{"id":6460,"date":"2026-06-23T13:04:25","date_gmt":"2026-06-23T16:04:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6460"},"modified":"2026-06-25T13:09:41","modified_gmt":"2026-06-25T16:09:41","slug":"artigo-o-passado-ainda-pesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-o-passado-ainda-pesa\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; O passado ainda pesa"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"665\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Ricardo_Viveiros_foto_Mathilde_Missioneiro_FolhaPress-1024x665.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5880\" style=\"width:359px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Ricardo_Viveiros_foto_Mathilde_Missioneiro_FolhaPress-1024x665.png 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Ricardo_Viveiros_foto_Mathilde_Missioneiro_FolhaPress-300x195.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Ricardo_Viveiros_foto_Mathilde_Missioneiro_FolhaPress-768x499.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Ricardo_Viveiros_foto_Mathilde_Missioneiro_FolhaPress-400x260.png 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Ricardo_Viveiros_foto_Mathilde_Missioneiro_FolhaPress-924x600.png 924w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Ricardo_Viveiros_foto_Mathilde_Missioneiro_FolhaPress.png 1290w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por Ricardo Viveiros<\/p>\n\n\n\n<p>O tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de africanos escravizados permanece como uma das maiores trag\u00e9dias da hist\u00f3ria da humanidade. Milh\u00f5es de pessoas foram sequestradas, arrancadas de suas terras, culturas e fam\u00edlias para alimentar um sistema econ\u00f4mico constru\u00eddo sobre a viol\u00eancia e a desumaniza\u00e7\u00e3o. S\u00e9culos depois, os efeitos da barb\u00e1rie escravocrata ainda est\u00e3o presentes. O racismo \u00e9 uma de suas heran\u00e7as mais perversas e continua a desafiar sociedades que se consideram democr\u00e1ticas e igualit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o europeia na \u00c1frica aprofundou esse processo. No caso franc\u00eas, a domina\u00e7\u00e3o foi marcada pela explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pela imposi\u00e7\u00e3o cultural e pela nega\u00e7\u00e3o de direitos \u00e0s popula\u00e7\u00f5es locais. Sob o discurso da chamada \u201cmiss\u00e3o civilizat\u00f3ria\u201d, a Fran\u00e7a promoveu a assimila\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, difundiu seu idioma, enfraqueceu identidades tradicionais e transformou territ\u00f3rios africanos em fontes de mat\u00e9rias-primas para abastecer a metr\u00f3pole. Mesmo ap\u00f3s as independ\u00eancias conquistadas a partir da d\u00e9cada de 1960, muitos estudiosos apontam que mecanismos de influ\u00eancia pol\u00edtica e econ\u00f4mica permaneceram ativos, fen\u00f4meno conhecido como Fran\u00e7afrique.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi imposs\u00edvel n\u00e3o pensar nesse passado ao assistir a partida entre as sele\u00e7\u00f5es da Fran\u00e7a e do Senegal, antiga col\u00f4nia francesa. Durante a execu\u00e7\u00e3o do hino franc\u00eas, chamou minha aten\u00e7\u00e3o o fato de que muitos jogadores negros da sele\u00e7\u00e3o francesa n\u00e3o cantavam a letra. Alguns mantinham a cabe\u00e7a baixa. Cada atleta, \u00e9 natural, tem suas raz\u00f5es pessoais, n\u00e3o cabe presumir sentimentos. Ainda assim, a cena despertou uma reflex\u00e3o sobre identidade, pertencimento e mem\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>A atual sele\u00e7\u00e3o francesa \u00e9 formada na maioria por atletas negros, descendentes de povos oriundos de antigas col\u00f4nias africanas. S\u00e3o franceses por nascimento, cidadania e direito. Contudo, a presen\u00e7a marcante de nomes e sobrenomes ligados a diferentes regi\u00f5es da \u00c1frica revela uma hist\u00f3ria que atravessa gera\u00e7\u00f5es e conecta o presente a um passado colonial nem sempre plenamente reconhecido, e corrigido. H\u00e1 sobrenomes que remetem ao Senegal: Konat\u00e9, Kant\u00e9 e Demb\u00e9l\u00e9. Outros a Camar\u00f5es, Zaire, Congo, Costa do Marfim, Mali, Benim, Guin\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>O futebol, como express\u00e3o social, frequentemente exp\u00f5e quest\u00f5es que v\u00e3o muito al\u00e9m das quatro linhas. O elenco da equipe francesa demonstra a contribui\u00e7\u00e3o decisiva dos descendentes da imigra\u00e7\u00e3o para a constru\u00e7\u00e3o da identidade nacional contempor\u00e2nea. Ao mesmo tempo, lembra que integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa apagamento de origens, mem\u00f3rias ou experi\u00eancias coletivas.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo avan\u00e7ou muito no combate \u00e0s discrimina\u00e7\u00f5es, mas ainda convive com diversas formas de intoler\u00e2ncia. Racismo, sexismo, misoginia, LGBTfobia, sectarismo religioso, capacitismo, xenofobia e preconceito de classe continuam a ferir a dignidade humana. Combater essas pr\u00e1ticas exige mais do que discursos: requer coragem, respeito, educa\u00e7\u00e3o e empatia para enfrentar as marcas deixadas pela crueldade do passado colonizador.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o maior desafio do nosso tempo seja transformar mem\u00f3ria em aprendizado. Conhecer o passado n\u00e3o significa permanecer preso a ele, mas impedir que suas injusti\u00e7as se repitam. Que chegue o dia em que ningu\u00e9m precise sentir o peso da coloniza\u00e7\u00e3o sobre sua identidade. E que nenhum cidad\u00e3o, em qualquer parte do mundo, abaixe a cabe\u00e7a constrangido ao ouvir o hino do pa\u00eds que um dia sequestrou, escravizou e dominou seus ancestrais.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________________  <\/p>\n\n\n\n<p>Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, \u00e9 doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o (APE) e conselheiro da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Mem\u00f3rias de um tempo obscuro e O sol brilhou \u00e0 noite. Apresenta, aos domingos \u00e0s 7 horas (da manh\u00e3), na TV Cultura, o programa \u201cBrasil, mostra a tua cara!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Este artigo foi publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/www.gazetadigital.com.br\/colunas-e-opiniao\/colunas-e-artigos\/o-passado-ainda-pesa\/850939\">portal Gazeta Digital<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Viveiros O tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de africanos escravizados permanece como uma das maiores trag\u00e9dias da hist\u00f3ria da humanidade. Milh\u00f5es de pessoas foram sequestradas, arrancadas de suas terras, culturas e fam\u00edlias para alimentar um sistema econ\u00f4mico constru\u00eddo sobre a viol\u00eancia e a desumaniza\u00e7\u00e3o. S\u00e9culos depois, os efeitos da barb\u00e1rie escravocrata ainda est\u00e3o presentes. O racismo \u00e9 uma de suas heran\u00e7as mais perversas e continua a desafiar sociedades que se consideram democr\u00e1ticas e igualit\u00e1rias. 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