{"id":6404,"date":"2026-06-02T17:01:19","date_gmt":"2026-06-02T20:01:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6404"},"modified":"2026-06-02T17:03:36","modified_gmt":"2026-06-02T20:03:36","slug":"o-elo-perdido-da-educacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/o-elo-perdido-da-educacao\/","title":{"rendered":"O elo perdido da educa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res e Rose Neubauer<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"746\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/content_id-1024x746.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6405\" style=\"width:359px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/content_id-1024x746.jpg 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/content_id-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/content_id-768x559.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/content_id-400x291.jpg 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/content_id-824x600.jpg 824w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/content_id.jpg 1320w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Acad\u00eamicos Rose e Hubert<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados divulgados pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o sobre a Prova Nacional Docente, criada para avaliar a qualidade da forma\u00e7\u00e3o dos futuros professores brasileiros, talvez estejam entre os diagn\u00f3sticos mais graves j\u00e1 produzidos recentemente sobre a educa\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de um ter\u00e7o dos participantes n\u00e3o alcan\u00e7ou sequer o n\u00edvel b\u00e1sico de profici\u00eancia considerado m\u00ednimo para o exerc\u00edcio da doc\u00eancia. Em matem\u00e1tica, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dram\u00e1tica: mais da metade ficou abaixo do patamar esperado. Nas licenciaturas a dist\u00e2ncia de letras e matem\u00e1tica, apenas um ter\u00e7o dos concluintes atingiu desempenho satisfat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de um acidente estat\u00edstico. Os n\u00fameros revelam um problema estrutural: o Brasil universalizou o acesso \u00e0 escola sem construir simultaneamente uma pol\u00edtica consistente de forma\u00e7\u00e3o de professores capaz de sustentar qualidade e aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, o pa\u00eds concentrou seus esfor\u00e7os na expans\u00e3o do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Houve avan\u00e7os importantes. O ensino b\u00e1sico praticamente se universalizou. O ensino superior expandiu-se rapidamente. Universidades e faculdades interiorizaram-se. Programas como Fies e Prouni ampliaram o acesso ao diploma universit\u00e1rio. O n\u00famero de licenciaturas explodiu, sobretudo no setor privado. Tudo isso teve import\u00e2ncia hist\u00f3rica e representou avan\u00e7o social real.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a expans\u00e3o quantitativa n\u00e3o foi acompanhada da constru\u00e7\u00e3o de um modelo robusto de forma\u00e7\u00e3o docente. Em muitos casos, criou-se um sistema de certifica\u00e7\u00e3o em massa sem densidade acad\u00eamica e pedag\u00f3gica compat\u00edvel com a complexidade da profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse talvez seja hoje o elo perdido da educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Pa\u00edses que conseguiram elevar consistentemente a qualidade de seus sistemas educacionais compreenderam algo elementar: n\u00e3o h\u00e1 ensino de qualidade sem forma\u00e7\u00e3o docente s\u00f3lida. Na\u00e7\u00f5es que deram saltos consistentes na educa\u00e7\u00e3o \u2014 como Finl\u00e2ndia, Coreia do Sul, Singapura ou Irlanda \u2014 compreenderam que valoriza\u00e7\u00e3o docente n\u00e3o depende apenas de sal\u00e1rio. Exige sele\u00e7\u00e3o rigorosa, forte dom\u00ednio de conte\u00fado, s\u00f3lida prepara\u00e7\u00e3o did\u00e1tica, intensa pr\u00e1tica supervisionada e elevado prest\u00edgio social.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil caminhou em outra dire\u00e7\u00e3o. A carreira docente perdeu atratividade. As licenciaturas transformaram-se, em muitos casos, em cursos de baixo prest\u00edgio e reduzida exig\u00eancia acad\u00eamica. O problema agravou-se com a expans\u00e3o acelerada de cursos a dist\u00e2ncia extremamente massificados, frequentemente organizados em modelos padronizados e de baix\u00edssimo custo operacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em demonizar o ensino a dist\u00e2ncia. Em um pa\u00eds continental como o Brasil, ele pode cumprir papel relevante. O problema \u00e9 outro: forma\u00e7\u00e3o docente n\u00e3o se reduz \u00e0 transmiss\u00e3o de conte\u00fado. Exige conviv\u00eancia escolar, observa\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, pr\u00e1tica supervisionada, experi\u00eancia concreta de sala de aula, resid\u00eancia pedag\u00f3gica anterior ao ingresso na carreira e acompanhamento formativo cont\u00ednuo. Formar professores \u00e9 formar profissionais capazes de lidar com a complexidade cada vez maior da sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, as licenciaturas EAD j\u00e1 concentram cerca de 70% das vagas ofertadas no pa\u00eds. Os pr\u00f3prios dados do MEC mostram a gravidade do problema. Mais da metade dos cursos avaliados recebeu conceitos insuficientes. Em v\u00e1rias \u00e1reas, o desempenho dos concluintes presenciais supera amplamente o dos estudantes formados a dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez o aspecto mais profundo da crise esteja al\u00e9m do debate entre presencial e EAD. O problema brasileiro tamb\u00e9m \u00e9 conceitual. H\u00e1 anos a forma\u00e7\u00e3o docente vem sendo conduzida por uma concep\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica que, embora tenha trazido contribui\u00e7\u00f5es importantes em temas como inclus\u00e3o, diversidade e interdisciplinaridade, acabou muitas vezes enfraquecendo o n\u00facleo duro da profiss\u00e3o docente: ensinar o professor a ensinar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitos cursos, o futuro professor \u00e9 formado como mediador de experi\u00eancias, articulador de compet\u00eancias ou facilitador de aprendizagens. Tudo isso possui import\u00e2ncia. Mas frequentemente aparecem em segundo plano elementos centrais da doc\u00eancia: dom\u00ednio do conhecimento a ser ensinado, did\u00e1tica, alfabetiza\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o e progress\u00e3o cognitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, matem\u00e1tica tornou-se o retrato mais dram\u00e1tico dessa crise. A dificuldade de formar bons professores nessa \u00e1rea revela um problema muito maior do que uma defici\u00eancia disciplinar espec\u00edfica. Matem\u00e1tica exige racioc\u00ednio estruturado, abstra\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio conceitual consistente. Este quadro indica limita\u00e7\u00f5es do sistema educacional na forma\u00e7\u00e3o do pensamento anal\u00edtico e cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto disso ultrapassa a escola. Afeta produtividade, inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, competitividade econ\u00f4mica e capacidade de inser\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds. Em um mundo impactado pela intelig\u00eancia artificial e por transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas aceleradas, o d\u00e9ficit de forma\u00e7\u00e3o docente torna-se tamb\u00e9m um problema de desenvolvimento nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda um c\u00edrculo vicioso particularmente perverso. Professores mal formados tendem a produzir estudantes com baixa aprendizagem, muitos dos quais ingressar\u00e3o posteriormente em licenciaturas fr\u00e1geis, reproduzindo o ciclo de precariedade educacional.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante reconhecer que a responsabilidade por esse quadro n\u00e3o pertence a um \u00fanico governo. Trata-se de um problema acumulado. Ainda assim, \u00e9 imposs\u00edvel ignorar que, desde 2003, o pa\u00eds viveu longos ciclos de governos federais que ampliaram significativamente o acesso ao ensino superior sem enfrentar de maneira estrutural a quest\u00e3o da qualidade da forma\u00e7\u00e3o docente.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve programas relevantes e expans\u00e3o de oportunidades, mas n\u00e3o se consolidou uma pol\u00edtica nacional cont\u00ednua e consistente capaz de reorganizar profundamente a forma\u00e7\u00e3o de professores. O resultado \u00e9 um cen\u00e1rio fragmentado, marcado por forte desigualdade institucional, excesso de improvisa\u00e7\u00e3o e baixa capacidade de regula\u00e7\u00e3o efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante muito tempo, qualquer tentativa de elevar exig\u00eancias acad\u00eamicas nas licenciaturas era imediatamente tratada como elitismo ou restri\u00e7\u00e3o de acesso. Agora os pr\u00f3prios indicadores come\u00e7am a impor uma revis\u00e3o radical desse modelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa defender solu\u00e7\u00f5es simplistas ou nostalgias autorit\u00e1rias. Tampouco implica desvalorizar agendas contempor\u00e2neas importantes, como inclus\u00e3o ou inova\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica. O problema \u00e9 de equil\u00edbrio. Nenhum sistema educacional consegue funcionar adequadamente quando o conhecimento a ser ensinado perde prioridade na forma\u00e7\u00e3o docente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o da Prova Nacional Docente indica mudan\u00e7a importante de mentalidade: o reconhecimento de que n\u00e3o basta expandir matr\u00edculas; \u00e9 preciso garantir padr\u00f5es m\u00ednimos de qualidade profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas avalia\u00e7\u00f5es, sozinhas, n\u00e3o resolver\u00e3o o problema. Ser\u00e1 necess\u00e1rio reconstruir a atratividade da carreira, fortalecer a forma\u00e7\u00e3o presencial, ampliar resid\u00eancias pedag\u00f3gicas, elevar o rigor acad\u00eamico das licenciaturas e criar mecanismos mais eficazes de acompanhamento da qualidade dos cursos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobretudo, ser\u00e1 preciso recolocar o professor no centro do projeto educacional brasileiro. Nenhuma plataforma digital, reforma curricular ou tecnologia educacional conseguir\u00e1 compensar estruturalmente a fragilidade da forma\u00e7\u00e3o docente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que o verdadeiro desafio da educa\u00e7\u00e3o brasileira no s\u00e9culo XXI seja justamente este: compreender que n\u00e3o haver\u00e1 transforma\u00e7\u00e3o educacional profunda sem uma revolu\u00e7\u00e3o estrutural na forma\u00e7\u00e3o de seus professores.<\/p>\n\n\n\n<p>_____________________________________________________&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da C\u00e2mara do Ensino Superior do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o, presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro.<\/p>\n\n\n\n<p>Rose Neubauer preside a Comiss\u00e3o de Licenciatura do Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o e \u00e9 membro do Conselho Municipal de Educa\u00e7\u00e3o, foi secret\u00e1ria de educa\u00e7\u00e3o do estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res e Rose Neubauer Os resultados divulgados pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o sobre a Prova Nacional Docente, criada para avaliar a qualidade da forma\u00e7\u00e3o dos futuros professores brasileiros, talvez estejam entre os diagn\u00f3sticos mais graves j\u00e1 produzidos recentemente sobre a educa\u00e7\u00e3o nacional. 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