Artigo – O que o Brasil pode ensinar e aprender em políticas de alfabetização

Por Guilherme Lichand e Maria Helena Guimarães de Castro
O Encontro Internacional Alfabetização, Equidade e Futuro, realizado em Brasília em fevereiro de 2026, consolidou o entendimento de que a alfabetização na idade certa é alicerce básico para o funcionamento do sistema educacional e para o desenvolvimento do potencial humano na América Latina. O evento demonstrou que a região não só compartilha trajetórias e desafios similares como também passa a construir soluções conjuntas, a partir de esforços coordenados.
A evolução recente da alfabetização na América Latina mostra avanços significativos. A adoção de métricas, de sistemas de avaliação e de políticas públicas de alfabetização por vários países da região evidenciam a maior centralidade dessa agenda, que passa a ser prioridade política. O assunto deixou de ser restrito aos anos iniciais da educação básica para se tornar a base estrutural de todo o sistema educacional. Governos e sociedades passaram a reconhecer que, sem domínio da leitura no início da trajetória escolar, não há avanço sustentável nas etapas posteriores.
Essa convergência regional, que une Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e Uruguai em um esforço comum pela promoção de desenvolvimento e equidade, já articula alianças estratégicas entre governos, organizações sociais e organismos internacionais em múltiplos níveis.
Embora os avanços recentes indiquem caminhos promissores, no Brasil, eles também evidenciam desafios estruturais: o índice de alfabetização na idade certa atingiu somente 66% em 2025.
A experiência de territórios da região que avançaram rapidamente oferece caminhos concretos e adaptáveis à nossa realidade. A província de Chaco, na Argentina, priorizou a compreensão leitora profunda, em vez da automatização da leitura. Em Moquegua, no Peru, o sucesso ocorreu com avaliações frequentes, associadas a mecanismos de incentivo para escolas e províncias. O Uruguai demonstrou que o aprendizado se fortalece quando há uma transformação na cultura e nas práticas de leitura também fora do ambiente escolar.
Se o Brasil pode aprender com a América Latina, nosso país também tem lições para a região. O país instituiu o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, com a finalidade de garantir o direito à alfabetização das crianças brasileiras até o final do 2º ano do ensino fundamental, a partir da corresponsabilização entre União, Estados e municípios. Para isso, foram pactuadas metas de resultado e avaliação anual, com indicadores capazes de comunicar a evolução para toda a sociedade.
O esforço de expandir o regime de colaboração entre Estados e municípios para todo o Brasil, com apoio centralizado para produção de materiais, formação de professores e monitoramento da aprendizagem, ganhou novo corpo neste governo, incluindo a redistribuição de recursos estaduais para aqueles que começaram de forma consistente.
A definição da escala e ponto de corte para definir se uma criança está “alfabetizada” ao final do 2º ano também se consolidou nessa gestão. Sem esse critério, o problema só aparecia tarde demais — quando os alunos eram avaliados ao final dos anos iniciais.
E esses foram ganhos importantes, ainda há muito por fazer. Como os benefícios de investir na alfabetização levam anos até se materializar em menores defasagens nos anos finais, o recém-nascido Sistema Nacional de Educação precisa garantir a recomposição de aprendizagens, em regime de colaboração, ganha força já nos anos iniciais — sem ficar à mercê de incentivos políticos.
Nossas avaliações precisam ser mais exigentes, focadas na compreensão textual, com devolutivas mais ágeis e conectadas a ferramentas pedagógicas acionáveis para o professor em sala de aula. A métrica definida para o final do 2º ano precisa ser enriquecida com cortes mais exigentes. Precisamos acompanhar a proporção de estudantes que leem e entendem ao menos um texto simples com autonomia — uma métrica mínima para garantir que a escola está formando “leitores felizes”.
As oportunidades e desafios para fazer avançar a alfabetização na idade certa não são uma particularidade latino-americana. Nos Estados Unidos, o estado do Mississippi e a cidade de Cincinnati, em Ohio, registraram ganhos expressivos ao adotar abordagens fundamentadas na ciência da leitura, o que gerou melhorias consistentes inclusive no desempenho em matemática. Em contrapartida, Texas e Flórida apresentaram resistência à adoção de melhores práticas e têm patinado nos indicadores de leitura.
De volta à América Latina, a cooperação entre os países ainda enfrenta obstáculos estruturais, como a ausência de avaliações com padrão comum. O dilema destacado por Boaler, professora de Stanford, parece ser um denominador comum: frequentemente sabemos o que precisa ser feito para que as crianças aprendam, mas seguimos enfrentando desafios para que essas práticas sejam incorporadas em sala de aula.
A alfabetização na idade certa exige resiliência e blindagem contra a volatilidade dos ciclos políticos. O futuro da América Latina depende da nossa capacidade de combinar uma operação técnica, pedagógica e de alta precisão com uma convergência política regional em torno de um pacto duradouro entre os países.
Entre suas muitas semelhanças e diferenças, o Encontro Internacional revelou um fôlego renovado para a construção desse futuro, a partir de um entendimento compartilhado: que não há transformação educacional ou socioeconômica sem alfabetização na idade certa. Como ficou claro nos diferentes painéis deste seminário, o primeiro passo — no qual estamos avançando — é conhecer profundamente a realidade do cenário. Saber o nível de alfabetização dos países com instrumentos de mensuração cada vez mais exigentes é fundamental. Somente assim a região conseguirá, de forma coletiva, se orientar pela aprendizagem ancorada em análises e tomar decisões que se sustentem ao longo do tempo, em realidades diversas e de forma consistente.
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Artigo publicado no jornal Valor Econômico.
Guilherme Lichand é professor de Educação da Universidade de Stanford e PhD em Economia Política e Governo pela Universidade Harvard.
Maria Helena Guimarães de Castro é Acadêmica da APE, professora da Cátedra Instituto Ayrton Senna do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e presidente do Conselho Estadual de Educação de São Paulo. Foi secretária-executiva do Ministério da Educação e presidente do INEP.
