{"id":5988,"date":"2026-02-10T11:43:00","date_gmt":"2026-02-10T14:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=5988"},"modified":"2026-02-10T09:47:10","modified_gmt":"2026-02-10T12:47:10","slug":"artigo-o-custo-de-ter-valores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-o-custo-de-ter-valores\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; O custo de ter valores"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5528\" style=\"width:351px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-1024x683.png 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-300x200.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-768x512.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-1536x1024.png 1536w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-2048x1365.png 2048w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-400x267.png 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-5-900x600.png 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Eles n\u00e3o servem para decorar discursos. Servem para orientar escolhas dif\u00edceis.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>Valores n\u00e3o se revelam nos discursos confort\u00e1veis, nem nos momentos de consenso. Eles aparecem quando incomodam, exigem ren\u00fancia, conten\u00e7\u00e3o, limite. Em pol\u00edtica, s\u00f3 existem de fato quando deixam de ser convenientes e passam a ter um custo.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, essa distin\u00e7\u00e3o tem sido cada vez mais desprezada. Valores s\u00e3o invocados com frequ\u00eancia crescente, mas aplicados de forma seletiva. Em nome de causas supostamente nobres, relativizam-se regras, flexibilizam-se princ\u00edpios e normalizam-se exce\u00e7\u00f5es. O resultado \u00e9 um ambiente p\u00fablico em que quase tudo parece justific\u00e1vel, desde que apresentado como moralmente superior.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 um problema apenas de ret\u00f3rica. \u00c9 um problema institucional. Valores, em sociedades democr\u00e1ticas, n\u00e3o existem para enfeitar discursos, mas para impor limites ao exerc\u00edcio do poder. Quando deixam de cumprir essa fun\u00e7\u00e3o, transformam-se em slogans. E slogans n\u00e3o governam, n\u00e3o arbitram conflitos, n\u00e3o protegem minorias nem garantem direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, democracias foram testadas nas fases de tens\u00e3o. \u00c9 na adversidade que se v\u00ea se institui\u00e7\u00f5es resistem \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do atalho, da exce\u00e7\u00e3o permanente, do \u201ccaso especial\u201d. Quando a press\u00e3o aumenta, valores deixam de ser abstra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil recente, esse teste tem sido recorrente. A pol\u00edtica tornou-se um campo em que princ\u00edpios s\u00e3o frequentemente subordinados \u00e0 urg\u00eancia do momento, \u00e0 l\u00f3gica da trincheira ou \u00e0 conveni\u00eancia do aliado. O discurso moral se expande, mas o compromisso com regras compartilhadas se estreita. Cada lado se julga portador exclusivo da virtude, enquanto acusa o outro de agir por interesses inconfess\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse ambiente favorece uma din\u00e2mica perigosa: a ideia de que fins justificam meios. Em nome da estabilidade, aceita-se o improviso institucional. Em nome da justi\u00e7a, tolera-se o arb\u00edtrio. Em nome da democracia, normalizam-se pr\u00e1ticas que corroem seus pr\u00f3prios fundamentos. O paradoxo \u00e9 evidente: quanto mais se fala em valores, menos eles funcionam como freios efetivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Valores democr\u00e1ticos como legalidade, devido processo, separa\u00e7\u00e3o de Poderes, responsabilidade p\u00fablica s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, desconfort\u00e1veis. Eles exigem autoconten\u00e7\u00e3o, inclusive quando se acredita estar do lado certo da hist\u00f3ria. Exigem aceitar decis\u00f5es adversas, respeitar procedimentos lentos, conviver com ambiguidades. N\u00e3o prometem efici\u00eancia m\u00e1xima nem satisfa\u00e7\u00e3o imediata.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso mesmo, s\u00e3o frequentemente vistos como obst\u00e1culos. Em contextos de polariza\u00e7\u00e3o intensa, cresce a impaci\u00eancia com limites institucionais. A regra passa a ser tratada como entrave; a exce\u00e7\u00e3o, como solu\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que exce\u00e7\u00f5es raramente se encerram sozinhas. Tendem a se acumular, a se justificar mutuamente, at\u00e9 que o excepcional vire rotina.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco maior n\u00e3o \u00e9 o conflito aberto, esse \u00e9 inerente \u00e0 democracia. O risco \u00e9 a eros\u00e3o silenciosa dos crit\u00e9rios que organizam o conflito. Quando valores deixam de ser compartilhados e passam a ser instrumentalizados, perde-se o ch\u00e3o comum sobre o qual o dissenso pode ocorrer. O debate se torna moralizado, mas n\u00e3o necessariamente mais \u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda um elemento adicional: valores s\u00f3 s\u00e3o plenamente testados quando n\u00e3o rendem aplauso. Defender princ\u00edpios quando eles custam popularidade, apoio pol\u00edtico ou ganhos imediatos \u00e9 o verdadeiro term\u00f4metro de sua autenticidade. Fora disso, trata-se apenas de ades\u00e3o oportunista a consensos moment\u00e2neos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o Brasil vive um momento pedag\u00f3gico, ainda que desconfort\u00e1vel. A press\u00e3o sobre institui\u00e7\u00f5es, a tens\u00e3o entre Poderes e a tenta\u00e7\u00e3o de atalhos colocam em evid\u00eancia o quanto valores foram, por vezes, tratados como recursos estrat\u00e9gicos, n\u00e3o como compromissos duradouros. O problema n\u00e3o est\u00e1 em discordar, mas em relativizar crit\u00e9rios conforme a conveni\u00eancia do momento.<\/p>\n\n\n\n<p>Epis\u00f3dios recentes, marcados por decis\u00f5es pouco transparentes, improvisos procedimentais e baixa permeabilidade a controles externos, mostram como a exce\u00e7\u00e3o tende a se naturalizar quando limites institucionais cedem \u00e0 press\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria pol\u00edtica mostra que democracias n\u00e3o costumam ruir de uma vez. Elas se desgastam aos poucos, por meio de pequenas concess\u00f5es feitas em nome de grandes causas. Cada exce\u00e7\u00e3o parece razo\u00e1vel isoladamente. O conjunto, por\u00e9m, constr\u00f3i um ambiente em que limites se tornam negoci\u00e1veis e regras, circunstanciais.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim das contas, valores n\u00e3o servem para nos dizer quem est\u00e1 certo, mas para definir at\u00e9 onde se pode ir. Quando deixam de cumprir essa fun\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica perde densidade \u00e9tica e ganha apenas intensidade emocional. \u00c9 sob press\u00e3o que se aprende o real significado das palavras que se proclama. E \u00e9 nesse teste que se decide se valores s\u00e3o convic\u00e7\u00f5es&#8230; ou apenas conveni\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles n\u00e3o servem para decorar discursos. Servem para orientar escolhas dif\u00edceis. Por Hubert Alqu\u00e9res Valores n\u00e3o se revelam nos discursos confort\u00e1veis, nem nos momentos de consenso. Eles aparecem quando incomodam, exigem ren\u00fancia, conten\u00e7\u00e3o, limite. Em pol\u00edtica, s\u00f3 existem de fato quando deixam de ser convenientes e passam a ter um custo. 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