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Home›Informações›Artigos›Artigo – Inteligência artificial na educação: impactos, desafios e perspectivas para a formação de professores

Artigo – Inteligência artificial na educação: impactos, desafios e perspectivas para a formação de professores

By prof. Hubert
24 de maio de 2026
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Por Sonia Penin

A inteligência artificial é tema de responsabilidade crucial para a educação brasileira e para o Brasil, se entendermos ser a educação uma das variáveis fundamentais para o desenvolvimento do País. Buscando compreender as possibilidades que a revolução da IA representa para o desenvolvimento de qualquer área do conhecimento, trago aqui meu presente entendimento de que um adequado relacionamento com tal ferramenta poderá, com devidas e específicas cautelas, melhorar significativamente a formação de professores e, na sequência, colaborar na melhoria dos resultados da aprendizagem dos estudantes da Educação Básica. Avalio que uma adequada utilização da IA pode levar a educação para um novo patamar e de maneira mais socialmente equitativa.

Se a revolução da IA é parte do saber contemporâneo, não podemos deixar de compartilhá-la com toda a população. Aliás, é importante lembrar que, na história da humanidade, o saber mais elaborado – nas universidades, igrejas, oficinas e, antes disso, em espaços muito específicos – não era distribuído para a população em geral. A história do aparecimento das universidades e, depois, da escola básica, levou muito tempo para oferecer de modo vagaroso, ainda hoje, o acesso ao conhecimento mais elaborado.

O relato a seguir é um breve resgate de avanços do conhecimento acumulado pela humanidade nos últimos 600 anos, que ajuda a entender o sucesso que significou cada etapa. O saber contemporâneo, até a IA, repousa em todos avanços anteriores. A propósito, recursos oferecidos por alguns chatbots estão presente neste texto.

Voltando no tempo, imaginemos um mundo em que a transmissão do conhecimento era uma raridade. Antes de Gutenberg, os livros eram raros e caríssimos, copiados à mão por escribas. Havia poucas escolas, poucas universidades, poucos professores e poucos alunos. A transmissão do saber era lenta, difícil e restrita à elite. O conhecimento passava de boca em boca, de mestre para discípulo, em um ritmo quase glacial.

Em 1440, a invenção da impressora de tipos móveis por Gutenberg “mudou o jogo”. Livros e panfletos permitiram que o conhecimento começasse a se expandir – vide a Bíblia – e, mesmo assim, só para pequena parcela da população. Importante observar que os avanços ocorridos ao longo do tempo foram precedidos por avanços específicos, não somente no âmbito científico, mas também técnico ou tecnológico, como, aliás, é o caso da IA e de grande parte das descobertas que expandiram o conhecimento e sua disponibilidade.

Citando algumas invenções que proporcionaram aumento significativo no conhecimento e/ou sua comunicação, relacionados à eletricidade: a bateria de Alessandro Volta, aprimorada por John Daniell, permitiu que Samuel Morse enviasse as primeiras mensagens em código, em 1844, ainda que de modo lento. Em 1876, Alexander Graham Bell patenteou o telefone. Mas só em 1927 ocorreu a primeira ligação telefônica intercontinental, realizada pela AT&T. Sucesso! Guglielmo Marconi, em 1901, conseguiu a primeira transmissão transatlântica por ondas de rádio, apesar das interferências. O cabo telefônico transatlântico TAT-1, em 1956, revolucionou as comunicações de voz entre Europa e América do Norte, com qualidade inédita. O satélite Telstar, lançado em 1962, permitiu a primeira transmissão de TV ao vivo entre continentes, que apesar de seu insucesso, abriu caminho para os satélites geoestacionários usados até hoje, a 35.786 km de altitude, para GPS e TV digital. O fax (1980) trouxe agilidade, transmitindo textos e imagens quase em tempo real.

No final do século 20, surgiu a grande revolução das comunicações: a internet. Em 1969, o Departamento de Defesa dos EUA financiou a Arpanet, a primeira rede operacional de computadores, conectando universidades e centros de pesquisa. Em 1974, Vint Cerf (que fez conferência na USP) e Robert Kahn desenvolveram os protocolos TCP/IP, que se tornaram o padrão oficial em janeiro de 1983, permitindo que redes diferentes “falassem” entre si. Entre 1989 e 1990, Tim Berners-Lee criou o HTTP (protocolo de transferência de dados) e o HTML (linguagem de marcação), bases da World Wide Web, disponibilizada publicamente em agosto de 1991. Em 1993, Marc Andreessen criou o Mosaic, o primeiro navegador gráfico popular, tornando a web acessível ao público não técnico.

Mecanismos de busca e aceleração do conhecimento começaram a ser desenvolvidos: Yahoo em 1994, Altavista em 1995 e Google em 1998, com o revolucionário algoritmo PageRank, que auxiliou pessoas e pesquisadores a encontrar informações com eficiência sem precedentes. Artigos técnicos, resumos de livros, endereços de compras — tudo passou a estar a um clique de distância, acelerando exponencialmente a transmissão e absorção do conhecimento. As redes sociais (como Facebook, Instagram, TikTok, X/Twitter) intensificaram ainda mais as trocas de informações, embora exijam uso criterioso para evitar distorções.

Enfim, anos 2010: inteligência artificial, a onipresença silenciosa. A verdadeira explosão do uso cotidiano ocorreu na última década, impulsionada por três fatores: big data (grande volume de dados), computação em nuvem e o deep learning (aprendizado profundo). Em 2011, são criadas as assistentes de voz os: inicialmente é lançado Siri pela Apple; em seguida, a Alexa em 2014, trazendo a IA para dentro do bolso e da casa das pessoas. Sistemas de recomendação: empresas como Netflix, YouTube e Amazon intensificaram o uso de algoritmos para personalizar o que cada usuário vê, tornando a IA uma ferramenta de consumo em massa.

A IA vem sendo largamente utilizada, reduzindo drasticamente os tempos de pesquisa em diversas áreas. Um exemplo marcante: vacinas para combate à covid-19 foram desenvolvidas em menos de um ano, quando normalmente levariam de cinco a dez anos, mitigando a gravidade da pandemia. Comparado a pandemias anteriores que dizimaram centenas de milhões, a IA se revelou uma ferramenta excepcional.

Em 30 de novembro de 2022, foi lançado o ChatGPT (Chat Generative Pre-trained Transformer), desenvolvido pela OpenAI. Em apenas dois meses, em janeiro de 2023, alcançou 100 milhões de usuários — recorde histórico!

Diferente dos mecanismos de busca, que fornecem listas de endereços, o ChatGPT combina e sintetiza uma quantidade incalculável de informações do conhecimento humano digitalizado, entregando respostas prontas, contextualizadas e personalizadas. Em 2025 a evolução do chat da OpenAI chegou à versão 5.5.

Atualmente, Claude, Grok, Gemini, Copilot, Deep Seek oferecem excepcionais recursos de acesso ao conhecimento que, sem dúvida, estão disponíveis para ser utilizados em qualquer situação humana e, certamente, também na formação de professores e de estudantes da escola básica. O nível de conhecimento não pode ser elitizado, como em outros momentos da humanidade, mas pode estar ao alcance de todos.

Os vários chats estão em processo de evolução oferecendo respostas mais precisas, eliminado as denominadas alucinações. A recente disponibilização do agent oferece novas perspectivas para auxiliar os professores nas suas complexas tarefas:

• Elaboração de planos gerais de educação em todos os níveis incluindo os planos de aula.
• Otimização de materiais didáticos.
• Melhoria da qualidade das aulas.
• Otimização da avaliação dos alunos.
• Proposição de tarefas para os alunos conforme suas dificuldades.

O reconhecimento das possibilidades que o agent oferece deve ser investigado pelos grandes especialistas das instituições de ensino, para obter o aproveitamento máximo do seu potencial.

A IA não substitui o professor; ela amplia sua capacidade de ensinar, de personalizar, de inspirar. Ele não perde o seu papel; o professor continua sendo aquele que identifica problemas e busca caminhos de superação. Com a IA, o professor ganha um poderoso aliado.

O planejamento pedagógico é do professor. É ele que poderá ajudar o estudante a escolher melhores maneiras de busca. O professor sempre precisará filtrar as buscas que os estudantes realizam sem orientação.

Por outro lado, os professores devem estar cientes de que, assim como ele, os alunos também têm agora um auxílio disponível 24 horas por dia, que pode ajudá-los a entregar um trabalho, entender um conceito difícil ou explorar uma ideia nova. Entretanto o professor deve estar ciente da tentação de muitos de transformar suas tarefas em cópia e cola, que o professor deve identificar e impedir.

Por fim, há que se acrescentar as novas iniciativas em nível internacional e nacional.

A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) lançou documento intitulado Marco referencial de competências em IA para professores, recomendando para cada país definir:

• Marco referencial de competências em IA para professores.
• Proposta de uma disciplina em IA nos cursos de formação de professores.

Igualmente, recomenda-se que o Ministério da Educação e as Secretarias de Educação desenvolvam tal disciplina para seus professores.

As instituições de educação devem se esforçar para que seus professores ou estudantes não percam as oportunidades oferecidas no avanço, tecnológico, educacional e cultural que se processa e que está apenas no seu início.

Informações indicam que apenas a China estabeleceu a IA como disciplina obrigatória em nível nacional na Educação Básica. Nos Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e na maioria dos países europeus, a abordagem atual foca na integração da IA às disciplinas existentes (como informática e matemática), uso de ferramentas digitais e diretrizes locais, sem torná-la uma matéria isolada ou obrigatória para todos os estudantes do ensino fundamental e médio.

Concluindo, o conhecimento hoje se constrói com uma velocidade espantosa. Ele se compõe, se recombina e se multiplica de formas que nunca vimos antes. Desse modo, futuros professores da Educação Básica, orientados por professores das universidades e demais instituições podem estar exatamente no centro dessa transformação tão necessária para o nosso país. A responsabilidade da sua formação é, primeiramente, das instituições de formação de professores públicas e privadas, das universidades, das faculdades existentes, que devem utilizar, além dos fundamentos básicos e conhecimentos clássicos de sua área, na educação e na didática, também as novas ferramentas disponíveis de aprendizagem e ensino, recentemente desenvolvidas.

A inteligência artificial não é uma ameaça. Ela é a maior oportunidade que já tivemos para democratizar, acelerar e humanizar o ato de ensinar.

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Sonia Penin é Acadêmica e professora da Faculdade de Educação da USP

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