poema sobre a capital paulista na cerim\u00f4nia em que tomou posse da Cadeira n\u00ba 15  na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. Ela aconteceu em 22 de novembro de 2023, na sala de reuni\u00f5es do Conselho Universit\u00e1rio da Unicamp com a presen\u00e7a do Magn\u00edfico Reitor da Universidade,<\/strong> <strong>prof. Antonio Jos\u00e9 de Almeida Meirelles e do Presidente do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, prof. Roque The\u00f3philo. A Cadeira n\u00ba 15 tem Ant\u00f4nio Firmino de Proen\u00e7a como Patrono e Vicente de Paula Rocha Keppe como Fundador. Carlos Vogt foi antecedido pelo professor Luiz Barco.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE-posse-vogt-06.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3627\"\/><figcaption>Mesa da solenidade foi composta por N\u00edlson Jos\u00e9 Machado, Sonia Penin, Carlos Vogt, Hubert Alqu\u00e9res, Maria Helena Guimar\u00e3es, Roque The\u00f3philo, Reitor Antonio Jos\u00e9 de Almeida Meirelles, Ghisleine trigo da Silveira, Eliana Amaral e Cacim Walter Chieco.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Leia a \u00edntegra do discurso:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Senhoras e Senhores,<\/p>\n\n\n\n<p>Educa\u00e7\u00e3o e Cultura formam o bin\u00f4mio da forma\u00e7\u00e3o humanista do indiv\u00edduo e da sociedade. Acrescente-se a ele a ci\u00eancia e t\u00eam-se o fen\u00f4meno contempor\u00e2neo da cultura cientifica. Juntos constituem os pilares de constru\u00e7\u00e3o, edifica\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento da cultura pol\u00edtica que alimenta e promove a democracia como forma, por sua vez, de manter viva a chama do conhecimento e do bem-estar social e cultural dos povos e das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nide\u00e1rio da educa\u00e7\u00e3o sup\u00f5e tudo isso e requer de n\u00f3s, de cada um, de todos as\nreafirma\u00e7\u00f5es constantes do compromisso com a vida, com as diferen\u00e7as e com a\nigualdade de oportunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Ingressar\nna APE, agora como titular, \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade de continuar a trabalhar por\ntudo isso com a felicidade de estar num ambiente, ele pr\u00f3prio comprometido,\ndesde a sua funda\u00e7\u00e3o com esse ide\u00e1rio e com a qualidade da vida em sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A utilidade do conhecimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um\ndos grandes desafios do mundo contempor\u00e2neo \u00e9, ao lado do chamado desenvolvimento\nsustent\u00e1vel, a transforma\u00e7\u00e3o do conhecimento em riqueza. Como estabelecer\npadr\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e de consumo que atendam \u00e0s demandas das popula\u00e7\u00f5es\ncrescentes em todos os cantos da Terra, preservando a qualidade de vida e o\nequilibro do meio ambiente em todo o planeta? Como transformar conhecimento em\nvalor econ\u00f4mico e social, ou, num dos jarg\u00f5es comuns em nosso tempo, como\nagregar valor ao conhecimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Em\nresumo, a primeira pergunta prop\u00f5e o que chamar\u00edamos de desafio ecol\u00f3gico,\nenquanto a segunda lan\u00e7a o que poder\u00edamos chamar de desafio tecnol\u00f3gico. Para\nenfrentar essa tarefa, pr\u00f3pria do que tamb\u00e9m se convencionou chamar <em>economia\nou sociedade do conhecimento<\/em>, dever\u00edamos estar preparados, entre outras\ncoisas, para cumprir todo um ciclo de evolu\u00e7\u00f5es e de transforma\u00e7\u00f5es do\nconhecimento. Ele vai da pesquisa b\u00e1sica, produzida nas universidades e nas\ninstitui\u00e7\u00f5es afins, passa pela pesquisa aplicada e resulta em inova\u00e7\u00e3o\ntecnol\u00f3gica capaz de agregar valor comercial, isto \u00e9, resulta em produto de\nmercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Os\natores principais desse momento do processo do conhecimento j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais as\nuniversidades, mas as empresas. Entretanto, para que a atua\u00e7\u00e3o das empresas\nseja eficaz, \u00e9 necess\u00e1rio que tenham em seu interior, como parte de sua pol\u00edtica\nde desenvolvimento, centros de pesquisa pr\u00f3prios, ou consorciados com outras\nempresas e com outros laborat\u00f3rios de universidades. O importante \u00e9 que a pol\u00edtica\nde pesquisa e desenvolvimento seja da empresa e vise \u00e0s finalidades\ncomercialmente competitivas da empresa. Sem isso, n\u00e3o h\u00e1 o desafio do mercado,\nn\u00e3o h\u00e1 avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e n\u00e3o h\u00e1, por fim, inova\u00e7\u00e3o no produto.<\/p>\n\n\n\n<p>Um\ndos pressupostos essenciais da chamada economia ou sociedade do conhecimento \u00e9,\npois, para muito al\u00e9m da capacidade de produ\u00e7\u00e3o e de reprodu\u00e7\u00e3o industriais, a\ncapacidade de gerar conhecimento tecnol\u00f3gico e, por meio dele, inovar constantemente\nem um mercado \u00e1vido de novidades e de exig\u00eancias de consumo constantes. Antes,\nna economia tipicamente industrial, a l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o era multiplicar o\nmesmo produto, massificando-o para um n\u00famero cada vez maior de consumidores.\nCostuma-se dizer que, na sociedade do conhecimento, essa l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o tem\no sinal invertido: multiplicar cada vez mais o produto, num processo de\nconstante diferencia\u00e7\u00e3o, para o mesmo segmento e para o mesmo n\u00famero de\nconsumidores. Por isso, entre outras coisas, a import\u00e2ncia da pesquisa e da\ninova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gicas para esse mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nser verdade essa troca de sinais, a l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo\nseria n\u00e3o s\u00f3 inversa, mas tamb\u00e9m perversa, j\u00e1 que resultaria num processo sistem\u00e1tico\nde exclus\u00e3o social, tanto pelo lado da participa\u00e7\u00e3o na riqueza produzida, dada\na sua concentra\u00e7\u00e3o \u2013 inevit\u00e1vel para uns e insuport\u00e1vel para muitos -, como\npelo lado do acesso a bens, servi\u00e7os e facilidades por ela gerados, isto \u00e9, do\nacesso ao consumo dos produtos do conhecimento tecnol\u00f3gico e inovador.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE-posse-vogt-04.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3624\"\/><figcaption>Carlos Vogt e Reitor  Antonio Jos\u00e9 de Almeida Meirelles (Tom Z\u00e9)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Desse\nmodo, \u00e9 preciso mencionar um terceiro desafio, t\u00e3o urgente quanto os\nanteriores: o desafio de que, no af\u00e3 do utilitarismo pr\u00e1tico de tudo converter\nem valor econ\u00f4mico, tal qual um rei Midas que, na lenda, tudo transformava em\nouro pelo simples toque, n\u00e3o percamos de vista os fundamentos \u00e9ticos, est\u00e9ticos\ne sociais sobre os quais se assenta a pr\u00f3pria possibilidade do conhecimento e\nde seus avan\u00e7os. Neste sentido, verdade, beleza e bondade, no m\u00ednimo, d\u00e3o ao\nhomem e, como j\u00e1 se escreveu, a ilus\u00e3o de que por elas, ele escapa da pr\u00f3pria\nescravid\u00e3o humana. Assim, dividir a riqueza, fruto do conhecimento, e\nsocializar o acesso a seus benef\u00edcios, frutos da tecnologia e da inova\u00e7\u00e3o, s\u00e3o,\npois, o terceiro grande desafio que devemos enfrentar, e a formula\u00e7\u00e3o desse\ndesafio poderia se dar dentro da perspectiva de um pragmatismo \u00e9tico e social.\nQuem sabe possa esse desafio constituir a utopia indispens\u00e1vel ao sonho de\nsolidariedade das sociedades contempor\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo\nconhecimento \u00e9 \u00fatil. Como o fundamento da moral \u00e9 a utilidade, \u00e9 poss\u00edvel\nafirmar que a utilidade do conhecimento \u00e9 o que o torna \u00e9tico, por defini\u00e7\u00e3o.\nNesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 conhecimento in\u00fatil, j\u00e1 que a a\u00e7\u00e3o de conhecer est\u00e1\nvoltada para proporcionar felicidade, prazer e satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade. O\nconhecimento \u00e9 \u00fatil porque, como outras a\u00e7\u00f5es \u00e9ticas do ser humano, corresponde\n\u00e0 necessidade de uma pr\u00e1tica desej\u00e1vel, aquela que nos leva a buscar a\nfelicidade de nossos semelhantes e nela sentir o prazer de sua realiza\u00e7\u00e3o no\noutro.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma\ndas caracter\u00edsticas fundamentais do conhecimento contempor\u00e2neo \u00e9 o seu\nutilitarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em\nque sentido o conhecimento utilit\u00e1rio das economias globalizadas na sociedade\ndo conhecimento difere da utilidade \u00e9tica constitutiva de todo conhecimento?\nProcurar responder a essa quest\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m procurar entender, na l\u00f3gica de\nfuncionamento das tecnoci\u00eancias, como as grandes transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas\ninfluenciam a ci\u00eancia e como a ci\u00eancia, ela pr\u00f3pria, propicia novas tecnologias\ne inova\u00e7\u00f5es que dinamizam os mercados e ativam o consumo das novidades dos\nprodutos delas decorrentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse\nponto de vista, o conhecimento \u00e9 utilit\u00e1rio n\u00e3o porque tenha finalidade pr\u00e1tica,\nmas por agregar valor aos produtos dele derivados e por ter objetivos\nfortemente comerciais.<\/p>\n\n\n\n<p>A\ncomercializa\u00e7\u00e3o do produto do conhecimento visa tamb\u00e9m \u00e0 felicidade do outro,\npela satisfa\u00e7\u00e3o e pelo prazer, agora, do consumidor a que ficou reduzido o seu\npapel social.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\noutro lado, a din\u00e2mica do conhecimento pressup\u00f5e a liberdade de conhecer. Os\nlimites dessa liberdade s\u00e3o dados pelo alcance de nossa capacidade de\nconhecimento, isto \u00e9, nos termos dos Ensaios de Michel de Montaigne e da\nfilosofia de Blaise Pascal, pela <em>port\u00e9e<\/em>, pelo raio de a\u00e7\u00e3o, do alcance\nda vida, da vida dentro do alcance de nossa a\u00e7\u00e3o no mundo. Em outras palavras,\ne nos termos de Francis Bacon, a liberdade do conhecimento tem os limites do\nconhecimento puro em oposi\u00e7\u00e3o ao conhecimento orgulhoso, oposi\u00e7\u00e3o que, de certa\nforma, sob diferentes express\u00f5es, caracteriza todo o Iluminismo e a grande e\nlonga heran\u00e7a racionalista que nos legou e que permanece viva em nossas\natitudes te\u00f3ricas e metodol\u00f3gicas diante do mundo, de seu conhecimento e dentro\ndo conhecimento do conhecimento do mundo, para introduzir uma pitada do\nidealismo de Immanuel Kant.<\/p>\n\n\n\n<p>A\nalegoria mais conhecida do elogio \u00e0 humildade do conhecimento contra o orgulho\ne a arrog\u00e2ncia da pretens\u00e3o metafisica das perguntas essenciais e das respostas\ndefinitivas est\u00e1 contida no jardim que C\u00e2ndido, na obra <em>C\u00e2ndido ou o\nOtimismo<\/em>, de Voltaire, descobre e decide cultivar em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s\ninquieta\u00e7\u00f5es sem limite, isto \u00e9, sem alcance, sem <em>port\u00e9e<\/em>, sem raio de\na\u00e7\u00e3o, de Pangloss.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\nmesma forma, Jonathan Swift, em <em>Viagens de Gulliver<\/em>, descreve os\nlaputanos plenos de predicados que os tornam ilimitados e in\u00fateis de\nconhecimento. S\u00e3o dotados para conhecer, sendo matem\u00e1ticos ex\u00edmios, mas s\u00e3o\nambiciosos, vivendo nas nuvens, por isso t\u00eam \u201cum dos olhos voltado para dentro\ne o outro apontando diretamente para o z\u00eanite\u201d. Quer dizer, s\u00e3o orgulhosos\nporque querem a verdade definitiva e, por serem dotados dessa ambi\u00e7\u00e3o de\nconhecimento, vivem trope\u00e7ando em si mesmos sem se dar conta do jardim que est\u00e1\nao alcance da vida de cada um para ser cultivado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para\nque se tenha medida da perman\u00eancia desse tema, e num outro campo de produ\u00e7\u00e3o\nintelectual, vale lembrar o epis\u00f3dio da resenha publicada em 12 de agosto de 1915\nno <em>The Times Literary Supplement<\/em> sobre o livro <em>A Servid\u00e3o Humana<\/em>,\nde William Somerset Maugham, na qual se afirma que o her\u00f3i do romance, Philip\nCarey, do princ\u00edpio ao fim da narrativa, \u201cestava t\u00e3o ocupado com seus anseios\npela lua que jamais conseguia ver os seis vint\u00e9ns a seus p\u00e9s\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro\nanos depois da publica\u00e7\u00e3o da saga de forma\u00e7\u00e3o e de aprendizagem do torturado\nPhilip Carey, Maugham publica um romance inspirado na hist\u00f3ria de vida de Paul\nGauguin. Ele cria um personagem \u2013 Charles Strickland \u2013 que, de operador da\nbolsa de Londres, abandona tudo \u2013 vint\u00e9ns e fam\u00edlia \u2013 e se entrega, de corpo e\nalma, no Taiti, \u00e0 obsess\u00e3o \u00fanica e exclusiva de sua exuberante produ\u00e7\u00e3o\npict\u00f3rica. O livro recebeu o t\u00edtulo de <em>The Moon and Sixpence (<\/em>A Lua e\nSeis Vint\u00e9ns; no Brrasil<em>, Um Gosto e Seis Vint\u00e9ns), em resposta \u00e0 resenha do\nThe Times Literary Supplement <\/em>aceita como uma provoca\u00e7\u00e3o a que responde o\nnarrador autobiogr\u00e1fico doromance, com uma forte simpatia pela saga do\nher\u00f3i que despreza os apelos materiais e as obriga\u00e7\u00f5es sociais de seus\ncompromissos e parte em busca da lua e da realiza\u00e7\u00e3o de seus sonhos. Essa\nsolu\u00e7\u00e3o \u00e9 em tudo contr\u00e1ria \u00e0 do desfecho de rom\u00e2ntico prosa\u00edsmo que\ncaracteriza a paz e a tranquilidade do jardim de amor-afei\u00e7\u00e3o<em>\n(loving-kindness) <\/em>que o casamento de Philip Carey e Sally Altheny\nconstitui, ao final da saga de forma\u00e7\u00e3o e de amadurecimento do protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses\ndois romances de Maugham poderiam ser considerados uma representa\u00e7\u00e3o das duas\npontas de tens\u00e3o porque se estende entre nossa exist\u00eancia no mundo e o\nconhecimento do mundo de nossa exist\u00eancia. \u00c9 como se fossem totens\nepistemol\u00f3gicos entre os quais ressoa a pergunta que o homem n\u00e3o deixar\u00e1 de\nfazer enquanto durar sua humanidade. \u201cQual o sentido da vida, se \u00e9 que a vida\ntem algum sentido?\u201d Penso que o sentido da vida \u00e9 o conhecimento que, desse\nmodo, \u00e9 ilimitado pela amplitude da pergunta e \u00e9, ao mesmo tempo, limitado e\n\u00fatil pelo alcance de nossa capacidade de resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo\nparecido pode ser encontrado, ou perdido, na met\u00e1fora fant\u00e1stica e imortal do\nuniverso representado no conto \u201cA Biblioteca de Babel\u201d, de Jorge Luis Borges.\nDepois de perambular pelos paradoxos do conhecimento contidos em sua\nlabir\u00edntica arquitetura, o autor-narrador anota, sob a forma de falsa\nconclus\u00e3o, que a biblioteca \u00e9 ilimitada e peri\u00f3dica. E termina: \u201cSe um viajante\neterno a atravessasse em qualquer dire\u00e7\u00e3o, comprovaria ao cabo de s\u00e9culos que\nos mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem:\na Ordem). Minha solid\u00e3o se alegra com essa elegante esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A cidade e os Livros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando cheguei em S\u00e3o\nPaulo, em 1960, vindo de <\/p>\n\n\n\n<p>Ribeir\u00e3o\nPreto, <\/p>\n\n\n\n<p>De Orl\u00e2ndia, onde estudei e\naprendi, com o professor <\/p>\n\n\n\n<p>Cyro\nArmando Catta Preta a gostar de literatura, a amar a linguagem e outros &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;simbolismos que\ntais, <\/p>\n\n\n\n<p>De Sales Oliveira, onde\nnasci e de onde carrego as marcas de intranspon\u00edveis aus\u00eancias,<\/p>\n\n\n\n<p>Quando cheguei em S\u00e3o\nPaulo, em 1949, pela primeira vez,<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aos seis anos de idade, com minha m\u00e3e, na<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta\u00e7\u00e3o da Luz,<\/p>\n\n\n\n<p>Contei os bondes que\npassavam ininterruptos pela pra\u00e7a <\/p>\n\n\n\n<p>em\nfrente e fiquei, menino,<\/p>\n\n\n\n<p>Admirado com a quantidade\ndos que circulavam<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Abertos, com passageiros, o cobrador no estribo, <\/p>\n\n\n\n<p>Dos que fechados, Camar\u00f5es\nchamados, continham<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Formas mais compostas, indistintas e distantes formas <\/p>\n\n\n\n<p>guardadas\nna proximidade de fatos e acontecimentos<\/p>\n\n\n\n<p>passados,<\/p>\n\n\n\n<p>Como o do jogo, no\nPacaembu, entre Palmeiras e S\u00e3o Paulo a que me levou,<\/p>\n\n\n\n<p>Para me converter, tio\nAltino Os\u00f3rio, s\u00e3o-paulino devoto,<\/p>\n\n\n\n<p>E quase que consegue porque\nvi pela primeira, \u00fanica e definitiva vez, <\/p>\n\n\n\n<p>Jogar, de um lado, Oberdan,\ndo outro, Le\u00f4nidas, o <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diamante negro, o inventor da bicicleta,<\/p>\n\n\n\n<p>Que p\u00f4s para andar, neste\njogo, o time do Palestra.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando cheguei em S\u00e3o\nPaulo, em 1960, fui para<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Estudar no Roosevelt, da rua S\u00e3o Joaquim,<\/p>\n\n\n\n<p>Na Liberdade e no Cursinho\nCastel\u00f5es, na rua Direita,<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Perto do Largo S\u00e3o Bento,<\/p>\n\n\n\n<p>Preparar-me ao vestibular\nde letras da Faculdade de <\/p>\n\n\n\n<p>Filosofia,\nCi\u00eancias e letras, da Universidade de S\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Paulo,\n\u00e0 rua Maria Ant\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e0 Faculdade de Direito do\nLargo S\u00e3o Francisco,<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente Juscelino Kubitschek\nde Oliveira ultimava<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sua Bras\u00edlia, terminava seu mandato,<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds, capital no\nplanalto, ingressava, quase sem<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; perceber,<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s que viv\u00edamos,\neuf\u00f3ricos, a eloqu\u00eancia da<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Democracia, seus versos, viol\u00f5es de rua,<\/p>\n\n\n\n<p>Na crise pol\u00edtica que o\napocalipse travestido em pl\u00e1cida<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; agita\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Preparava, cozia,\nfermentava no p\u00e3o duro, amanhecido<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E seco do golpe militar de 1964.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando cheguei a S\u00e3o Paulo,\nem 1960, tudo era novo, <\/p>\n\n\n\n<p>no\npa\u00eds dos novos,<\/p>\n\n\n\n<p>A Novacap que se\ninaugurava,<\/p>\n\n\n\n<p>O cinema que na Vera Cruz\nse acabava e que no Rio de<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Janeiro nascia de novo no cinema novo,<\/p>\n\n\n\n<p>Os poetas, ent\u00e3o nov\u00edssimos\nna cole\u00e7\u00e3o e na antologia<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; do editor Massao Ohno,<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo novo, menos o Estado\nque j\u00e1 fora novo, embora<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Velho conhecido por repeti\u00e7\u00e3o,<\/p>\n\n\n\n<p>Inclusive a que viria\ndepois do golpe militar, com <\/p>\n\n\n\n<p>sofistica\u00e7\u00e3o\nde atualidade,<\/p>\n\n\n\n<p>Que n\u00e3o era novo, pois, mas\nque espreitava de suas <\/p>\n\n\n\n<p>velhices\ncarrancudas o destino<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa liberdade fr\u00e1gil,\nprazerosa da Maria Ant\u00f4nia, <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ju\u00e3o Sebasti\u00e3o Bar, FAU-maranh\u00e3o, Livraria<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Francesa, Pioneira, Bar Sem Nome, Bar do Z\u00e9, <\/p>\n\n\n\n<p>Arena,\nOficina, Riviera,<\/p>\n\n\n\n<p>Gr\u00eamio da Faculdade de\nFilosofia, Cursinho do<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gr\u00eamio, Martinico Prado, Albuquerque Lins, <\/p>\n\n\n\n<p>Paribar,\nFerro\u00b4s, Redondo, Chic Ch\u00e1, Catequese e<\/p>\n\n\n\n<p>Com\u00edcio\nPo\u00e9tico, Serm\u00e3o do viaduto, Surrealismo,<\/p>\n\n\n\n<p>Gera\u00e7\u00e3o\nBeat, Rilke, Metafisica, Lautr\u00e9amont,<\/p>\n\n\n\n<p>Clarice,\nRoman Jakobson, Todorov, Teatro da<\/p>\n\n\n\n<p>Alian\u00e7a\nFrancesa, Rua General Jardim, Bar\u00e3o de<\/p>\n\n\n\n<p>Itapetininga,\nCinemateca, Sete de Abril, Avenida <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o\nLuiz, Br\u00e1ulio Gomes, Rua da Consola\u00e7\u00e3o,<\/p>\n\n\n\n<p>Biblioteca\nMunicipal, M\u00e1rio de Andrade.<\/p>\n\n\n\n<p>Paulic\u00e9ia desvairada,\nmedita\u00e7\u00e3o sobre o Tiet\u00ea, ode ao<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Burgu\u00eas, remate de males.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rio encontrando Piva,\nencontrando Ginsberg<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No Parque Ibirapuera de um supermercado na <\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Calif\u00f3rnia,<\/p>\n\n\n\n<p>Paranoia, caos, M\u00e1rio em\nS\u00e3o Francisco, com Carlos<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Felipe Mois\u00e9s, Claudio Willer,<\/p>\n\n\n\n<p>Visitando o sobe e desce\ndas ruas e das n\u00e9voas, do oriente, ocidentais,<\/p>\n\n\n\n<p>Oh! Este orgulho m\u00e1ximo de\nser paulistamente!!!<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o Paulo! Como\u00e7\u00e3o da minha\nvida&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sou trezentos, sou\ntrezentos-e-cinquenta,<\/p>\n\n\n\n<p>Mas um dia afinal eu\ntoparei comigo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Garoa do meu S\u00e3o Paulo,<\/p>\n\n\n\n<p>Garoa sai dos meus olhos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/APE-posse-vogt-05.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3623\"\/><figcaption>Professor  Antonio Jos\u00e9 de Almeida Meirelles (Reitor da Unicamp), Carlos Vogt, Maria Helena Guimar\u00e3es, ex-Reitor Marcelo Knobel, Hubert Alqu\u00e9res, Eliana Amaral e Roque The\u00f3philo (Presidente do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o).<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Professor e Poeta Carlos Vogt discursou e declamou um poema sobre a capital paulista na cerim\u00f4nia em que tomou posse da Cadeira n\u00ba 15 na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. Ela aconteceu em 22 de novembro de 2023, na sala de reuni\u00f5es do Conselho Universit\u00e1rio da Unicamp com a presen\u00e7a do Magn\u00edfico Reitor da Universidade, prof. Antonio Jos\u00e9 de Almeida Meirelles e do Presidente do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, prof. Roque The\u00f3philo. A Cadeira n\u00ba 15 tem Ant\u00f4nio Firmino de Proen\u00e7a como Patrono e Vicente de Paula Rocha Keppe como Fundador. Carlos Vogt foi antecedido pelo professor Luiz Barco. Leia [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":3622,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-3609","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3609"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3609\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3630,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3609\/revisions\/3630"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3622"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}