{"id":3821,"date":"2024-02-12T11:18:06","date_gmt":"2024-02-12T14:18:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=3821"},"modified":"2024-02-16T12:27:31","modified_gmt":"2024-02-16T15:27:31","slug":"usp-90-anos-a-eterna-missao-de-formar-lideres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/usp-90-anos-a-eterna-missao-de-formar-lideres\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; USP 90 anos: a eterna miss\u00e3o de formar l\u00edderes"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"640\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/hubert-na-alesp.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3745\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/hubert-na-alesp.jpg 960w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/hubert-na-alesp-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/hubert-na-alesp-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/hubert-na-alesp-400x267.jpg 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/hubert-na-alesp-900x600.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>O Acad\u00eamico Hubert Alqu\u00e9res, que foi professor de Mec\u00e2nica na Escola Polit\u00e9cnica da USP, escreve sobre os 90 anos da Universidade<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Por Hubert Alqu\u00e9res<br> <br><\/p>\n\n\n\n<p>Fui professor na Escola Polit\u00e9cnica da USP e confesso que tinha um prazer enorme em dar aulas l\u00e1. Alunos inteligentes e muito dedicados, estavam sempre conectados com tudo o que acontecia no mundo. Envolvidos com o ambiente universit\u00e1rio, almo\u00e7avam no CRUSP, praticavam esportes no Centro Esportivo da USP e n\u00e3o deixavam de frequentar outras unidades da universidade. Tamb\u00e9m dominavam os movimentos da pol\u00edtica, os avan\u00e7os cient\u00edficos da \u00e9poca e possu\u00edam \u00f3timo repert\u00f3rio do que acontecia em termos culturais na cidade. <\/p>\n\n\n\n<p>As lembran\u00e7as destes tempos me estimularam a fazer algumas reflex\u00f5es sobre o anivers\u00e1rio e os desafios atuais da USP.<\/p>\n\n\n\n<p>Noventa anos depois de sua funda\u00e7\u00e3o, em 25 de janeiro de 1934, a Universidade de S\u00e3o Paulo tem diante de si o mesmo desafio de quando engatinhava. Formar uma nova safra de lideran\u00e7as para um Brasil em intensa transforma\u00e7\u00e3o, em decorr\u00eancia das grandes mudan\u00e7as que o planeta atravessa. Essa sempre foi a sua voca\u00e7\u00e3o.<br> Foi para isso que ela foi fundada em um pa\u00eds que vivia um processo de intensa industrializa\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o. Em poucas d\u00e9cadas ela levaria o Brasil, essencialmente agr\u00e1rio e atrasado, a se transformar em uma sociedade industrializada e moderna.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nA USP \u00e9 filha leg\u00edtima da\nmoderniza\u00e7\u00e3o do Brasil. Nasceu como um movimento da sociedade, capitaneado por\numa elite pol\u00edtica e intelectual dotada de um sentido estrat\u00e9gico e uma vis\u00e3o\nde futuro. A mobiliza\u00e7\u00e3o pela sua funda\u00e7\u00e3o expressou aspira\u00e7\u00f5es de uma classe\nm\u00e9dia emergente, engrossada por imigrantes que viam na educa\u00e7\u00e3o o trampolim\npara a ascens\u00e3o social de seus filhos. <\/p>\n\n\n\n<p>A USP, portanto, \u00e9 contempor\u00e2nea das\naspira\u00e7\u00f5es que levaram \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, uma esp\u00e9cie de \u201crevolu\u00e7\u00e3o burguesa\nno Brasil\u201d, na qual a acumula\u00e7\u00e3o de capital para sua industrializa\u00e7\u00e3o foi\nfinanciada pelo excedente gerado pela agricultura cafeeira.<br>\nAntes desse processo at\u00e9\nexistiam faculdades isoladas, sem conex\u00e3o e sem uma dire\u00e7\u00e3o \u00fanica, com uma\nvis\u00e3o bacharelesca do saber, definida por um escritor estrangeiro como \u201cuma\npequena enciclop\u00e9dia de conhecimentos in\u00fateis\u201d. A USP foi a primeira\ninstitui\u00e7\u00e3o a trazer para o Brasil o conceito do trip\u00e9\nensino-pesquisa-extens\u00e3o, ent\u00e3o vigente h\u00e1 tempos nas universidades dos pa\u00edses\ndesenvolvidos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nA vis\u00e3o sobre a necessidade\nde uma universidade voltada para formar dirigentes nas v\u00e1rias \u00e1reas da\nsociedade concretizou-se depois de quase uma d\u00e9cada de luta. Desde 1925, J\u00falio\nde Mesquita Filho, diretor do jornal <em>O\nEstado de S.Paulo<\/em>, defendia a reforma do ensino superior e a cria\u00e7\u00e3o da\nUniversidade de S\u00e3o Paulo. \u00c9 desse ano a publica\u00e7\u00e3o do seu livro \u201cA Crise\nNacional\u201d, no qual dissecou os problemas do sistema educacional brasileiro,\nespecialmente do ensino superior. Seu jornal engajou-se na campanha e a ela se\nsomaram Fernando de Azevedo, um dos expoentes do movimento Escola Nova, Raul\nBriquet, Vicente Rao, entre outros intelectuais.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nO sonho de J\u00falio de Mesquita\nFilho tornou-se realidade em 1934, quando seu cunhado Armando Salles de\nOliveira, tamb\u00e9m diretor do Estad\u00e3o, foi nomeado interventor paulista, por\nGet\u00falio Vargas. Dois anos antes, a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista tinha sido\nderrotada pelas tropas federais. Para se reconciliar com os paulistas, Vargas escolheu\npara interventor um civil de fam\u00edlia quatrocentona. Salles de Oliveira nomeou\nJ\u00falio de Mesquita Filho como coordenador da comiss\u00e3o de elabora\u00e7\u00e3o do projeto\nde decreto-lei para instituir a USP, assinado em 25 de janeiro. <\/p>\n\n\n\n<p>Militarmente a insurrei\u00e7\u00e3o dos paulistas\nde 1932 foi derrotada, mas sua grande bandeira, a normaliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica por\nmeio de uma Assembleia Constituinte, se concretizou em 1934, n\u00e3o por\ncoincid\u00eancia, mesmo ano do estabelecimento da USP.<br>\nNascia, assim, a USP &#8211; uma\nuniversidade, laica, p\u00fablica, gratuita, pluralista e democr\u00e1tica. Cedo se\ntornaria a principal institui\u00e7\u00e3o de ensino superior do pa\u00eds e a mais bem\navaliada mundialmente entre as universidades brasileiras. Sustenta essa posi\u00e7\u00e3o\nat\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nO n\u00facleo central para sua\nfunda\u00e7\u00e3o foi a Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, rec\u00e9m-criada, \u00e0 qual\nse juntaram as tradicionais Escola Polit\u00e9cnica, Faculdade de Medicina e\nFaculdade de Direito do Largo de S\u00e3o Francisco, al\u00e9m da Faculdade de Medicina\nVeterin\u00e1ria, a Escola Superior de Agricultura de Piracicaba, o Instituto\nBiol\u00f3gico e o Instituto Butant\u00e3. A Cidade Universit\u00e1ria, situada na antiga\nfazenda Butant\u00e3 e, mais tarde, batizada Armando de Salles Oliveira, era j\u00e1 um\nsonho de J\u00falio de Mesquita Filho.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nAo longo dos seus noventa\nanos, a USP projetou l\u00edderes em todas as esferas da sociedade, tanto para a\niniciativa privada como para o poder p\u00fablico. Em todas as \u00e1reas do conhecimento\ne da ci\u00eancia destacaram-se em seu corpo docente quadros de primeir\u00edssima\nqualidade. Basta citar Florestan Fernandes, considerado o pai da sociologia\nbrasileira, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Hildebrando e Samuel Pessoa, nas\nci\u00eancias m\u00e9dicas, M\u00e1rio Schenberg e Jos\u00e9 Goldemberg no campo da F\u00edsica. &nbsp;A obsess\u00e3o pela excel\u00eancia na constitui\u00e7\u00e3o do seu corpo\ndocente est\u00e1 no seu DNA, desde a funda\u00e7\u00e3o. Para viabilizar o ensino de alta\nqualidade na Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras, trouxe talentos do exterior como Georges Dumas, Claude L\u00e9vi-Strauss,\nFernand Paul Braudel, Roger Bastide e Pierre Monbeig.<br>\n<br>\n<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a USP \u00e9 respons\u00e1vel por 20% de toda\nprodu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do pa\u00eds e, juntamente com suas coirm\u00e3s Unicamp e Unesp, \u00e9\num elo do moderno sistema do ensino\nsuperior do Estado de S\u00e3o Paulo, que inclui, al\u00e9m do Centro Paula Souza e a\nUNIVESP, respeitadas institui\u00e7\u00f5es municipais e privadas.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nAo longo dos seus noventa\nanos a USP enfrentou momentos de tormentas. O maior deles nos anos de chumbo\np\u00f3s 1964, especialmente ap\u00f3s o AI-5, quando catedr\u00e1ticos, professores e\ncientistas foram aposentados compulsoriamente e instalou-se na universidade um\nclima de ca\u00e7a \u00e0s bruxas. Um deles foi\nFernando Henrique Cardoso, posteriormente eleito presidente da Rep\u00fablica,\nquando o Brasil voltou \u00e0 normalidade democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nTemos hoje a gigantesca\nrevolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica acontecendo, as quest\u00f5es clim\u00e1ticas, a transi\u00e7\u00e3o\nenerg\u00e9tica, os novos desafios da geopol\u00edtica, com a China assumindo papel cada\nvez mais determinante no movimento das cadeias produtivas globais e o debate\nsobre os rumos da democracia nos pr\u00f3ximos tempos.<\/p>\n\n\n\n<p><br>\nEm recente entrevista, o\natual reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti J\u00fanior, manifestou o grande\ndesafio da institui\u00e7\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Considerando que o mundo de hoje\n\u00e9 completamente diferente daquele que nossos antepassados conheceram, ele pontuou:\n\u201cN\u00e3o basta mais um diploma para entrar no mundo do trabalho. Nem mesmo um\ndiploma da USP\u201d. Tem raz\u00e3o o reitor ao real\u00e7ar as exig\u00eancias do moderno mercado\nde trabalho, onde novas habilidades, novos conhecimentos e atualiza\u00e7\u00e3o\nconstante s\u00e3o exigidos dos profissionais modernos. \u00c9 impens\u00e1vel, por exemplo,\nformar m\u00e9dicos sem o dom\u00ednio da Intelig\u00eancia Artificial. <\/p>\n\n\n\n<p>A USP enfrenta agora o desafio de renovar\ne atualizar o curr\u00edculo de todas as \u00e1reas do conhecimento e de responder \u00e0s\nquest\u00f5es da agenda moderna, especialmente as da diversidade e do meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p><br> O passado glorioso deve ser reverenciado, mas seria um grave erro utiliz\u00e1-lo em uma postura conservadora renitente \u00e0s mudan\u00e7as imperativas face o extraordin\u00e1rio e vertiginoso processo de transforma\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. A USP d\u00e1 sinais de n\u00e3o se acomodar para continuar a cumprir sua nobre miss\u00e3o de formar l\u00edderes para um mundo cada vez mais complexo.<\/p>\n\n\n\n<p>__________________________________  <\/p>\n\n\n\n<p> <br><em>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o. Foi professor na Escola Polit\u00e9cnica da USP e Secret\u00e1rio Estadual de Educa\u00e7\u00e3o.<\/em> <br> <br> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res Fui professor na Escola Polit\u00e9cnica da USP e confesso que tinha um prazer enorme em dar aulas l\u00e1. Alunos inteligentes e muito dedicados, estavam sempre conectados com tudo o que acontecia no mundo. Envolvidos com o ambiente universit\u00e1rio, almo\u00e7avam no CRUSP, praticavam esportes no Centro Esportivo da USP e n\u00e3o deixavam de frequentar outras unidades da universidade. 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