{"id":5885,"date":"2025-12-20T18:36:09","date_gmt":"2025-12-20T21:36:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=5885"},"modified":"2025-12-22T18:40:43","modified_gmt":"2025-12-22T21:40:43","slug":"artigo-amizade-em-tempos-de-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-amizade-em-tempos-de-solidao\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Amizade em tempos de solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"826\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-1024x826.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5025\" style=\"width:305px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-1024x826.jpg 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-300x242.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-768x619.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-1536x1239.jpg 1536w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-2048x1652.jpg 2048w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-400x323.jpg 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ricardo-Viveiros-_-01-744x600.jpg 744w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Ricardo Viveiros<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 era das conex\u00f5es instant\u00e2neas, estamos cada vez mais desconectados. Um recente artigo da Harvard Business Review analisa a chamada \u201crecess\u00e3o das amizades\u201d, um fen\u00f4meno que revela a perda de v\u00ednculos profundos entre as pessoas. Segundo a pesquisa American Perspectives, o n\u00famero de adultos que afirmam n\u00e3o ter \u201cnenhum amigo pr\u00f3ximo\u201d quadruplicou desde 1990. Em contrapartida, os que declaram ter \u201cdez ou mais amigos pr\u00f3ximos\u201d encolheram em um ter\u00e7o. Estat\u00edstica inc\u00f4moda que ecoa um sintoma global: somos uma sociedade cada vez maior, mas solit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A amizade, que sempre foi o terreno f\u00e9rtil da confian\u00e7a e da solidariedade, passou a ser tratada como um luxo. Em cidades concentradas, hiper conectadas e vidas de muitos afazeres, reservar tempo para os amigos \u00e9 um ato de resist\u00eancia. A Universidade Stanford, ao lan\u00e7ar o curso Design para Amizades Saud\u00e1veis, reconhece um fato preocupante: \u00e9 preciso reaprender a conviver. O gesto que antes era espont\u00e2neo \u2013 ligar, visitar, ouvir \u2013 agora exige planejamento, agenda e disciplina.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias desse afastamento s\u00e3o tang\u00edveis. Estudos apontam que o isolamento social aumenta o risco de doen\u00e7as card\u00edacas, dem\u00eancia e at\u00e9 a mortalidade \u2013 efeitos compar\u00e1veis a fumar 15 cigarros por dia. N\u00e3o se trata apenas de falta de companhia; \u00e9 aus\u00eancia de cuidado m\u00fatuo, de partilha emocional, de uma dimens\u00e3o essencial \u00e0 sa\u00fade humana. Faltam olhos nos olhos, aten\u00e7\u00e3o, abra\u00e7os, beijos. A amizade \u00e9 a mais antiga forma de terapia.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro Os Cinco Maiores Arrependimentos dos Moribundos, Bonnie Ware destaca um dos lamentos mais tristes de quem est\u00e1 perto do fim: \u201cGostaria de ter mantido contato com meus amigos\u201d. \u00c9 o reconhecimento tardio de que as rela\u00e7\u00f5es verdadeiras valem mais que qualquer conquista material. Somos uma civiliza\u00e7\u00e3o que mede sucesso em seguidores e bens materiais, mas sofre falta de carinho.<\/p>\n\n\n\n<p>O distanciamento entre as pessoas n\u00e3o \u00e9 apenas social, \u00e9 cultural. A pressa, o trabalho e o culto \u00e0 produtividade transformaram o encontro em evento raro. Caf\u00e9s, bares e clubes, outrora espa\u00e7os de conviv\u00eancia, hoje t\u00eam mesas ocupadas por pessoas olhando telas. A vida moderna trocou o \u201ccomo voc\u00ea est\u00e1?\u201d por emojis que disfar\u00e7am o vazio. A solid\u00e3o, antes op\u00e7\u00e3o, agora \u00e9 h\u00e1bito.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal eros\u00e3o silenciosa atinge o campo espiritual. Em tempos de f\u00e9 individualista, diminui o sentido comunit\u00e1rio da experi\u00eancia humana. Grupos religiosos, associa\u00e7\u00f5es culturais e atividades volunt\u00e1rias \u2013 antigas fontes de amizade \u2013 est\u00e3o em queda. No lugar do conv\u00edvio, multiplicam-se relacionamentos utilit\u00e1rios, baseados em conveni\u00eancia. Muitos trocam amigos por redes sociais, trocam tamb\u00e9m familiares distantes e at\u00e9 animais de estima\u00e7\u00e3o. Amor n\u00e3o se substitui, se compartilha.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo de 80 anos da Universidade de Harvard sobre felicidade \u00e9 categ\u00f3rico: a maior fonte de bem-estar e longevidade n\u00e3o \u00e9 dinheiro nem sucesso, mas relacionamentos pr\u00f3ximos e de confian\u00e7a. Essa conclus\u00e3o deveria ser pol\u00edtica p\u00fablica. Promover a amizade \u00e9 promover sa\u00fade. O Estado, a escola, o trabalho e as fam\u00edlias precisam compreender que v\u00ednculos afetivos n\u00e3o s\u00e3o sup\u00e9rfluos, s\u00e3o infraestrutura emocional da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Valorizar a amizade \u00e9 tamb\u00e9m resgatar o tempo humano, o tempo suave do respeito. \u00c9 ligar sem motivo, escutar sem pressa, estar presente sem tela. Permitir ser cuidado, amado.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro n\u00e3o ser\u00e1 habit\u00e1vel sem afeto. A recess\u00e3o das amizades \u00e9 uma crise invis\u00edvel, mas profunda \u2013 uma epidemia de indiferen\u00e7a. Precisamos reagir! Que cada um de n\u00f3s seja lembrado n\u00e3o pela quantidade e valor da networking, mas pelos amigos que nunca deixou de ter. Porque viver bem \u00e9, sobretudo, saber permanecer na vida dos outros. Gerar saudade \u00e9 ser eterno.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________________________________ <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ricardo Viveiros<\/strong> \u00e9 jornalista, membro da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, professor e escritor. Doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, \u00e9 autor de v\u00e1rios livros, dentre os quais: \u201cA Vila que Descobriu o Brasil\u201d, \u201cO Poeta e o Passarinho\u201d e \u201cMem\u00f3rias de um tempo obscuro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Viveiros Em meio \u00e0 era das conex\u00f5es instant\u00e2neas, estamos cada vez mais desconectados. Um recente artigo da Harvard Business Review analisa a chamada \u201crecess\u00e3o das amizades\u201d, um fen\u00f4meno que revela a perda de v\u00ednculos profundos entre as pessoas. 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