{"id":4687,"date":"2024-07-24T16:00:11","date_gmt":"2024-07-24T19:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=4687"},"modified":"2024-08-06T16:08:28","modified_gmt":"2024-08-06T19:08:28","slug":"discurso-de-posse-da-profa-sonia-teresinha-de-sousa-penin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/discurso-de-posse-da-profa-sonia-teresinha-de-sousa-penin\/","title":{"rendered":"Discurso de Posse da Profa. Sonia Teresinha de Sousa Penin"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/APE_USP_28-_-sonia.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3698\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>A Acad\u00eamica Sonia Teresinha Penin tomou posse na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o como Titular da Cadeira N\u00famero 11, que tem como Patrono o professor Jo\u00e3o Baptista Juli\u00e3o,  em 16 de dezembro de 2002.  Abaixo relembramos o hist\u00f3rico discurso de posse da professora:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Prezado Prof. Dr. Jo\u00e3o Gualberto de Carvalho Meneses, Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com muita honra que venho para esta cerim\u00f4nia de posse. Ela acontece devido \u00e0 generosidade daqueles que me indicaram para membro da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, aos quais agrade\u00e7o profundamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Agrade\u00e7o, tamb\u00e9m, de forma intensa, a amabilidade dos amigos, colegas, parentes, funcion\u00e1rios e alunos que aqui vieram para este ato.<\/p>\n\n\n\n<p>A honra se amplia em me saber empossada na cadeira do ilustre professor, maestro e compositor Jo\u00e3o Baptista Juli\u00e3o, ocupada mais recentemente pela ilustr\u00edssima educadora e professora de educa\u00e7\u00e3o musical, Herc\u00edlia Castilho Cardoso.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A ambos me refiro em primeiro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>JO\u00c3O BAPTISTA JULI\u00c3O nasceu em Silveiras (SP) em 1886 e faleceu em S\u00e3o Paulo em 1961. Desde cedo dedicou-se \u00e0 m\u00fasica, participando da banda de sua cidade natal e em Mogi das Cruzes. Em 1912 iniciou seus estudos superiores no Conservat\u00f3rio Dram\u00e1tico e Musical de S\u00e3o Paulo. Em 1913 fundou o Instituto Musical de Mogi das Cruzes e, ao concluir seu curso, assumiu a fun\u00e7\u00e3o de mestre-de-capela da igreja matriz da cidade. Regeu, tamb\u00e9m uma banda local.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa \u00e9poca, come\u00e7ou a compor e escrever revistas para o teatro. Anos depois, especializou-se no Conservat\u00f3rio Nacional de Canto Orfe\u00f4nico, e obtendo o registro como professor de canto orfe\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi efetivado como professor da Escola Normal Padre Anchieta. Em 1927 fundou, com outros, o Instituto Musical de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Juli\u00e3o, em 1944, teve a miss\u00e3o de elaborar um plano para o ensino do canto orfe\u00f4nico. Em 1949 passou a dirigir o curso de canto orfe\u00f4nico do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Caetano de Campo, transformado posteriormente em Conservat\u00f3rio Estadual de Canto Orfe\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Foi iniciativa sua a funda\u00e7\u00e3o do Conservat\u00f3rio de Canto Orfe\u00f4nico &#8211; que tem hoje seu nome -ligado \u00e0 Universidade Cat\u00f3lica de Campinas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suas composi\u00e7\u00f5es, encontram-se pe\u00e7as para piano e violino assim como m\u00fasica sacra. O professor \u00e9 fundador da Cadeira no.30 da Academia Brasileira de M\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>A PROFESSORA HERC\u00cdLIA CASTILHO CARDOSO, paulista de Novo Horizonte, nasceu em 1915 e faleceu na d\u00e9cada de 90. Formou-se na Escola Normal do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Padre Anchieta, SP, de 1932 a 1935, e, em n\u00edvel superior, no curso de M\u00fasica \u2013 piano, e mat\u00e9rias complementares no Conservat\u00f3rio Dram\u00e1tico e Musical de S\u00e3o Paulo, de 1927 a 1934.<\/p>\n\n\n\n<p>Especializou-se em Canto Orfe\u00f4nico no conservat\u00f3rio Paulista de Canto Orfe\u00f4nico, S\u00e3o Paulo, sob a dire\u00e7\u00e3o do Maestro Jo\u00e3o Baptista Juli\u00e3o, de 1950 a 1951.&nbsp; Realizou tamb\u00e9m, por dois anos, estudos p\u00f3s-graduados no Conservat\u00f3rio Nacional de Canto Orfe\u00f4nico, RJ, sob a dire\u00e7\u00e3o do Maestro Heitor Villa-Lobos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi aprovada pelo Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, para o magist\u00e9rio de Did\u00e1tica (professora assistente MS-2) no processo que tratou da transforma\u00e7\u00e3o do Conservat\u00f3rio Estadual de Canto Orfe\u00f4nico em Faculdade de M\u00fasica Maestro Juli\u00e3o, hoje Instituto de Artes do Planalto, da Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho.<\/p>\n\n\n\n<p>De 1936 a 1949, trabalhou como professora prim\u00e1ria em v\u00e1rias escolas na capital (Grupo Escolar Buenos Aires, entre outros) e no interior (Luc\u00e9lia, Tup\u00e3, entre outras). Em Tup\u00e3, foi a primeira professora de piano e a iniciadora do movimento art\u00edstico da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhou, de 1950 a 1956, como professora regente de Orfe\u00e3o Escolar, tamb\u00e9m compondo a letra e m\u00fasica do hino para a escola Frei Ant\u00f4nio Santana Galv\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Dirigiu, de 1956 a 1976, o Conservat\u00f3rio Estadual de Canto Orfe\u00f4nico, transformado, em 1974, na Faculdade de M\u00fasica Maestro Juli\u00e3o, hoje Instituto de Artes do Planalto, da Universidade Estadual Paulista J\u00falio de Mesquita Filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Dedicou-se tamb\u00e9m ao magist\u00e9rio de disciplinas musicais em diferentes Conservat\u00f3rios, em S\u00e3o Paulo e Ribeir\u00e3o Preto, tais como Etnografia Musical, Hist\u00f3ria da M\u00fasica, Did\u00e1tica geral e especializada, Did\u00e1tica de Teoria Musical, Organologia e Organografia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as diversas fun\u00e7\u00f5es de dire\u00e7\u00e3o que exerceu, est\u00e1 a de Presidente da Sociedade Guarulhense de Educa\u00e7\u00e3o, que mant\u00e9m as Faculdades Integradas de Guarulhos, de 1971 at\u00e9 1976.<\/p>\n\n\n\n<p>Participou de diversas reformas do ensino de m\u00fasica e foi promotora de atividades culturas e art\u00edsticas, como confer\u00eancias, concertos e aulas-modelo.&nbsp; Destaque deve ser dado para uma apresenta\u00e7\u00e3o coral no Teatro Municipal de SP, para a Campanha \u201cMais pr\u00e9dios para as escolas e melhores vencimentos para os professores\u201d, realizada pelo Centro do Professorado Paulista, em junho de 1958, com exorta\u00e7\u00e3o coral alusiva ao tema da campanha, letra de sua autoria e m\u00fasica e reg\u00eancia de Martin Braunwieser. Em sua biografia consta que, em raz\u00e3o desse movimento do CPP, o governo J\u00e2nio Quadros criou o Fundo Estadual de Constru\u00e7\u00e3o Escolar (FECE).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os v\u00e1rios cursos de extens\u00e3o que realizou, est\u00e3o os de experi\u00eancias art\u00edsticas de criatividade, em conjunto com outros professores&nbsp; das \u00e1reas de desenho e psicologia, al\u00e9m da m\u00fasica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Escreveu artigo para diferentes jornais, entre eles O Estado de S\u00e3o Paulo, A Gazeta, a Folha de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Em 1971 apresentou o texto \u201cMestre, Pai, Artista\u201d uma biografia de Jo\u00e3o Baptista Juli\u00e3o, \u00e0 Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, justificando a escolha do maestro para Patrono da Cadeira 11, ocupada por ela.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Por fim, vale ressaltar sua participa\u00e7\u00e3o como membro da Comiss\u00e3o Organizadora da Semana Villa-Lobos, realizada em S\u00e3o Paulo, em maio de 1957 (Ano Villa-Lobos) pela Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Munic\u00edpio, sob a presid\u00eancia do Prof. Gofredo da Silva Teles, ent\u00e3o Secret\u00e1rio. A professora Herc\u00edlia foi a respons\u00e1vel pela procura da extraviada obra \u201cSum\u00e9 Pater Patrium\u201d (Apoteose e epop\u00e9ia dos prim\u00f3rdios do Brasil), que Villa-Lobos&nbsp; compusera, por encomenda do Governo Paulista para o 4\u00ba Centen\u00e1rio da cidade, mas que fora desprezada \u00e0 \u00e9poca. Desagravado, o autor s\u00f3 voltou a S\u00e3o Paulo nessa ocasi\u00e3o, em que a citada obra foi apresentada em gloriosa estr\u00e9ia no Teatro Municipal, sob a reg\u00eancia do maestro Jo\u00e3o de Souza Lima e tendo como solista a cantora Dalena L\u00e9beis.<\/p>\n\n\n\n<p>SUCEDER A EDUCADORES- ARTISTAS \u00e9 um privil\u00e9gio. S\u00e3o pessoas especiais. Conseguem introduzir na rotina, momentos de frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, de espanto, de \u00eaxtase.<\/p>\n\n\n\n<p>Educadores que somos, sempre soubemos da import\u00e2ncia de uma educa\u00e7\u00e3o que contemple as diferentes potencialidades humanas: o <em>vir bonus<\/em> almejado desde a Gr\u00e9cia antiga, que pressup\u00f5e uma educa\u00e7\u00e3o que desenvolva as habilidades cognitivas, expressivas, afetivas e os valores. Ainda que saibamos que raz\u00e3o e sensibilidade devem ser desenvolvidas juntas desde a tenra inf\u00e2ncia, o tempo em que vivemos teima em valorizar a raz\u00e3o, a ci\u00eancia e a t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa racionalidade, valorizada no nosso mundo ocidental desde o nascimento da ci\u00eancia moderna no s\u00e9culo XVI, muitas vezes tem deixado em segundo plano a viv\u00eancia, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, os sentimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Os humanistas de modo geral, os educadores e os artistas tendem a resistir \u00e0 \u00eanfase do mundo atual. Percebem que muitas pr\u00e1ticas sociais, n\u00e3o explicadas pelo rigor cient\u00edfico cl\u00e1ssico, t\u00eam significativa influ\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es humanas. Na educa\u00e7\u00e3o, os educadores sabem:&nbsp; o n\u00e3o explicado, mas vivido, conta muito.<\/p>\n\n\n\n<p>Os artistas, pelo pr\u00f3prio objeto sobre o qual atuam e pela forma de abordagem desse objeto, muitas vezes s\u00e3o levados a prescindir da l\u00f3gica formal, pr\u00f3pria da ci\u00eancia moderna. O pensamento divergente e n\u00e3o o linear \u00e9 o mais presente no ato de cria\u00e7\u00e3o, ainda que planejamento, rigor e t\u00e9cnica tamb\u00e9m contem no ato de dar forma \u00e0s id\u00e9ias. De qualquer maneira, artistas captam e liberam aspectos pouco vis\u00edveis na superf\u00edcie e que demandam sensibilidade.&nbsp; Da\u00ed serem pessoas especiais.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Herc\u00edlia e o maestro Juli\u00e3o, tendo a m\u00fasica, especialmente o cantar, a reg\u00eancia e a composi\u00e7\u00e3o, como objeto de seu trabalho, divulgaram e ensinaram a arte de se expressar pelo canto nas escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e de forma\u00e7\u00e3o de professores. Reverencio o trabalho de ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Maestro Juli\u00e3o, viveu, na primeira metade do s\u00e9culo XX, o tempo m\u00e1gico das bandas nas pra\u00e7as p\u00fablicas do interior, valorizadas por todos e almejadas pelos m\u00fasicos da \u00e9poca. Igualmente m\u00e1gico, o tempo de ouro do canto orfe\u00f4nico, vivido pela professora Herc\u00edlia, orgulho de tantas escolas e de todas as Escolas Normais.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Cheguei a viver esse tempo. Na escola normal que frequentei no final da d\u00e9cada de 50 e in\u00edcio da de 60, o maestro Raab ainda alegrava a muitas de n\u00f3s. Para mim, era um prazer ir para o amplo audit\u00f3rio do Instituto de Educa\u00e7\u00e3o Manuel Bento da Cruz, de Ara\u00e7atuba, que abrigava um imponente piano de calda, cantar m\u00fasicas folcl\u00f3ricas, cl\u00e1ssicas e mesmo o hino nacional. Era um desfrute identificar o tom e o timbre da pr\u00f3pria voz; fazer o solo, era um privil\u00e9gio de poucos. O prazer era tanto que saindo das aulas continu\u00e1vamos a cantar pelos corredores e mesmo pelas ruas da cidade. A alma vibrava, o auto-conceito se elevava, o bem-estar&nbsp; extravasava, contaminando a tantos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entendo que esse per\u00edodo de valoriza\u00e7\u00e3o do canto n\u00e3o foi em v\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel observar hoje, em visitas pelas escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, as aulas sendo iniciadas pelo canto dos alunos, coordenado por professores de educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica, outros professores, ou diretores. Se \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o canto ou coral nas escolas sofreu um esmorecimento no avan\u00e7ar da segunda metade do s\u00e9culo XX, de tempos em tempos recrudesce com mais vigor, por obra de professores e comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>No presente, tenho conhecimento de que as escolas da rede estadual est\u00e3o se apresentando em espa\u00e7os p\u00fablicos, seu coral enfocando c\u00e2nticos de Natal. Parabenizo a Secretaria de Estado da Educa\u00e7\u00e3o pela iniciativa, especialmente porque soube que incentivou a participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 dos estudantes, como tamb\u00e9m dos professores e dos pais de alunos e que, para muitas escolas, tal apresenta\u00e7\u00e3o tem sido motivo de auto-valoriza\u00e7\u00e3o institucional. A acolhida da iniciativa da Secretaria pelas escolas \u00e9 um sinal de que ela caiu em terreno f\u00e9rtil, ou seja, o desejo da express\u00e3o estava latente e o apelo fez rapidamente aflorar a express\u00e3o de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>MUITO BEM. A leitura da biografia do Maestro Juli\u00e3o e da Professora Herc\u00edlia levou-me \u00e0s considera\u00e7\u00f5es at\u00e9 aqui proferidas. Elas cont\u00eam a defesa da presen\u00e7a das artes na forma\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens e, por conseguinte, na forma\u00e7\u00e3o dos professores para esse n\u00edvel de escolariza\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, defendo a necessidade da cultura art\u00edstica e das humanidades em todos os n\u00edveis de ensino, inclusive no superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse posicionamento n\u00e3o \u00e9 uma novidade na hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o, nem da universidade. Desde as primeiras dessas institui\u00e7\u00f5es, no s\u00e9culo XII, os cursos profissionais, como Direito, Medicina e Teologia, iniciavam-se pelo curso de Belas Artes, proped\u00eautico aos demais. Os objetivos da forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria ainda hoje propugnam por esse aspecto na forma\u00e7\u00e3o dos alunos de todos os cursos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A USP, por exemplo, com os in\u00fameros museus, sinf\u00f4nica e teatros que possui, tem incentivado todos os alunos a deles usufruir. H\u00e1 uma disciplina j\u00e1 registrada no sistema (Atividades de Cultura e Extens\u00e3o) permitindo aproveitamento de cr\u00e9ditos para os alunos. Esses incentivos devem ser ampliados de modo a corrigir a tend\u00eancia dominante, seja na universidade, seja na escola b\u00e1sica, de mitigar o desenvolvimento da dimens\u00e3o art\u00edstico cultural. O necess\u00e1rio empenho dessas institui\u00e7\u00f5es no sentido de possibilitar o acesso \u00e0 cultura sistematizada e \u00e0 frui\u00e7\u00e3o art\u00edstica a todos os seus alunos n\u00e3o contempla, todavia, a sua completa tarefa educacional. As institui\u00e7\u00f5es formadoras \u2013 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica ou universidade &#8211; t\u00eam como finalidade o pleno desenvolvimento dos seus alunos, preparando-os para o exerc\u00edcio da cidadania e sua qualifica\u00e7\u00e3o para o trabalho. Cumprir com a fun\u00e7\u00e3o social das institui\u00e7\u00f5es formadoras, hoje, pressup\u00f5e&nbsp;&nbsp; conhecimento, por um lado dos alunos, de outro, das caracter\u00edsticas atuais da sociedade na qual est\u00e3o inseridas, e ainda, do projeto de sociedade que se quer construir, com a participa\u00e7\u00e3o de seus alunos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Refletir de maneira ampla a respeito dos fins e objetivos da educa\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento integral das pessoas, e o cumprimento da fun\u00e7\u00e3o social das diversas institui\u00e7\u00f5es de ensino, parece-me ser que \u00e9 objetivo da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta Academia, fundada em 1970, reunindo educadores com experi\u00eancia acumulada em diferentes setores \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o cultural a servi\u00e7o da educa\u00e7\u00e3o e definiu como seus fins: debater ideias; incentivar estudos a respeito da educa\u00e7\u00e3o; manifestar-se a respeito das iniciativas dos poderes p\u00fablicos relacionados com o ensino; estimular o interesse da comunidade pela educa\u00e7\u00e3o e pelo cuidado com o educador.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, sinto-me instigada a encaminhar um breve esbo\u00e7o de an\u00e1lise a respeito das institui\u00e7\u00f5es escolares, nos diversos n\u00edveis de ensino e algumas de suas iniciativas, tendo em vista a premissa da inclus\u00e3o de todos os brasileiros no sistema de ensino, assim como da inclus\u00e3o do Brasil na rota de desenvolvimento autossusustent\u00e1vel. Este segundo tipo de inclus\u00e3o ser\u00e1 considerado, tendo em vista que o ensino que a Universidade oferece constitui-se em um dos n\u00edveis de escolariza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, mas, o ensino que realiza, relaciona-se de maneira indissoci\u00e1vel&nbsp; \u00e0s&nbsp; duas&nbsp; outras fun\u00e7\u00f5es que cumpre &#8211; pesquisa e extens\u00e3o cultural. As tr\u00eas fun\u00e7\u00f5es \u2013 ensino, pesquisa e extens\u00e3o \u2013 articulam-se na busca da consecu\u00e7\u00e3o dos objetivos da universidade, e, do que, segundo Karl Jaspers, acabou tornando sua miss\u00e3o eterna, ou seja: cultivar a mais l\u00facida consci\u00eancia de uma determinada \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>AO PROCURAR COMPREENDER A ATUAL \u00c9POCA, junto-me aos que defendem que o caminhar da vida humana n\u00e3o se d\u00e1 de forma linear, mas em paradoxos, ganhos e perdas, ascens\u00e3o e decad\u00eancia, homogeneidade e ruptura, mal-estar e esplendor. Entender o significado e o sentido das perdas e do mal-estar \u00e9 importante para melhor antever, desejar e preparar o futuro, o caminho novo, o que parece mais justo, mais digno, mais ameno tamb\u00e9m. Para isso, muitas vezes h\u00e1 que atravessar os dogmatismos, os ceticismos, as profecias apocal\u00edpticas e as nostalgias exageradas que colocam obst\u00e1culo no caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Concebendo o espa\u00e7o privilegiado das institui\u00e7\u00f5es escolares na forma\u00e7\u00e3o geral da popula\u00e7\u00e3o e no desenvolvimento do pa\u00eds, a quest\u00e3o&nbsp;&nbsp; que me parece central \u00e9 atender n\u00e3o somente ao aumento da escolariza\u00e7\u00e3o, nas faixas et\u00e1rias adequadas, como tamb\u00e9m \u00e0 sua qualidade, tendo em vista o lugar central do conhecimento na forma\u00e7\u00e3o da pessoa, sobretudo nos dias atuais. A an\u00e1lise, para ser fiel ao pressuposto dial\u00e9tico, deve contemplar as diferentes rela\u00e7\u00f5es entre os aspectos quantitativos e os qualitativos, evitando as generaliza\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis.<\/p>\n\n\n\n<p>AS REALIZA\u00c7\u00d5ES E OS PROBLEMAS PARA A INCLUS\u00c3O ESCOLAR<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise quantitativa do atendimento escolar conta hoje com o apoio de diferentes indicadores, o que &#8211; \u00e9 importante registrar &#8211; j\u00e1 representa um sinal de qualidade da educa\u00e7\u00e3o brasileira, possibilitando estudos comparativos de s\u00e9ries hist\u00f3ricas. A constata\u00e7\u00e3o mais geral a ser feita sobre os n\u00fameros \u00e9 a de que a escolariza\u00e7\u00e3o do brasileiro aumentou, em todos os n\u00edveis de ensino. O \u00faltimo censo indica que hoje quase 54 milh\u00f5es de brasileiros est\u00e3o estudando (um em cada tr\u00eas). Vejamos, alguns desses dados, por faixa et\u00e1ria e n\u00edvel de ensino. No tocante \u00e0 educa\u00e7\u00e3o infantil, o aumento foi da ordem de 20% (4 para 4,8 milh\u00f5es) das matr\u00edculas, de 1994 a 2001. Esse n\u00famero est\u00e1 ainda muito abaixo do necess\u00e1rio, sobretudo se pensarmos na faixa et\u00e1ria que vai do zero a seis anos, como \u00e9 proposto o atendimento no Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o. Tendo em vista n\u00e3o s\u00f3 a significativa grandeza do universo das crian\u00e7as a serem atendidas &#8211;&nbsp; mas tamb\u00e9m &#8211; o fato de a responsabilidade do atendimento ser dos munic\u00edpios, h\u00e1 que se planejar aumentos gradativos dessa tarefa, priorizando-se as crian\u00e7as de fam\u00edlias mais necessitadas em termos s\u00f3cio-econ\u00f4micos. Em rela\u00e7\u00e3o ao ensino&nbsp; fundamental, com uma taxa de atendimento de 97%&nbsp;&nbsp; das crian\u00e7as de sete&nbsp; a quatorze anos, quase universalizamos esse n\u00edvel de escolariza\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3rio. A bolsa escola e a do Programa de Erradica\u00e7\u00e3o do Trabalho Infantil, para as crian\u00e7as e suas fam\u00edlias, constitu\u00edram-se em pol\u00edticas que muito ajudaram a alcan\u00e7ar esse patamar de atendimento da popula\u00e7\u00e3o de alunos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;Contrapondo-se a tal aumento, diferentes tipos de avalia\u00e7\u00e3o v\u00eam mostrando um n\u00edvel baixo de aprendizagem dos alunos. Melhores esclarecimentos a respeito do rendimento escolar t\u00eam sido alcan\u00e7ados com a implementa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de avalia\u00e7\u00e3o, proposta da LDB (SAEB, para todo o pa\u00eds e SARESP, para S\u00e3o Paulo).&nbsp; A\u00e7\u00f5es de melhoria da qualidade de ensino para o ensino fundamental foram implantadas em todas as esferas administrativas \u2013 federal, estadual e municipal \u2013 mas \u00e9 assumida por todos a necessidade de mais empenho nessa dire\u00e7\u00e3o.&nbsp; Quanto a esse aspecto, \u00e9 importante salientar que as a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias devem considerar, prioritariamente:&nbsp;&nbsp; os alunos (suas condi\u00e7\u00f5es de entrada e de perman\u00eancia), os professores (forma\u00e7\u00e3o, sal\u00e1rio, carreira e condi\u00e7\u00f5es de trabalho) e as pr\u00e1ticas escolares (gest\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o do ensino e da aprendizagem).<\/p>\n\n\n\n<p>Sem entrar em detalhes a respeito das a\u00e7\u00f5es para a melhoria da qualidade de ensino, julgo importante mencionar duas delas. Uma, em n\u00edvel federal, o FUNDEF &#8211; Fundo Nacional de Desenvolvimento do Ensino Fundamental &#8211;&nbsp; que valoriza o professor e j\u00e1 promoveu resultados significativos, sobretudo para os docentes que residem nos estados mais pobres. Outra a\u00e7\u00e3o, j\u00e1 iniciada por diversos estados e munic\u00edpios, refere-se \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o da progress\u00e3o continuada, ideia proposta na LDB, juntamente com a obrigatoriedade da recupera\u00e7\u00e3o de alunos. A progress\u00e3o tem como objetivo atender a dois tipos da inclus\u00e3o: perman\u00eancia dos alunos na escola e o acesso ao conhecimento. O cumprimento desse objetivo pressup\u00f5e medidas de reorganiza\u00e7\u00e3o da escolariza\u00e7\u00e3o em ciclos e, sobretudo, a dif\u00edcil tarefa de se reverem pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas tradicionais, de maneira a melhor atender a variedade das condi\u00e7\u00f5es dos alunos que frequentam a escola, sem preju\u00edzo da qualidade de ensino. Embora as dificuldades de se implantar a progress\u00e3o continuada sejam in\u00fameras, esperamos que elas n\u00e3o esmore\u00e7am os educadores em perseguir na luta contra uma escola b\u00e1sica menos seletiva, tra\u00e7o da nossa hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o que sempre nos envergonhou.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale lembrar, ainda, a meta inscrita no Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, nessa dire\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o de uma escola inclusiva, compromissada n\u00e3o apenas com a perman\u00eancia das crian\u00e7as nas escolas, mas com o seu aprendizado, qual seja: atender em tempo integral as crian\u00e7as das camadas sociais mais necessitadas. Essa meta reveste-se em desafio para todas as secretarias municipais e estaduais de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;No que diz respeito aos jovens de 15 a 17 anos, passamos de um atendimento de 48% no come\u00e7o da d\u00e9cada de 90, para 78% em 1999 e hoje, provavelmente, em volta de 85%. Ainda que se saiba que parcela dos jovens dessa faixa et\u00e1ria estejam em n\u00edvel mais baixo de escolaridade, \u00e9 significativo o aumento das matr\u00edculas no ensino m\u00e9dio: 3,500 milh\u00f5es em 1991 e 7,700 milh\u00f5es em 1999; aumento de 120%. O n\u00famero de alunos dessa faixa et\u00e1ria frequentando o ensino fundamental ou programas de educa\u00e7\u00e3o de adultos teve um aumento de 194% entre 1944 e 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Este fato, ou seja, que parcela significativa dos alunos da faixa et\u00e1ria entre 15 e 19 est\u00e3o matriculados em cursos diversos do ensino m\u00e9dio, indica a necessidade de colocar esse n\u00edvel de ensino na prioridade de atendimento nacional. Aqui, lutar pelo aumento quantitativo j\u00e1 \u00e9 uma pol\u00edtica de qualidade da educa\u00e7\u00e3o. Entretanto, \u00e9 poss\u00edvel, e altamente necess\u00e1rio, concomitantemente, trabalhar para a melhoria da qualidade de ensino para os alunos que frequentam esse n\u00edvel de ensino, hoje, parcela significativa das camadas menos privilegiadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, j\u00e1 h\u00e1 esfor\u00e7os concretos na dire\u00e7\u00e3o dessa melhoria. As Diretrizes Curriculares, ressaltando a Indica\u00e7\u00e3o aprovada pelo Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o balizas para um caminho promissor de melhor qualidade. Contudo, pol\u00edticas complementares s\u00e3o necess\u00e1rias. Entre as muitas que poder\u00e3o ainda ser definidas, destaco: subs\u00eddios para transporte e alimenta\u00e7\u00e3o dos jovens (bolsa-escola) e aumento de horas de estudo di\u00e1rio para os alunos, trazendo tamb\u00e9m para esse n\u00edvel de ensino a meta que est\u00e1 posta para o ensino fundamental no Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o. Tal medida significaria, ainda, uma a\u00e7\u00e3o afirmativa na dire\u00e7\u00e3o do aumento das chances para alunos da escola p\u00fablica ingressarem nas universidades p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Permeando as quest\u00f5es relativas a toda escola b\u00e1sica, est\u00e1 a valoriza\u00e7\u00e3o do professor, sujeito fundamental para a melhoria do ensino, necessariamente presente numa pol\u00edtica educacional. Al\u00e9m da sempre necess\u00e1ria melhoria dos sal\u00e1rios (j\u00e1 registrei a import\u00e2ncia do FUNDEF como um exemplo nesse sentido), a valoriza\u00e7\u00e3o pode se dar por meio de outras iniciativas, como a forma\u00e7\u00e3o em n\u00edvel mais elevado e a forma\u00e7\u00e3o em servi\u00e7o. Governos em n\u00edvel estadual e&nbsp; municipal t\u00eam proporcionado medidas nessa dire\u00e7\u00e3o, tomando como parceiras as universidades. No momento, a USP, juntamente com a UNESP e a PUC desenvolvem programas de forma\u00e7\u00e3o em n\u00edvel superior para professores que s\u00f3 t\u00eam o curso Normal. Nessa semana cerca de 7000 professores da rede estadual receber\u00e3o seus diplomas de licenciandos em n\u00edvel superior, e j\u00e1 teve in\u00edcio o novo curso de gradua\u00e7\u00e3o para mais 8000 professores das redes municipais. Necess\u00e1rio lembrar que o atendimento de um n\u00famero t\u00e3o elevado de professores \u00e9 poss\u00edvel devido \u00e0 iniciativa da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o em realiz\u00e1-lo por meio de m\u00eddias interativas.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, tamb\u00e9m, v\u00e1rios cursos de forma\u00e7\u00e3o em servi\u00e7o acontecendo, em parceria entre diferentes Secretarias Municipais de Educa\u00e7\u00e3o e as universidades paulistas.&nbsp; Um deles, realizado pela USP no momento, tamb\u00e9m utiliza m\u00eddias interativas, de modo a ampliar o alcance da capacita\u00e7\u00e3o. S\u00e3o importantes, da mesma forma, incentivos das pr\u00f3prias Secretarias de Educa\u00e7\u00e3o, computando cr\u00e9ditos para iniciativas espont\u00e2neas dos pr\u00f3prios professores.&nbsp; Esses est\u00edmulos devem, entretanto, ter a contrapartida dos professores, com esfor\u00e7os constantes na melhoria de sua did\u00e1tica, na aprecia\u00e7\u00e3o do aprendizado de seus alunos e, principalmente, na redu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de absente\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto aos jovens de 18 a 24 anos, os avan\u00e7os de escolariza\u00e7\u00e3o ocorridos tamb\u00e9m s\u00e3o significativos, pois saltamos de 22% do total de atendimento no in\u00edcio dos anos 90 para 33% em 1999 (aumento de 50%). Todavia, igualmente ao que ocorre com a faixa et\u00e1ria anterior, uma grande parte dos jovens desta faixa de idade n\u00e3o est\u00e1 no ensino superior, mas em n\u00edveis anteriores de ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cursos t\u00e9cnicos e tecnol\u00f3gicos recebem parte dessa popula\u00e7\u00e3o. Entretanto, necessitam de melhor equacionamento para atender a demanda, sobretudo numa \u00e9poca em que os jovens se constituem na faixa et\u00e1ria mais numerosa e mais cr\u00edtica em termos sociais (dados recentes mostram que o maior n\u00famero de pessoas que morrem de forma violenta ou que violentam s\u00e3o jovens de 16 a 21 anos). Eis mais uma raz\u00e3o, al\u00e9m das j\u00e1 citadas, para afirmar a import\u00e2ncia da fun\u00e7\u00e3o social da escola na difus\u00e3o dos valores human\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A expans\u00e3o acentuada dos cursos t\u00e9cnicos ou tecnol\u00f3gicos superiores, entre os quais a FATEC, representa um excelente exemplo, para permitir uma acentuada melhoria em n\u00edvel operacional do sistema produtivo nacional, preservando a universidade para formar pessoal com mais \u00eanfase na cria\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o desse sistema produtivo nacional, assim como na gera\u00e7\u00e3o de novas tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p>No ensino superior cresceu de forma espetacular o n\u00famero de matr\u00edculas: de 1.661.034 em 1944 para 3.030.754 em 2001 (82,46%) de acordo com o \u00faltimo Censo do Ensino Superior. Os n\u00fameros mostram que temos hoje um ensino superior de massa no pa\u00eds, ainda que numa propor\u00e7\u00e3o muito menor do que em outros pa\u00edses de n\u00edvel semelhante de desenvolvimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Observando os dados, constata-se a forte presen\u00e7a das institui\u00e7\u00f5es particulares na matr\u00edcula dos alunos. Por outro lado, as avalia\u00e7\u00f5es das condi\u00e7\u00f5es dos cursos e de rendimento dos alunos (prov\u00e3o), t\u00eam mostrado a baixa qualidade de muitos deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Torna-se necess\u00e1rio ampliar o debate relativo ao crescimento do ensino superior privado, especialmente com rela\u00e7\u00e3o aos procedimentos devidos aos casos de m\u00e1 qualidade. Argumentos consistentes e livres de ideologias paralisantes devem orientar esses debates, contribuindo na defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas menos excludentes.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 que se considerar os movimentos aparente ou concretamente contradit\u00f3rios. O aumento do n\u00famero de alunos terminando o ensino m\u00e9dio, criando demanda \u2013 fato altamente positivo para a na\u00e7\u00e3o &#8211; e a quase estagna\u00e7\u00e3o da oferta de vagas nas universidades p\u00fablicas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, criou o terreno f\u00e9rtil para o crescimento do ensino superior privado. A parcela mais pobre dos alunos egressos do ensino m\u00e9dio, ou os mais velhos, j\u00e1 empregados, comp\u00f5em a grande parte dos matriculados nas institui\u00e7\u00f5es privadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, as universidades p\u00fablicas t\u00eam realizado esfor\u00e7os para ampliar vagas. Entre outras, a USP tem aumentado o n\u00famero de alunos nos cursos, criado novos e h\u00e1 hoje proposta de um novo campus em S\u00e3o Carlos, e outro, na zona Leste da capital.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m deve ser objeto de an\u00e1lises cuidadosas as indica\u00e7\u00f5es de que a maior parte das matr\u00edculas s\u00e3o do per\u00edodo noturno, de mulheres e uma grande parcela de pessoas mais velhas.&nbsp; Naturalmente, \u00e9 promissor o fato de que as pessoas mais velhas estejam estudando &#8211; indica que est\u00e1 se entranhando na cultura a ideia de educa\u00e7\u00e3o permanente, t\u00e3o necess\u00e1ria para enfrentar as r\u00e1pidas e profundas mudan\u00e7as no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel superior, o \u00faltimo Censo mostra outros dados promissores para a melhoria de sua qualidade:&nbsp; em 1995, 60% dos professores tinham apenas curso de especializa\u00e7\u00e3o, 24% haviam feito mestrado e 16% tinham doutorado; em 2001, a propor\u00e7\u00e3o de docentes apenas com especializa\u00e7\u00e3o diminuiu para 46%, aumentaram-se os mestres e doutores, trinta e dois por cento e 22%, respectivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>As universidades p\u00fablicas, se est\u00e3o perdendo espa\u00e7o no tocante ao n\u00famero de alunos&nbsp; formados na gradua\u00e7\u00e3o, certamente constituem-se paradigmas de qualidade da forma\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, s\u00e3o elas que: formam alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em quantidade e qualidade; que fornecem uma quantidade altamente significativa de servi\u00e7os e atividades culturais e que desenvolvem praticamente toda a cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no pa\u00eds. A qualidade de uma das fun\u00e7\u00f5es ocorre em grande parte pela perfeita articula\u00e7\u00e3o entre as demais: ensino, pesquisa e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o \u00e0 comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>UNIVERSIDADE: A FORMADORA DE RECURSOS HUMANOS PARA OS OUTROS N\u00cdVEIS DE ENSINO E SUAS OUTRAS FUN\u00c7\u00d5ES (PAPEL DAS UNIVERSIDADES NOS ESFOR\u00c7OS DE NOSSOS PA\u00cdSES NA INOVA\u00c7\u00c3O TECNOL\u00d3GICA)<\/p>\n\n\n\n<p>Cumprir com a fun\u00e7\u00e3o social da universidade, hoje \u2013 observando o princ\u00edpio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extens\u00e3o \u2013 e desenvolver sua miss\u00e3o, pressup\u00f5em&nbsp; profundo conhecimento, e sensibilidade das modifica\u00e7\u00f5es e atuais caracter\u00edsticas tanto da sociedade na qual cada universidade est\u00e1 inserida, quanto da pr\u00f3pria&nbsp; contemporaneidade. A mais arguta compreens\u00e3o dessa realidade local e global melhor assegurar\u00e1 o n\u00edvel das propostas de cursos para a forma\u00e7\u00e3o profissional das novas gera\u00e7\u00f5es, em cursos de gradua\u00e7\u00e3o e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o assim como a qualidade da pesquisa gerada.<\/p>\n\n\n\n<p>Presenciamos, atualmente, acentuarem-se dramaticamente as diferen\u00e7as entre os pa\u00edses centrais e os perif\u00e9ricos, assim como entre os diversos segmentos sociais em um mesmo pa\u00eds. As diferen\u00e7as referem-se cada vez mais a aspectos relacionados \u00e0 posse de conhecimentos do que \u00e0 posse das mat\u00e9rias primas. Os produtos gerados pelas mat\u00e9rias primas de forma crescente agregam mais conhecimentos de natureza tecnol\u00f3gica, que fazem a diferen\u00e7a do seu sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;An\u00e1lises mostram que tem havido uma reprodu\u00e7\u00e3o perversa de depend\u00eancia:&nbsp; nossa incapacidade de investir em inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica estimula-nos na dire\u00e7\u00e3o da venda de produtos com menor volume de agregados e, em contrapartida, \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de produtos mais elaborados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse complexo cen\u00e1rio, firma-se a indaga\u00e7\u00e3o: deve, a universidade, privilegiar exclusivamente a cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, deixando para os institutos cient\u00edfico-tecnol\u00f3gicos e para as empresas a responsabilidade da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica?<\/p>\n\n\n\n<p>A atua\u00e7\u00e3o da Universidade, no caso do Brasil, tem privilegiado a ci\u00eancia b\u00e1sica, ali\u00e1s condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a alavancagem tecnol\u00f3gica. \u00c9 sabido e motivo de orgulho nacional o fato de o pa\u00eds ter aumentado consideravelmente a participa\u00e7\u00e3o nas publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas mundiais de reconhecida qualidade, com a expressiva participa\u00e7\u00e3o de mais de 1,4% atualmente. Entretanto, \u00e9 tamb\u00e9m conhecido o fato de tal sucesso n\u00e3o ter sido verificado no campo da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, onde o nosso n\u00famero de patentes apresenta um desempenho menos brilhante.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos pa\u00edses avan\u00e7ados, as empresas s\u00e3o o principal l<em>ocus<\/em> de gera\u00e7\u00e3o de novas tecnologias. Entretanto, em nosso pa\u00eds, as maiores empresas, as que possuem maior capacidade de investimentos em P&amp;D (Pesquisa e Desenvolvimento), s\u00e3o multinacionais e \u00e9 nos pa\u00edses de suas sedes que se concentram as maiores verbas para pesquisa e desenvolvimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que a pergunta feita em par\u00e1grafo um pouco acima neste texto emerge, acrescentando se a riqueza dos recursos humanos existentes no interior das Universidades n\u00e3o poderia compensar essa desvantagem, ou alavancar, de alguma forma, os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na USP, e em muitas outras Universidades brasileiras, j\u00e1 existem parcerias com outras institui\u00e7\u00f5es na cria\u00e7\u00e3o das chamadas incubadoras tecnol\u00f3gicas, que t\u00eam como objetivo central a utiliza\u00e7\u00e3o, por parte de empreendedores privados, dos vastos recursos laboratoriais e humanos da Universidade. Por outro lado, as novas Ag\u00eancias Reguladoras, que objetivam regular, fiscalizar e orientar as concession\u00e1rias dos servi\u00e7os p\u00fablicos privatizados, obrigam contratualmente as empresas a aplicar de um a dois por cento do seu faturamento em P&amp;D. Esses excelentes recursos t\u00eam estimulado as concession\u00e1rias a procurar parcerias com as Universidades, criando-se a\u00ed um v\u00ednculo de ineg\u00e1vel sucesso. Essas e outras iniciativas, como as desenvolvidas no campo da gen\u00f4mica, da prote\u00f4mica e da vacina contra o c\u00e2ncer, realizadas no pa\u00eds, com a colabora\u00e7\u00e3o direta de cientistas da universidade, sugerem um caminho j\u00e1 experimentado com sucesso. Percebe-se, assim, que a universidade \u00e9 lugar onde est\u00e3o os recursos humanos mais capacitados (diferentemente de outras na\u00e7\u00f5es, por exemplo, os EUA, onde 79% dos cientistas est\u00e3o nas empresas). Assim, \u00e9 natural e talvez necess\u00e1rio incentivar essas incurs\u00f5es dos cientistas da universidade no campo da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, alavancando a produ\u00e7\u00e3o desse tipo de bem, t\u00e3o necess\u00e1rio ao desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Termino minha manifesta\u00e7\u00e3o nesta cerim\u00f4nia, desejando que o esbo\u00e7o apresentado, de an\u00e1lise das institui\u00e7\u00f5es escolares e do papel espec\u00edfico da universidade entre elas, possa contribuir com a agenda de trabalho da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, em debater e encaminhar propostas que possam fundamentar com consist\u00eancia, pol\u00edticas p\u00fablicas que atendam os objetivos de inclus\u00e3o, tanto de todos os brasileiros no sistema de ensino, quanto do Brasil no conjunto de pa\u00edses que mant\u00eam um desenvolvimento autossustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito obrigada pela aten\u00e7\u00e3o de todos e, mais uma vez, agrade\u00e7o profundamente a presen\u00e7a de cada um.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Sonia Teresinha de Sousa Penin&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Acad\u00eamica Sonia Teresinha Penin tomou posse na Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o como Titular da Cadeira N\u00famero 11, que tem como Patrono o professor Jo\u00e3o Baptista Juli\u00e3o, em 16 de dezembro de 2002. Abaixo relembramos o hist\u00f3rico discurso de posse da professora: &#8220;Prezado Prof. Dr. Jo\u00e3o Gualberto de Carvalho Meneses, Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o \u00c9 com muita honra que venho para esta cerim\u00f4nia de posse. Ela acontece devido \u00e0 generosidade daqueles que me indicaram para membro da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, aos quais agrade\u00e7o profundamente. 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