{"id":6361,"date":"2026-05-13T13:35:03","date_gmt":"2026-05-13T16:35:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6361"},"modified":"2026-05-13T13:35:58","modified_gmt":"2026-05-13T16:35:58","slug":"artigo-a-universidade-diante-de-um-novo-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-a-universidade-diante-de-um-novo-tempo\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; A universidade diante de um novo tempo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"681\" height=\"601\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/APE-Hubert-02-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5096\" style=\"width:356px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/APE-Hubert-02-1.jpeg 681w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/APE-Hubert-02-1-300x265.jpeg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/APE-Hubert-02-1-400x353.jpeg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<p>A recente ocupa\u00e7\u00e3o da Reitoria da USP por estudantes trouxe novamente \u00e0 superf\u00edcie um debate que ultrapassa em muito os limites da universidade paulista. Mais do que um epis\u00f3dio localizado, ela exp\u00f5e dilemas presentes no ensino superior no Brasil e em boa parte do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, as universidades operaram em ambiente relativamente est\u00e1vel. Formavam profissionais, produziam conhecimento e funcionavam como espa\u00e7os privilegiados de mobilidade social, reflex\u00e3o intelectual e forma\u00e7\u00e3o das elites dirigentes. Esse papel continua fundamental. Mas o mundo mudou mais rapidamente do que muitas conseguiram acompanhar.<\/p>\n\n\n\n<p>A reorganiza\u00e7\u00e3o das cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, a revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica impulsionada pela intelig\u00eancia artificial, as novas disputas geopol\u00edticas, a crise das democracias liberais, a acelera\u00e7\u00e3o dos fluxos de informa\u00e7\u00e3o e as transforma\u00e7\u00f5es do mercado de trabalho alteraram profundamente o lugar estrat\u00e9gico do conhecimento na economia e na pol\u00edtica internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Universidades deixaram de ser apenas institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa. Tornaram-se ativos fundamentais de inova\u00e7\u00e3o, competitividade econ\u00f4mica, soberania tecnol\u00f3gica e influ\u00eancia internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A ascens\u00e3o chinesa talvez seja o exemplo mais eloquente dessa transforma\u00e7\u00e3o. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a China compreendeu que universidades fortes, pesquisa cient\u00edfica e capacidade tecnol\u00f3gica n\u00e3o eram apenas temas educacionais, mas instrumentos imprescind\u00edveis de desenvolvimento, poder econ\u00f4mico e proje\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica. N\u00e3o por acaso, segundo dados da UNESCO e da OCDE, a China tornou-se, nos \u00faltimos anos, o pa\u00eds que mais forma engenheiros e doutores em \u00e1reas estrat\u00e9gicas de ci\u00eancia e tecnologia, al\u00e9m de j\u00e1 disputar a lideran\u00e7a mundial em produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e registros de patentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, as universidades do mundo ocidental passaram a enfrentar press\u00f5es crescentes relacionadas \u00e0 inclus\u00e3o social, financiamento, governan\u00e7a e qualidade acad\u00eamica. Em v\u00e1rios pa\u00edses, o ambiente universit\u00e1rio transformou-se em espa\u00e7o das disputas culturais e pol\u00edticas contempor\u00e2neas. A polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, as disputas identit\u00e1rias e a crescente contesta\u00e7\u00e3o das formas tradicionais de autoridade passaram a fazer parte da vida universit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte do desconforto atual da sociedade com as universidades decorre justamente da percep\u00e7\u00e3o de que muitas institui\u00e7\u00f5es se tornaram excessivamente burocratizadas, politizadas ou incapazes de responder com agilidade \u00e0s mudan\u00e7as que ocorrem no mundo. Em um ambiente internacional cada vez mais competitivo, universidades lentas, paralisadas por l\u00f3gicas corporativas e pouco inovadoras tendem a perder relev\u00e2ncia cient\u00edfica, econ\u00f4mica e social.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, essas tens\u00f5es aparecem de forma particularmente intensa. As universidades p\u00fablicas continuam respons\u00e1veis pela maior parte da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional e concentram boa parte da pesquisa de excel\u00eancia do pa\u00eds. Mas convivem tamb\u00e9m com estruturas r\u00edgidas, dificuldades de gest\u00e3o e crescente influ\u00eancia de agendas corporativas que frequentemente dificultam processos de moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O sistema federal de ensino superior enfrenta problemas conhecidos: deteriora\u00e7\u00e3o de infraestrutura, limita\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias, expans\u00e3o acelerada sem correspondente fortalecimento institucional e dificuldades crescentes de sustentabilidade. Muitas universidades passaram a operar sob forte press\u00e3o financeira e administrativa, comprometendo sua capacidade de planejamento e inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No setor privado, o quadro \u00e9 igualmente heterog\u00eaneo. O Brasil possui institui\u00e7\u00f5es de excel\u00eancia, algumas delas altamente inovadoras e academicamente consistentes. Mas convive tamb\u00e9m com expans\u00e3o pouco criteriosa, prolifera\u00e7\u00e3o de cursos e crescimento acelerado de modalidades de ensino a dist\u00e2ncia de baixa qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez o maior problema seja outro: o Brasil ainda n\u00e3o definiu claramente qual universidade deseja construir para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, em um momento em que o pa\u00eds volta a discutir desenvolvimento econ\u00f4mico, produtividade, competitividade internacional e inser\u00e7\u00e3o global, o debate p\u00fablico ainda dedica pouca aten\u00e7\u00e3o ao papel estrat\u00e9gico das universidades. Em meio \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica permanente, temas decisivos como inova\u00e7\u00e3o, pesquisa cient\u00edfica, intelig\u00eancia artificial, forma\u00e7\u00e3o de capital humano e capacidade tecnol\u00f3gica continuam ocupando espa\u00e7o secund\u00e1rio na agenda nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A universidade contempor\u00e2nea precisa combinar inclus\u00e3o social, excel\u00eancia acad\u00eamica, capacidade de inova\u00e7\u00e3o e compromisso efetivo com os desafios concretos do pa\u00eds. Precisa formar profissionais para um mercado de trabalho em r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m produzir conhecimento avan\u00e7ado, desenvolver tecnologia e contribuir para a formula\u00e7\u00e3o de respostas diante de problemas cada vez mais complexos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso exige institui\u00e7\u00f5es menos burocr\u00e1ticas, mais flex\u00edveis, abertas \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o internacional e capazes de dialogar simultaneamente com ci\u00eancia, tecnologia, setor produtivo e pol\u00edticas p\u00fablicas. Exige tamb\u00e9m ambientes intelectualmente plurais, comprometidos com qualidade acad\u00eamica e liberdade de pensamento, sem se deixarem capturar nem por agendas corporativas nem por formas simplificadoras de milit\u00e2ncia pol\u00edtica. Sem isso, correm o risco de perder relev\u00e2ncia justamente na economia do conhecimento que passa a definir o poder global.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise recente da USP deve ser lida nesse contexto mais amplo. Ela n\u00e3o representa apenas um conflito circunstancial entre estudantes e administra\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Funciona como express\u00e3o de tens\u00f5es acumuladas em um sistema universit\u00e1rio que precisa se reinventar diante das transforma\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio brasileiro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas ampliar o acesso ao ensino superior. \u00c9 construir universidades capazes de responder a um mundo no qual conhecimento, ci\u00eancia e tecnologia passaram a definir riqueza, poder e influ\u00eancia internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Universidades fortes deixaram de ser apenas institui\u00e7\u00f5es educacionais. Tornaram-se parte essencial da capacidade de futuro, inova\u00e7\u00e3o e soberania de um pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"642\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6362\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7.png 960w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-300x201.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-768x514.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-400x268.png 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/image-7-897x600.png 897w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Campus da Universidade de S\u00e3o Paulo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>_________________________________________<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res A recente ocupa\u00e7\u00e3o da Reitoria da USP por estudantes trouxe novamente \u00e0 superf\u00edcie um debate que ultrapassa em muito os limites da universidade paulista. 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