{"id":6997,"date":"2026-10-28T23:09:25","date_gmt":"2026-10-29T02:09:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/?p=6997"},"modified":"2026-10-30T23:21:24","modified_gmt":"2026-10-31T02:21:24","slug":"artigo-bloqueio-a-cuba-faz-da-politica-sofrimento-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/artigo-bloqueio-a-cuba-faz-da-politica-sofrimento-humano\/","title":{"rendered":"Artigo &#8211; Bloqueio a Cuba faz da pol\u00edtica sofrimento humano"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"512\" src=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Ricardo-Viveiros-_-Ronny.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6961\" srcset=\"https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Ricardo-Viveiros-_-Ronny.jpg 768w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Ricardo-Viveiros-_-Ronny-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.apedu.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Ricardo-Viveiros-_-Ronny-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fotografia do Ronny Santos para o jornal FSP<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Por Ricardo Viveiros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">\u201cPor tr\u00e1s da rigidez, tem sempre outra coisa; sempre!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Papa Francisco<\/p>\n\n\n\n<p>A expressiva vota\u00e7\u00e3o na ONU contra o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba reafirma um princ\u00edpio essencial, o de que nenhum pa\u00eds tem o direito de condenar um povo inteiro ao sofrimento para impor sua vontade pol\u00edtico-ideol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 28 de outubro de 2026, a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas aprovou, por mais uma vez, a resolu\u00e7\u00e3o cubana pelo fim do bloqueio econ\u00f4mico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos \u00e0 ilha. Foram 130 votos favor\u00e1veis e apenas 17 contr\u00e1rios. O resultado representa uma contundente vit\u00f3ria diplom\u00e1tica de Cuba e demonstra que a ampla maioria da comunidade internacional continua rejeitando uma pol\u00edtica que, h\u00e1 d\u00e9cadas, penaliza milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil reiterou seu apoio \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o e condenou os efeitos dessas medidas. A posi\u00e7\u00e3o brasileira reafirma o compromisso com a soberania dos povos, a independ\u00eancia nacional e a solu\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica dos conflitos. Em um cen\u00e1rio internacional marcado pela polariza\u00e7\u00e3o, pela ascens\u00e3o de for\u00e7as extremistas de direita e pela multiplica\u00e7\u00e3o de press\u00f5es e chantagens pol\u00edticas, o resultado da vota\u00e7\u00e3o ganha significado ainda maior.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de uma disputa entre Washington e Havana. Est\u00e1 em jogo a legitimidade de utilizar o sofrimento de uma popula\u00e7\u00e3o como instrumento de press\u00e3o para impor mudan\u00e7as pol\u00edticas em outro pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo relat\u00f3rio apresentado por Cuba \u00e0 ONU dimensiona a gravidade dessa situa\u00e7\u00e3o. Segundo o documento, entre mar\u00e7o de 2025 e fevereiro de 2026, os preju\u00edzos provocados pelo bloqueio chegaram a US$ 8,083 bilh\u00f5es, um aumento de 7% em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo anterior. Os danos acumulados, segundo Havana, alcan\u00e7am US$ 178,7 bilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>As cifras impressionam, mas s\u00e3o as consequ\u00eancias humanas que tornam a pol\u00edtica especialmente inaceit\u00e1vel. O chanceler cubano, Bruno Rodr\u00edguez, sintetizou a quest\u00e3o: \u201cO bloqueio n\u00e3o castiga um governo, castiga a vida cotidiana de um povo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A escassez de combust\u00edveis contribui para prolongados apag\u00f5es, compromete o abastecimento de \u00e1gua, paralisa transportes e prejudica hospitais e outros servi\u00e7os essenciais. Segundo Rodr\u00edguez, um \u00fanico navio com 100 mil toneladas de petr\u00f3leo bruto seria suficiente para reduzir os apag\u00f5es durante aproximadamente duas semanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando falta energia em um hospital, n\u00e3o estamos diante de um problema meramente econ\u00f4mico. Estamos falando de cirurgias comprometidas, equipamentos que deixam de funcionar e pacientes submetidos a riscos adicionais. O chanceler relatou situa\u00e7\u00f5es em que procedimentos cir\u00fargicos complexos precisaram ser conclu\u00eddos com l\u00e2mpadas recarreg\u00e1veis ou at\u00e9 com a ilumina\u00e7\u00e3o de telefones celulares.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dado alarmante apresentado por Cuba \u00e9 o aumento da mortalidade infantil: de 4 mortes por mil nascidos vivos, em 2018, para 9,9 em 2025. \u201cS\u00e3o crian\u00e7as, n\u00e3o s\u00e3o n\u00fameros\u201d, afirmou Rodr\u00edguez. A frase deveria ser suficiente para recolocar a discuss\u00e3o no terreno da responsabilidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>As chamadas san\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias agravam o quadro. Ao amea\u00e7ar empresas, bancos e companhias de navega\u00e7\u00e3o que mant\u00eam rela\u00e7\u00f5es comerciais com Cuba, os Estados Unidos ampliam o alcance do bloqueio e dificultam at\u00e9 mesmo opera\u00e7\u00f5es que envolvem bens essenciais. Segundo o relat\u00f3rio cubano, mais de sete mil cont\u00eaineres n\u00e3o conseguiram chegar \u00e0 ilha devido \u00e0s amea\u00e7as contra empresas de transporte mar\u00edtimo. Entre as cargas retidas estariam alimentos, medicamentos e dispositivos m\u00e9dicos, inclusive produtos contratados por empresas privadas cubanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Impedir ou dificultar o acesso de uma popula\u00e7\u00e3o a recursos indispens\u00e1veis \u00e0 sobreviv\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma medida pol\u00edtica neutra. \u00c9 uma forma de press\u00e3o cujos custos recaem sobre pessoas que n\u00e3o decidem os rumos de seus governos.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloqueio precisa ser examinado n\u00e3o apenas por seus efeitos econ\u00f4micos, mas tamb\u00e9m \u00e0 luz do respeito \u00e0 liberdade de pensamento, do direito internacional e da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida. Quando uma pol\u00edtica externa compromete o acesso \u00e0 energia, \u00e0 \u00e1gua, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade, suas consequ\u00eancias ultrapassam os limites de uma diverg\u00eancia diplom\u00e1tica e assumem a dimens\u00e3o de uma absurda puni\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa ignorar os problemas internos de Cuba ou impedir cr\u00edticas ao seu governo. Todo governo deve ser submetido \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o p\u00fablica, e nenhuma sociedade est\u00e1 imune a erros, contradi\u00e7\u00f5es ou decis\u00f5es question\u00e1veis. Mas criticar um governo \u00e9 diferente de submeter toda a sua popula\u00e7\u00e3o a medidas que agravam a precariedade e amea\u00e7am direitos fundamentais. Os direitos humanos n\u00e3o podem ser seletivos, tampouco subordinados a conveni\u00eancias geopol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>As recentes amea\u00e7as de Washington revelam que os Estados Unidos n\u00e3o abandonaram suas pretens\u00f5es hegem\u00f4nicas sobre Cuba. A ilha \u00e9 independente desde 1\u00ba de janeiro de 1959, e seu povo afirma estar disposto a defender a soberania nacional. Nenhuma pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o ao pa\u00eds deveria se apoiar em chantagens, press\u00f5es eleitorais ou c\u00e1lculos conjunturais.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrat\u00e9gia de asfixia econ\u00f4mica, desestabiliza\u00e7\u00e3o interna e tentativa de for\u00e7ar uma mudan\u00e7a de regime tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas. A invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos, em 1961, e a Opera\u00e7\u00e3o Mangusto s\u00e3o exemplos de uma longa confronta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conseguiu submeter Cuba. A insist\u00eancia nesse caminho tampouco oferece perspectivas de solu\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, aprofunda o antagonismo e transfere \u00e0 popula\u00e7\u00e3o o custo de uma disputa geopol\u00edtica. A aproxima\u00e7\u00e3o entre setores mais radicais do ex\u00edlio cubano e grupos pol\u00edticos de Washington apenas contribui para prolongar o impasse.<\/p>\n\n\n\n<p>As amea\u00e7as de impor tarifas, retirar vistos de funcion\u00e1rios governamentais e suspender recursos de coopera\u00e7\u00e3o internacional tamb\u00e9m evidenciam a disposi\u00e7\u00e3o de exercer press\u00e3o sobre pa\u00edses que contrariem os interesses de Washington. Ainda assim, n\u00e3o impediram que a maioria dos integrantes da ONU reafirmasse seu apoio \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado demonstra que a comunidade internacional n\u00e3o est\u00e1 disposta, ao menos em sua ampla maioria, a aceitar sem rea\u00e7\u00e3o medidas que afrontam a soberania dos povos. \u00c9 uma vit\u00f3ria pol\u00edtica importante, embora n\u00e3o represente, por si s\u00f3, o fim do bloqueio nem garanta que seus efeitos sejam imediatamente reduzidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria mostra que d\u00e9cadas de restri\u00e7\u00f5es n\u00e3o alcan\u00e7aram o objetivo declarado de dobrar Cuba. Em vez de produzir uma solu\u00e7\u00e3o, alimentaram a desconfian\u00e7a, aprofundaram as dificuldades econ\u00f4micas e perpetuaram o confronto. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para acreditar que a intensifica\u00e7\u00e3o dessa equivocada pol\u00edtica produzir\u00e1 resultados diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Havana afirma manter disposi\u00e7\u00e3o para dialogar com os Estados Unidos, sem precondi\u00e7\u00f5es, com base na igualdade soberana e no respeito m\u00fatuo. Essa possibilidade deve ser estimulada. A defesa da independ\u00eancia cubana n\u00e3o exige concord\u00e2ncia com todas as decis\u00f5es de seu governo, mas o reconhecimento de que cabe ao povo cubano decidir seu pr\u00f3prio destino, sem coer\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n\n\n\n<p>A firmeza manifestada por Cuba diante das amea\u00e7as deve ser compreendida nesse contexto. O pa\u00eds declara-se disposto a defender sua soberania, independ\u00eancia e integridade territorial. A comunidade internacional, por sua vez, precisa trabalhar para evitar uma escalada cujas consequ\u00eancias seriam imprevis\u00edveis, privilegiando a diplomacia em lugar da confronta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cCuba n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a, o bloqueio sim\u201d, afirma o chanceler cubano. Pode-se concordar ou discordar de Havana em in\u00fameras quest\u00f5es. O que deveria unir todos os comprometidos com a dignidade humana \u00e9 a compreens\u00e3o de que nenhum conflito pol\u00edtico justifica expor uma popula\u00e7\u00e3o inteira ao risco de adoecer ou morrer por falta de alimentos, medicamentos ou atendimento m\u00e9dico.<\/p>\n\n\n\n<p>O fim do bloqueio n\u00e3o significa alinhamento ideol\u00f3gico com o governo cubano. Significa defender o direito dos povos de viver em paz, preservar sua independ\u00eancia e escolher seus caminhos sem puni\u00e7\u00f5es coletivas. Significa reconhecer que a diplomacia deve prevalecer sobre a coer\u00e7\u00e3o e que a soberania n\u00e3o pode ser um privil\u00e9gio reservado \u00e0s na\u00e7\u00f5es mais poderosas.<\/p>\n\n\n\n<p>A vota\u00e7\u00e3o de 28 de outubro \u00e9, portanto, mais do que nova vit\u00f3ria diplom\u00e1tica de Cuba. \u00c9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de solidariedade internacional e um chamado \u00e0 coer\u00eancia na defesa dos direitos humanos. Mesmo que Washington insista em sua pol\u00edtica de press\u00e3o, n\u00e3o poder\u00e1 apagar o significado de uma maioria que voltou a se posicionar contra o bloqueio.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a quest\u00e3o \u00e9 o respeito \u00e0 soberania, \u00e0 independ\u00eancia e \u00e0 liberdade de pensamento, a solidariedade ultrapassa fronteiras e diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas. Defender Cuba, nesse sentido, \u00e9 defender um princ\u00edpio universal: nenhum povo deve ser submetido \u00e0 vontade de outro pa\u00eds. Somos todos respons\u00e1veis por sustentar esse princ\u00edpio, porque a dignidade humana n\u00e3o admite fronteiras nem exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>________________________________ <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ricardo Viveiros<\/strong>, jornalista, professor e escritor, \u00e9 doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura (Universidade Presbiteriana Mackenzie); membro da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o (APE) e da Comiss\u00e3o de Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Mem\u00f3rias de um tempo obscuro e Um inferno em Mianmar \u2013 Os perigos da escravid\u00e3o moderna. Apresenta, aos domingos \u00e0s 7 horas (da manh\u00e3), na TV Cultura, o programa \u201cBrasil, mostra a tua cara!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>__________________________________________ <\/p>\n\n\n\n<p>ATEN\u00c7AO: os artigos assinados e publicados neste site n\u00e3o traduzem a opini\u00e3o da Academia Paulista de Educa\u00e7\u00e3o mas sim a de seus autores. A publica\u00e7\u00e3o destes textos procura estimular o debate das quest\u00f5es que envolvem a educa\u00e7\u00e3o bem como refletir tend\u00eancias do pensamento contempor\u00e2neo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Viveiros \u201cPor tr\u00e1s da rigidez, tem sempre outra coisa; sempre!\u201d Papa Francisco A expressiva vota\u00e7\u00e3o na ONU contra o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba reafirma um princ\u00edpio essencial, o de que nenhum pa\u00eds tem o direito de condenar um povo inteiro ao sofrimento para impor sua vontade pol\u00edtico-ideol\u00f3gica. 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