{"id":4448,"date":"2024-05-27T11:04:48","date_gmt":"2024-05-27T14:04:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=4448"},"modified":"2024-05-27T11:13:00","modified_gmt":"2024-05-27T14:13:00","slug":"artigo-problemas-complexos-exigem-solucoes-complexas-a-garantia-da-qualidade-de-desempenho-dos-medicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-problemas-complexos-exigem-solucoes-complexas-a-garantia-da-qualidade-de-desempenho-dos-medicos\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Problemas complexos exigem solu\u00e7\u00f5es complexas: a garantia da qualidade de desempenho dos m\u00e9dicos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4449\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-2048x1363.jpg 2048w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-400x266.jpg 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_242-901x600.jpg 901w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto Cleo Veleda<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Por Eliana Amaral<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O assunto da forma\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos no Brasil tem ocupado um importante espa\u00e7o nas m\u00eddias. Com raz\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es, entidades de classe e a sociedade brasileira se mostram preocupados com a amea\u00e7a da perda de qualidade de forma\u00e7\u00e3o e desempenho dos m\u00e9dicos, que vem sendo denunciada em diversos artigos e entrevistas.<\/p>\n\n\n\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de 2023 da pesquisa Demografia M\u00e9dica informa que 35.398 rec\u00e9m-graduados se registraram nos conselhos de medicina, etapa obrigat\u00f3ria para iniciar a pr\u00e1tica profissional. J\u00e1 temos quase 600.000 m\u00e9dicos no pais, com 2,81 profissionais\/1000habitantes, uma taxa que triplicou em 34 anos (https:\/\/observatorio.cfm.org.br\/demografia\/). A densidade m\u00e9dia atual de m\u00e9dicos no Brasil \u00e9 similar ao Canad\u00e1, Estados Unidos, Jap\u00e3o, Korea, pr\u00f3xima \u00e0 do Reino Unido (3,2), enquanto a m\u00e9dia dos pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o para o Com\u00e9rcio e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) estava em torno de 3,7\/1000 habitantes em 2021 (https:\/\/www.oecd.org\/health\/health-at-a-glance\/). No entanto, a desigualdade de distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica \u00e9 evidente, com 10 dos 26 estados e o Distrito Federal assim como as regi\u00f5es Sul, Sudeste e Centro-Oeste mostrando uma densidade maior do que a m\u00e9dia para o pais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"653\" height=\"334\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4450\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-7.png 653w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-7-300x153.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-7-400x205.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 653px) 100vw, 653px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"886\" height=\"267\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4451\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-8.png 886w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-8-300x90.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-8-768x231.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/image-8-400x121.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 886px) 100vw, 886px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Fonte: CFM, 2024. [https:\/\/observatorio.cfm.org.br\/demografia\/dashboard\/]<\/p>\n\n\n\n<p>A expans\u00e3o das escolas m\u00e9dicas e vagas que vimos acontecer n\u00e3o tem precedentes em qualquer outro pais do mundo. Ocupamos o 2\u00ba lugar com 389 escolas no Brasil, com previs\u00e3o de assumirmos o 1\u00ba lugar talvez j\u00e1 neste ano, ultrapassando a \u00cdndia, com uma popula\u00e7\u00e3o cinco vezes maior que a nossa. Al\u00e9m do crescimento do n\u00famero de escolas, vimos aumentar o n\u00famero de vagas por escola. Uma pol\u00edtica de expans\u00e3o lan\u00e7ada pelo governo federal em 2013 buscava ocupar vazios de assist\u00eancia promovendo a interioriza\u00e7\u00e3o das escolas m\u00e9dicas e maior integra\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o com o sistema p\u00fablico de sa\u00fade, selecionando as propostas atrav\u00e9s de edital. Tal pol\u00edtica se desdobrou em um desproporcional aumento das escolas, especialmente aquelas propostas por institui\u00e7\u00f5es ou empresas educacionais privadas, com valores superavit\u00e1rios. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Era previs\u00edvel que haveria dificuldades para manter oferta de forma\u00e7\u00e3o com supervis\u00e3o cont\u00ednua e qualificada para os estudantes, especialmente nas etapas cl\u00ednicas que acontecem nos servi\u00e7os de sa\u00fade como unidades de aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, ambulat\u00f3rios ou hospitais. Tal demanda de aprendizagem cl\u00ednica supervisionada continuamente por m\u00e9dicos-educadores, docentes ou preceptores, intensificam-se a partir do 3\u00ba ano. Tem seu \u00e1pice no Internato, que corresponde aos dois \u00faltimos anos do curr\u00edculo de 6 anos, quando os estudantes aprendem em imers\u00e3o nos servi\u00e7os. Ainda que as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Medicina preconizem grande integra\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o que inclui a aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica junto \u00e0s equipes de sa\u00fade da fam\u00edlia e comunidade, a aprendizagem em hospitais, ambulat\u00f3rios, unidades de emerg\u00eancias e plant\u00f5es s\u00e3o essenciais para a forma\u00e7\u00e3o e exigem a supervis\u00e3o cont\u00ednua e qualificada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diante deste cen\u00e1rio, enquanto as entidades m\u00e9dicas se posicionavam cautelosas e contr\u00e1rias ao aumento r\u00e1pido de vagas, gestores de sa\u00fade defendiam a necessidade de expans\u00e3o para superar a escassez de profissionais.&nbsp;Esta preocupa\u00e7\u00e3o gerou uma morat\u00f3ria na abertura de escolas m\u00e9dicas por 5 anos, que se encerrou em 2023. Apesar disso, novas escolas foram abertas sob liminar, com a decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal sendo esperada, numa disputa entre diferentes associa\u00e7\u00f5es de universidades, enquanto dezenas aguardam an\u00e1lise do MEC (https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vida-e-cidadania\/novela-judicial-da-abertura-de-cursos-de-medicina-ganha-capitulo-final-no-stf\/).<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso, a preocupa\u00e7\u00e3o se intensificou exponencialmente e muitos passaram a defender o exame de licenciamento para a pr\u00e1tica profissional (similar ao que se utiliza no Direito) como a forma de garantir esta qualidade que resulte em seguran\u00e7a para os pacientes. Entretanto, h\u00e1 muita literatura a respeito e certamente este rem\u00e9dio n\u00e3o consegue curar \u201ca doen\u00e7a\u201d, que \u00e9 a prolifera\u00e7\u00e3o de escolas m\u00e9dicas sem condi\u00e7\u00f5es de oferecer infraestrutura e supervis\u00e3o de qualidade e formativa para os novos m\u00e9dicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Utilizamos uma classifica\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es preventivas no cuidado em sa\u00fade. Preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, para evitar a doen\u00e7a; preven\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, para evitar que se torne uma condi\u00e7\u00e3o grave; preven\u00e7\u00e3o terci\u00e1ria, para evitar o pior desfecho, a morte; finalmente, a preven\u00e7\u00e3o quatern\u00e1ria busca evitar a sobremedicaliza\u00e7\u00e3o e evitar interven\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias. A utiliza\u00e7\u00e3o do exame de licenciamento m\u00e9dico como medida isolada para resolver o problema da qualidade dos profissionais e da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade ignora estes princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>Um problema complexo como esse, que envolve aspectos educacionais, de licen\u00e7a para a pr\u00e1tica profissionais e, muito fortemente, de mercado e interesse econ\u00f4mico exigem estrat\u00e9gias multifacetadas, com m\u00faltiplas camadas. N\u00e3o h\u00e1 como ignorar a necessidade de uma an\u00e1lise muito rigorosa da necessidade de m\u00e9dicos, generalistas e especialistas, na regi\u00e3o onde se prop\u00f5e uma nova escola m\u00e9dica. Mas qual seria o n\u00famero m\u00e1gico de m\u00e9dicos\/1000 habitantes que dever\u00edamos utilizar como par\u00e2metros?<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, n\u00e3o existe este valor. Quando se comparam estas taxas, ignora-se a estrutura\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade dos diversos pa\u00edses, a cultura de busca de cuidados da popula\u00e7\u00e3o que se utiliza dos servi\u00e7os, o que seria coberto pelo sistema p\u00fablico e pelo sistema privado, qual a necessidade de generalistas e rela\u00e7\u00e3o a especialistas, o perfil demogr\u00e1fico na regi\u00e3o, a distribui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade prevalentes, entre outros fatores. As diferentes regi\u00f5es do Brasil tem desigualdades no acesso aos profissionais m\u00e9dicos, a outros profissionais e mesmo servi\u00e7os de sa\u00fade. E as regi\u00f5es mais carentes, tamb\u00e9m carecem de hospitais, ambulat\u00f3rios, especialistas e exames complementares necess\u00e1rios. Al\u00e9m disso, a contribui\u00e7\u00e3o de outros profissionais nas a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e o processo de cuidado complementar tamb\u00e9m difere muito, o que afeta a demanda por profissionais m\u00e9dicos. Se os servi\u00e7os de sa\u00fade n\u00e3o tem equipes e n\u00e3o s\u00e3o bem estruturados, tamb\u00e9m a efici\u00eancia da aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica estar\u00e1 prejudicada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, precisamos garantir o bom desempenho dos m\u00e9dicos e a seguran\u00e7a dos pacientes. Parece l\u00f3gico pensar que o primeiro passo, a preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, \u00e9 garantir que escolas sejam abertas onde houver possibilidade de boa forma\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos primeiros anos do curso, quando boas estrat\u00e9gias educacionais e laborat\u00f3rios de simula\u00e7\u00e3o, apoiados por alguns docentes m\u00e9dicos e docentes de outras forma\u00e7\u00f5es podem ser suficientes para dar bases ao conhecimento. Os cen\u00e1rios de aprendizagem em unidades de sa\u00fade da fam\u00edlia e hospitais gerais que ofere\u00e7am os est\u00e1gios supervisionados essenciais, incluindo emerg\u00eancia e atendimento obst\u00e9trico, podem ser suficientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, nas atividades de atendimento cl\u00ednico, professores ou preceptores m\u00e9dicos precisam estar dispon\u00edveis, receber remunera\u00e7\u00e3o atrativa, estarem interessados e receber forma\u00e7\u00e3o m\u00ednima para exercer seu papel docente. Em not\u00edcia divulgada h\u00e1 poucos dias, o CFM informou que quase 80% dos 250 munic\u00edpios que sediam escolas de medicina apresentam infraestrutura insuficiente, correspondendo a 71% das vagas de medicina no pa\u00eds (https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vida-e-cidadania\/novela-judicial-da-abertura-de-cursos-de-medicina-ganha-capitulo-final-no-stf\/). Some-se a isso a realidade da expans\u00e3o das escolas e vagas em regi\u00f5es pr\u00f3ximas, disputando os mesmos espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o, experi\u00eancias cl\u00ednicas, pacientes e tempo de supervis\u00e3o docente. Assim, a abertura e a autoriza\u00e7\u00e3o para aumento de vagas sem observar este cen\u00e1rio, especialmente focando na 2\u00aa metade do curso, mostra desalinhamento com o princ\u00edpio da preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para a preven\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria e terci\u00e1ria, \u00e9 preciso que o sistema de avalia\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o das escolas m\u00e9dicas e suas mantenedoras seja s\u00f3lido e respeitado. Deve ter respaldo pol\u00edtico e infraestrutura para operar no acompanhamento das escolas autorizadas, orienta\u00e7\u00e3o das necess\u00e1rias melhorias e tomada de medidas cab\u00edveis para ajustes de n\u00famero de vagas se necess\u00e1rio. No Brasil, para as escolas m\u00e9dicas federais, privadas e confessionais, o poder regulat\u00f3rio \u00e9 exercido pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, por meio da Secretaria de Regula\u00e7\u00e3o da Educa\u00e7\u00e3o Superior, respaldada em instrumentos e processos de avalia\u00e7\u00e3o definidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (INEP). Para as escolas estaduais ou municipais, o Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o exerce esta fun\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 bastante relevante no Estado de S\u00e3o Paulo, com 17 escolas m\u00e9dicas (7 estaduais e 10 municipais) entre as 70 em funcionamento (dados pessoais). Al\u00e9m destes sistemas oficiais, temos o Sistema de Acredita\u00e7\u00e3o de Escolas M\u00e9dicas (SAEME), com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM), acreditado internacionalmente pela <em>World Federation on Medical Education<\/em> (WFME &#8211; <a href=\"https:\/\/www.saeme.org.br\/\">https:\/\/www.saeme.org.br\/<\/a>), mas sem poder regulat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se temos hoje quase 400 escolas m\u00e9dicas, \u00e9 f\u00e1cil compreender a dificuldade de lidar, inclusive politicamente, com um sistema centralizado de avalia\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o. A literatura mostra que outros modelos podem e precisam ser pensados. Uma op\u00e7\u00e3o seria compor um conselho ou inst\u00e2ncia interinstitucional que re\u00fana representa\u00e7\u00f5es diversas (Minist\u00e9rios da Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3os de classe profissionais, associa\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e de resid\u00eancia m\u00e9dica, representantes de usu\u00e1rios dos sistemas de sa\u00fade p\u00fablico e complementar, pesquisadores em educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e estudantes), para definir as diretrizes e par\u00e2metros para autoriza\u00e7\u00e3o de abertura de cursos, acompanhamento e outros atos com poder regulat\u00f3rio. \u00c9 preciso construir uma converg\u00eancia para orientar as escolas, acompanhar e avaliar e tomar as medidas necess\u00e1rias em casos de insufici\u00eancia, mas tamb\u00e9m discutindo, dando publicidade e valorizando as boas pr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bastante comentado o exemplo dos EUA em rela\u00e7\u00e3o ao licenciamento, que depende de provas seriadas nacionais de conhecimentos mais b\u00e1sicos, cl\u00ednicos iniciais e cl\u00ednicos mais aplicados. A prova de habilidades cl\u00ednicas, tamb\u00e9m utilizada at\u00e9 a pandemia, foi descontinuada com a pandemia, especialmente pelos elevados custos para manuten\u00e7\u00e3o da infraestrutura e de inscri\u00e7\u00e3o para os candidatos. Para receber sua licen\u00e7a m\u00e9dica, o estudante nos EUA ou que queira praticar naquele pa\u00eds deve realizar as provas denominada USMLE step 1, USMLE step 2 e USMLE step 3, a \u00faltima podendo ser ap\u00f3s iniciar a resid\u00eancia m\u00e9dica (<em>US Medical Licensing Examination<\/em> &#8211; http:\/\/usmle.org). N\u00e3o surpreende o bom desempenho de estudantes nas diferentes etapas em face do rigoroso sistema de acredita\u00e7\u00e3o oficial que precisam enfrentar as escolas m\u00e9dicas, sob responsabilidade do LCME (<em>Liason Committee on Medical Education &#8211; <\/em><a href=\"https:\/\/lcme.org\/about\/\"><em>https:\/\/lcme.org\/about\/<\/em><\/a>), o que tamb\u00e9m acontece no Canad\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos mostram a associa\u00e7\u00e3o entre acredita\u00e7\u00e3o nestes pa\u00edses e entre graduados no exterior e desempenho dos estudantes nas avalia\u00e7\u00f5es para licenciamento profissional naqueles dois pa\u00edses (Roy at al., 2020). &nbsp;Os modelos de ag\u00eancias de acredita\u00e7\u00e3o variam no mundo e hoje se entende que as avalia\u00e7\u00f5es da acredita\u00e7\u00e3o devem ter a dupla fun\u00e7\u00e3o de garantia de qualidade e melhoria de qualidade. Se a associa\u00e7\u00e3o da acredita\u00e7\u00e3o com resultado de provas de licenciamento \u00e9 confirmada, n\u00e3o se tem dados de associa\u00e7\u00e3o direta com o impacto de longo prazo, os resultados em sa\u00fade (Amaral &amp; Norcini, 2023).<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, estrat\u00e9gias que buscam garantir qualidade de forma\u00e7\u00e3o tem como base a responsabilidade da escola m\u00e9dica e isso precisa estar na base de um programa amplo de avalia\u00e7\u00e3o de qualidade da forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Em curr\u00edculos que devem ser baseados em compet\u00eancias profissionais do m\u00e9dico, \u00e9 preciso incluir a avalia\u00e7\u00e3o program\u00e1tica do estudante e tamb\u00e9m a avalia\u00e7\u00e3o do programa educacional. A avalia\u00e7\u00e3o program\u00e1tica envolve triangula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o de um sistema de avalia\u00e7\u00e3o do estudante nas diversas etapas do curr\u00edculo para decidir se o mesmo est\u00e1 apto para evoluir. Deve receber devolutiva sobre a avalia\u00e7\u00e3o integrada e deve definir, com o corpo docente, uma estrat\u00e9gia de recupera\u00e7\u00e3o se necess\u00e1rio. A avalia\u00e7\u00e3o do programa educacional, do curr\u00edculo, componente tamb\u00e9m essencial nas boas pr\u00e1ticas de gest\u00e3o, baseia-se em informa\u00e7\u00f5es coletadas das atividades realizadas, condi\u00e7\u00f5es de oferta e resultados do programa, visando informar decis\u00f5es de melhoria ou confirmar que os objetivos foram adequadamente atingidos (Moreau, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, avalia\u00e7\u00f5es seriadas, centralizadas, de conhecimento aplicado \u00e0 cl\u00ednica e definir protocolos com claros crit\u00e9rios de qualidade para avalia\u00e7\u00e3o program\u00e1tica dos estudantes (incluindo avalia\u00e7\u00e3o de habilidades, atitudes e profissionalismo) devem compor um sistema robusto de acredita\u00e7\u00e3o que alimente decis\u00f5es regulat\u00f3rias. Estas s\u00e3o verdadeiras estrat\u00e9gias preventivas terci\u00e1rias que podem evitar a \u201cmorte do paciente\u201d, a reprova\u00e7\u00e3o em provas isoladas de licenciamento. \u00c9 mais justo e traz maior seguran\u00e7a para a sociedade garantir que, com boa oferta de oportunidades de aprendizagem cl\u00ednica, adequada supervis\u00e3o, com devolutiva e orienta\u00e7\u00e3o para corre\u00e7\u00e3o da aprendizagem, podemos ter m\u00e9dicos confi\u00e1veis e preparados para continuarem seus estudos na resid\u00eancia m\u00e9dica, ap\u00f3s 6 anos de curso de medicina. Se a forma\u00e7\u00e3o de especialistas em programas de resid\u00eancia m\u00e9dica \u00e9 considerado o padr\u00e3o-ouro, temos observado aumento de vagas ociosas no 1\u00ba ano de resid\u00eancia, que atingiu 31,8% em 2021 (Scheffer M, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>Os diversos atores sociais envolvidos, as diversas organiza\u00e7\u00f5es precisar\u00e3o, juntos, encontrar o melhor caminho, com apoio na literatura pertinente e refletindo sobre a realidade nacional de imensa desigualdade de distribui\u00e7\u00e3o. Mas ainda \u00e9 preciso considerar o crescimento preocupante de n\u00famero de graduados, com desequil\u00edbrio em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de vagas para a forma\u00e7\u00e3o posterior na resid\u00eancia m\u00e9dica. Definitivamente, problemas complexos n\u00e3o se resolvem com solu\u00e7\u00f5es simples ou uma \u00fanica bala de prata.<\/p>\n\n\n\n<p>___________________________<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eliana Martorano Amaral<\/strong> \u00e9 Titular da Cadeira 23 da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, membro do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o e professora-titular de Obstetr\u00edcia da Unicamp onde tamb\u00e9m foi Pr\u00f3-reitora de Gradua\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Amaral E, Norcini J. Quality assurance in health professions education: Role of accreditation and licensure. Med Educ. 2023 Jan;57(1):40-48.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Burk-Rafel J e al. Institutional differences in USMLE Step 1 and 2 CK performance: Cross-sectional study of 89 US allopathic medical schools. PLoS One. 2019 Nov 4;14(11):e0224675.<\/p>\n\n\n\n<p>Moreau KA. Exploring the connections between programmatic assessment and program evaluation within competency-based medical education programs. Med Teach. 2021 Mar;43(3):250-252.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Roy M et al. The relationship between accreditation cycle and licensing examination scores: a national look. Acad Med. 2020 Nov;95(11S Association of American Medical Colleges Learn Serve Lead: Proceedings of the 59th Annual Research in Medical Education Presentations):S103-S108.<\/p>\n\n\n\n<p>Scheffer M. et al. Demografia M\u00e9dica no Brasil 2023. S\u00e3o Paulo, SP: FMUSP, AMB, 2023. 344 p. ISBN: 978-65-00-60986-8.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Eliana Amaral O assunto da forma\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos no Brasil tem ocupado um importante espa\u00e7o nas m\u00eddias. Com raz\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es, entidades de classe e a sociedade brasileira se mostram preocupados com a amea\u00e7a da perda de qualidade de forma\u00e7\u00e3o e desempenho dos m\u00e9dicos, que vem sendo denunciada em diversos artigos e entrevistas. A publica\u00e7\u00e3o de 2023 da pesquisa Demografia M\u00e9dica informa que 35.398 rec\u00e9m-graduados se registraram nos conselhos de medicina, etapa obrigat\u00f3ria para iniciar a pr\u00e1tica profissional. J\u00e1 temos quase 600.000 m\u00e9dicos no pais, com 2,81 profissionais\/1000habitantes, uma taxa que triplicou em 34 anos (https:\/\/observatorio.cfm.org.br\/demografia\/). 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