{"id":4556,"date":"2024-07-01T12:51:41","date_gmt":"2024-07-01T15:51:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=4556"},"modified":"2024-07-01T12:53:11","modified_gmt":"2024-07-01T15:53:11","slug":"real-30-anos-o-plano-que-derrotou-a-hiperinflacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/real-30-anos-o-plano-que-derrotou-a-hiperinflacao\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Real 30 anos: o Plano que derrotou a hiperinfla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4557\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-400x267.jpg 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/2903_Sessao_Plenaria_Ordinaria_0129-900x600.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 quem hoje tem mais de cinquenta anos de idade guarda na mem\u00f3ria os terr\u00edveis tempos em que a hiperinfla\u00e7\u00e3o era um tormento na vida dos brasileiros. Para as novas gera\u00e7\u00f5es fica dif\u00edcil imaginar como eram aqueles tempos, nos quais as pessoas travavam uma corrida di\u00e1ria e enlouquecedora contra a maquininha de remarca\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os. Essa era a realidade do Brasil entre os anos 1979 e 1994, quando a infla\u00e7\u00e3o crescia, em m\u00e9dia, 16% ao m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>A marcha da insensatez foi interrompida em 1o de julho de 1994, quando o Real passou a ser a moeda brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>O pa\u00eds vinha de diversos planos fracassados, de tentativas de controlar a infla\u00e7\u00e3o cortando-se zeros de sua moeda ou congelando pre\u00e7os. Foram 18 zeros cortados. Sem esses cortes os brasileiros se veriam na mesma situa\u00e7\u00e3o da Alemanha do in\u00edcio dos anos 1920, quando as pessoas levavam carrinhos de m\u00e3o cheios de dinheiro para fazer suas compras.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro desafio do Plano Real era vencer a incredulidade e o ceticismo quanto \u00e0 possibilidade de dar certo. Os brasileiros eram como gato escaldado, tinham medo de \u00e1gua fria. N\u00e3o era para menos. O Real foi a oitava moeda brasileira, desde 1942 quando os r\u00e9is deram lugar ao cruzeiro, ainda no Estado Novo de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n\n\n\n<p>Cassandras e or\u00e1culos vaticinavam: o Real teria o mesmo destino de planos anteriores, como o Plano Cruzado I e II, Plano Bresser, Plano Collor, todos eles fracassados e de amarga experi\u00eancia. Do alto de sua sapi\u00eancia, Delfim Neto dava quatro meses de vida ao Plano Real. Dez anos depois, ainda n\u00e3o tinha dado o bra\u00e7o a torcer. J\u00e1 se v\u00e3o 30 anos e as premoni\u00e7\u00f5es catastrofistas n\u00e3o aconteceram. O Real \u00e9 a mais longeva moeda brasileira, desde 1942.<\/p>\n\n\n\n<p>A que se deve tamanho feito?<\/p>\n\n\n\n<p>O segredo foi n\u00e3o ter segredo. Tudo foi feito \u00e0s claras, sem feriado banc\u00e1rio, sem confisco, sem congelamento de pre\u00e7os, mas com transpar\u00eancia e muita explica\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade. Os brasileiros puderam entender a engenhosidade da cria\u00e7\u00e3o de uma \u201cmoeda passageira\u201d \u2013 a URV \u2013 como est\u00e1gio transit\u00f3rio para o Real se tornar o padr\u00e3o monet\u00e1rio. Sua implementa\u00e7\u00e3o, como explica Edmar Bacha, um dos idealizadores do Plano, exigiu muita negocia\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo com o Congresso Nacional, como \u00e9 pr\u00f3prio em uma democracia. E l\u00e1 estavam nomes como o do senador Mario Covas para fazer a defesa parlamentar do plano.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, a equipe econ\u00f4mica liderada por Fernando Henrique Cardoso, ent\u00e3o ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, teve de travar v\u00e1rias batalhas. O Partido dos Trabalhadores fez oposi\u00e7\u00e3o cerrada ao Real, acusando-o de ser um \u201cestelionato eleitoral\u201d, com o objetivo de eleger Fernando Henrique presidente da Rep\u00fablica nas elei\u00e7\u00f5es de 1994. O PT s\u00f3 mudou de discurso quando \u201cseus economistas migraram do palanque para a mesa de opera\u00e7\u00f5es do Banco Central\u201d, para usar as palavras de Gustavo Franco, outro membro da equipe do Plano Real.<\/p>\n\n\n\n<p>Revisitar aqueles tempos \u00e9 poss\u00edvel por meio da leitura do livro \u201c30 anos do Real \u2013 Cr\u00f4nicas no calor do momento\u201d, uma colet\u00e2nea de artigos de tr\u00eas membros da equipe montada por Fernando Henrique: Gustavo Franco, Pedro Malan e Edmar Bacha.<\/p>\n\n\n\n<p>FHC n\u00e3o era economista, quando o ent\u00e3o presidente Itamar Franco o convidou para ser ministro da Fazenda. Mas teve a sensibilidade de montar um time de primeira linha com economistas, a maioria da PUC do Rio, que h\u00e1 tempos vinham estudando a infla\u00e7\u00e3o. Na equipe tamb\u00e9m despontavam nomes como Andr\u00e9 Lara Resende e P\u00e9rsio Arida.<\/p>\n\n\n\n<p>Visto com os olhos de hoje, parece uma insanidade o fato de sua equipe ter comemorado a infla\u00e7\u00e3o de julho de 1994, primeiro m\u00eas de vig\u00eancia do Real, de \u201capenas\u201d 6,8%, projetando uma infla\u00e7\u00e3o no acumulado de doze meses de 120%. Mas um m\u00eas antes a infla\u00e7\u00e3o tinha sido de 50%, projetando, no acumulado de um ano, algo da ordem de 13 mil%. Tinham mais \u00e9 que comemorar mesmo. Quando o Real completou um ano de vida a infla\u00e7\u00e3o acumulada foi de 33%!<\/p>\n\n\n\n<p>A marcha declinante do espiral da infla\u00e7\u00e3o a levaria a ficar em menos de 10% em 1997 e a ser de apenas 1,7% em 1998. A hiperinfla\u00e7\u00e3o, como fen\u00f4meno estrutural da economia brasileira, dava lugar a patamares mais civilizados. Mas n\u00e3o sem sobressaltos. O Real n\u00e3o voava em c\u00e9u de brigadeiro: a taxa de c\u00e2mbio fixa em 1 real por d\u00f3lar trouxe uma enorme distor\u00e7\u00e3o e no plano internacional foram tr\u00eas crises econ\u00f4micas, com repercuss\u00e3o planet\u00e1ria. A do M\u00e9xico em novembro de 1994, a dos tigres asi\u00e1ticos e da R\u00fassia, em 1998.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o Brasil adotou, em janeiro de 1999 o sistema de c\u00e2mbio livre como uma das pernas do trip\u00e9 macroecon\u00f4mico do qual faziam parte super\u00e1vit prim\u00e1rio e meta da infla\u00e7\u00e3o, arautos do pessimismo voltaram a se manifestar. Preconizaram uma infla\u00e7\u00e3o de at\u00e9 70% naquele ano e uma queda do PIB de at\u00e9 7%. Erraram feio. A infla\u00e7\u00e3o de 1999 foi de 9% e o PIB cresceu 1%.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas faltava o Real passar pelo teste da altern\u00e2ncia do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia o receio do governo Lula dar um cavalo de pau na economia, quando o PT chegou ao poder pela primeira vez em 2003. Essa batalha foi vencida. A equipe econ\u00f4mica rendeu-se \u00e0 realidade, \u00e0 ponto do ent\u00e3o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, afirmar: \u201cningu\u00e9m mais questiona se um governo, independente de sua colora\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, deve ou n\u00e3o ser fiscalmente respons\u00e1vel, preservar a infla\u00e7\u00e3o sob controle ou respeitar contratos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Plano Real foi muito mais do que um programa de estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria. Foi um projeto de pa\u00eds aberto, moderno e inclusivo, como o definiu Elena Landau, tamb\u00e9m membro da equipe. Imposs\u00edvel dissoci\u00e1-lo dos fundamentos macroecon\u00f4micos estabelecidos no segundo governo FHC, da lei da Responsabilidade Fiscal, do saneamento do nosso sistema banc\u00e1rio, do programa de privatiza\u00e7\u00f5es. A estabilidade monet\u00e1ria foi irm\u00e3 siamesa da estabilidade econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Trinta anos depois de sua implementa\u00e7\u00e3o, o Brasil tem muito a comemorar. Gustavo Franco define a moeda como um s\u00edmbolo nacional, t\u00e3o importante quanto nossa bandeira ou o nosso hino. Nos tempos da hiperinfla\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00ednhamos esse s\u00edmbolo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Real trouxe enormes ganhos para os brasileiros, especialmente aos mais desprotegidos, cujo poder aquisitivo era corro\u00eddo pelo processo inflacion\u00e1rio. Com a estabilidade econ\u00f4mica, o governo p\u00f4de se planejar a longo prazo, foram criados programas de prote\u00e7\u00e3o social, a educa\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou com o Fundef e a sa\u00fade melhorou com programas como o dos gen\u00e9ricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos maiores legados do Real \u00e9 um bem de valor imensur\u00e1vel: a cultura antinflacion\u00e1ria disseminada entre os brasileiros. Hoje o que se discute \u00e9 se o pa\u00eds vai cumprir a meta inflacion\u00e1ria de 3%. N\u00e3o h\u00e1 toler\u00e2ncia com a infla\u00e7\u00e3o. O pol\u00edtico conivente com ela ser\u00e1 recha\u00e7ado nas urnas. Gra\u00e7as \u00e0 essa cultura, j\u00e1 n\u00e3o vivemos mais no pa\u00eds que, como definia Jos\u00e9 Serra, ent\u00e3o ministro do Planejamento, tinha tr\u00eas problemas: \u201cinfla\u00e7\u00e3o, infla\u00e7\u00e3o e infla\u00e7\u00e3o\u201d. Esses dias, felizmente, fazem parte de um passado ao qual o Brasil n\u00e3o quer de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>_________________________________&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e membro da C\u00e2mara Brasileira do Livro. Foi Secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo e professor na Escola Polit\u00e9cnica da USP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res S\u00f3 quem hoje tem mais de cinquenta anos de idade guarda na mem\u00f3ria os terr\u00edveis tempos em que a hiperinfla\u00e7\u00e3o era um tormento na vida dos brasileiros. Para as novas gera\u00e7\u00f5es fica dif\u00edcil imaginar como eram aqueles tempos, nos quais as pessoas travavam uma corrida di\u00e1ria e enlouquecedora contra a maquininha de remarca\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os. Essa era a realidade do Brasil entre os anos 1979 e 1994, quando a infla\u00e7\u00e3o crescia, em m\u00e9dia, 16% ao m\u00eas. A marcha da insensatez foi interrompida em 1o de julho de 1994, quando o Real passou a ser a moeda brasileira. 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