{"id":4104,"date":"2024-03-16T10:49:06","date_gmt":"2024-03-16T13:49:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=4104"},"modified":"2024-03-16T11:09:54","modified_gmt":"2024-03-16T14:09:54","slug":"guiomar-concede-entrevista-ao-estadao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/guiomar-concede-entrevista-ao-estadao\/","title":{"rendered":"Guiomar concede entrevista ao Estad\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2890_Sessao_Plenaria_Ordinaria_050.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4105\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A Acad\u00eamica Guiomar Namo de Melo <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/amp\/educacao\/criamos-ensino-integral-porque-tinhamos-escola-pela-metade-mas-dar-o-ruim-duas-vezes-nao-adianta\/\">fala sobre a educa\u00e7\u00e3o brasileira no jornal O Estado de S.Paulo<\/a>. A entrevista foi realizada pela jornalista  Giovanna Castro. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Criamos ensino integral porque t\u00ednhamos escola pela metade, mas dar o ruim duas vezes n\u00e3o adianta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Para especialista em educa\u00e7\u00e3o, foco das pol\u00edticas nacionais deve ser a garantia de aprendizagem, com a ado\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es combinadas. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Giovanna Castro         <\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, qual o grande gargalo do Brasil na educa\u00e7\u00e3o? Falta de infraestrutura das escolas? Desigualdades regionais? A pobreza que afasta alunos dos livros para trabalhar e ajudar na renda da fam\u00edlia? Segundo Guiomar Namo de Mello, doutora em Educa\u00e7\u00e3o, integrante da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e um das maiores refer\u00eancias do Pa\u00eds em forma\u00e7\u00e3o de professores, o problema \u00e9 multifatorial e, por isso, precisa de solu\u00e7\u00f5es combinadas e foco na garantia da aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta ter\u00e7a-feira, 12, Guiomar se reuniu com especialistas em educa\u00e7\u00e3o e representantes do setor privado na sede da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo (Fiesp) para discutir propostas para o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE), que ser\u00e1 revisto este ano e renovado para mais uma d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Guiomar, o governo federal tem feito propostas que sinalizam caminhos interessantes, mas que, na pr\u00e1tica, n\u00e3o deixam claro se h\u00e1 garantias de qualidade da oferta. Um exemplo \u00e9 o ensino de tempo integral. \u201cCriamos ensino integral porque t\u00ednhamos escola pela metade, mas dar o ruim duas vezes n\u00e3o adianta\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPrecisamos garantir que as pessoas aprendam, independentemente da condi\u00e7\u00e3o social delas. Esse \u00e9 o nosso principal desafio.\u201d No centro da melhoria da aprendizagem, destaca Guiomar, est\u00e1 aprimorar a forma\u00e7\u00e3o dos professores e diretores.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual deve ser o foco para a Educa\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos dez anos, per\u00edodo de escopo do PNE?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Pode parecer \u00f3bvio, mas o foco nos pr\u00f3ximos dez anos deve ser aprendizagem das crian\u00e7as \u2013 a aprendizagem o que est\u00e1 previsto, seja na BNCC (Base Nacional Comum Curricular, documento do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o que define o que deve ser aprendido em cada idade), seja nas recomenda\u00e7\u00f5es dos curr\u00edculos estaduais, nos referenciais ou nos curr\u00edculos municipais. Cada sistema de ensino no Brasil tem elementos que estabelecem o que \u00e9 necess\u00e1rio que as crian\u00e7as aprendam em cada ano, em cada etapa da escolaridade b\u00e1sica (\u2026) Esses elementos s\u00e3o subs\u00eddios, uma plataforma que foi criada pata beneficiar essas aprendizagens.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que n\u00e3o adianta estabelecer qual \u00e9 a aprendizagem, nem saber avaliar se essa aprendizagem est\u00e1 ou n\u00e3o acontecendo, se as crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o, de fato, aprendendo.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor, ali\u00e1s, deve estar no centro dessa pol\u00edtica, junto ao diretor da escola. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de valoriza\u00e7\u00e3o do professor pela simples valoriza\u00e7\u00e3o, mas sim da valoriza\u00e7\u00e3o do elemento sem o qual o processo de ensino-aprendizagem n\u00e3o pode se realizar (\u2026) Um professor que trabalha em tr\u00eas turnos, ganha pouco, n\u00e3o ter\u00e1 tempo para pensar quais as dificuldades e necessidades de cada aluno, de cada turma.<\/p>\n\n\n\n<p> O diretor tem papel fundamental de fazer a gest\u00e3o. Precisa de carisma, de compet\u00eancia t\u00e9cnica e treinamento de lideran\u00e7a. Cada vez mais, me conven\u00e7o de que em uma escola dirigida por um bom diretor, todos os problemas tendem a ser mais amenos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para al\u00e9m de valorizar o cargo de professor, o que \u00e9 preciso mudar na forma\u00e7\u00e3o docente para atingir esses objetivos de aprendizagem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A forma\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das coisas mais importantes \u2013 seja a inicial do professor, que \u00e9 o ensino superior, seja depois disso, na forma\u00e7\u00e3o continuada, quando ele ingressa na carreira. O ensino superior precisa encontrar formas de ter um projeto integrado e coeso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de professores, para que n\u00e3o seja apenas um bacharelado e uma licenciatura dentro de uma \u00e1rea espec\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o professor sai da faculdade, sai sabendo somente o conte\u00fado relacionado \u00e0 \u00e1rea dele (Biologia, Qu\u00edmica, etc..). Mas precisamos ter professores que possam transitar nas fronteiras das suas disciplinas e que possam estabelecer, sem dispensar o n\u00facleo importante e \u201cduro\u201d do conte\u00fado, temas interdisciplinares que atendam \u00e0s necessidades dos alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda coisa important\u00edssima \u00e9 que se estabele\u00e7a um mecanismo de avalia\u00e7\u00e3o dos cursos de ensino superior e forma\u00e7\u00e3o de professores. Temos um processo de avalia\u00e7\u00e3o que est\u00e1 agora com o MEC, mas esse processo tem de ser revisto, porque, entrar em quest\u00f5es mais t\u00e9cnicas. A forma\u00e7\u00e3o do professor precisa ter dimens\u00e3o pr\u00e1tica desde o in\u00edcio, e n\u00e3o apenas na hora de fazer o est\u00e1gio<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel \u00e9 que haja mecanismos para financiar este professor, n\u00e3o apenas pagando a sua educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m dando a ele subs\u00eddio para que possa se manter enquanto ele estuda. As pessoas que se formam em pedagogia no Brasil est\u00e3o entre os alunos mais pobres, os que fizeram os piores cursos de ensino m\u00e9dio e que tiraram as piores notas do Enem (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio). Eles j\u00e1 t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica muito prejudicada e ainda precisam trabalhar para se sustentar durante a gradua\u00e7\u00e3o. Que dedica\u00e7\u00e3o poder\u00e3o dar aos estudos e \u00e0 pr\u00e1tica da carreira?<\/p>\n\n\n\n<p>E essa pessoa muitas vezes n\u00e3o tem autonomia cognitiva intelectual cultural para fazer um curso de EAD e absorver da melhor forma aquele conte\u00fado. Isso se considerar quando o conte\u00fado \u00e9 bem trabalhado e apresentado, o que n\u00e3o \u00e9 a realidade em muitos casos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que precisa ser aprimorado na primeira inf\u00e2ncia? Voc\u00ea considera que faltam investimentos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os dados de desenvolvimento humano na \u00e1rea da neuroci\u00eancia deixam clara a import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o infantil, desde os anos iniciais at\u00e9 o in\u00edcio do ensino fundamental. \u00c9 um per\u00edodo cr\u00edtico para o futuro do desenvolvimento. Ent\u00e3o, n\u00f3s precisamos resolver o nosso problema de alfabetiza\u00e7\u00e3o, de leitura e escrita formal, e, sem d\u00favida alguma, o investimento na primeira inf\u00e2ncia vai ser importante agora. Mas precisamos, antes de tudo, entender como usar esse investimento, que tipo de projeto pedag\u00f3gico tem que ser feito \u2013 at\u00e9 mesmo para pensar como usar bem o dinheiro do investimento que j\u00e1 vem sendo feito.<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que \u00e9 importante priorizar a primeira inf\u00e2ncia e \u00e9 importante que essa tenha sido uma bandeira forte no congresso nacional \u2013 n\u00e3o sei, ao certo, se ainda \u00e9 agora, mas vinha sendo (\u2026) \u00c9 preciso entender que, independente dos desafios que temos, eles n\u00e3o podem servir como justificativa para a n\u00e3o alfabetiza\u00e7\u00e3o. N\u00f3s precisamos aprender a alfabetizar crian\u00e7as ainda que elas venham de meios sociais adversos, garantindo que, ao final de um percurso, elas ter\u00e3o seus direitos de aprendizagem plenamente satisfeitos. Esse \u00e9 o nosso desafio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong> E no ensino fundamental?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que n\u00f3s temos os primeiros quatro ou cinco anos do ensino fundamental melhor resolvidos. O nosso problema tem sido essa faixa et\u00e1ria do 6\u00ba ao 9\u00ba ano, at\u00e9 o in\u00edcio do ensino m\u00e9dio, onde temos uma grande distor\u00e7\u00e3o idade-s\u00e9rie (por conta de reprova\u00e7\u00f5es) e de abandono da escola. Essa \u00e9 a fase da puberdade, do in\u00edcio da adolesc\u00eancia, uma fase com muitas caracter\u00edsticas emocionais peculiares, onde come\u00e7am a aparecer transtornos e problemas como o bullying \u2013 e tamb\u00e9m \u00e9 a etapa que foi mais afetada pela pandemia, pela aus\u00eancia de escola. \u00c9 uma etapa dif\u00edcil, complexa. Quem tem ou j\u00e1 teve filho nessa idade, sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a neuroci\u00eancia tamb\u00e9m tem mostrado que, por volta dos 14 e 15 anos, come\u00e7a a se abrir uma nova janela e oportunidade neurol\u00f3gica de capacidade de grande aprendizagem. \u00c9 uma fase de constitui\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o do pensamento operat\u00f3rio. Mas o que est\u00e1 acontecendo, ent\u00e3o? Provavelmente, uma grande desmotiva\u00e7\u00e3o. Talvez tenha origem ainda na pandemia, mas eu n\u00e3o sei at\u00e9 quando a gente vai poder usar a pandemia como desculpa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma fase que precisa de um cuidado especial do coordenador pedag\u00f3gico. \u00c9 importante ter na escola um grupo de apoio ao professor, que ajude o professor a lidar com as situa\u00e7\u00f5es, porque n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil enfrentar uma classe de 32 pr\u00e9-adolescentes, n\u00e9?<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos enfrentar, principalmente, os problemas de transtornos mentais que come\u00e7am a aparecer nessa fase e que podem se agravar no ensino m\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o governo deve priorizar na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, segundo especialistas?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ensino integral \u00e9 uma boa ferramenta para alavancar a aprendizagem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 uma coisa e n\u00f3s fizemos de um jeito t\u00e3o complicado\u2026 No mundo inteiro, as escolas n\u00e3o s\u00e3o de tempo integral. N\u00f3s criamos o ensino integral porque t\u00ednhamos uma escola pela metade. Achamos que, botando outra parte, juntando as duas, dava uma escola integral (no sentido de educa\u00e7\u00e3o completa). Mas isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente verdade. N\u00e3o vamos esquecer que se voc\u00ea d\u00e1 duas vezes uma coisa ruim, n\u00e3o adianta nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea pensa em ampliar o tempo que a crian\u00e7a fica na escola, precisa pensar numa forma realmente integrada de perman\u00eancia. E isso envolve um projeto pedag\u00f3gico espec\u00edfico, uma gest\u00e3o curricular e prepara\u00e7\u00e3o de professores pr\u00f3pria para essa escola que est\u00e1 funcionando em tempo integral. A gente funcionou bem por muito tempo com escolas em meio per\u00edodo, sobretudo em algumas \u00e1reas que, digamos, s\u00e3o mais bem situadas. N\u00e3o \u00e9 o tempo na escola que define a qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre que a gente pensa na escola em tempo integral, ela se torna tamb\u00e9m um lugar de perman\u00eancia da crian\u00e7a, de prote\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. Se ela vive em ambientes de risco, realmente, a escola tem este papel de cuidado e de prote\u00e7\u00e3o \u2013 em princ\u00edpio n\u00e3o deveria ser, mas tudo bem. Podemos at\u00e9 ter a escola integral, desde que a gente tenha um projeto pedag\u00f3gico coerente que d\u00ea conta desta perman\u00eancia em tempo integral na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Um valor importante, independentemente de quanto tempo a crian\u00e7a vai ficar na escola, \u00e9 que ela tenha uma forma\u00e7\u00e3o que atenda tanto ao seu desenvolvimento intelectual e cognitivo, quanto ao seu desenvolvimento f\u00edsico e o desenvolvimento social, para que elas saibam lidar com situa\u00e7\u00f5es e tenham, enfim, um car\u00e1ter de resili\u00eancia e de autonomia. Esse \u00e9 um objetivo de forma\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que voc\u00ea acha do novo ensino m\u00e9dio, em sua proposta original e ap\u00f3s as mudan\u00e7as sugeridas pelo governo Lula? Quais os erros e acertos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista hist\u00f3rico, o novo ensino m\u00e9dio foi a primeira vez que a forma\u00e7\u00e3o profissional p\u00f4de estar organicamente integrada ao curr\u00edculo do ensino m\u00e9dio \u2013 porque a forma\u00e7\u00e3o do ensino m\u00e9dio t\u00e9cnico sempre foi meio marginal, tanto quando ele era feito depois, tanto quanto era concomitante. Essa lei, com todos os problemas que ela possa ter, em especial na implementa\u00e7\u00e3o, tem esse grande e importante papel, com os itiner\u00e1rios de forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que \u00e9 importante que a popula\u00e7\u00e3o entenda que o novo ensino m\u00e9dio n\u00e3o tirou forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, apenas estreitou e flexibilizou para que o curr\u00edculo seja mais interdisciplinar e din\u00e2mico. Mas o novo governo n\u00e3o concordou e, primeiro, queria praticamente revogar, o que \u00e9 uma coisa muito dif\u00edcil de se fazer com algo que j\u00e1 est\u00e1 em andamento. As escolas j\u00e1 tinham come\u00e7ado a implementar, seria uma grande confus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o minist\u00e9rio acabou propondo, ent\u00e3o? Prop\u00f4s que n\u00e3o seriam itiner\u00e1rios formativos de 1200 horas, mas sim de 600 horas, e que a forma\u00e7\u00e3o geral b\u00e1sica, em vez de ter 1800, teria 2400 horas. Quando isso atinge o itiner\u00e1rio formativo, por exemplo na \u00e1rea de Ci\u00eancias da Natureza, n\u00e3o tem grandes problemas, apenas continua dando uma s\u00e9rie de disciplinas que eventualmente o aluno n\u00e3o tem interesse, mas tudo bem. O problema \u00e9 com o que acontece na educa\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele que, pela primeira vez, p\u00f4de se inserir organicamente no curr\u00edculo do ensino m\u00e9dio nesse itiner\u00e1rio t\u00e9cnico, ao tirar as 600 horas, n\u00e3o vai mais poder fazer isso, afinal nenhuma forma\u00e7\u00e3o profissional d\u00e1 para ser conclu\u00edda com 600 horas \u2013 em geral, s\u00e3o 900 horas.<\/p>\n\n\n\n<p>O ensino m\u00e9dio ia perder aquela caracter\u00edstica de apenas ser preparat\u00f3rio para a faculdade, para ter uma uma porta de sa\u00edda imediata para o mercado de trabalho, o que eu acho positivo. Isso ainda est\u00e1 em discuss\u00e3o no Congresso, mas n\u00e3o estou muito otimista (sobre o retorno em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s horas).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Na sua opini\u00e3o, o clima polarizado tem atrapalhado os debates sobre educa\u00e7\u00e3o? Como?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim. Eu acho que do jeito que o Brasil est\u00e1 polarizado, tudo vira uma disputa ideol\u00f3gica, partid\u00e1ria, e a aprendizagem das crian\u00e7as fica sempre secundarizada. Existem, obviamente, diferen\u00e7as de vis\u00e3o, de concep\u00e7\u00f5es, e n\u00f3s temos que ir discutindo esses conflitos e tentando encontrar converg\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como alavancar a oferta do ensino t\u00e9cnico para os jovens? Quais s\u00e3o os ganhos que a educa\u00e7\u00e3o profissional pode trazer para a aprendizagem dos alunos e para a produtividade do Pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso j\u00e1 est\u00e1 bem documentado em pesquisas que mostram o impacto no pr\u00f3prio PIB se a gente aumentar a quantidade de alunos fazendo ensino t\u00e9cnico. Os dados tamb\u00e9m mostram que muitos saem menos da escola quando h\u00e1 ensino m\u00e9dio t\u00e9cnico, porque os jovens n\u00e3o veem muito sentido de fazer aquele curso (regular), ent\u00e3o h\u00e1 uma desmotiva\u00e7\u00e3o muito grande desses jovens \u2013 o que n\u00e3o acontece no ensino t\u00e9cnico, geralmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea precisaria de propostas que engajem esses jovens, muitos dos quais precisam trabalhar logo \u2013 e trabalhar logo n\u00e3o significa que n\u00f3s estamos lesando o direito deles de irem para o ensino superior, pelo contr\u00e1rio, n\u00f3s estamos dando a ele instrumentos para ter uma estrat\u00e9gia para ingressar no ensino superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu digo isso como testemunho pessoal: eu jamais teria conseguido entrar numa faculdade se eu n\u00e3o j\u00e1 trabalhasse de dia, enquanto fazia o curso t\u00e9cnico de noite. Fiz um vestibular para estudar \u00e0 noite na pedagogia e s\u00f3 consegui fazer isso porque eu tinha esse esse percurso do ensino t\u00e9cnico que me ajudou a poder trabalhar para me sustentar, j\u00e1 que vim de uma fam\u00edlia pobre, que n\u00e3o podia me bancar enquanto eu fazia faculdade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s temos dados que mostram que, entre os pa\u00edses da OCDE, a nossa quantidade de matr\u00edculas no ensino profissional no n\u00edvel m\u00e9dio \u00e9 rid\u00edcula perto dos outros. A Alemanha tem mais de 40%, quase 50% de matr\u00edculas no m\u00e9dio t\u00e9cnico. A Su\u00ed\u00e7a tem quase 70%. No Brasil, temos o menor \u00edndice da Am\u00e9rica Latina, com 8%. Eu acho que tem v\u00e1rias alternativas para ampliar isso. N\u00f3s temos um sistema de forma\u00e7\u00e3o profissional que \u00e9 muito bom, s\u00f3 que ele n\u00e3o d\u00e1 conta de atender essa demanda. Ent\u00e3o, qualquer iniciativa de parceria, com empresas, por exemplo na \u00e1rea do agroneg\u00f3cio, \u00e9 bem-vinda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Acad\u00eamica Guiomar Namo de Melo fala sobre a educa\u00e7\u00e3o brasileira no jornal O Estado de S.Paulo. A entrevista foi realizada pela jornalista Giovanna Castro. Criamos ensino integral porque t\u00ednhamos escola pela metade, mas dar o ruim duas vezes n\u00e3o adianta Para especialista em educa\u00e7\u00e3o, foco das pol\u00edticas nacionais deve ser a garantia de aprendizagem, com a ado\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es combinadas. Por Giovanna Castro Afinal, qual o grande gargalo do Brasil na educa\u00e7\u00e3o? Falta de infraestrutura das escolas? Desigualdades regionais? A pobreza que afasta alunos dos livros para trabalhar e ajudar na renda da fam\u00edlia? 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