{"id":6413,"date":"2026-06-08T23:33:54","date_gmt":"2026-06-09T02:33:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6413"},"modified":"2026-06-09T12:20:37","modified_gmt":"2026-06-09T15:20:37","slug":"a-censura-mudou-de-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/a-censura-mudou-de-lugar\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; A censura mudou de lugar"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6414\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-1024x683.png 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-300x200.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-768x512.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-400x267.png 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image-900x600.png 900w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/image.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ana Maria Machado (Flavio Florido\/Terebi\/A Feira do Livro)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>A escritora Ana Maria Machado participou da Feira do Livro que aconteceu no Pacaemb\u00fa. Ao revisitar epis\u00f3dios de sua trajet\u00f3ria como jornalista e autora, trouxe uma reflex\u00e3o que merece aten\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do universo liter\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao recordar sua passagem pela R\u00e1dio Jornal do Brasil, durante os anos da ditadura militar, Ana Maria descreveu a presen\u00e7a permanente da censura pr\u00e9via nas reda\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de imprensa. Reportagens eram examinadas antes de ir ao ar, assuntos eram vetados e autoridades governamentais definiam o que podia ou n\u00e3o chegar ao p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua rea\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, era curiosa. Em vez de orientar os jornalistas a evitar determinados temas, Ana Maria recomendava exatamente o contr\u00e1rio: que realizassem seu trabalho como se a censura n\u00e3o existisse. Que apurassem os fatos, entrevistassem as fontes e produzissem as melhores reportagens poss\u00edveis. Se depois o censor resolvesse cortar o material, essa seria uma responsabilidade do Estado, n\u00e3o do jornalista.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 pequena. Quando profissionais da comunica\u00e7\u00e3o come\u00e7am a antecipar aquilo que acreditam que ser\u00e1 proibido, a censura deixa de ser apenas um mecanismo externo e passa a habitar a pr\u00f3pria consci\u00eancia dos indiv\u00edduos. O censor j\u00e1 n\u00e3o precisa estar presente. Ele foi internalizado.<\/p>\n\n\n\n<p>A observa\u00e7\u00e3o ajuda a compreender um fen\u00f4meno atual que raramente \u00e9 tratado com a devida profundidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Costumamos associar a censura \u00e0 sua forma cl\u00e1ssica: um governo autorit\u00e1rio proibindo livros, interditando pe\u00e7as de teatro ou impedindo a circula\u00e7\u00e3o de jornais. Essa continua sendo uma amea\u00e7a real em muitas partes do mundo e n\u00e3o deve jamais ser subestimada. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, multiplicaram-se epis\u00f3dios de press\u00e3o pela retirada de livros de escolas e bibliotecas, campanhas para cancelar autores, tentativas de silenciar opini\u00f5es divergentes e movimentos organizados para impedir o debate de temas considerados inconvenientes.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o encontro, foi lembrado o caso recente da tentativa de retirada numa escola militar em Bras\u00edlia do livro <em>A Bolsa Amarela<\/em>, de Lygia Bojunga, uma das obras mais importantes da literatura infantil brasileira. O epis\u00f3dio surgiu de press\u00f5es exercidas por segmentos da pr\u00f3pria comunidade. Em grupos de mensagens, alguns pais passaram a defender sua retirada, atribuindo significados que ela jamais pretendeu carregar.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi nesse contexto que Ana Maria Machado formulou uma observa\u00e7\u00e3o particularmente instigante. Segundo ela, a censura n\u00e3o desapareceu; mudou de lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>Se antes era predominantemente vertical, exercida de cima para baixo, pelo Estado sobre os cidad\u00e3os, hoje frequentemente assume uma forma horizontal. S\u00e3o grupos sociais, organiza\u00e7\u00f5es, movimentos ou mesmo indiv\u00edduos que reivindicam para si o direito de decidir o que os outros podem ler, ouvir ou pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00f3gica permanece semelhante. Muda apenas quem pratica a censura.<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno n\u00e3o se limita ao universo dos livros. Ele est\u00e1 presente nas redes sociais, nos ambientes profissionais, nas universidades e at\u00e9 mesmo nas rela\u00e7\u00f5es pessoais. Em muitos casos, a preocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 debater uma ideia, mas impedir que ela seja expressa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, um dos romances mais instigantes de Ana Maria Machado, <em>Inf\u00e2mia<\/em>, publicado em 2011, antecipou quest\u00f5es que se tornariam frequentes na d\u00e9cada seguinte. O livro aborda a destrui\u00e7\u00e3o de reputa\u00e7\u00f5es, os julgamentos imediatistas e a velocidade com que suspeitas podem se transformar em condena\u00e7\u00f5es sociais. Ana Maria chamou aten\u00e7\u00e3o para um fen\u00f4meno que se tornaria cada vez mais frequente: a facilidade com que acusa\u00e7\u00f5es se convertem em senten\u00e7as e suspeitas em verdades incontest\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito antes de a palavra &#8220;cancelamento&#8221; entrar no vocabul\u00e1rio cotidiano, a escritora j\u00e1 explorava literariamente seus mecanismos.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria recente oferece in\u00fameros exemplos de pessoas condenadas pela opini\u00e3o p\u00fablica antes que os fatos fossem plenamente conhecidos. Em uma sociedade hiperconectada, a velocidade da acusa\u00e7\u00e3o frequentemente supera a velocidade da apura\u00e7\u00e3o. A emo\u00e7\u00e3o costuma chegar antes da reflex\u00e3o. O julgamento, e a condena\u00e7\u00e3o, precedem a an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que a democracia depende exatamente do contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Depende da disposi\u00e7\u00e3o de ouvir argumentos, examinar evid\u00eancias, admitir d\u00favidas e conviver com opini\u00f5es que nem sempre agradam. A liberdade de express\u00e3o n\u00e3o existe para proteger consensos. Consensos dispensam prote\u00e7\u00e3o. Ela existe para proteger o dissenso.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez por isso a reflex\u00e3o proposta por Ana Maria Machado seja t\u00e3o atual. O desafio contempor\u00e2neo j\u00e1 n\u00e3o consiste apenas em impedir que governos silenciem cidad\u00e3os. Consiste tamb\u00e9m em evitar que cidad\u00e3os silenciem outros cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma sociedade verdadeiramente democr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 aquela em que todos concordam. \u00c9 aquela em que as diverg\u00eancias podem ser expressas sem que livros precisem ser retirados das estantes, autores sejam interditados ou opini\u00f5es sejam transformadas em motivo de exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A principal li\u00e7\u00e3o deixada pela escritora na Feira do Livro tenha sido esta: a censura mudou de lugar. Mas continua exigindo vigil\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez a melhor forma de enfrent\u00e1-la permane\u00e7a sendo a mesma defendida por Ana Maria Machado nos tempos da R\u00e1dio Jornal do Brasil: fazer o pr\u00f3prio trabalho com honestidade intelectual, dizer o que precisa ser dito e n\u00e3o permitir que o censor, seja ele estatal ou social, passe a habitar dentro de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>____________________________<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res A escritora Ana Maria Machado participou da Feira do Livro que aconteceu no Pacaemb\u00fa. Ao revisitar epis\u00f3dios de sua trajet\u00f3ria como jornalista e autora, trouxe uma reflex\u00e3o que merece aten\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do universo liter\u00e1rio. 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