{"id":4050,"date":"2024-03-08T13:17:23","date_gmt":"2024-03-08T16:17:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=4050"},"modified":"2024-03-19T12:42:26","modified_gmt":"2024-03-19T15:42:26","slug":"o-avesso-da-pele-e-a-distopia-cabocla","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/o-avesso-da-pele-e-a-distopia-cabocla\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; O avesso da pele e a distopia cabocla"},"content":{"rendered":"\n<h1 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/in\/hubert-alqueres-80a18252\/\"><\/a><\/h1>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"620\" height=\"350\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Livro-_-O-avesso-da-Pele-03.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4051\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Livro-_-O-avesso-da-Pele-03.png 620w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Livro-_-O-avesso-da-Pele-03-300x169.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Livro-_-O-avesso-da-Pele-03-400x226.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption>Capa e imagem do autor do livro censurado<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n\n\n\n<p><em>A censura impede a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os conscientes. Eles n\u00e3o estar\u00e3o protegidos se ficarem confinados em uma redoma de vidro moralista. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>Vencedor do pr\u00eamio Jabuti de 2021, o mais importante da literatura brasileira, e traduzido em dezesseis idiomas, o livro &#8216;O avesso da pele&#8217;, de Jeferson Ten\u00f3rio, \u00e9 a mais recente v\u00edtima da onda dist\u00f3pica que varre o mundo e se instalou no Brasil. <\/p>\n\n\n\n<p>Tudo come\u00e7ou quando viralizou nas redes sociais o v\u00eddeo de uma diretora de uma escola de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, acusando o livro de conter palavras de \u201cbaixo cal\u00e3o\u201d, atent\u00f3rias \u00e0 moral e aos bons costumes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos de conservadorismo extremado e para atender ao clamor moralista e furibundo vindo das redes sociais, imediatamente os governadores do Paran\u00e1, de Goi\u00e1s e do Mato Grosso do Sul recolheram o livro das escolas de suas redes p\u00fablicas. <\/p>\n\n\n\n<p>O incomodo dos detratores do livro n\u00e3o se justifica. A obra de Jeferson Ten\u00f3rio, al\u00e9m do seu reconhecido valor liter\u00e1rio, aborda temas que dizem de perto \u00e0 realidade dos alunos das escolas p\u00fablicas, como o racismo e a viol\u00eancia policial. Muitos desses jovens convivem diuturnamente com essas duas chagas. Por isso mesmo, o livro foi inclu\u00eddo no Plano Nacional dos Livros Did\u00e1ticos- PNLD.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui cabem algumas explica\u00e7\u00f5es sobre a quest\u00e3o estritamente pedag\u00f3gica. No PNLD as escolas t\u00eam a liberdade de escolher, entre 530 livros, quais obras v\u00e3o adotar por estarem mais pr\u00f3ximas da realidade de seus alunos e do seu planejamento educacional. N\u00e3o h\u00e1 direcionamento ideol\u00f3gico ou pol\u00edtico no Plano Nacional dos Livros Did\u00e1ticos. Um livro para ser inclu\u00eddo no plano tem de ser avaliado e aprovado por uma banca de educadores, especialistas e mestres em literatura e l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 inconceb\u00edvel outros tipos de filtros pautados no cerceamento da liberdade de c\u00e1tedra, da liberdade de express\u00e3o, sem os quais \u00e9 imposs\u00edvel ofertar uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade. A escritora Djamila Ribeiro adverte, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, para a import\u00e2ncia dos jovens refletirem criticamente sobre o racismo e a viol\u00eancia. Segundo ela, \u201ceducadoras e educadores devem estar atentos para n\u00e3o incorrerem numa tentativa de blindagem de jovens \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre as din\u00e2micas sociais raciais na sociedade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se concebe, em um mundo em intensa transforma\u00e7\u00e3o, uma educa\u00e7\u00e3o onde alunos e professores n\u00e3o sejam protagonistas. S\u00f3 assim nossos jovens estar\u00e3o preparados para discernir o certo do errado e entender o mundo para al\u00e9m dos muros da escola. A censura, ditada por vi\u00e9s ideol\u00f3gico, impede a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os conscientes. Eles n\u00e3o estar\u00e3o protegidos se ficarem confinados em uma redoma de vidro moralista.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"652\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/economist-censorship-02-1024x652.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4052\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/economist-censorship-02-1024x652.jpeg 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/economist-censorship-02-300x191.jpeg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/economist-censorship-02-768x489.jpeg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/economist-censorship-02-400x255.jpeg 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/economist-censorship-02-943x600.jpeg 943w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/economist-censorship-02.jpeg 1290w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m do debate educacional, estamos diante de uma distopia cabocla, na qual a realidade imita a fic\u00e7\u00e3o. Em pleno s\u00e9culo XXI parece que vivemos na sociedade dist\u00f3pica do livro Fahrenheit 451, na qual livros eram queimados pelo governo, com o objetivo de controlar o pensamento e a opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>As piras contempor\u00e2neas nas quais ardem livros proibidos se espalham pelas redes sociais, impulsionadas pela polariza\u00e7\u00e3o e por ondas de fundamentalismo religioso, xenofobia, racismo e discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Fahrenheit continua entre n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 2023, a Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o de Santa Catarina ordenou a retirada de nove obras, entre as quais \u201cIt, a coisa\u201d, de Stephen King, e \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d, de Anthony Burgess. No ano passado, a Universidade Rio Verde, de Goi\u00e1s, retirou de sua lista de obras liter\u00e1rias recomendadas o livro \u201cEu receberia as piores not\u00edcias dos seus lindos l\u00e1bios\u201d por press\u00e3o do deputado Gustavo Gayer, do Partido Liberal.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00e3o casos isolados.&nbsp; Uma professora foi afastada de uma turma no col\u00e9gio Vit\u00f3ria R\u00e9gia, em Salvador, por ter indicado \u201cOlhos d\u2019\u00e1gua\u201d, de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Motivo do afastamento: a press\u00e3o de pais incomodados com o tema do livro, a viol\u00eancia contra mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>A Secretaria da Educa\u00e7\u00e3o de Rond\u00f4nia, chegou a censurar, por \u201cconte\u00fados inadequados\u201d, livros de Machado de Assis, Carlos Heitor Cony, Euclides da Cunha, Franz Kafka e Edgar Allan Poe. J\u00e1 no tradicional col\u00e9gio Santo Agostinho, do Rio de Janeiro, alunos protestaram, em 2018, contra a censura de \u201cMeninos sem p\u00e1tria\u201d, livro sobre uma fam\u00edlia de exilados nos tempos da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova onda de ca\u00e7a \u00e0s bruxas nos remete a p\u00e1ginas nebulosas da hist\u00f3ria da humanidade. A destrui\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias \u00e9 t\u00e3o antiga quanto o pr\u00f3prio livro. A rigor, antecede \u00e0 grande inven\u00e7\u00e3o de Gutemberg, a imprensa, que democratizou o acesso ao conhecimento, \u00e0 cultura e, em especial, \u00e0 literatura. Tabletas de argila, papiros e pergaminhos foram destru\u00eddos ao longo dos s\u00e9culos, por guerras ou por quest\u00f5es de natureza moral, pol\u00edtica, ideol\u00f3gica ou religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos esquecer de Savonarola, dos tempos da inquisi\u00e7\u00e3o. Ele entendia o Renascimento como s\u00edmbolo da frouxid\u00e3o moral e da degeneresc\u00eancia. Para livrar Firenze de seus males, patrocinou em 7 de fevereiro de 1497 a queima de livros e obras de artes que, segundo ele, incitavam o pecado da verdade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4D12AQE8MPTjcADf6w\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1710081885556?e=1715817600&amp;v=beta&amp;t=H_JN4QE3wHG0-2DFGzqy5fRHL9l0nFrxUwMMx4_a8U0\" alt=\"\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Os Savonarolas contempor\u00e2neos devem estar surpreendidos com a onda de solidariedade a Jeferson Ten\u00f3rio e com o rep\u00fadio \u00e0 censura. Intelectuais e educadores assinaram um manifesto de protesto, entidades da sociedade civil, como a C\u00e2mara Brasileira de Livros, tamb\u00e9m se manifestaram firmemente em defesa da liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Companhia das Letras, editora do livro, se posicionou de forma clara e contundente: \u201ca retirada de exemplares de um livro, baseada em uma interpreta\u00e7\u00e3o distorcida e descontextualizada de trechos isolados, \u00e9 um ato que viola os princ\u00edpios fundamentais da educa\u00e7\u00e3o e da democracia, empobrece o debate cultural e mina a capacidade dos estudantes de desenvolverem pensamento cr\u00edtico e reflexivo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o objetivo da distopia cabocla era condenar ao anonimato a obra de Jeferson Ten\u00f3rio, n\u00e3o conseguiu o seu intento. O v\u00eddeo da diretora de Santa Cruz do Sul e a censura dos tr\u00eas governadores turbinaram a venda de \u201cO avesso da pele\u201d, que cresceu 400%, sendo o livro mais vendido, desde a sexta-feira 1 de mar\u00e7o. O livro tamb\u00e9m recebeu o apoio de respeitadas institui\u00e7\u00f5es e de intelectuais de prest\u00edgio no pa\u00eds. Para o dia 11 de mar\u00e7o foi agendada uma manifesta\u00e7\u00e3o na Livraria da Travessa em S\u00e3o Paulo com a presen\u00e7a do autor da obra. <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o indicativos de que, felizmente, ainda est\u00e3o vivos no Brasil os valores do iluminismo, como a toler\u00e2ncia, o direito ao dissenso, o respeito ao contradit\u00f3rio e a liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________ <\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro. Foi secret\u00e1rio estadual da Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A censura impede a forma\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os conscientes. Eles n\u00e3o estar\u00e3o protegidos se ficarem confinados em uma redoma de vidro moralista. por Hubert Alqu\u00e9res Vencedor do pr\u00eamio Jabuti de 2021, o mais importante da literatura brasileira, e traduzido em dezesseis idiomas, o livro &#8216;O avesso da pele&#8217;, de Jeferson Ten\u00f3rio, \u00e9 a mais recente v\u00edtima da onda dist\u00f3pica que varre o mundo e se instalou no Brasil. 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