{"id":4716,"date":"2024-08-16T13:50:00","date_gmt":"2024-08-16T16:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=4716"},"modified":"2024-08-16T14:02:16","modified_gmt":"2024-08-16T17:02:16","slug":"artigo-delfim-neto-de-czar-do-milagre-economico-a-conselheiro-de-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-delfim-neto-de-czar-do-milagre-economico-a-conselheiro-de-lula\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Delfim Neto, de czar do milagre econ\u00f4mico a conselheiro de Lula"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4540\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-1536x1023.jpg 1536w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-2048x1363.jpg 2048w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-400x266.jpg 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/2896_Sessao_Plenaria_Ordinaria_189-901x600.jpg 901w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>Faltavam duas semanas para o segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2002 quando a coluna de Elio Gaspari veio com uma informa\u00e7\u00e3o surpreendente: \u201cSe Lula vencer a elei\u00e7\u00e3o, seu governo ter\u00e1 come\u00e7ado na tarde de ter\u00e7a-feira, numa sala do Hotel Sofitel, em S\u00e3o Paulo, quando ele sentou-se com Delfim Neto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o entre os dois representava uma repagina\u00e7\u00e3o dupla. Lula, deixava de ser o candidato radical das campanhas passadas para assumir o compromisso, por meio da \u201cCarta aos Brasileiros\u201d, de respeitar contratos. Havia uma pitada de Delfim na guinada de Lula.<\/p>\n\n\n\n<p>E Delfim Neto, ao se aproximar da esquerda, se reinventava. Deixava de ser o maior inimigo dos sindicalistas, respons\u00e1vel pelas perdas inflacion\u00e1rias que turbinaram as greves do final dos anos 70, no ABC paulista. Passava a ser conselheiro informal de Lula, em uma aproxima\u00e7\u00e3o costurada por Antonio Palocci. Nessa condi\u00e7\u00e3o, foi constantemente procurado, nos dois primeiros governos de Lula, a quem deu v\u00e1rios conselhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles, encampado por Palocci, foi o do governo ter como meta o d\u00e9ficit nominal zero. A ideia n\u00e3o vingou em fun\u00e7\u00e3o das resist\u00eancias do PT e do pr\u00f3prio Lula. Se tivesse sido ouvido, talvez a d\u00edvida p\u00fablica no Brasil n\u00e3o seria hoje essa grande bomba de efeito retardado.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, a aproxima\u00e7\u00e3o do czar do milagre econ\u00f4mico dos tempos da ditadura com a esquerda representou uma queda de tabus. Afinal de contas, Delfim foi cossignat\u00e1rio do AI-5 e, na interven\u00e7\u00e3o que fez na reuni\u00e3o do Conselho ministerial de 13 de dezembro de 1968, sugeriu ao ent\u00e3o presidente Arthur da Costa e Silva aproveitar a oportunidade para ampliar seus poderes: \u201cEstou plenamente de acordo com a proposi\u00e7\u00e3o (o AI-5) que est\u00e1 sendo analisada no Conselho. E se Vossa Excel\u00eancia me permitisse, direi mesmo que creio que ela n\u00e3o \u00e9 suficiente. Eu acredito que dever\u00edamos atentar e dar a Vossa Excel\u00eancia a possibilidade de realizar certas mudan\u00e7as constitucionais que s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rias para que este pa\u00eds possa realizar o desenvolvimento com maior rapidez\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa passagem manchou sua brilhante biografia at\u00e9 o fim da vida. D\u00e9cadas depois, quando indagado sobre as torturas nos anos de chumbo, declarou: \u201cUma vez perguntei a M\u00e9dici se havia tortura. Ele me disse que n\u00e3o. N\u00f3s ouvimos, como todos, coisas daqui e dali. Eu acreditei nele.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sem sombra de d\u00favidas. Delfim foi um dos ministros da economia mais fortes da hist\u00f3ria da Rep\u00fablica. Durante sete anos, nos governos de Costa e Silva e de Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici, a economia bombou, chegando a crescer 14% em 1973, \u00faltimo ano do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d. Durante o seu reinado a economia cresceu em m\u00e9dia 10,16% ao ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivia-se ent\u00e3o os tempos de vacas gordas, turbinados pela fartura do cr\u00e9dito internacional e pela abund\u00e2ncia de petr\u00f3leo a pre\u00e7os baixos. Vem da\u00ed o financiamento de um modelo pautado no intervencionismo estatal, na realiza\u00e7\u00e3o de grandes obras p\u00fablicas e no crescimento do mercado interno via expans\u00e3o do credi\u00e1rio. Havia a percep\u00e7\u00e3o de que todos estavam ganhando com o milagre econ\u00f4mico, embora, como, reconheceu o pr\u00f3prio Czar do milagre, \u201cuns mais e outros menos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil crescia, mas a esquerda n\u00e3o admitia isso. N\u00e3o percebia que as camadas populares tamb\u00e9m se beneficiavam, tendo acesso, via credi\u00e1rio, a bens de consumo sofisticados, como eletrodom\u00e9sticos. Mas o modelo era concentrador de renda. Delfim definiu bem qual era a filosofia de sua pol\u00edtica econ\u00f4mica: \u201cPrimeiro \u00e9 preciso fazer o bolo crescer, para depois dividir\u201d. Ao longo de sua vida, jurou v\u00e1rias vezes n\u00e3o ter dito a sua frase mais famosa. Pouco adiantou as negativas. A hist\u00f3ria o registra como o pai da crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil ia pra frente, como alardeava a propaganda do regime militar. E, como sempre, a propaganda maquiava a realidade. Com a imprensa submetida a censura e o parlamento garroteado, o pai do milagre econ\u00f4mico podia fazer suas m\u00e1gicas. Uma delas, a da falsifica\u00e7\u00e3o dos \u00edndices da infla\u00e7\u00e3o. Seu sucessor, M\u00e1rio Henrique Simonsen, dizia que a infla\u00e7\u00e3o declarada nos tempos de Delfim era falsa, \u201cmostrava os \u00edndices de um congelamento imposto pelo ministro, que n\u00e3o eram seguidos pelo mercado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio Czar viria a confessar os coelhos que tirava da cartola para manter a infla\u00e7\u00e3o oficial com \u00edndices baixos. Em 11 de novembro de 2001 o jornal <em>O Globo<\/em> publicou: \u201cDelfim diz que manipulou a infla\u00e7\u00e3o em 1973\u201d. Segundo a reportagem, Delfim admitia que conseguia conter os \u00edndices da infla\u00e7\u00e3o aumentando a oferta de alimentos no Rio de Janeiro, \u00fanica cidade onde a FGV apurava os pre\u00e7os no varejo.<\/p>\n\n\n\n<p>O milagre econ\u00f4mico tinha seus p\u00e9s de barro e eles vieram \u00e0 tona no advento da primeira crise mundial do petr\u00f3leo, em 1973. A fonte internacional para os investimentos internos come\u00e7ou a secar e duas bombas de efeito retardado estouraram dez anos depois: a d\u00edvida externa galopante e a hiperinfla\u00e7\u00e3o. As ra\u00edzes da d\u00e9cada perdida dos anos 80 est\u00e3o l\u00e1 atr\u00e1s, nos tempos da ditadura militar e seu milagre econ\u00f4mico. Por causa da heran\u00e7a maldita, o ent\u00e3o presidente Jos\u00e9 Sarney decretou morat\u00f3ria da d\u00edvida externa e o Brasil passou por sucessivos planos econ\u00f4micos heterodoxos, at\u00e9 conquistar a estabilidade da infla\u00e7\u00e3o com o Plano Real.<\/p>\n\n\n\n<p>Delfim Neto sempre foi um desenvolvimentista, adepto da interven\u00e7\u00e3o estatal na economia. Isto explica em muito sua aproxima\u00e7\u00e3o com o governo Lula. Durante os governos da ditadura militar foram criadas 274 empresas estatais, boa parte delas nos sete anos de Delfim como ministro da economia. Em agosto de 1968, criou a Comiss\u00e3o Interministerial de Pre\u00e7os, cujo objetivo era garantir que os pre\u00e7os dos produtos estivessem de acordo com a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo. A lei da oferta e da procura foi substitu\u00edda pela interven\u00e7\u00e3o estatal. O governo tinha um poderoso instrumento para fazer valer as determina\u00e7\u00f5es do CIP. Quem n\u00e3o as cumprisse n\u00e3o teria acesso ao cr\u00e9dito do sistema de financiamento p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode fazer uma leitura manique\u00edsta de uma figura t\u00e3o complexa como Delfim Neto. Suas qualidades e suas contribui\u00e7\u00f5es s\u00e3o reconhecidas por economistas das mais diversas correntes. N\u00e3o gratuitamente, diversos governos de matizes diferentes buscaram seus conselhos. Delfim reciclou-se, submeteu-se ao jogo da democracia e da pol\u00edtica, sendo deputado por cinco mandatos e constituinte de 1988.<\/p>\n\n\n\n<p><a><\/a>Frasista da melhor qualidade, destacava-se por sua ironia fina e sua mente arguta. Era dado a fazer previs\u00f5es. Muitas, acertou como quando criticou a \u00e2ncora cambial no in\u00edcio do Plano Real: &#8220;A \u00e2ncora cambial \u00e9 um rem\u00e9dio que mata a fome, mas que no final mata o paciente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutras errou feio, como no caso do pr\u00f3prio Plano Real a quem vaticinou: \u201cn\u00e3o dura quatro meses.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>_________________________<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro. Foi secret\u00e1rio Estadual da Educa\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res Faltavam duas semanas para o segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2002 quando a coluna de Elio Gaspari veio com uma informa\u00e7\u00e3o surpreendente: \u201cSe Lula vencer a elei\u00e7\u00e3o, seu governo ter\u00e1 come\u00e7ado na tarde de ter\u00e7a-feira, numa sala do Hotel Sofitel, em S\u00e3o Paulo, quando ele sentou-se com Delfim Neto\u201d. A aproxima\u00e7\u00e3o entre os dois representava uma repagina\u00e7\u00e3o dupla. Lula, deixava de ser o candidato radical das campanhas passadas para assumir o compromisso, por meio da \u201cCarta aos Brasileiros\u201d, de respeitar contratos. Havia uma pitada de Delfim na guinada de Lula. 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