Artigo – O destino profissional deixou de vir de berço

Por Reinaldo Polito
Houve época, e não faz tanto tempo assim, em que as profissões eram exercidas até com relativa facilidade. A classe média praticamente não existia. Havia os que podiam e os que não podiam. Quem podia frequentava boas escolas públicas e se preparava para exercer uma das poucas carreiras universitárias disponíveis: Medicina, Direito ou Engenharia. Talvez mais uma ou outra sem o mesmo destaque.
Quem não podia se virava como era possível. Se tivesse um pouco mais de preparo e boa dose de sorte, era aprovado no concurso do Banco do Brasil ou frequentava um curso de contabilidade e se tornava guarda-livros. Para as mulheres, as opções eram ainda mais limitadas. Podiam ser enfermeiras ou secretárias. Ou seja, a vocação profissional se restringia ao que o mercado de trabalho oferecia com as suas limitações.
A profissão era herdada
Era comum também os filhos seguirem a profissão do pai. O filho do advogado quase sempre herdava o escritório do pai e continuava exercendo a atividade paterna. O mesmo ocorria com os médicos e também, em número menor, com os engenheiros. Não era raro o filho de alfaiate exercer o ofício da família, assim como o sapateiro. A vida não tinha muitos sobressaltos, as pessoas nasciam já com um destino mais ou menos planejado.
Os tempos mudaram. Com o aparecimento das escolas noturnas, muitos puderam trabalhar durante o dia e estudar à noite. Dessa forma, não foram poucos aqueles que encontraram caminhos diferentes daqueles idealizados pelos familiares. A chance de encontrar sua verdadeira vocação, a atividade que lhes permitisse realizar-se, aumentou.
Formados sem vocação
Não significa, entretanto, que a multiplicidade de atividades tenha garantido efetivamente a realização de um sonho profissional. Hoje, muitas faculdades despejam formandos que não têm ideia do que foram fazer nos bancos escolares. Por serem despreparados, frustram-se e se obrigam a se contentar com trabalhos menores, sem nenhuma gratificação pessoal.
Ao contrário do que acontecia em tempos idos, as escolas públicas não são mais aquelas que preparam bem para que o aluno tenha aspirações a entrar em uma boa faculdade. Normalmente, essas vagas são destinadas a quem frequenta boas instituições particulares. São essas escolas que capacitam os alunos para os bons cursos superiores.
A dificuldade para escolher uma profissão
Com a enorme quantidade de profissões que apareceram nas últimas décadas, o jovem tem dificuldade para escolher o que deve fazer. Sem contar que, com a inteligência artificial, muitas profissões consideradas importantes hoje desaparecerão em pouco tempo. Talvez a maioria delas.
Dá para imaginar a preocupação dos pais em ter de orientar os filhos sobre a profissão que devem abraçar. Será que as atividades ligadas à tecnologia? Parece que sim, essa seria uma boa opção. Mas quem garante que também essas não serão substituídas pelas máquinas?
O que nunca sai de moda
Confesso que teria dificuldade em escolher hoje uma profissão. A de professor de oratória, por exemplo, será que continuará a existir? Nada impede que um bom aplicativo consiga dar aulas de boa qualidade para ensinar a falar em público. A de escritor de livros ou de colunista em órgãos da grande imprensa? Essa mais ainda deverá desaparecer em breve. Em muitos casos, já não existe mais.
Com a minha experiência, tendo experimentado infindáveis transformações no mercado de trabalho, dou uma sugestão com boa dose de certeza de que pode ser útil. Independentemente da carreira que venha a abraçar, aprenda o máximo possível sobre Matemática, Português, Ciências e pelo menos duas línguas estrangeiras. Pode ter certeza de que esse conhecimento será importante sempre, faça o que vier a fazer.
Trabalhar com prazer
São os meios para que desenvolva a profissão que desejar. Lembro-me de uma conversa que tive com o saudoso amigo Flávio Gikovate, um dos mais importantes psiquiatras da história brasileira. Conversávamos sobre um tema em que se especializou, a felicidade. Nunca mais me esqueci do que ele disse sobre como ser feliz a partir da vocação profissional.
Segundo ele, entre outros motivos, é feliz a pessoa que consegue descobrir sua vocação profissional e tem condições de se dedicar a essa atividade. Concordo com ele. Trabalhar com prazer é sinônimo quase perfeito de felicidade.
Preparo, vocação, oportunidade e sorte
Por isso, ainda que seja um grande desafio, cada um deve perseguir o sonho de encontrar uma profissão pela qual se apaixone e sinta prazer em se dedicar a ela. A realização desse sonho depende de vocação, preparo, oportunidade, sorte e muita dedicação.
De nada adianta se preparar se não existir vocação. A oportunidade talvez nem seja percebida se não houver preparo. A sorte só mostrará sua face diante da oportunidade. A dedicação só será produtiva se a sorte indicar o caminho certo.
Por isso, cada um deve fazer o que puder para ser feliz. E essa conquista não está relacionada necessariamente a dinheiro, mas sim ao prazer de realizar o que gosta e fazer com competência o que se dispuser a fazer.
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Reinaldo Polito é Mestre em Ciências da Comunicação e professor de oratória nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. Presidente Emérito da Academia Paulista de Educação. Escreveu 36 livros com mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos em 39 países. Siga no Instagram @polito, pelo facebook.com/reinaldopolito ou pergunte no contatos@polito.com.br
