{"id":6721,"date":"2026-08-20T11:09:40","date_gmt":"2026-08-20T14:09:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6721"},"modified":"2026-08-21T11:13:05","modified_gmt":"2026-08-21T14:13:05","slug":"artigo-quando-o-virtual-se-torna-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-quando-o-virtual-se-torna-real\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Quando o virtual se torna real"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"605\" height=\"361\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6261\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4.png 605w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4-300x179.png 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/image-4-400x239.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Por <em>Francisco Carbonari<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Gosto de m\u00fasica. Sempre gostei. Passei pela era do r\u00e1dio, da vitrola, da fita K7, do CD, do walkman e cheguei \u00e0s plataformas digitais. Hoje elas conhecem meu gosto e, a partir dele, me oferecem m\u00fasicas e int\u00e9rpretes. Isso me permite descobrir coisas que provavelmente eu n\u00e3o encontraria sozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ultimamente tenho ouvido muito \u201cBlues\u201d e as plataformas me apresentaram novos int\u00e9rpretes. Duas cantoras, em particular,&nbsp; <em>Enlly Bluee Nina <\/em>Blazeme chamaram a aten\u00e7\u00e3o: pelo ritmo, repert\u00f3rio e, principalmente, pela qualidade vocal. Elas entraram nas minhas listas de reprodu\u00e7\u00e3o. Procurei v\u00eddeos e, confesso, me impressionei com a &nbsp;beleza das duas.<\/p>\n\n\n\n<p>Busquei saber&nbsp; mais sobre elas. Foi quando descobri algo que me deixou surpreso: Enlly Blue e Nina Blaze, n\u00e3o existem como cantoras. S\u00e3o fruto de um projeto musical criado por intelig\u00eancia artificial. N\u00e3o h\u00e1 mulheres por tr\u00e1s desses nomes, vozes ou imagens. Toda a identidade musical e visual foi constru\u00edda por intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>O que me assustou n\u00e3o foi a exist\u00eancia de m\u00fasica produzida por IA. Nenhuma novidade. O que me incomodou foi que &nbsp;<strong>eu havia acreditado que elas eram reais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia me fez refletir sobre algo muito maior do que esse epis\u00f3dio: <strong>o virtual est\u00e1 deixando de ser apenas uma representa\u00e7\u00e3o do real e come\u00e7a a ocupar o lugar do pr\u00f3prio real<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 pouco tempo, havia uma distin\u00e7\u00e3o razoavelmente clara entre as duas coisas. Uma fotografia representava uma pessoa. Um filme registrava uma cena. Uma grava\u00e7\u00e3o preservava uma voz. A televis\u00e3o transmitia uma imagem de algu\u00e9m que existia diante de uma c\u00e2mera. Agora os indiv\u00edduos n\u00e3o s\u00e3o mais necess\u00e1rias. Podemos criar a pessoa, a voz, a imagem e a sua hist\u00f3ria. O virtual se tornou o novo real.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o precisamos mais ir ao Nepal para escalar o Everest. Colocamos um \u00f3culos e somos transportados para aquele ambiente. N\u00e3o&nbsp; para assistir &nbsp;um document\u00e1rio, mas para participar de uma situa\u00e7\u00e3o que &nbsp;reproduz imagens, sensa\u00e7\u00f5es, emo\u00e7\u00f5es e at\u00e9 os riscos de uma escalada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a pergunta que se imp\u00f5em \u00e9: <strong>\u201co que consideraremos como realidade quando j\u00e1 n\u00e3o conseguirmos distinguir entre as duas coisas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se uma experi\u00eancia virtual consegue produzir em mim emo\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s de uma experi\u00eancia real, o que &nbsp;corresponder\u00e1 \u00e0quilo que chamamos de realidade?<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quando procuro alguma informa\u00e7\u00e3o em uma plataforma de IA, converso com ela como se estivesse me dirigindo a algu\u00e9m. Chamo de \u201cvoc\u00ea\u201d, fa\u00e7o perguntas, discuto e termino dizendo \u201cobrigado\u201d. Sei que n\u00e3o existe uma pessoa do outro lado, mas a conversa \u00e9 como se tivesse. A m\u00e1quina deixa de parecer apenas uma ferramenta e passa a ocupar um espa\u00e7o que pertencia exclusivamente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei exatamente onde isso vai nos levar. E talvez as perguntas mais dif\u00edceis estejam ainda por vir.<\/p>\n\n\n\n<p>Nasci em um \u00e9poca na qual o celular e a internet n\u00e3o existiam, e o mundo virtual, tal como o conhecemos hoje, sequer era imagin\u00e1vel. Minha gera\u00e7\u00e3o talvez seja uma das \u00faltimas capaz de lembrar, pela pr\u00f3pria experi\u00eancia, como era a vida antes dessas transforma\u00e7\u00f5es e entender o que se perdeu e o que se ganhou. Essa quest\u00e3o \u00e9 a que mais me inquieta<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o porque eu tema a tecnologia. Muito pelo contr\u00e1rio. Uso-a, gosto dela e me beneficio do que ela oferece. O problema \u00e9 a velocidade com que ela est\u00e1 mudando aquilo que entendemos por realidade, por mem\u00f3ria, por presen\u00e7a e at\u00e9 por humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se for assim, a pergunta mais importante n\u00e3o \u00e9 at\u00e9 onde conseguiremos chegar, mas, \u201c<strong>como saberemos quem somos quando o mundo n\u00e3o nos permitir mais distinguir o que \u00e9 real e o que apenas aparenta ser?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>________________________ <\/p>\n\n\n\n<p>Francisco Carbonari \u00e9 Acad\u00eamico. Foi secret\u00e1rio de educa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de Jundia\u00ed e secret\u00e1rio Executivo da Secretaria estadual de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Francisco Carbonari Gosto de m\u00fasica. Sempre gostei. Passei pela era do r\u00e1dio, da vitrola, da fita K7, do CD, do walkman e cheguei \u00e0s plataformas digitais. Hoje elas conhecem meu gosto e, a partir dele, me oferecem m\u00fasicas e int\u00e9rpretes. 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