{"id":6070,"date":"2026-02-25T23:52:00","date_gmt":"2026-02-26T02:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6070"},"modified":"2026-02-27T00:20:19","modified_gmt":"2026-02-27T03:20:19","slug":"artigo-quando-o-tempo-perdeu-suas-estacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-quando-o-tempo-perdeu-suas-estacoes\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Quando o tempo perdeu suas esta\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"350\" height=\"217\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-6.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5948\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-6.png 350w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image-6-300x186.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Por <em>Francisco Carbonari<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Conversando com amigos e, como sempre, a nossa inf\u00e2ncia apareceu na conversa. Lembramos de uma imagem que hoje soa distante: no m\u00eas de junho, o c\u00e9u pontilhado de bal\u00f5es iluminados. \u00c0 noite, aquelas pequenas luzes desenhavam uma cena que hoje n\u00e3o se v\u00ea mais. Evidentemente, os bal\u00f5es precisaram desaparecer \u2013 os&nbsp; riscos s\u00e3o \u00f3bvios e n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o a\u00ed. Mas era bonito de ver e a lembran\u00e7a, puxou outra coisa menos vis\u00edvel, que foi al\u00e9m da imagem em si.<\/p>\n\n\n\n<p>No passado, o tempo parecia mais bem definido. Cada acontecimento precisava esperar o seu momento para existir. Bal\u00e3o era em junho; papagaio, em agosto. Chocolate era coisa da P\u00e1scoa; Panetone, exclusividade do Natal. Essa segmenta\u00e7\u00e3o do tempo criava expectativa. Os desejos n\u00e3o eram satisfeitos de imediato: era preciso esperar. E a espera, longe de ser um inc\u00f4modo, era parte da experi\u00eancia. Ela amadurecia o desejo e ampliava a alegria do encontro com o que se aguardava.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m a comida obedecia a esta l\u00f3gica. Os ciclos eram sazonais: bacalhau na Semana Santa, feijoada no inverno, frutas no tempo certo. N\u00e3o se tratava apenas de limita\u00e7\u00e3o financeira, mas de uma rela\u00e7\u00e3o marcada pelo ritmo natural das coisas. Hoje, tudo mudou. N\u00e3o se trata de julgar. N\u00e3o \u00e9 melhor nem pior. \u00c9 diferente. Vivemos num mundo em que quase tudo est\u00e1 dispon\u00edvel o tempo todo. O acesso se ampliou, as fronteiras diminu\u00edram, mas, nesse processo, o tempo perdeu parte de sua segmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando tudo pode ser consumido a qualquer momento, sobra pouco espa\u00e7o para o desejo. A abund\u00e2ncia constante enfraquece a espera, e a aus\u00eancia de espera dilui o valor simb\u00f3lico das coisas. N\u00e3o porque elas sejam menos importantes em si, mas porque j\u00e1 n\u00e3o precisam ser desejadas: est\u00e3o sempre ali, prontas, imediatas. Falta-lhes n\u00e3o o valor material, mas o valor do tempo investido nelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o exemplo mais eloquente dessa mudan\u00e7a esteja nos brinquedos das crian\u00e7as. Antes, brinquedos eram reservados a ocasi\u00f5es espec\u00edficas: anivers\u00e1rio e Natal. Hoje, eles circulam ao longo do ano inteiro. Digo isso porque meu neto me enviou o convite para seu anivers\u00e1rio com uma observa\u00e7\u00e3o curiosa: \u201cn\u00e3o trazer presentes\u201d. Intrigado, perguntei o motivo. A resposta foi: ele j\u00e1 ganha brinquedo o ano todo e n\u00e3o se interessa muito mais por eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse pequeno epis\u00f3dio diz muito sobre o nosso tempo. Quando n\u00e3o h\u00e1 intervalos, quando tudo acontece sem pausa, at\u00e9 a alegria corre o risco de se acumular sem ser plenamente vivida. O o desafio contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 recuperar o passado, mas reaprender a criar limites, ritmos e esperas \u2014 n\u00e3o por escassez, mas por sentido. Afinal, o valor das coisas nasce exatamente do tempo que esperamos por elas.<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________  <\/p>\n\n\n\n<p>Francisco Carbonari \u00e9 membro da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, foi secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de Jundia\u00ed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Francisco Carbonari Conversando com amigos e, como sempre, a nossa inf\u00e2ncia apareceu na conversa. Lembramos de uma imagem que hoje soa distante: no m\u00eas de junho, o c\u00e9u pontilhado de bal\u00f5es iluminados. \u00c0 noite, aquelas pequenas luzes desenhavam uma cena que hoje n\u00e3o se v\u00ea mais. Evidentemente, os bal\u00f5es precisaram desaparecer \u2013 os&nbsp; riscos s\u00e3o \u00f3bvios e n\u00e3o h\u00e1 discuss\u00e3o a\u00ed. 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