{"id":5870,"date":"2025-12-12T11:47:30","date_gmt":"2025-12-12T14:47:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=5870"},"modified":"2026-01-09T11:11:24","modified_gmt":"2026-01-09T14:11:24","slug":"artigo-chega-a-ser-mais-vaidoso-as-vezes-quem-ostenta-humildade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-chega-a-ser-mais-vaidoso-as-vezes-quem-ostenta-humildade\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Chega a ser mais vaidoso, \u00e0s vezes, quem ostenta humildade"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"572\" height=\"456\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5871\" style=\"width:366px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2.png 572w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2-300x239.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2-400x319.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 572px) 100vw, 572px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Reinaldo Polito<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ah, como admiro a maneira de viver dessa pessoa. T\u00e3o importante, t\u00e3o s\u00e1bia, t\u00e3o profunda em suas reflex\u00f5es e extremamente simples e humilde. Acredita que n\u00e3o participa de nenhuma rede social? Na verdade, nem celular ela tem. Conseguiu superar esse desafio tecnol\u00f3gico e vive apartada desse burburinho insano.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o resisti. Mesmo sabendo que agrediria os deuses do Olimpo, resolvi p\u00f4r em pr\u00e1tica a minha indisfar\u00e7\u00e1vel vaidade: \u201cMas por que ela \u00e9 t\u00e3o vaidosa?\u201d. Como era de se esperar, o mundo quase veio abaixo. Afinal, que ousadia chamar de vaidosa uma pessoa t\u00e3o humilde?<\/p>\n\n\n\n<p>Acima das necessidades comuns<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 vi muitas pessoas abastadas se vestindo mal, andando em carro velho, dispensando o uso de celular e alheias ao conforto da tecnologia. Elas sempre me intrigaram. Afinal, por que n\u00e3o possuem autom\u00f3vel de melhor qualidade? Por que n\u00e3o usam roupas mais ajeitadas? Por que n\u00e3o querem saber de celular, rel\u00f3gio e caneta?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta mais simples seria: n\u00e3o precisam. Est\u00e3o acima dessas necessidades das pessoas comuns. Levantam-se pela manh\u00e3 e vestem a mesma roupa que usaram durante a semana, toda amarrotada, sem gra\u00e7a. Retiram da garagem o carrinho sujo, velho e barulhento. N\u00e3o se preocupam com hor\u00e1rios, tampouco se algu\u00e9m est\u00e1 tentando enviar mensagens.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria humildade ou vaidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Um paradoxo. Quanta humildade! Por outro lado, se essa pessoa rica, poderosa, andasse com um bom carro, se vestisse com roupas elegantes, da \u00faltima moda, ostentasse um rel\u00f3gio dispon\u00edvel apenas a alguns poucos privilegiados, n\u00e3o chamaria tanta aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, esse jeito simples, desinteressado, desajeitado pode ser visto como sin\u00f4nimo de humildade ou seria reflexo de uma profunda vaidade? Mas como algu\u00e9m que n\u00e3o se interessa por bens materiais sofisticados e n\u00e3o se incomoda com a opini\u00e3o dos outros pode ser visto como vaidoso?<\/p>\n\n\n\n<p>Um livro antigo e sempre atual<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9, esse n\u00e3o \u00e9 um tema novo. Em 1705 nascia o fil\u00f3sofo luso-brasileiro Matias Aires. Luso-brasileiro porque nasceu no Brasil Colonial, ent\u00e3o parte de Portugal. Ele faleceu em 1763. Em 1752, esse pensador escreveu uma obra que atravessou os s\u00e9culos e chegou at\u00e9 os nossos dias: Reflex\u00f5es sobre a vaidade dos homens. Um livro instigante, que tira a m\u00e1scara de muitos que se escondem nas sombras da humildade. Em determinado trecho da sua publica\u00e7\u00e3o, diz:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCom todas as paix\u00f5es se une a vaidade; a muitas serve de origem principal; nasce com todas elas, e \u00e9 a \u00faltima, que acaba: a mesma humildade, com ser uma virtude oposta, tamb\u00e9m costuma nascer de vaidade; e com efeito s\u00e3o menos os humildes por virtude, do que os humildes por vaidade; e ainda dos que s\u00e3o verdadeiramente humildes \u00e9 raro o que \u00e9 insens\u00edvel ao respeito, e ao desprezo, e nisto se v\u00ea, que a vaidade exercita o seu poder, ainda donde parece, que o n\u00e3o tem.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Humildade s\u00f3 na apar\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma reflex\u00e3o profunda para que possamos observar a verdadeira face, pois \u201ca mesma humildade, com ser uma virtude oposta, tamb\u00e9m costuma nascer de vaidade\u201d. Matias Aires n\u00e3o generaliza, n\u00e3o toma um caso por todos, mas aponta o dedo e toca a ferida, mostrando que debaixo de uma face aparentemente humilde pode resistir uma forte vaidade.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 esse sentimento comum aos homens, sejam eles de que natureza forem, que, por n\u00e3o poder ser camuflado, exp\u00f5e quem se desnuda e se desprotege. H\u00e1 sobre esse fen\u00f4meno uma f\u00e1bula contada na obra O jardim das rosas, de Saadi, traduzida por Aur\u00e9lio Buarque de Holanda Ferreira:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUm rato faminto girava em torno de uma noz. Do interior da noz um verme lhe disse:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 N\u00e3o nos leves! Eu comi toda a polpa deste fruto, e tu te arrependerias de tocar nele.<\/p>\n\n\n\n<p>O rato refletiu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9s gordo ou magro?<\/p>\n\n\n\n<p>E o verme vaidoso respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sou gordo, e nada mais quero da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Muito bem, disse o rato. Espero que a tua gordura tenha sabor de noz.<\/p>\n\n\n\n<p>Roeu a casca, tirou o verme e o comeu.<\/p>\n\n\n\n<p>Imita o s\u00e1bio que, mesmo na opul\u00eancia, permanece modesto.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez essa reflex\u00e3o nos permita entender por que homens endinheirados, dotados de muitas posses, preferem demonstrar sua vaidade com o disfarce da humildade, pois, como vimos, mesmo na opul\u00eancia \u00e9 recomend\u00e1vel que se permane\u00e7a na mod\u00e9stia. Mas, seja por um ou outro motivo, \u00e0s vezes, o que se esconde por tr\u00e1s da humildade nada mais \u00e9 do que vaidade.<\/p>\n\n\n\n<p>___________________<\/p>\n\n\n\n<p>Reinaldo Polito \u00e9 membro da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Reinaldo Polito \u2014 Ah, como admiro a maneira de viver dessa pessoa. T\u00e3o importante, t\u00e3o s\u00e1bia, t\u00e3o profunda em suas reflex\u00f5es e extremamente simples e humilde. 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