{"id":38,"date":"2010-11-09T20:33:44","date_gmt":"2010-11-09T22:33:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/2010\/11\/09\/emergencia-educativa\/"},"modified":"2010-11-09T20:33:44","modified_gmt":"2010-11-09T22:33:44","slug":"emergencia-educativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/emergencia-educativa\/","title":{"rendered":"Emerg\u00eancia Educativa"},"content":{"rendered":"<div>International Studies on Law and Education 6 jul-dez 2010<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>CEMOrOc-Feusp \/ IJI-Univ. do Porto<\/div>\n<p> <\/p>\n<div><strong>Emerg\u00eancia Educativa<\/strong><\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Jair Milit\u00e3o da Silva<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>1<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Jair Milit\u00e3o da Silva \u00e9 Professor Associado \u2013 aposentado \u2013 da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 FEUSP; Livre Docente em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP; professor no Programa de Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Cidade de S\u00e3o Paulo &#8211; UNICID<\/div>\n<div>Resumo:<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Como venho refletindo sobre a necessidade de uma urgente a\u00e7\u00e3o nos processos educativos no sentido da re-humaniza\u00e7\u00e3o dos diversos agentes envolvidos, ouvindo uma express\u00e3o do Papa Bento XVI por ocasi\u00e3o de um seu pronunciamento sobre a situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e dos jovens, na qual ele falou de uma &#8220;emerg\u00eancia educativa&#8221; chamou-me a aten\u00e7\u00e3o e, penso que este conceito, pode prestar-se para um efetivo exame das pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds e em muitos outros. Os trabalhadores da sa\u00fade valem-se da express\u00e3o &#8220;emerg\u00eancia&#8221; para designar uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ou algo iminente, com ocorr\u00eancia de perigo; incidente; imprevisto. Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 real ou exagerada pelas lentes da m\u00eddia? Infelizmente, uma consulta aos professores das diversas redes de ensino b\u00e1sico pode confirmar a realidade da exist\u00eancia da viol\u00eancia dos jovens, do ego\u00edsmo das crian\u00e7as e da omiss\u00e3o do adulto. Para educar o educando, nessa situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia educativa, urge a educa\u00e7\u00e3o dos educadores. O aprendizado de como viver a pr\u00f3pria humanidade pelo educando necessita do encontro com outro ser humano, autenticamente humano, diante do qual pode espelhar-se e constituir sua identidade. Estamos diante de uma emerg\u00eancia educativa que, para ser bem equacionada, necessita dramaticamente da humaniza\u00e7\u00e3o dos educadores e dos processos educativos.<\/div>\n<div>Palavras Chave:<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>My reflections on education are often about the urgent need of humanism and so, the challenge launched by Pope Benedict XVI: &#8220;education emergency&#8221; has called my attention and has seemed useful to me to discuss our public policies. Emergency in health workers language means &#8220;critical situation&#8221; or &#8220;something dangerous about to come&#8221;. Is there a real education emergency? Unhappily, teachers of elementary school widely recognoze that there is youth violence, children\u2019s selfishness and omission of the adult. Learning to live as a human being requires well-prepared educators: there is an emergency need of humanization of education.<\/div>\n<div>Keywords:<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Public policies in education. Basic Education. Education emergency.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o. Educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Forma\u00e7\u00e3o de educadores.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Abstract:<\/div>\n<div>Este artigo pretende apresentar uma reflex\u00e3o sobre a necessidade de uma pronta e efetiva a\u00e7\u00e3o educacional junto \u00e0 grande parcela das crian\u00e7as e jovens que freq\u00fcentam nossos sistemas escolares e que apresentam ind\u00edcios preocupantes de incapacidade de conv\u00edvio social construtivo e sustent\u00e1vel em longo prazo.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Como venho refletindo sobre a necessidade de uma urgente a\u00e7\u00e3o nos processos educativos no sentido da re-humaniza\u00e7\u00e3o dos diversos agentes envolvidos, ouvindo uma express\u00e3o do Papa Bento XVI por ocasi\u00e3o de um seu pronunciamento sobre a situa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e dos jovens, na qual ele falou de uma &#8220;emerg\u00eancia educativa&#8221; chamou-me a aten\u00e7\u00e3o e, penso que este conceito, pode prestar-se para um efetivo exame das pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o em nosso pa\u00eds e em muitos outros.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Valendo-se do termo usualmente utilizado pela \u00e1rea m\u00e9dica \u2013 emerg\u00eancia \u2013 pode-se retratar o quadro da tarefa que se apresenta aos educadores atuais e futuros.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Os trabalhadores da sa\u00fade utilizam a express\u00e3o &#8220;emerg\u00eancia&#8221; para designar uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ou algo iminente, com ocorr\u00eancia de perigo; incidente; imprevisto. No \u00e2mbito da medicina, \u00e9 a circunst\u00e2ncia que exige uma cirurgia ou interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de imediato. 24<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Qual seria esta situa\u00e7\u00e3o a exigir uma interven\u00e7\u00e3o imediata dos educadores sob pena de ocorr\u00eancia de grave perigo?<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Estaremos diante de uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia educativa?<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A resposta encontra-se no exame da situa\u00e7\u00e3o apresentada pelos diversos ve\u00edculos da m\u00eddia nos quais se podem ver atos e pr\u00e1ticas consideradas desumanas at\u00e9 ao ponto de seus autores serem classificados como n\u00e3o-humanos.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A capacidade de difus\u00e3o da m\u00eddia mostra os in\u00fameros atentados \u00e0 vida humana, os atos contra a dignidade de homens, mulheres e crian\u00e7as, a inusitada viol\u00eancia nas disputas mais simples de interesses triviais. Muitos porta-vozes de variados grupos chegam a afirmar a exist\u00eancia de um novo ser, n\u00e3o mais humano, que n\u00e3o reconhece no outro um semelhante, mas t\u00e3o somente um inimigo que pode e deve ser eliminado quando atrapalhar. Esses &#8220;desumanos&#8221;, agora adultos, foram crian\u00e7as e jovens que passaram pelo sistema educativo que, de alguma forma, pode ter contribu\u00eddo para essa forma\u00e7\u00e3o.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Evidentemente, temos in\u00fameros outros adultos que n\u00e3o agem da forma anteriormente descrita, ao contr\u00e1rio, destacam-se por produzir a\u00e7\u00f5es cooperativas nas quais predominam a busca de ajuda a si pr\u00f3prios e aos demais. O trabalho nos hospitais, nos transportes, nos v\u00e1rios servi\u00e7os \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 feito com compromisso, dedica\u00e7\u00e3o e cuidado. O n\u00famero desses adultos, com muita probabilidade, ultrapassa o daqueles que produzem o &#8220;mal&#8221;.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A partir destas considera\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o, o que entender como emerg\u00eancia? N\u00e3o estar\u00edamos, simplesmente, diante de um fato recorrente na hist\u00f3ria humana, ou seja, o de que sempre houve e haver\u00e1 pessoas construtivas e pessoas destrutivas? Qual o problema que est\u00e1 a exigir uma pronta e atenta aten\u00e7\u00e3o dos educadores?<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A emerg\u00eancia est\u00e1 precisamente no que Jos\u00e9 Renato Nalini, desembargador do Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo, presidente da Academia Paulista de Letras expressou em seu discurso de posse na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o em 24 de maio de 2010: &#8220;&#8230; temos que combater a tirania da crian\u00e7a, a viol\u00eancia do jovem, a omiss\u00e3o do adulto&#8230;&#8221;<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Ou seja, os sistemas educativos orientados pela escola, pela fam\u00edlia, pela m\u00eddia, estariam formando mais seres humanos n\u00e3o construtivos do que construtivos. As crian\u00e7as sem limites aos pr\u00f3prios desejos, construindo-se com base em um egocentrismo que n\u00e3o leva em conta o outro; os jovens, anteriormente crian\u00e7as egoc\u00eantricas, n\u00e3o encontrando outra forma de lidar com restri\u00e7\u00f5es do que com a viol\u00eancia; e adultos sem saber o que fazer.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 real ou exagerada pelas lentes da m\u00eddia? Infelizmente, uma consulta aos professores das diversas redes de ensino b\u00e1sico pode confirmar a realidade da exist\u00eancia da viol\u00eancia dos jovens, do ego\u00edsmo das crian\u00e7as e da omiss\u00e3o do adulto.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Que adulto est\u00e1 sendo formado em nossos sistemas educativos?<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Pode-se dizer que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o mecanismo encontrado pela sociedade para introduzir os &#8220;incultos&#8221; e os estrangeiros em uma cultura, dominante naquela sociedade. A cultura \u00e9 a forma de produzir a vida e o seu significado por um dado grupo e pode-se considerar que a cultura \u00e9 adequada quando contribui para que perdure a vida dos componentes desse grupo em um ambiente. 25<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Quando vemos jovens sem a m\u00ednima perspectiva de futuro, quando o horizonte de suas vidas n\u00e3o ultrapassa os pr\u00f3ximos dois ou tr\u00eas anos, certamente, estamos diante de uma emerg\u00eancia educativa.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Educar \u00e9 propor um horizonte para a vida toda do educando e sempre \u00e9 uma aposta antropol\u00f3gica, ou seja, repousa em uma vis\u00e3o de homem cujo n\u00facleo b\u00e1sico \u00e9 a cren\u00e7a de que cada ser humano pode se aperfei\u00e7oar.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Este horizonte sup\u00f5e uma vis\u00e3o sobre quem \u00e9 o homem, como aprende, como \u00e9 constitu\u00eddo, seus limites e possibilidades, seu ser e seu dever-ser. O caminho utilizado para a busca do horizonte, para ser compat\u00edvel e coerente com a vis\u00e3o inicial e final, necessita constante acompanhamento e reflex\u00e3o, sob pena que desviar-se do objetivo.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Neste processo \u00e9 fundamental a presen\u00e7a do sujeito educativo que, em primeiro lugar, assume a condu\u00e7\u00e3o de todo o processo.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Desse modo, \u00e9 importante perguntar ao sujeito educativo: Qual \u00e9 a sua aposta no educando, como o v\u00ea, que prop\u00f5e para este como vida?<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Apostar no homem como ser com capacidade de raciocinar e amar<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Em uma perspectiva humanista, tal como a Hist\u00f3ria registra, o homem tem como pontos constituintes a raz\u00e3o e a capacidade de amar.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Pela raz\u00e3o o homem \u00e9 capaz de compreender as situa\u00e7\u00f5es em que se encontra e &#8220;ler&#8221; os acontecimentos \u00e0 luz de princ\u00edpios e valores. A razoabilidade das leituras do mundo pode ser aferida pelo di\u00e1logo que surge quando a raz\u00e3o \u00e9 aplicada como forma de viver e partilhar os diversos problemas que a vida apresenta, superando a viol\u00eancia &#8220;sem raz\u00e3o&#8221;.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A capacidade de amar faz com que cada homem possa transcender seus pr\u00f3prios interesses e chegue a pensar e agir em favor dos demais. Isto \u00e9 o que permite aos pais sacrificarem o pr\u00f3prio bem estar para atender a um rec\u00e9m-nascido que n\u00e3o apresenta for\u00e7a pr\u00f3pria de reivindica\u00e7\u00e3o e que depende apenas do amor dos seus cuidadores para conservar a vida.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Todavia, a experi\u00eancia mostra que o ser humano n\u00e3o nasce com determinantes biol\u00f3gicas que orientem seus comportamentos em uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o. Os modos de atender ao desejo de vida podem ser criados das mais variadas formas. Por exemplo, as pr\u00e1ticas para proteger-se dos rigores do ambiente, de processar a alimenta\u00e7\u00e3o, de organizar as rela\u00e7\u00f5es humanas de cada grupo variam conforme as pessoas e o contexto. Essas formas s\u00e3o aprendidas em cada grupo concreto e reside aqui a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o da identidade cultural de cada ser humano.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Esta forma\u00e7\u00e3o da identidade acontece ao longo da vida de cada homem e tem como condicionantes o tempo, o espa\u00e7o, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, as heran\u00e7as biol\u00f3gicas.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Em nossa cultura atual, com formas de atender aos desejos de modo quase imediato, tendo em vista a presen\u00e7a dos produtos prontos, das comunica\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas, ocorre a sensa\u00e7\u00e3o de que o condicionante temporal foi superado. N\u00e3o depender\u00edamos mais do tempo para realizar nossos desejos e a &#8220;instantaneidade&#8221; nos leva a esquecer que a forma\u00e7\u00e3o da identidade humana acontece com uma dura\u00e7\u00e3o temporal necess\u00e1ria. Igualmente, s\u00e3o necess\u00e1rias pr\u00e1ticas que se consolidem para formar uma identidade, que se institucionalizem, ou seja, que se tornem h\u00e1bitos em cada pessoa e em cada grupo e, para isso, os rituais s\u00e3o fundamentais. 26<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Grandes educadores que a hist\u00f3ria registra criaram processos educativos que levaram em conta estas dimens\u00f5es de tempo, espa\u00e7o, ritmo humano, limites e possibilidades das pessoas. Como exemplo disso, pode ser citado S\u00e3o Bento, cuja Regra de Vida vem orientando a forma\u00e7\u00e3o de identidades por mais de quinze s\u00e9culos. Esta Regra funda-se, entre outras coisas, na organiza\u00e7\u00e3o do tempo, do espa\u00e7o e das rela\u00e7\u00f5es interpessoais.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Estas reflex\u00f5es anteriores podem nos levar a pensar qual tem sido a proposta de nossos sistemas escolares aqui no pa\u00eds: que mensagem a organiza\u00e7\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o passa? E a forma como se d\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es interpessoais? Que valores est\u00e3o sendo propostos \u00e0s nossas crian\u00e7as e jovens? Onde cada educador pretende chegar com seu educando quando o est\u00e1 conduzindo para aperfei\u00e7oar-se? Ser\u00e1 que o educador ainda acredita que o educando pode aperfei\u00e7oar-se?<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Em outras palavras, qual \u00e9 a proposta efetiva que nossas escolas est\u00e3o realizando com nossos jovens e crian\u00e7as? Penso que estas perguntas podem orientar a avalia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o para o ensino b\u00e1sico, sem menosprezar outros indicadores de desempenho acad\u00eamico, os quais, contudo, n\u00e3o podem estar descolados destes mais voltados para a verifica\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o da identidade de cada educando.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Se reconhecermos nosso tempo como um tempo de emerg\u00eancia educativa torna-se \u00fatil examinarmos a hist\u00f3ria para identificarmos outros eventuais momentos similares e estudarmos respostas que contribu\u00edram para equacionar adequadamente os problemas que se apresentaram.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>\u00c9 ainda, com S\u00e3o Bento que podemos encontrar um momento de interesse para estas reflex\u00f5es. De fato, a Europa do s\u00e9culo VI encontrava-se em uma verdadeira situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia educativa.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>S\u00e3o Bento prop\u00f4s centros de humaniza\u00e7\u00e3o \u2013 os mosteiros &#8211; nos quais a raz\u00e3o e a capacidade amar fossem preservadas e, gradativamente, emanaram destes espa\u00e7os geogr\u00e1ficos a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os humanos, criando sujeitos comunit\u00e1rios que propuseram novas formas culturais de viver e significar a vida; essas formas mostraram-se mais adequadas para a preserva\u00e7\u00e3o da vida pessoal e coletiva e serviram como resposta para a emerg\u00eancia educativa da \u00e9poca.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A proposta educativa contemplou o ritmo humano ordenando cada dia, cada m\u00eas e cada ano, com liturgias para cada situa\u00e7\u00e3o, aptas a produzir uma mem\u00f3ria formadora da identidade cultural das pessoas.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>De fato, os estudos sobre forma\u00e7\u00e3o de identidade mostram a import\u00e2ncia da presen\u00e7a dos demais componentes do grupo de referencia no qual esteja inserida a pessoa.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>O exame dos processos formativos feito em diversos grupos sujeitos relevou um itiner\u00e1rio formativo que denominei &#8220;pedagogia do sujeito coletivo&#8221;<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>2.<\/div>\n<div>2 Para aprofundar o conhecimento sobre Pedagogia do Sujeito Coletivo, consultar Jair Milit\u00e3o da Silva, A autonomia da escola p\u00fablica: a re-humaniza\u00e7\u00e3o da escola. Campinas, Papirus, 2006, 9\u00aa edi\u00e7\u00e3o<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A forma\u00e7\u00e3o da identidade inicia-se com um encontro entre as pessoas, prossegue com a viv\u00eancia de tarefas comuns nos quais ju\u00edzos sobre a realidade s\u00e3o constru\u00eddos e conciliados; os compromissos gradativamente assumidos v\u00e3o criando uma identidade grupal que afeta e conforma a identidade pessoal. A rela\u00e7\u00e3o com a realidade circundante confirma ou n\u00e3o a identidade grupal e pessoal e as obras que surgem do empenho do grupo e das pessoas v\u00e3o marcando a presen\u00e7a no ambiente. A identidade mant\u00e9m-se mediante o continuo apelo \u00e0 mem\u00f3ria que recorda quem \u00e9 a pessoa, quais seus valores, seus objetivos, suas prioridades. Portanto, um sujeito 27<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>educativo \u00e9 um sujeito humano com objetivos vitais, com princ\u00edpios e valores orientadores da a\u00e7\u00e3o, com horizonte para a pr\u00f3pria vida e com uma vis\u00e3o de mundo que luta para concretizar.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Todavia, hoje, \u00e9 poss\u00edvel registrar a exist\u00eancia de uma aus\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o para ser sujeito; ao contr\u00e1rio predomina o que se vem sendo chamado de &#8220;pensamento d\u00e9bil&#8221;. A proposi\u00e7\u00e3o de um &#8220;pensamento d\u00e9bil&#8221; como condi\u00e7\u00e3o para escuta n\u00e3o preconceituosa do ser caminhou para a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de valores e princ\u00edpios aptos a orientarem as rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A &#8220;escuta n\u00e3o preconceituosa do ser humano&#8221;, precisamente, revela a necessidade de verdades nas quais possa fundamentar sua vida e suas decis\u00f5es, sob pena de tornar-se presa f\u00e1cil dos tiranos pessoais ou institucionais.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Como fontes desse pensamento d\u00e9bil podem ser indicadas o Relativismo e o Niilismo e a fuga da afirma\u00e7\u00e3o de objetivos e valores com validade universal no tempo e no espa\u00e7o.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Para educar o educando, nessa situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia educativa, urge a educa\u00e7\u00e3o dos educadores.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Educadores que sejam efetivamente sujeitos educativos.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Esta pode ser uma indica\u00e7\u00e3o real para a proposi\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas em educa\u00e7\u00e3o: planejar e efetivar a forma\u00e7\u00e3o de educadores para al\u00e9m de aspectos informativos e cognitivos, incluindo a aten\u00e7\u00e3o com princ\u00edpios, valores, atitudes.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Forma\u00e7\u00e3o de educadores: uma nova pauta adequada \u00e0 emerg\u00eancia educativa<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>A forma\u00e7\u00e3o inicial e continuada dos educadores de nossos sistemas escolares tem sido marcantemente fundada nas quest\u00f5es de conte\u00fado ou de did\u00e1ticas das diversas disciplinas. Todavia, cada vez mais, \u00e9 evidente a necessidade de forma\u00e7\u00e3o efetiva para a condu\u00e7\u00e3o comportamental das crian\u00e7as e jovens. A equipe escolar precisa, cada vez mais, tornar-se pedagoga dos educandos. A pouca ajuda que a maioria das fam\u00edlias oferece para a forma\u00e7\u00e3o de muitos jovens e crian\u00e7as faz com que a escola tenha aumentada sua responsabilidade.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Trata-se, desse modo, de criar condi\u00e7\u00f5es para que os educadores escolares saibam como formar e n\u00e3o apenas informar seus educandos.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Os conhecimentos antropol\u00f3gicos, gnosiol\u00f3gicos e teleol\u00f3gicos, constituintes da situa\u00e7\u00e3o educativa, devem fazer parte da forma\u00e7\u00e3o dos educadores: o que \u00e9 o ser humano? Em que ele deve tornar-se? Como aprende?<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Esse conhecimento, para ser \u00fatil aos educadores, deve ser oferecido mediante viv\u00eancias efetivas, pr\u00e1ticas que permitam a experi\u00eancia de viver como ser humano que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para compreens\u00e3o de si e do outro.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Assim, as pol\u00edticas de forma\u00e7\u00e3o de educadores precisam contemplar um plano que supere a oferta de cursos desconexos e que atendem muitas vezes mais aos interesses do ofertante do que do demandante.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Os sistemas escolares devem prever um itiner\u00e1rio formativo para seus educadores que leve em conta a dimens\u00e3o temporal da forma\u00e7\u00e3o humana. Uma parte da carga hor\u00e1ria do trabalho docente deve ser reservada para a forma\u00e7\u00e3o de cada educador e um plano adequado \u00e0s suas necessidades deve ser gradativamente, efetivado.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Nesse sentido, de muita utilidade para cada sistema escolar ser\u00e1 a exist\u00eancia de um lugar institucional especificamente destinado a zelar pela forma\u00e7\u00e3o de cada educador. 28<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Educa\u00e7\u00e3o de qualidade, capaz de atuar em uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia educativa \u00e9 aquela em que os educadores possuem qualidade de vida humana adequada ao relacionamento com os educandos.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>De fato, para propor um estilo de vida solid\u00e1rio e construtivo aos educandos, os educadores precisam ter experimentado esta vida e desejar que ela se espalhe para todos.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Desse modo, um itiner\u00e1rio formativo para os educadores deve contemplar o maior n\u00famero de dimens\u00f5es vitais, tais como, cuidados corporais, emocionais, intelectuais, relacionais, transcendentais, entre outras.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Uma sociedade est\u00e1 interessada e prioriza sua continuidade de forma sustent\u00e1vel quando valoriza seus educadores, o que significa valorizar suas crian\u00e7as e jovens.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Uma aut\u00eantica educa\u00e7\u00e3o, formativa, realiza-se pelo encontro entre educadores e educandos como pessoas e n\u00e3o meros indiv\u00edduos mortificados em sua dimens\u00e3o global, vivendo apenas pap\u00e9is sociais, tais como, aquele que n\u00e3o sabe e aquele que sabe, aquele que manda e aquele que obedece.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>O aprendizado de como viver a pr\u00f3pria humanidade pelo educando necessita do encontro com outro ser humano, autenticamente humano, diante do qual possa espelhar-se e constituir sua identidade.<\/div>\n<p> <\/p>\n<div>Estamos diante de uma emerg\u00eancia educativa que, para ser bem equacionada, necessita dramaticamente da humaniza\u00e7\u00e3o dos educadores e dos processos educativos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>International Studies on Law and Education 6 jul-dez 2010 CEMOrOc-Feusp \/ IJI-Univ. do Porto Emerg\u00eancia Educativa Jair Milit\u00e3o da Silva 1 Jair Milit\u00e3o da Silva \u00e9 Professor Associado \u2013 aposentado \u2013 da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 FEUSP; Livre Docente em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade de S\u00e3o Paulo \u2013 USP; professor no Programa de Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Cidade de S\u00e3o Paulo &#8211; UNICID Resumo: Como venho refletindo sobre a necessidade de uma urgente a\u00e7\u00e3o nos processos educativos no sentido da re-humaniza\u00e7\u00e3o dos diversos agentes envolvidos, ouvindo uma express\u00e3o do Papa Bento XVI por ocasi\u00e3o de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-38","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}