{"id":6472,"date":"2026-07-05T12:55:22","date_gmt":"2026-07-05T15:55:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6472"},"modified":"2026-07-05T13:10:44","modified_gmt":"2026-07-05T16:10:44","slug":"as-rachaduras-por-onde-entra-a-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/as-rachaduras-por-onde-entra-a-luz\/","title":{"rendered":"As rachaduras por onde entra a luz"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Hubert Alqu\u00e9res<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"681\" height=\"601\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/APE-Hubert-02.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6475\" style=\"width:308px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/APE-Hubert-02.jpeg 681w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/APE-Hubert-02-300x265.jpeg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/APE-Hubert-02-400x353.jpeg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 681px) 100vw, 681px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o produtos acabados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Durante muito tempo, as discuss\u00f5es sobre tecnologia concentraram-se na amplia\u00e7\u00e3o das capacidades das m\u00e1quinas. Os sistemas generativos produziram um deslocamento inesperado. \u00c0 medida que algoritmos passam a escrever textos, compor m\u00fasicas, traduzir idiomas, diagnosticar doen\u00e7as e resolver problemas complexos, cresce o interesse por aquilo que continua singularmente humano.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de uma especula\u00e7\u00e3o trivial, mas de uma das quest\u00f5es mais antigas da filosofia. Desde Arist\u00f3teles, a reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana distingue meios e fins. A t\u00e9cnica aperfei\u00e7oa instrumentos; n\u00e3o determina prop\u00f3sitos. Um navio mais veloz n\u00e3o responde \u00e0 pergunta sobre o destino da viagem. Da mesma forma, uma sociedade pode tornar-se extraordinariamente eficiente sem jamais enfrentar a principal quest\u00e3o: eficiente para qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia artificial representa o cap\u00edtulo mais recente de uma longa hist\u00f3ria de amplia\u00e7\u00e3o das capacidades humanas. A escrita permitiu preservar a mem\u00f3ria para al\u00e9m da vida individual. Gutenberg no s\u00e9culo XV, com a prensa de tipos m\u00f3veis, multiplicou o acesso ao conhecimento. A m\u00e1quina a vapor ampliou a for\u00e7a f\u00edsica. O computador expandiu a habilidade de processamento de informa\u00e7\u00f5es. Agora, pela primeira vez, surge uma tecnologia capaz de reproduzir algumas atividades que associ\u00e1vamos \u00e0 pr\u00f3pria intelig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal novidade provoca fasc\u00ednio e inquieta\u00e7\u00e3o. Afinal, os algoritmos escrevem, resumem, traduzem, organizam informa\u00e7\u00f5es e produzem respostas em segundos. Em muitos casos, realizam essas tarefas com velocidade e precis\u00e3o superiores \u00e0s humanas. N\u00e3o surpreende que surjam d\u00favidas sobre qual o futuro do trabalho, da educa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 da criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 que efici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, observou que os seres humanos s\u00e3o capazes de suportar sofrimentos extraordin\u00e1rios quando conseguem atribuir sentido \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia. Essa \u00e9 uma das diferen\u00e7as mais profundas entre homens e m\u00e1quinas. Sistemas artificiais processam informa\u00e7\u00f5es. Seres humanos atribuem significado \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A persistente fascina\u00e7\u00e3o exercida pela Nona Sinfonia de Beethoven ajuda a compreender essa diferen\u00e7a. A obra n\u00e3o \u00e9 admirada apenas por sua arquitetura musical, mas porque nela se projeta tamb\u00e9m a experi\u00eancia de um compositor que enfrentava a surdez enquanto a escrevia. A cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica jamais se reduz ao resultado final. Ela incorpora a trajet\u00f3ria, os limites, as perdas e as circunst\u00e2ncias de quem a produz.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma m\u00e1quina poder\u00e1, algum dia, compor uma sinfonia tecnicamente impec\u00e1vel. O que dificilmente experimentar\u00e1 \u00e9 a dor, a perseveran\u00e7a, a d\u00favida ou a esperan\u00e7a que frequentemente est\u00e3o na origem das grandes realiza\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa observa\u00e7\u00e3o ajuda a compreender uma caracter\u00edstica peculiar da modernidade. A sociedade contempor\u00e2nea desenvolveu uma obsess\u00e3o pelo desempenho. Produtividade, velocidade, otimiza\u00e7\u00e3o e efici\u00eancia tornaram-se crit\u00e9rios dominantes para avaliar organiza\u00e7\u00f5es e indiv\u00edduos. Aplicativos monitoram passos, horas de sono, desempenho f\u00edsico e produtividade profissional. A linguagem da mensura\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou sobre esferas que antes escapavam \u00e0 l\u00f3gica dos indicadores.<\/p>\n\n\n\n<p>O risco est\u00e1 em adotar para a vida humana os mesmos par\u00e2metros utilizados para avaliar m\u00e1quinas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa tend\u00eancia n\u00e3o come\u00e7ou agora. Ela acompanha a modernidade industrial desde o s\u00e9culo XIX. O que muda agora \u00e9 a escala. Pela primeira vez, os seres humanos se veem diante de tecnologias capazes de competir justamente nos crit\u00e9rios que escolheram para medir seu pr\u00f3prio valor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse ponto que o avan\u00e7o produz um efeito paradoxal. Quanto mais as m\u00e1quinas demonstram compet\u00eancia em tarefas anal\u00edticas e operacionais, mais evidente se torna a import\u00e2ncia do que n\u00e3o pode ser reduzido a algoritmos. Consci\u00eancia moral, imagina\u00e7\u00e3o, empatia, responsabilidade, sensibilidade est\u00e9tica e capacidade de julgamento n\u00e3o resultam do simples processamento de dados. S\u00e3o atributos que emergem da conviv\u00eancia, dos erros cometidos, das perdas enfrentadas, dos v\u00ednculos constru\u00eddos e da experi\u00eancia acumulada ao longo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o esteja inaugurando a desumaniza\u00e7\u00e3o do mundo, mas apenas tornando mais vis\u00edvel um processo anterior. Muito antes dos algoritmos generativos, escolas, empresas e organiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 vinham avaliando pessoas por crit\u00e9rios de desempenho, produtividade, adapta\u00e7\u00e3o e rendimento. Em muitos ambientes, o ser humano passou a ser tratado como uma m\u00e1quina imperfeita: lenta, emocional e pouco previs\u00edvel. A chegada da nova tecnologia apenas radicaliza essa l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso as grandes obras da literatura continuam t\u00e3o relevantes. Hamlet, Dom Quixote, Riobaldo ou Bentinho n\u00e3o permanecem vivos na mem\u00f3ria coletiva por serem modelos de perfei\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio. Interessam precisamente por suas ambiguidades, hesita\u00e7\u00f5es, contradi\u00e7\u00f5es e fragilidades. Os grandes personagens liter\u00e1rios revelam que a condi\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o se manifesta na aus\u00eancia de falhas, mas na forma como cada indiv\u00edduo lida com elas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em recente reflex\u00e3o sobre os sistemas generativos, o jornalista e analista pol\u00edtico Fareed Zakaria observou que o verdadeiro interesse dessa tecnologia talvez n\u00e3o esteja apenas naquilo que ela revela sobre as m\u00e1quinas, mas naquilo que nos obriga a redescobrir sobre n\u00f3s mesmos. Ao desenvolver essa ideia, recorre \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o japonesa do kintsugi, arte que consiste em restaurar pe\u00e7as de cer\u00e2mica quebradas com veios de ouro. Em vez de ocultar a fratura, o artes\u00e3o a destaca. A marca da imperfei\u00e7\u00e3o deixa de ser um defeito e passa a integrar a beleza do objeto.<\/p>\n\n\n\n<p>A met\u00e1fora \u00e9 poderosa porque contrasta com uma cultura frequentemente empenhada em eliminar vulnerabilidades, corrigir limita\u00e7\u00f5es e maximizar desempenhos. Os seres humanos, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o produtos acabados. Aprendem com os erros, amadurecem diante das dificuldades e frequentemente encontram na fragilidade a origem da criatividade e da sabedoria.<\/p>\n\n\n\n<p>As rachaduras n\u00e3o diminuem nossa humanidade. S\u00e3o parte dela. Leonard Cohen transformou essa percep\u00e7\u00e3o em uma das imagens mais conhecidas de sua obra ao escrever que \u201ch\u00e1 uma rachadura em tudo; \u00e9 assim que a luz entra\u201d. Em diferentes culturas e \u00e9pocas reaparece a mesma intui\u00e7\u00e3o: a experi\u00eancia humana n\u00e3o se define pela aus\u00eancia de falhas, mas pela capacidade de transform\u00e1-las em aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"412\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1024x412.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6474\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-1024x412.png 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-300x121.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-768x309.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1-400x161.png 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1.png 1119w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o atravessa tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o humanista ocidental. No Renascimento, Giovanni Pico della Mirandola afirmava que a singularidade humana n\u00e3o residia na for\u00e7a, na velocidade ou na perfei\u00e7\u00e3o, mas na liberdade de construir a pr\u00f3pria exist\u00eancia. O ser humano n\u00e3o estaria condenado a um lugar fixo na cria\u00e7\u00e3o. Sua dignidade decorreria justamente da possibilidade de escolher quem deseja ser.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e9culos depois, a intelig\u00eancia artificial recoloca essa quest\u00e3o sob nova forma. Se m\u00e1quinas podem superar seres humanos em tarefas espec\u00edficas, talvez seja necess\u00e1rio recordar que o valor da condi\u00e7\u00e3o humana nunca esteve apenas na aptid\u00e3o de executar. Sempre esteve na capacidade de escolher, criar, imaginar, amar, assumir responsabilidades e atribuir sentido ao mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da hist\u00f3ria, cada revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica obrigou os seres humanos a rever sua imagem de si mesmos. A intelig\u00eancia artificial n\u00e3o parece diferente. Seu legado mais duradouro dificilmente ser\u00e1 apenas a cria\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas mais inteligentes, mas a redescoberta de uma verdade antiga: aquilo que nos torna humanos nunca esteve na velocidade com que calculamos nem na capacidade de produzir resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1, antes, na possibilidade de transformar experi\u00eancia em consci\u00eancia, conhecimento em sabedoria e fragilidade em crescimento. Ao revelar tudo aquilo que as m\u00e1quinas conseguem fazer, ela nos obriga a compreender melhor aquilo que elas n\u00e3o podem ser.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o decisiva, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas saber at\u00e9 onde chegar\u00e3o os algoritmos. \u00c9 perguntar o que permanecer\u00e1 humano quando quase tudo aquilo que julg\u00e1vamos exclusivamente humano puder ser reproduzido por m\u00e1quinas.<\/p>\n\n\n\n<p>As rachaduras por onde entra a luz n\u00e3o est\u00e3o nas limita\u00e7\u00f5es das m\u00e1quinas. Est\u00e3o naquilo que continua nos tornando humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>__________________<\/p>\n\n\n\n<p>Hubert Alqu\u00e9res \u00e9 presidente da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o e vice-presidente da C\u00e2mara Brasileira do Livro. Artigo publicado originalmente na Revista Cult <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/as-rachaduras-por-onde-entra-a-luz\/\">https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/as-rachaduras-por-onde-entra-a-luz\/<\/a> <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6473\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-300x169.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-768x432.png 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-400x225.png 400w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image-1066x600.png 1066w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/image.png 1667w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Hubert Alqu\u00e9res Os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o produtos acabados. 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