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Home›Informações›Artigos›Artigo – Grupos de mães no WhatsApp: a gestão paralela da escola

Artigo – Grupos de mães no WhatsApp: a gestão paralela da escola

By prof. Hubert
16 de junho de 2026
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Por Francisco Carbonari

Com os novos recursos tecnológicos disponíveis e acesso permanente a celulares, surgiram novas formas de comunicação e relacionamento. O WhatsApp cresceu exponencialmente e tornou-se uma das principais ferramentas de interação social, principalmente entre os brasileiros. Nas escolas, era um fato comum os alunos se comunicarem por  esse meio,  mesmo sentados  ao lado do colega. A proibição do uso do celular no recinto escolar, resolveu esta questão, pelo menos dentro do seu espaço físico.

Mas um outro fenômeno tem despertado a atenção e a preocupação  das equipes educacionais: os grupos de mães de alunos.

 Discutir a educação dos filhos, trocar experiências com outras mães, é algo positivo. O problema está na forma como esses grupos se organizaram  e se expandiram, passando a interferir diretamente  no cotidiano  escolar.

Hoje, diretores e coordenadores, além das suas atribuições administrativas e pedagógicas, precisam dedicar parte significativa de seu tempo à mediação de conflitos que nascem nos ambientes digitais e acabam chegando à escola. Em alguns casos, esses grupos transformaram-se em verdadeiros mecanismos de monitoramento informal das atividades escolares. A tarefa que um esqueceu de anotar, a lancheira que o outro deixou na sala, a nota baixa que a filha tirou, a briga do colega no intervalo, opiniões dos pais nas reuniões, um simples comentário em sala de aula, rapidamente se tornam temas de debate coletivo.

Questões que deveriam ser tratadas diretamente com a equipe pedagógica, acabam sendo discutidas em conversas virtuais marcadas, muitas vezes, por informações incompletas, interpretações equivocadas e julgamentos precipitados. Em alguns casos,  criam-se situações de tensão e constrangimento que poderiam ser resolvidas por meio de uma simples conversa com a escola.

Embora esses grupos sejam independentes da instituição, os efeitos de suas discussões, frequentemente, geram tanto ruído que atingem o ambiente escolar. Professores e coordenadores veem-se obrigados a responder questionamentos surgidos a partir de versões compartilhadas nos grupos, consumindo um tempo que poderia estar sendo dedicado ao acompanhamento pedagógico dos alunos.

O principal problema é que esses espaços acabam criando uma espécie de gestão paralela da escola. Decisões pedagógicas, critérios de avaliação, projetos educacionais e medidas disciplinares passam a ser discutidos e julgados sem a participação daqueles que possuem a responsabilidade profissional por essas decisões, fazendo com que as atividades da escola, sejam divulgadas de forma confusa. O resultado costuma ser a ampliação de conflitos, o enfraquecimento da confiança institucional e uma crescente pressão sobre as equipes escolares

Talvez exista uma reflexão ainda mais profunda a ser feita. Os grupos não são necessariamente  a causa do problema. Muitas vezes são um sintoma. Revelam uma mudança nas relações entre famílias e instituições. Vivemos uma época em que a autoridade profissional — do médico, do jornalista, do professor e da escola — é constantemente colocada em discussão. Os grupos apenas tornaram esse fenômeno visível e instantâneo.

Por isso, a solução não passa pela simples oposição a esses grupos. Muitos deles, atuam como verdadeiros parceiros da escola, além de ser praticamente impossível proibi-los. A solução também não está na tecnologia, mas na reconstrução de uma relação de confiança entre famílias e escolas. O desafio desta construção, está no fortalecendo de canais institucionais de diálogo e na reafirmação dos papéis de cada um no processo educativo. Quando a família e a escola atuam juntas, cada uma respeitando a competência e responsabilidade da outra, os grupos de mães no WhatsApp podem cumprir uma função importante de aproximar pessoas e compartilhar experiências.

O desafio que se coloca é encontrar o equilíbrio. Há consenso de que famílias e escolas precisam atuar como parceiras, mas essa parceria, não pode significar a substituição de papéis. Os caminhos não são simples, mas  experiências já estão sendo desenvolvidas por escolas e algumas estratégias estão sendo bem sucedidas.

Em primeiro lugar, há que se estabelecer canais de comunicação institucionais eficientes. Muitas famílias argumentam que nem sempre sabem a quem recorrer diante de problemas. Quando os canais funcionam bem, há menos necessidade de recorrer aos grupos.

Algumas escolas têm promovido encontros específicos de convivência digital e comunicação responsável. A mensagem é clara: nem tudo precisa ser compartilhado com 50 pessoas antes de ser conversado com quem pode resolver o problema.

Outra questão que merece atenção, é a importância da confiança como principal valor da relação família-escola. Famílias que confiam na escola e possuem canais de comunicação disponíveis e resolutivos, tendem a procurar primeiro a instituição e não o grupo de WhatsApp.

Por fim há que se refletir sobre uma questão que permeia as demais: durante muito tempo a escola ocupou uma posição de autoridade pouco questionada. Hoje vivemos o movimento inverso: algumas famílias acreditam ter legitimidade para interferir em qualquer decisão escolar. Senão aprofundarmos essa discussão com as famílias, os caminhos serão mais difíceis.

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Francisco Carbonari é Acadêmico e ex-secretário de Educação do município de Jundiaí

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