{"id":5850,"date":"2025-12-14T18:13:40","date_gmt":"2025-12-14T21:13:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=5850"},"modified":"2026-01-25T12:40:36","modified_gmt":"2026-01-25T15:40:36","slug":"determinismo-nao-educa-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/determinismo-nao-educa-ninguem\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Determinismo n\u00e3o educa ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5528\" style=\"width:342px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-1024x683.png 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-300x200.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-768x512.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-1536x1024.png 1536w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-2048x1365.png 2048w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-400x267.png 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-900x600.png 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>O Brazil Journal publicou recentemente um artigo provocador do amigo Jair Ribeiro. Ele traz uma pergunta inc\u00f4moda: temos mesmo livre-arb\u00edtrio? <a href=\"https:\/\/braziljournal.com\/temos-livre-arbitrio\/\">(leia aqui)<\/a>. Amparado em autores como Robert Sapolsky, o texto sustenta que nossas decis\u00f5es seriam produto de engrenagens gen\u00e9ticas, neurol\u00f3gicas e ambientais, e que a no\u00e7\u00e3o de autonomia n\u00e3o passaria de uma ilus\u00e3o reconfortante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma tese intelectualmente instigante. Mas, para quem vive a educa\u00e7\u00e3o, pode ser uma armadilha.<\/p>\n\n\n\n<p>Levado ao limite, esse racioc\u00ednio desemboca num determinismo absoluto que dissolve o sujeito: n\u00e3o haveria espa\u00e7o para escolha, para mudan\u00e7a, para responsabilidade. Estar\u00edamos todos condenados a repetir padr\u00f5es, presos aos trilhos do que nos aconteceu ou do que nossos neur\u00f4nios nos imp\u00f5em. Uma vis\u00e3o que traz implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas profundas. <\/p>\n\n\n\n<p>A educa\u00e7\u00e3o existe justamente para recusar esse imobilismo. A escola \u00e9, por excel\u00eancia, o territ\u00f3rio onde se aposta na possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o. Nela, o ser humano n\u00e3o \u00e9 reduzido \u00e0 sua origem, \u00e0s suas dores, aos seus diagn\u00f3sticos ou \u00e0s suas estat\u00edsticas. Cada trajet\u00f3ria concreta revela que h\u00e1, sim, margem de manobra. Que escolhas s\u00e3o poss\u00edveis, ainda que dif\u00edceis. Que a liberdade pode ser exercida mesmo quando condicionada.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa liberdade, claro, n\u00e3o \u00e9 absoluta, e talvez nunca tenha sido. Mas ela existe em graus, em frestas, em hesita\u00e7\u00f5es. E \u00e9 exatamente nesse espa\u00e7o que a educa\u00e7\u00e3o atua: criando contextos em que o sujeito possa perceber que n\u00e3o precisa ser apenas o que lhe aconteceu. Que pode tomar outro rumo, experimentar outro futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de negar os condicionamentos, mas de enfrent\u00e1-los. E de construir, por meio da escola, das pol\u00edticas p\u00fablicas, da cultura e de rela\u00e7\u00f5es humanas verdadeiras, as condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas para que a escolha se torne vi\u00e1vel. O livre-arb\u00edtrio, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 um dom natural: \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social. Um horizonte que se amplia quando h\u00e1 um professor que escuta, uma biblioteca que acolhe, uma pol\u00edtica que protege.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que tantos jovens, mesmo diante da pobreza, da viol\u00eancia ou do abandono, conseguem reinventar suas trajet\u00f3rias. Encontram brechas no destino, redes de apoio, caminhos pela arte, pela ci\u00eancia, pela palavra. Isso n\u00e3o \u00e9 acaso nem milagre: \u00e9 a grandeza humana em a\u00e7\u00e3o. \u00c9 o livre-arb\u00edtrio poss\u00edvel, imperfeito, sim, mas real. <\/p>\n\n\n\n<p>Aqui cabe uma advert\u00eancia. O determinismo, quando mobilizado de forma c\u00ednica, transforma-se em \u00e1libi. H\u00e1 quem o invoque para justificar desigualdades (\u201c\u00e9 o perfil da comunidade\u201d), fracassos escolares (\u201cn\u00e3o nasceu para isso\u201d), condutas reprov\u00e1veis (\u201cn\u00e3o tem mais jeito\u201d) e at\u00e9 mesmo omiss\u00f5es institucionais (\u201cn\u00e3o adiantaria intervir\u201d). Esse tipo de racioc\u00ednio absolve os contextos e condena os indiv\u00edduos. Substitui pol\u00edticas p\u00fablicas por resigna\u00e7\u00e3o. Confunde dados com destino. N\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia, \u00e9 ideologia. E sua consequ\u00eancia \u00e9 sempre a mesma: a naturaliza\u00e7\u00e3o da exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos de intelig\u00eancia artificial generativa, algoritmos de predi\u00e7\u00e3o comportamental e personaliza\u00e7\u00e3o total, a discuss\u00e3o sobre liberdade de escolha ganha novos contornos. A educa\u00e7\u00e3o, mais do que nunca, precisa formar sujeitos capazes de compreender os mecanismos que moldam suas decis\u00f5es, e de resistir \u00e0 submiss\u00e3o disfar\u00e7ada de conveni\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Determinismo n\u00e3o educa ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Educar \u00e9 recusar o fatalismo. \u00c9 insistir que, mesmo quando tudo parece determinado, ainda resta a possibilidade de nos transformar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014\u2014-&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqueres \u00e9 Presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e membro do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res O Brazil Journal publicou recentemente um artigo provocador do amigo Jair Ribeiro. Ele traz uma pergunta inc\u00f4moda: temos mesmo livre-arb\u00edtrio? (leia aqui). 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