{"id":6345,"date":"2026-05-06T17:34:29","date_gmt":"2026-05-06T20:34:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6345"},"modified":"2026-05-08T17:37:37","modified_gmt":"2026-05-08T20:37:37","slug":"artigo-os-estranhos-caminhos-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-os-estranhos-caminhos-da-memoria\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Os estranhos caminhos da mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Francisco Carbonari<a href=\"http:\/\/facebook.com\/sharer.php?u=https:\/\/sampi.net.br\/jundiai\/noticias\/2977427\/opinioes\/2026\/05\/os-estranhos-caminhos-da-memoria\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><a href=\"https:\/\/api.whatsapp.com\/send?text=https:\/\/sampi.net.br\/jundiai\/noticias\/2977427\/opinioes\/2026\/05\/os-estranhos-caminhos-da-memoria\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><a href=\"http:\/\/twitter.com\/share?url=https:\/\/sampi.net.br\/jundiai\/noticias\/2977427\/opinioes\/2026\/05\/os-estranhos-caminhos-da-memoria\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"605\" height=\"361\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6261\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4.png 605w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4-300x179.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4-400x239.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Entre 2022 e 2024, escrevi dois livros sobre a saga de fam\u00edlias de imigrantes italianos que se fixaram em Jundia\u00ed. Na verdade, eram sobre a minha pr\u00f3pria fam\u00edlia. Tarefa inicialmente \u00e1rdua, pois das tr\u00eas primeiras gera\u00e7\u00f5es que chegaram ao Brasil, j\u00e1 n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m vivo. Restaram apenas as hist\u00f3rias \u2014 e os herdeiros dessas hist\u00f3rias. Coube a mim a reconstru\u00e7\u00e3o dessa trajet\u00f3ria a partir das lembran\u00e7as da quarta gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo desse processo, fiz uma descoberta que, para mim \u2014 pouco familiarizado com a hist\u00f3ria oral \u2014 foi particularmente reveladora: eu n\u00e3o estava apenas recolhendo fatos, mas estava lidando com vers\u00f5es. Descobri que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um espelho fiel dos fatos. Ela \u00e9 constru\u00edda. Cada depoimento coletado trazia uma narrativa pr\u00f3pria, marcada pelas experi\u00eancias de quem falava. Um mesmo epis\u00f3dio era visto com diferentes olhares. Assim, percebi que um mesmo acontecimento podia ganhar m\u00faltiplas vers\u00f5es, por vezes at\u00e9 contradit\u00f3rias, moldadas pelas trajet\u00f3rias individuais de cada um.<\/p>\n\n\n\n<p>Her\u00f3doto j\u00e1 dizia que a mem\u00f3ria \u00e9 fr\u00e1gil e evanescente e que quando algu\u00e9m evoca o pr\u00f3prio passado, muitas vezes esquece os fatos e, lembrava-se de coisas que s\u00f3 aconteceram no universo paralelo dos desejos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernando Pessoa expressa essa ideia com precis\u00e3o: \u201cAs viagens s\u00e3o os viajantes. O que vemos n\u00e3o \u00e9 o que vemos, sen\u00e3o o que somos.\u201d Em outras palavras, nossas lembran\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o apenas registros do que vivemos, mas interpreta\u00e7\u00f5es a partir daquilo que nos tornamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, \u00e9 bom ressaltar, que as hist\u00f3rias que eu recolhia n\u00e3o eram falsas \u2014 eram humanas. Cada lembran\u00e7a carregava um peda\u00e7o da vida de quem a contava. N\u00e3o era o passado em estado puro, mas o passado filtrado pela experi\u00eancia, pelas perdas, pelas escolhas, pelos afetos.<\/p>\n\n\n\n<p>O fil\u00f3sofo Ernst Cassirer, em \u201cEnsaio sobre o Homem\u201d, afirma que a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 simples repeti\u00e7\u00e3o do passado, mas sua recria\u00e7\u00e3o. Nela o homem reconstr\u00f3i sua experi\u00eancia. A imagina\u00e7\u00e3o, nesse processo, torna-se um elemento necess\u00e1rio da verdadeira lembran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas descobertas me fizeram compreender como a mem\u00f3ria funciona em mim e como eu elaboro as lembran\u00e7as a partir das minhas pr\u00f3prias experi\u00eancias. \u00c9 interessante os caminhos seguidos pela mem\u00f3ria na fixa\u00e7\u00e3o das nossas lembran\u00e7as<\/p>\n\n\n\n<p>No final, al\u00e9m de resgatar a hist\u00f3ria de duas fam\u00edlia, compreendi algo mais profundo: uma maneira de entender as minhas lembran\u00e7as. Percebi que recordar n\u00e3o \u00e9 apenas revisitar o que foi, mas reconstruir, a cada vez, o sentido daquilo que vivemos. Percebi que minhas mem\u00f3rias tamb\u00e9m s\u00e3o vers\u00f5es \u2014 n\u00e3o mentiras, mas interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, se a mem\u00f3ria \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o passado n\u00e3o est\u00e1 apenas atr\u00e1s de n\u00f3s. Ele continua sendo feito \u2014 cada vez que o lembramos.<\/p>\n\n\n\n<p>_____________________________________________  <\/p>\n\n\n\n<p><em>Francisco Carbonari \u00e9 Acad\u00eamico, foi secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o em Jundia\u00ed\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Francisco Carbonari Entre 2022 e 2024, escrevi dois livros sobre a saga de fam\u00edlias de imigrantes italianos que se fixaram em Jundia\u00ed. Na verdade, eram sobre a minha pr\u00f3pria fam\u00edlia. 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