{"id":3720,"date":"2023-12-12T23:04:33","date_gmt":"2023-12-13T02:04:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=3720"},"modified":"2024-01-07T18:19:08","modified_gmt":"2024-01-07T21:19:08","slug":"percival-tirapeli-toma-posse-na-academia-paulista-de-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/percival-tirapeli-toma-posse-na-academia-paulista-de-educacao\/","title":{"rendered":"Percival Tirapeli toma posse na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/APE_USP_85.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3722\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p> Percival Tirapeli \u00e9 professor titular em Hist\u00f3ria da Arte Brasileira pela Universidade Estadual Paulista; p\u00f3s-doutorado pela Universidade Nova de Lisboa; doutor e mestre pela Universidade de S\u00e3o Paulo. Foi conselheiro do Condephaat (2017\/19), membro da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cr\u00edticos de Artes (ABCA).<\/p>\n\n\n\n<p>Leia a \u00edntegra do discurso de posse do prof. Percival na APE:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Devo aqui homenagear o eminente m\u00e9dico cardiologista Silvio Carvalhal, indicado como fundador da cadeira n 24, cuja posse foi realizada in memoriam em 2008. O Dr. Carvalhal foi pioneiro no estudo da patologia da Doen\u00e7a de Chagas, pela Unicamp, onde influenciou uma gera\u00e7\u00e3o de cientistas. Era especialista em arritmias pela Universidade de Barcelona e ocupou cargos relevantes na \u00e1rea de Cardiologia nas sociedades cient\u00edficas de sua \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha\nhomenagem tamb\u00e9m ao patrono desta cadeira, \u00c1lvaro Lemos Torres, m\u00e9dico\nreumatologista, que iniciou sua carreira em Avar\u00e9, em 1913. Preparador de\nparasitologia, logo passou para a \u00e1rea de Anatomia e Fisiologia. Fez cursos nos\nEstados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha, e formou sua escola de not\u00e1veis nos\ncampos da Cardiologia e Tisiologia, de onde sa\u00edram nomes importantes da\nreumatologia paulista e brasileira.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Dois outros\ngrandes mestres me antecedem, os professores Sebasti\u00e3o Witter e Vinicio Stein\nCosta, ambos atuantes na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, com cargos em museus. Vinicio Stein\nCosta como fundador de uma rede de Museus Hist\u00f3ricos Pedag\u00f3gicos e Sebasti\u00e3o\nWitter como diretor do Museu Paulista da USP. Espelhado nestes dois \u00faltimos\nmembros da Cadeira de n\u00famero 24 poderei tra\u00e7ar alguns ind\u00edcios coincidentes com\nminha carreira de 45 anos como professor de Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica, at\u00e9 chegar \u00e0\ntitularidade em Hist\u00f3ria da Arte Brasileira no Instituto de Artes da\nUniversidade Estadual Paulista, a UNESP.<\/p>\n\n\n\n<p>Vinicio\nStein Costa, nascido na cidade de Capivari, S\u00e3o Paulo em 1908, foi incans\u00e1vel e\nlongevo, dedicando-se totalmente \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de Museus Hist\u00f3ricos, nominados,\nora Museus Hist\u00f3ricos Pedag\u00f3gicos, ora Museus Hist\u00f3ricos Paulistas. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de\nsua atua\u00e7\u00e3o, Vin\u00edcio Stein implantou os 63 Museus em nosso estado. O conjunto\nde sua correspond\u00eancia foi reunido em 27 volumes, organizados por cidades,\natualmente sob a guarda do Departamento de Museus e Arquivos da Secretaria\nEstadual de Cultura. De 1957 a 1970, o Servi\u00e7o de Museus Hist\u00f3ricos e\nPedag\u00f3gicos contou somente com o empenho de seu diretor e o aux\u00edlio de um \u00fanico\nt\u00e9cnico. Stein foi tamb\u00e9m Conselheiro do Condephaat &#8211; e direcionou tombamentos\nde resid\u00eancias hist\u00f3ricas de personagens, para que ali se instalassem os museus\nque serviriam \u00e0 mem\u00f3ria do local e da cultura paulista. Seu empenho frutificou\ncom a cria\u00e7\u00e3o, portanto, da primeira rede de museus de tal natureza em S\u00e3o\nPaulo e no Brasil. <\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o\npoderia deixar de homenagear o professor Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o Witter, com quem tive a\nhonra de conviver em muitas situa\u00e7\u00f5es, como quando ele dirigiu o Instituto de\nEstudos Brasileiros e o Museu Paulista. O Professor Witter, como gostava de ser\nchamado, foi um migrante nas terras paulistas, vivendo em parte em Fernando\nPrestes onde nasceu, Guararema e Mogi das Cruzes, onde estudou, e depois foi\nprofessor prim\u00e1rio, diretor e professor universit\u00e1rio. Na USP foi professor\nassistente de Sergio Buarque de Hollanda e depois mestre, doutor, livre-docente\ne titular. Foi professor em\u00e9rito da USP. Seu grande t\u00edtulo, no entanto, segundo\nele pr\u00f3prio, foi ser PROFESSOR.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/APE_USP_124.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3723\"\/><figcaption>Percival Tirapeli e fam\u00edlia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s ter\nhomenageado aqueles que me antecederam na cadeira 24 da Academia Paulista de\nEduca\u00e7\u00e3o, quero agrade\u00e7er as elogiosas palavras da professora Rose Neubauer, e\na todos que votaram em minha indica\u00e7\u00e3o tendo examinado minha trajet\u00f3ria inicial\nde professor desde a disciplina de Educa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica na Escola Volkswagem do\nBrasil at\u00e9 alcan\u00e7ar a titularidade em Arte Brasileira na Unesp. <\/p>\n\n\n\n<p>A disciplina\nEduca\u00e7\u00e3o Art\u00edstica ingressou em 1971 no Curr\u00edculo Escolar, substituindo a disciplina\nde Desenho, e em alguns casos Geometria e Trigonometria. Era ampla. Em seu bojo\ntudo caberia: artes pl\u00e1sticas, m\u00fasica, c\u00eanicas, express\u00e3o corporal, cultura\npopular. Polival\u00eancia era a palavra de ordem. Por\u00e9m, qual seria a inten\u00e7\u00e3o de\num governo militar prestar-se \u00e0s benesses de estudos cuja express\u00e3o art\u00edstica\nera perseguida pela censura? Ao professor rec\u00e9m-formado, bacharel em pintura,\ngravura e desenho, caberia, portanto, adaptar-se em um curso intensivo, anual,\npara inteirar-se da pedagogia da polival\u00eancia. Foram anos de luta para que as\nescolas aos poucos entendessem a nova disciplina, em que coubesse o universo da\nexpress\u00e3o humana, por\u00e9m, cada professor em si jamais abarcaria a\nmultidisciplinaridade. A cada um caberia dar o m\u00e1ximo de si e entender que\ndaquele momento em diante n\u00e3o mais bastaria a c\u00f3pia de obras de arte, mas sim a\nlivre express\u00e3o; n\u00e3o mais a leitura da obra, mas a cria\u00e7\u00e3o e a experimenta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a\nn\u00e3o foi f\u00e1cil, a partir da aceita\u00e7\u00e3o de uma disciplina com conte\u00fado t\u00e3o intenso\ncomo extenso. N\u00e3o haveria como decorar conte\u00fados, mas senti-los, n\u00e3o apenas\nler, mas entender a abstra\u00e7\u00e3o de novos c\u00f3digos n\u00e3o verbais. Os c\u00f3digos visuais,\nsonoros e gestuais. Tudo isso em aulas de 50 minutos! Anos se passaram durante\na ditadura militar, e a disciplina ganhava novos contornos. N\u00e3o apenas ensinar\nou transmitir o saber e o pensar, mas aprender para operar. <\/p>\n\n\n\n<p>No per\u00edodo\np\u00f3s segunda guerra o ensino da arte nas escolas passou por v\u00e1rias experiencias\nincluindo aquelas como a Escolinha de Arte do Brasil, das Escolas Pestalozzi\n(trabalhei em uma delas por apenas seis meses) e nos estabelecimentos de\nrecupera\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia \u00e0queles com defici\u00eancias intelectuais. <\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o\nfoi grande na d\u00e9cada de 80, e intensificou-se ao t\u00e9rmino da ditadura em 1985:\naplicava-se na disciplina apenas a livre express\u00e3o, deixando que o aluno\ndescobrisse por si as possibilidades de fazer arte como lazer, divertimento e\nat\u00e9 mesmo para acalmar, descansar os alunos das disciplinas consideradas\ns\u00e9rias, importantes. Este direcionamento foi, por\u00e9m, substitu\u00eddo pela \u00eanfase na\ninterrela\u00e7\u00e3o entre o fazer, a leitura da obra de arte e sua contextualiza\u00e7\u00e3o\nhist\u00f3rica, social, antropol\u00f3gica e est\u00e9tica da obra. Depois dessas etapas,\nagora sim o aluno estaria pronto para a cria\u00e7\u00e3o, para o prazer est\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil\nformos orientados pela incans\u00e1vel e batalhadora Profa. Dra. Ana Mae Tavares\nBarbosa, da Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP, na aplica\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos que\npossibilitassem maiores conhecimentos aos profissionais da Arte Educa\u00e7\u00e3o ao\natuar no processo de ensino-aprendizagem. A ela se devem as novas\npossibilidades do ensino de artes, por meio do referencial da Abordagem\nTriangular na qual se sugerem tr\u00eas eixos norteadores: a contextualiza\u00e7\u00e3o da\nobra dentro da Hist\u00f3ria da Arte, da vida do artista, o momento hist\u00f3rico em que\nviveu e a materialidade da obra. O segundo eixo \u00e9 a aprecia\u00e7\u00e3o art\u00edstica, quais\nos m\u00e9todos de an\u00e1lise e a rela\u00e7\u00e3o com outras obras. O terceiro eixo, agora com\no aluno aquecido, ele poder\u00e1 fazer arte enriquecido pelas experi\u00eancias j\u00e1\nvivenciadas. Os embates em busca de diretrizes culminaram com o Terceiro\nSimp\u00f3sio Internacional sobre o Ensino da Arte e a sua Hist\u00f3ria, em 1989.<\/p>\n\n\n\n<p>A mim, no\nInstituto de Artes da Unesp, desde os anos 88 me coube auxiliar na implanta\u00e7\u00e3o\nda Licenciatura Plena de Educa\u00e7\u00e3o Artistica e instrumentalizar os alunos com as\nleituras cr\u00edticas dos movimentos art\u00edsticos do Renascimento \u00e0\nContemporaneidade, com as teorias dos pensadores alem\u00e3es como Erwin\nPanofsky,&nbsp; Henrich W\u00f6lflin, as teorias da\nGestalt, com Rudolf Arheim e os professores da Bauhaus como Wassily Kandisnky e\nPaul Klee. Estes foram alguns dos pensadores que me foram apresentados pelo meu\nsaudoso mestre Wolfgang Pfeiffer, nos estudos do mestrado e doutorado na ECA\nUSP.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sempre\nno intuito de melhor preparar os discentes para futuros docentes, foram 40 anos\nde pesquisas in loco aprimorando estudos junto ao Grupo de Pesquisa Capes,\nBarroco Mem\u00f3ria Viva, talvez o mais longevo da Unesp, viagens de estudos\nsemanais \u00e0s cidades hist\u00f3ricas de Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, S\u00e3o\nPaulo e uma para as Misiones argentinas e paraguaias. Naqueles momentos de duas\nou at\u00e9 tr\u00eas viagens anuais, os alunos puderam observar a conserva\u00e7\u00e3o do\npatrim\u00f4nio sacro e civil colonial, o patrim\u00f4nio imaterial das festas sacras e\nprofanas, a cultura popular nos ateli\u00eas dos artes\u00e3os. <\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o\ndos alunos universit\u00e1rios teve continuidade na forma\u00e7\u00e3o, pioneira no Brasil, de\narte educadores nos museus para um novo p\u00fablico que se criava. Aqui fa\u00e7o um\nparalelo entre a minha trajet\u00f3ria e a dos meus dois antecessores nesta cadeira,\nSebasti\u00e3o Witter, no Museu Paulista, e Vinicio Stein Costa. Primeiro estive no\nConselho de Artes do Museu de Arte Moderna, depois, foram 10 anos colaborando\nno Educativo com Emanoel Araujo na Pinacoteca e esporadicamente no Museu\nAfro\/Brasil. Idealizei a primeira exposi\u00e7\u00e3o do Centro de Refer\u00eancia em Educa\u00e7\u00e3o\nM\u00e1rio Covas. Colaborei extensamente com a implanta\u00e7\u00e3o do Museu Boulieu em Ouro\nPreto, ministrei palestras e escrevi para o Museu Casa Portinari em Brodowski. <\/p>\n\n\n\n<p>Do Museu\nPaulista pude pleitear o empr\u00e9stimo das mais antigas obras dos tempos da\ncoloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, a cruz de 1532, a pia batismal de Abarebeb\u00ea, 1555 e a\nverga da igreja de S\u00e3o Vicente de 1559, pe\u00e7as de valor inestim\u00e1vel que foram ao\nPal\u00e1cio dos Bandeirantes para exposi\u00e7\u00e3o, quando da visita do Papa Bento XVI em\n2007. Durante todo o per\u00edodo de curadoria do Acervo dos Pal\u00e1cios pela Dra. Ana\nCristina Carvalho, pude participar doe seu Conselho e nos tr\u00eas pal\u00e1cios\nrealizar exposi\u00e7\u00f5es como curador, uma delas, O nome do Brasil, de itiner\u00e2ncia\npor museus municipais, tal como fizera Vinicio Stein Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os\nalunos sempre houve uma desconfian\u00e7a do professor que \u00e9 artista, mas que tamb\u00e9m\n\u00e9 barroco. A d\u00favida chegou a tal ponto que em uma das viagens em particular,\numa corajosa mensageira me indagou um tanto constrangida se eu fora padre e\ncasado com uma freira, a Laura. N\u00e3o, disse, sou um artista contempor\u00e2neo,\nxeroqueiro, amante do arte p\u00f3s-moderna, como minha tese de doutorado, defendida\nno Museu de Arte Contempor\u00e2nea da USP, com 500 metros quadrados de exposi\u00e7\u00e3o e\numa banca invej\u00e1vel: Walter Zanini, Ana Mae Barbosa, Wolfgang Pfeiffer, a\nsemioticista Dirce Ceribeli e a artista Regina Silveira. Ah, sim, falou a aluna\nmensageira, acho que nos enganamos. Tive que explicar que arte sacra e estudo\ndo barroco vinham l\u00e1 do semin\u00e1rio que cursei e das primeiras aulas que\nministrei sobre Barroco Mineiro, com o livro de Lourival Gomes Machado. Que eu\nconhecera Dami\u00e1n Bayon, Ramon Guti\u00e9rrez e at\u00e9 Germain Bazin. T\u00e1 bom assim, me\ndisse quase que se levantando. E \u00e9 por isso que o senhor faz exposi\u00e7\u00f5es no\nMuseu de Arte Sacra e nos traz aqui nas cidades mineiras. E o senhor orienta s\u00f3\nsobre barroco! Logo percebi que almejava uma vaga no mestrado ou doutorado. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/APE_USP_89.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3724\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Devo\nterminar, por\u00e9m, ainda um pouco de paci\u00eancia: relato em breves palavras a\nexperi\u00eancia de ter ministrado durante 10 anos, de 1978 a 1988, a disciplina\nEduca\u00e7\u00e3o Artistica para oper\u00e1rios da Escola de I e II Graus Volkswagem do\nBrasil. O desenho, a leitura e a interpreta\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as no desenho t\u00e9cnico,\neram em princ\u00edpio a prioridade. Os computadores chegariam s\u00f3 na metade da\nd\u00e9cada de 80. Al\u00e9m dessa meta, de serem ferramenteiros, pude realizar a\nmultipluralidade em voga naqueles tempos: teatro e m\u00fasica junto \u00e0 disciplina de\nPortugu\u00eas; v\u00eddeo com Hist\u00f3ria e Ci\u00eancias; escultura e bricolagem com a\nhabilidade dos soldadores que faria inveja a qualquer escultor; artesanato com\na diversidade humana l\u00e1 encontrada com pessoas de todo o Brasil, e a culin\u00e1ria\ncom os encontros com seus familiares aos s\u00e1bados <\/p>\n\n\n\n<p>Aquele\nper\u00edodo fora coincidente com meu mestrado e doutorado. Muitas e muitas vezes\nconfundi seus c\u00e9rebros ao vaticinar que seus filhos n\u00e3o seriam ferramenteiros.\nHaveria instrumentos que se chamariam computador, que leriam e fariam os\nprojetos e que eles pr\u00f3prios seriam substitu\u00eddos por rob\u00f4s! E que a arte seria\nfeita por computadores. Eram as ideias de Vil\u00e9m Fl\u00fcsser e Mario Schenberg, que\nouv\u00edamos aqui e al\u00ed em salas do campus da USP. N\u00e3o sei se acertei de fato,\npor\u00e9m os oper\u00e1rios produziram pe\u00e7as que causaram admira\u00e7\u00e3o; viajaram e fruiram\nde obras barrocas e modernas e puderam refletir isso em seus futuros e no de\nsuas fam\u00edlias, com algumas pitadas de pensamentos filos\u00f3ficos.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora sim,\ntermino como M\u00e1rio de Andrade, que iniciou uma aula inaugural em 1938,\nconfessando n\u00e3o saber o que seja o Belo nem a Arte. Afirmou que todo artista\ndeveria ser um artes\u00e3o, discursou sobre a imprevisibilidade do artesanato, da\ndesnecessidade do virtuosismo e na solu\u00e7\u00e3o pessoal dada pelo artista ao fazer\numa obra de arte \u2013 atitude imprescind\u00edvel e inensin\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rio de\nAndrade, que me guiou pelos caminhos do barroco paulista, barroco esse\nencoberto de fuligem, da p\u00e1tina do progresso e do tempo de S\u00e3o Paulo! Creio eu\nter podido fazer brilhar o ouro da nossa arte colonial, e pe\u00e7o-lhe licen\u00e7a para\ntrocar a palavra Arte pela palavra Imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A imagem &#8212; que hoje nos \u00e9 oferecida sem que a\nprocuremos, na rua, nos livros e celulares &#8212; durante mil\u00eanios foi m\u00edtica. Na\nAntiguidade o texto a explicava \u2013 e McLuhan aprofundou esse tema do c\u00f3digo da\nlinguagem e da palavra impressa, que levou o texto a domin\u00e1-la em quinhentos\nanos. A imagem mec\u00e2nica, ou seja, a fotografia do in\u00edcio do s\u00e9culo 19, veio a\nocupar parte do espa\u00e7o f\u00edsico nos jornais espantando o mundo \u2013 uma imagem\npassaria mesmo a valer por mil palavras. Ganhou movimento no cinema, seguida\npelo som. Foi proclamada como nova modalidade da arte. Com a televis\u00e3o, a\nimagem invadiu nossos lares. A beleza, ou o Belo de M\u00e1rio, foi substitu\u00edda pelo\nfeio, pela viol\u00eancia, a imagem das massas. A morte tornou-se banal, assim como\nas cenas de guerra. Em nossa era digital, a imagem caminha em nossas m\u00e3os.\nSomos escolhidos pelo Big Brother a sermos uma imagem padronizada, vestidos\npelo consumismo da moda. Que imagens fren\u00e9ticas s\u00e3o essas que nos hipnotizam,\nnos levam a ficarmos horas vendo-as, cada uma apenas por segundos,\nacumulando-as em nossos c\u00e9rebros sem termos tempo para saber o que vemos. Quais\nimagens decodificaremos em nossas salas de aula, para as crian\u00e7as que j\u00e1 nascem\ncom as imagens digitais nas m\u00e3os? Aquelas de movimentos cont\u00ednuos que nos levam\na pensarmos que somos infinitos? A imagem teria extrapolado o texto ou teria\nretornado como m\u00edtica? Gerada por uma intelig\u00eancia artificial, um demiurgo que,\niluminado por novas tecnologias, teria tomado o lugar de Plat\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Com um mero\ncomando de voz minha imagem tomar\u00e1 o lugar do autorretrato de Van Gogh. Eu n\u00e3o\nsou mais eu. Sou uma imagem desejada, a ser consumida pelo outro. <\/p>\n\n\n\n<p>Em mais um\nsegundo, apenas o mundo me ver\u00e1 como quero ser. <\/p>\n\n\n\n<p>Hoje talvez\nn\u00e3o sejamos mais n\u00f3s mesmos, mas sim imagens que circulam nas m\u00e3os de quem quer\nque seja. Se pararmos um minuto, faremos uma selfie para lembrarmos como somos.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Que sua selfie seja, ao menos, bela.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/APE_USP_108.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3731\"\/><figcaption>Percival com a esposa, Laura Carneiro, e os filhos do casal, Rafael e Tarsila<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Percival Tirapeli \u00e9 professor titular em Hist\u00f3ria da Arte Brasileira pela Universidade Estadual Paulista; p\u00f3s-doutorado pela Universidade Nova de Lisboa; doutor e mestre pela Universidade de S\u00e3o Paulo. 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