Pesquisa da Unicamp alerta para desigualdade na distribuição de escolas médicas em São Paulo

Dissertação de mestrado defendida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) chama a atenção para temas fundamentais da educação médica brasileira: a rápida expansão dos cursos de Medicina, a distribuição regional das escolas médicas e os desafios relacionados à qualidade da formação dos futuros profissionais de saúde.
O estudo, realizado pelo médico e pesquisador Guilherme Frayha, sob orientação da professora Eliana Martorano Amaral, no Programa de Pós-Graduação em Educação para as Profissões da Saúde da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), analisou o perfil das escolas médicas do Estado de São Paulo entre 2013 e 2025, período marcado por forte crescimento impulsionado por políticas públicas como o Programa Mais Médicos.
A pesquisa analisou a expansão dos cursos de Medicina entre 2013 e 2025 e concluiu que a maior parte das novas vagas foi criada por instituições privadas, sem que houvesse uma correspondência efetiva com as necessidades regionais de saúde. O estudo também chama atenção para o fato de que diversos municípios que receberam novos cursos não dispõem da infraestrutura assistencial necessária e preceptores formados para sustentar adequadamente a formação médica completa e de boa qualidade, especialmente nos ciclos clínicos e no internato.
Para a acadêmica da Academia Paulista de Educação e professora da Unicamp, Eliana Martorano Amaral, o trabalho traz uma contribuição relevante para o debate sobre a formação médica no Brasil:
“A ampliação do número de vagas em Medicina é importante, mas não pode ser analisada apenas sob a ótica quantitativa. A qualidade da formação depende da existência de hospitais, unidades de saúde, preceptores qualificados e integração efetiva com o sistema de saúde. Quando a expansão ocorre sem planejamento adequado, corre-se o risco de aumentar o número de vagas sem garantir as condições necessárias para formar bons médicos.”
A professora observa ainda que o estudo reforça uma preocupação crescente entre especialistas em educação médica e políticas públicas:
“O desafio não é apenas formar mais médicos, mas distribuí-los melhor e assegurar que sua formação esteja alinhada às necessidades reais da população. A abertura de cursos deve considerar tanto a qualidade acadêmica quanto sua capacidade de contribuir para a redução das desigualdades regionais em saúde.”
O tema ganha relevância em um momento em que o Brasil assiste a uma rápida expansão da oferta de cursos médicos. Especialistas têm destacado que a formação em Medicina exige condições específicas de ensino, campos de prática diversificados e forte articulação com os serviços de saúde, fatores que nem sempre acompanham a velocidade da expansão observada nos últimos anos.
Ao evidenciar a concentração de escolas médicas em regiões mais favorecidas e a permanência de vazios formativos em áreas vulneráveis, a pesquisa da Unicamp contribui para uma reflexão mais ampla sobre planejamento educacional, desenvolvimento regional e equidade no acesso à saúde, temas que permanecem centrais para o futuro das políticas públicas brasileiras.
