{"id":4195,"date":"2024-03-30T11:50:21","date_gmt":"2024-03-30T14:50:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=4195"},"modified":"2025-01-06T19:00:38","modified_gmt":"2025-01-06T22:00:38","slug":"artigo-apagao-docente-o-que-esta-acontecendo-com-as-licenciaturas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-apagao-docente-o-que-esta-acontecendo-com-as-licenciaturas-no-brasil\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Apag\u00e3o docente: O que est\u00e1 acontecendo com as licenciaturas no Brasil?"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/2890_Sessao_Plenaria_Ordinaria_02.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4196\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A Acad\u00eamica Bernardete Gatti, uma das maiores pesquisadoras brasileiras na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 citada em artigo -de autoria de Patr\u00edcia Valim, Rosangela Aparecida Hil\u00e1rio, Arthur P. O. Balbani e Eduarda F. Vieira -publicado recentemente pelo jornal <a href=\"https:\/\/pp.nexojornal.com.br\/ponto-de-vista\/2024\/03\/28\/apagao-docente-o-que-esta-acontecendo-com-as-licenciaturas-no-brasil\">&#8220;NEXO, pol\u00edticas p\u00fablicas&#8221; (leia aqui).<\/a> Bernardete coordenou estudos da \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o de professores, e \u00e9 uma das principais especialistas desta \u00e1rea no nosso pa\u00eds.   <\/p>\n\n\n\n<p>O texto defende que a evas\u00e3o das licenciaturas e o \u201capag\u00e3o docente\u201d t\u00eam diversas origens: desvaloriza\u00e7\u00e3o da carreira, imagem social amb\u00edgua dos professores, baixa autoestima e descontinuidade pol\u00edtica, assim como, a cultura do ass\u00e9dio no ambiente acad\u00eamico . <\/p>\n\n\n\n<p><strong>por Patr\u00edcia Valim, Rosangela Aparecida Hil\u00e1rio, Arthur P. O. Balbani e Eduarda F. Vieira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A RBMC (Rede Brasileira de Mulheres Cientistas) \u00e9 um movimento social que surgiu na pandemia para combater o negacionismo cient\u00edfico e debater a condi\u00e7\u00e3o das mulheres naquele momento dram\u00e1tico. Naquela ocasi\u00e3o, a carta compromisso que deu origem \u00e0 RBMC teve mais de 3.000 assinaturas; hoje, somos o maior movimento social de cientistas do pa\u00eds, atuando na constru\u00e7\u00e3o coletiva de uma pol\u00edtica cient\u00edfica com equidade de g\u00eanero e ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano passado, a RBMC construiu a campanha nacional #ASS\u00c9DIOZERO, cujo ponto de partida foi o artigo \u201cPelo fim da cultura do ass\u00e9dio no ambiente acad\u00eamico\u201d das cientistas Geny Guimar\u00e3es, Monika Dowbor, Ol\u00edvia Perez, Patr\u00edcia Valim e Patr\u00edcia de Abreu, com a realiza\u00e7\u00e3o de lives com especialistas que apresentaram dados sobre a cultura de ass\u00e9dio na academia e boas pr\u00e1ticas para combat\u00ea-la, levando a outras a\u00e7\u00f5es que resultaram no levantamento de dados atualizados sobre o tema para a reda\u00e7\u00e3o de uma Cartilha da RBMC.<\/p>\n\n\n\n<p>As cientistas da RBMC diretamente ligadas \u00e0 essa campanha confirmaram que n\u00e3o h\u00e1 como separar a constru\u00e7\u00e3o de boas pr\u00e1ticas para o combate \u00e0 cultura do ass\u00e9dio na academia da supera\u00e7\u00e3o do \u201cApag\u00e3o Docente\u201d causado pelo alto \u00edndice de evas\u00e3o nas licenciaturas, conforme alertado h\u00e1 tempos (GATTI, 1991). Decidimos, ent\u00e3o, fazer uma \u201cocupa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d no portal Nexo Pol\u00edticas P\u00fablicas para tornar p\u00fablica a preocupa\u00e7\u00e3o e buscar caminhos para revers\u00e3o deste quadro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2009, a Professora Bernadete Gatti exp\u00f4s o progn\u00f3stico sobre o apag\u00e3o docente e apontou que a falta de uma pol\u00edtica p\u00fablica que traga de volta o interesse pela carreira docente na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica pelas estudantes do ensino m\u00e9dio ter\u00e1 como consequ\u00eancia imediata o colapso da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>A evas\u00e3o das licenciaturas e o \u201capag\u00e3o docente\u201d t\u00eam diversas origens: desvaloriza\u00e7\u00e3o da carreira, imagem social amb\u00edgua dos professores, baixa autoestima e descontinuidade pol\u00edtica. Os dados do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior de 2022 e da V Pesquisa Nacional de Perfil Socioecon\u00f4mico e Cultural das graduandas das IFES \u2013 2018 sugerem pistas sobre as vari\u00e1veis do \u201cApag\u00e3o docente\u201d \u2013 sendo a cultura do ass\u00e9dio no ambiente acad\u00eamico uma das principais causas do alto \u00edndice de evas\u00e3o. Atualmente, 58% das pessoas discentes que cursam licenciatura abandonam a carreira antes da formatura.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta de entrada para o ensino superior para as pessoas que o acessam pelas a\u00e7\u00f5es afirmativas \u00e9 a Licenciatura \u2013 somando isso ao percurso educacional enfrentado, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender porque ass\u00e9dio e evas\u00e3o recaem primeiro e em maior grau sobre as pessoas negras e pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAss\u00e9dio moral\u201d foi incorporado pela primeira vez na pesquisa da Andifes de 2017. Com a inclus\u00e3o, pode-se verificar o baixo letramento de g\u00eanero e ra\u00e7a da academia sobre o ass\u00e9dio e sua transversalidade no abandono do curso, como a rubrica \u201cdificuldades de relacionamento no curso\u201d (19,1%). Quando o tema \u00e9 associado com \u201cAss\u00e9dio, bullying, persegui\u00e7\u00e3o, discrimina\u00e7\u00e3o ou preconceito\u201d (4,8%), soma-se 23,9%.<\/p>\n\n\n\n<p>E como o ass\u00e9dio se manifesta na academia? Por meio de coment\u00e1rios, ironias e afirma\u00e7\u00f5es depreciativas sobre a falta de \u201crequisitos b\u00e1sicos\u201d para estar na universidade. E quem \u00e9 atingido por essa falta de pr\u00e9-requisitos? Estudantes que passaram a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica sem corpo docente \u2013 que, quando existente, n\u00e3o raro, pouco sabe sobre o letramento necess\u00e1rio para ministrar a disciplina.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa tamb\u00e9m constatou que 62,8% das v\u00edtimas s\u00e3o do sexo feminino, ressaltando que quanto mais o g\u00eanero declarado se afasta do padr\u00e3o tido por dominante, maior o ass\u00e9dio. O recorte de g\u00eanero permite aferir os mais afetados pelo ass\u00e9dio acad\u00eamico e o consequente abandono do curso \u2013 em ordem decrescente, estudantes n\u00e3o-bin\u00e1rias, mulheres transexuais e transg\u00eanera, homens transexuais e transg\u00eanero, mulheres cisg\u00eanera e homem cisg\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o recorte racial da pesquisa sugere que o alvo da cultura do ass\u00e9dio \u00e9 justamente quem ingressou na gradua\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das pol\u00edticas de democratiza\u00e7\u00e3o de acesso: pretas, pobres e oriundos de escolas p\u00fablicas, onde a falta generalizada de professoras formadas atingem principalmente os territ\u00f3rios pobres e perif\u00e9ricos, que como escrito por L\u00e9lia Gonzalez, tem cor e g\u00eanero: mulheres e negras.<\/p>\n\n\n\n<p>A democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 gradua\u00e7\u00e3o em uma Ifes (Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o), no entanto, n\u00e3o foi acompanhada de letramento de g\u00eanero e racial como mecanismos para o combate da cultura do ass\u00e9dio e a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de perman\u00eancia, pois do conjunto de v\u00edtimas da cultura do ass\u00e9dio no ambiente acad\u00eamico, somente 8,3% formalizou a reclama\u00e7\u00e3o. As causas? Medo, aus\u00eancia de expectativa de solu\u00e7\u00e3o e desconhecimento dos canais de formaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista sobre o \u201cApag\u00e3o Docente\u201d, Luiz Carlos Zalaf Caseiro afirmou que \u201csomente um ter\u00e7o dos estudantes que finalizam as licenciaturas vai atuar na doc\u00eancia; o restante opta por outros caminhos profissionais\u201d \u2013 entre 2014 e 2019, \u201ca taxa de ociosidade de licenciaturas em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas foi de cerca de 20%, enquanto em 2021 esse percentual subiu para 33%\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desses dados, como a RBMC pode colaborar com o debate p\u00fablico sobre o \u201cApag\u00e3o Docente\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro passo \u00e9 enfrentar a percep\u00e7\u00e3o de que as licenciaturas s\u00e3o \u201cgradua\u00e7\u00f5es de segunda linha\u201d: \u00e9 n\u00edtido o desconforto de alguns colegas em dizer que trabalham com forma\u00e7\u00e3o docente \u2013 como se fosse poss\u00edvel formar algu\u00e9m sem professoras. Ap\u00f3s, \u00e9 preciso debater quem s\u00e3o essas professoras, onde se formaram, que tipo de forma\u00e7\u00e3o carecem, quais suas vulnerabilidades e necessidades, adotando medidas de preven\u00e7\u00e3o e combate \u00e0 cultura do ass\u00e9dio no ambiente acad\u00eamico. Por fim, \u00e9 preciso desmistificar as avalia\u00e7\u00f5es institucionais como \u201cespa\u00e7os de ca\u00e7a docente\u201d: n\u00e3o se v\u00ea outros profissionais serem penalizados por falta de condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil vive um apag\u00e3o docente. N\u00e3o se escuta mais o interesse de alunos e alunas pela carreira docente em nenhuma parte do pa\u00eds. \u00c9 preciso retomar o orgulho e o respeito em ser professor. Sem professores, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma profiss\u00e3o. Para isso, o primeiro passo \u00e9 valorizar efetivamente o magist\u00e9rio, entender as suas dificuldades e necessidades e criar estrat\u00e9gias para incentivar novamente nossos jovens a ver no magist\u00e9rio um futuro profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>_______________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>BIBLIOGRAFIA<br>\nBrasil. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (INEP). Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior. dez 2020. Dispon\u00edvel em: Dispon\u00edvel aqui. Acesso em: 01\/03\/2024.<\/p>\n\n\n\n<p>BOF, Alvana Maria; CASEIRO, Luiz Zalaf &amp; MUNDIM, Fabiano Cavalcanti. Car\u00eancia de professores na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, risco de apag\u00e3o? <\/p>\n\n\n\n<p>Gatti, Bernardete A. Forma\u00e7\u00e3o de professores no Brasil: caracter\u00edsticas e problemas. Educa\u00e7\u00e3o &amp; Sociedade, v. 31, p. 1355-1379, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>_________________________________________ <br>Rosangela Aparecida Hil\u00e1rio \u00e9 doutora em educa\u00e7\u00e3o (FEUSP). Professora associada da Universidade Federal de Rond\u00f4nia. L\u00edder do Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde. Coordenadora do Comit\u00ea Executivo da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas. Conselheira do Conselho de Desenvolvimento Econ\u00f4mico Social e Sustent\u00e1vel da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Arthur P. O. Balbani \u00e9 mestre em direito (USP) e graduado em direito pela mesma Universidade. Mestrando em administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica pela LSE (Reino Unido). Integrante do Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde.<\/p>\n\n\n\n<p>Patricia Valim \u00e9 doutora em hist\u00f3ria econ\u00f4mica (FFCLCH\/USP), professora associada da UFBA e membra do Comit\u00ea Executivo da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eduarda Francelino \u00e9 mestranda em educa\u00e7\u00e3o (PPGEduc\/UNIR) e Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Ativista Audre Lorde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Acad\u00eamica Bernardete Gatti, uma das maiores pesquisadoras brasileiras na \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 citada em artigo -de autoria de Patr\u00edcia Valim, Rosangela Aparecida Hil\u00e1rio, Arthur P. O. Balbani e Eduarda F. Vieira -publicado recentemente pelo jornal &#8220;NEXO, pol\u00edticas p\u00fablicas&#8221; (leia aqui). Bernardete coordenou estudos da \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o de professores, e \u00e9 uma das principais especialistas desta \u00e1rea no nosso pa\u00eds. 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