{"id":6163,"date":"2026-02-03T00:31:00","date_gmt":"2026-02-03T03:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6163"},"modified":"2026-04-03T00:35:24","modified_gmt":"2026-04-03T03:35:24","slug":"sonia-gomes-e-o-barroco-vivido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/sonia-gomes-e-o-barroco-vivido\/","title":{"rendered":"Sonia Gomes e o barroco vivido"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"723\" height=\"520\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6164\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1.png 723w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1-300x216.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-1-400x288.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 723px) 100vw, 723px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Entre o trabalho do corpo e a reden\u00e7\u00e3o da forma<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o <em>Sonia Gomes \u2013 Barroco, mesmo<\/em>, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, n\u00e3o se oferece \u00e0 leitura apressada. N\u00e3o \u00e9 retrospectiva celebrat\u00f3ria nem s\u00edntese confort\u00e1vel de uma carreira j\u00e1 reconhecida. Trata-se de um ponto de inflex\u00e3o: o momento em que uma obra madura se apresenta como m\u00e9todo, e o barroco deixa de ser estilo hist\u00f3rico para afirmar-se como experi\u00eancia do corpo, do trabalho e da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O barroco que atravessa a obra de Sonia Gomes n\u00e3o \u00e9 o da exuber\u00e2ncia ornamental nem o da teatralidade como ret\u00f3rica do poder. \u00c9 algo vivido, nascido do fazer manual, da dobra insistente, do n\u00f3 que sustenta aquilo que amea\u00e7a se desfazer. Um barroco forjado na hist\u00f3ria brasileira, no trabalho compuls\u00f3rio, na manualidade invisibilizada, no corpo negro submetido \u00e0 t\u00e9cnica sem reconhecimento efetivo. Ao afirmar \u201cbarroco, mesmo\u201d, a artista n\u00e3o reivindica filia\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: enuncia uma \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua linguagem se constr\u00f3i a partir de materiais carregados de mem\u00f3ria: tecidos usados, roupas gastas, cordas, arames, fragmentos dom\u00e9sticos. N\u00e3o h\u00e1 a\u00ed met\u00e1fora f\u00e1cil do reaproveitamento, nem sentimentalismo. H\u00e1 intelig\u00eancia: cada costura \u00e9 decis\u00e3o formal; cada tor\u00e7\u00e3o, pensamento incorporado. A obra n\u00e3o ilustra narrativas: organiza tens\u00f5es entre conten\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o, peso e suspens\u00e3o, corpo e forma. O fazer, em Sonia Gomes, \u00e9 pensamento que se d\u00e1 na mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa compreens\u00e3o se torna vis\u00edvel na pr\u00f3pria estrutura da exposi\u00e7\u00e3o. A curadoria de Paulo Miyada evita a linearidade cronol\u00f3gica e aposta numa expografia que traduz, no espa\u00e7o, o campo de for\u00e7as da obra: curvaturas, camadas sobrepostas, movimentos internos que sugerem instabilidade e fluxo. O barroco surge n\u00e3o como cita\u00e7\u00e3o, mas como procedimento contempor\u00e2neo de organiza\u00e7\u00e3o do sens\u00edvel, uma forma de lidar com o excesso inevit\u00e1vel do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00facleo que apresenta tecidos, objetos e materiais do ateli\u00ea da artista \u00e9 decisivo nesse percurso. N\u00e3o se trata de idealizar o processo, mas de explicitar uma \u00e9tica do trabalho. Sonia Gomes n\u00e3o transforma o ordin\u00e1rio em extraordin\u00e1rio por efeito po\u00e9tico; ela o reorganiza por insist\u00eancia. O ateli\u00ea aparece como lugar de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria e de negocia\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria, pr\u00e1tica que devolve ao fazer manual o estatuto de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse percurso se consolidou tamb\u00e9m fora do Brasil. Ao longo dos \u00faltimos anos, a obra de Sonia Gomes passou a integrar exposi\u00e7\u00f5es e cole\u00e7\u00f5es de institui\u00e7\u00f5es centrais da arte contempor\u00e2nea, como o MoMA e o Guggenheim, em Nova York, a National Gallery of Art, em Washington, a Tate Modern, em Londres, e o Centre Pompidou, em Paris, n\u00e3o como curiosidade perif\u00e9rica ou exotismo tardio, mas como voz plenamente integrada aos debates formais, pol\u00edticos e materiais do presente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 \u00e0 luz desse reconhecimento, constru\u00eddo com rigor e sem concess\u00f5es, que sua participa\u00e7\u00e3o na Bienal de Veneza em 2024 deve ser compreendida. No pavilh\u00e3o do Vaticano, instalado em um pres\u00eddio feminino, o barroco deixou definitivamente de ser linguagem hist\u00f3rica para tornar-se experi\u00eancia moral. O espa\u00e7o do c\u00e1rcere, marcado pela conten\u00e7\u00e3o do corpo, pela disciplina imposta e pela suspens\u00e3o do tempo, dialogou de maneira radical com uma obra que sempre trabalhou com limites, amarras e possibilidades de recomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A abertura da mostra, realizada pelo pr\u00f3prio Papa Francisco, e as frases estampadas no edif\u00edcio do pres\u00eddio, convocando dignidade, aten\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a, n\u00e3o funcionaram como moldura para a exposi\u00e7\u00e3o, mas como parte do pr\u00f3prio gesto curatorial. Sonia Gomes n\u00e3o levou ali uma mensagem religiosa ilustrativa, mas uma gram\u00e1tica material capaz de lidar com culpa, dor, perman\u00eancia e repara\u00e7\u00e3o. O barroco crist\u00e3o, com suas tens\u00f5es entre mat\u00e9ria e esp\u00edrito, encontrou naquela obra uma tradu\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e afro-diasp\u00f3rica, sem ret\u00f3rica, sem concess\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata, portanto, de celebrar Veneza como selo de consagra\u00e7\u00e3o, mas de compreender o deslocamento simb\u00f3lico ali operado: o barroco brasileiro, forjado no trabalho e na exclus\u00e3o, atravessando o centro moral do catolicismo por meio de uma artista que conhece o peso do corpo e da mat\u00e9ria. A obra n\u00e3o promete reden\u00e7\u00e3o; ela sustenta. N\u00e3o pacifica; reorganiza.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mesma l\u00f3gica atravessa o livro <em>Assombrar o mundo com beleza<\/em>, que sintetiza sua obra e oferece uma chave precisa para compreender sua trajet\u00f3ria. \u201cAssombrar\u201d, aqui, n\u00e3o significa provocar espanto superficial, mas insistir na presen\u00e7a. A beleza, longe de conforto est\u00e9tico, torna-se for\u00e7a perturbadora, aquilo que permanece quando tudo conspira para o apagamento. O livro deixa claro que Sonia Gomes n\u00e3o fala <em>sobre<\/em> ancestralidade: ela <em>opera<\/em> ancestralidade como forma.<\/p>\n\n\n\n<p>No Instituto Tomie Ohtake, espa\u00e7o historicamente associado ao rigor formal e ao pensamento construtivo, sua obra se afirma como centro, n\u00e3o como exce\u00e7\u00e3o. Seu barroco n\u00e3o se op\u00f5e ao moderno; o atravessa criticamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Num tempo saturado de discursos r\u00e1pidos e gestos histri\u00f4nicos, a obra de Sonia Gomes prop\u00f5e outra temporalidade: a do trabalho que insiste, do corpo que pensa, da forma que sustenta. Seu barroco n\u00e3o \u00e9 heran\u00e7a do passado, mas m\u00e9todo de sobreviv\u00eancia no presente. Sua arte n\u00e3o pede aplauso imediato, pede perman\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________ <\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o, vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro e membro do F\u00f3rum Permanente Associa\u00e7\u00e3o Cultural e da Associa\u00e7\u00e3o Amigos do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre o trabalho do corpo e a reden\u00e7\u00e3o da forma Por Hubert Alqu\u00e9res A exposi\u00e7\u00e3o Sonia Gomes \u2013 Barroco, mesmo, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, n\u00e3o se oferece \u00e0 leitura apressada. N\u00e3o \u00e9 retrospectiva celebrat\u00f3ria nem s\u00edntese confort\u00e1vel de uma carreira j\u00e1 reconhecida. 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