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Home›Informações›Notícias›Maria Inês Fini defende valorização e dignidade dos professores em discurso de posse

Maria Inês Fini defende valorização e dignidade dos professores em discurso de posse

By prof. Hubert
15 de agosto de 2026
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Maria Inês Fini. Foto: Everton Amaro / Fiesp

Em seu discurso de posse na Academia Paulista de Educação, Maria Inês Fini transformou a própria trajetória em ponto de partida para uma reflexão sobre a docência e os desafios da educação brasileira. Ao recordar como descobriu, ainda no início de sua formação, o significado de ser professora, percorreu experiências que marcaram sua vida profissional e reafirmou algumas das convicções que orientaram sua atuação na educação. A parte mais contundente da fala foi dedicada aos professores: Maria Inês defendeu sua valorização, melhores condições de trabalho e o reconhecimento da dignidade da profissão, encerrando com um chamado à responsabilidade coletiva por uma escola em que currículo, avaliação e relações humanas estejam efetivamente a serviço da aprendizagem.

Abaixo, a íntegra do discurso de posse de Maria Inês Fini.

Maria Inês Fini. Foto: Everton Amaro / Fiesp

“Senhor Presidente da Academia Paulista de Educação, acadêmico Hubert Alquéres,
Senhoras e Senhores Acadêmicos, confrades e confreiras,
Autoridades aqui presentes,
Meus queridos familiares, amigos e convidados,

Ocupar esta tribuna hoje, para assumir a Cadeira número 12 desta egrégia Academia Paulista de Educação, é um momento de profunda emoção e de irresistível reflexão.

Primeiramente devo saudar Júlio de Mesquita Filho, patrono da Cadeira nº 12 da Academia Paulista de Educação, é prestar homenagem a uma das consciências mais vigorosas da vida intelectual paulista e brasileira. Jornalista, intelectual e homem de pensamento público, ele compreendeu como poucos que a educação, a cultura e a liberdade de expressão constituem as bases indispensáveis de uma sociedade democrática.

Júlio de Mesquita Filho fez do jornalismo uma forma elevada de serviço à coletividade. À frente de O Estado de S. Paulo, converteu a palavra escrita em instrumento de debate, crítica e esclarecimento. Sua atuação ultrapassou a esfera da imprensa: foi a de um homem que acreditava na inteligência como força transformadora da vida nacional e que via, na circulação livre das ideias, uma condição essencial para a maturidade política de um povo.

Seu lugar na história da educação brasileira é igualmente eminente. Júlio de Mesquita Filho foi uma das figuras decisivas do projeto que deu origem à Universidade de São Paulo. Sua defesa de uma universidade moderna, aberta à ciência, à pesquisa e ao diálogo com o mundo correspondeu a uma visão de longo alcance: a de que São Paulo e o Brasil precisavam de uma instituição capaz de formar intelectuais, profissionais e cidadãos à altura dos desafios de seu tempo.

Ter Júlio de Mesquita Filho como patrono desta Cadeira é uma honra e uma exigência. É uma honra porque nos aproxima de um homem que soube associar pensamento e ação, cultura e cidadania, imprensa e educação. É uma exigência porque nos convida a preservar, em cada debate e em cada iniciativa desta Academia, o mesmo apreço pela inteligência, pela liberdade e pela educação pública de qualidade.

Ao reverenciar a memória de Cláudio Salvador Lembo, celebramos mais que a biografia exemplar de um jurista, professor e homem público. Celebramos uma maneira superior de compreender o Brasil: com erudição, com espírito republicano, com respeito às instituições e, sobretudo, com uma permanente confiança no poder civilizatório da educação.

Titular da Cadeira nº 12 desta Casa, Cláudio Lembo pertenceu àquela rara linhagem de intelectuais para quem o saber nunca se separa da responsabilidade pública. Sua formação jurídica, sua atividade docente e sua atuação política compuseram uma obra coerente, marcada pela defesa da legalidade, da convivência democrática e da dignidade humana. Na vida pública, exerceu relevantes funções: foi Secretário de Negócios Jurídicos do Município de São Paulo, Chefe de Gabinete e Ministro Interino da Educação, assessor da Vice-Presidência da República, Vice-Governador e Governador do Estado de São Paulo. Em cada uma delas, imprimiu a marca da serenidade, da prudência e do compromisso com o bem comum.

Mas é também no magistério que se revela uma das dimensões mais duradouras de seu legado. Professor titular e emérito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, instituição que também dirigiu como Reitor.

Cláudio Lembo nos deixa um legado de dignidade, moderação e compromisso com o Estado de Direito. Sua memória continuará a iluminar esta Cadeira e a inspirar todos aqueles que acreditam que educar é, em última instância, formar cidadãos livres, responsáveis e plenamente humanos.

É com especial satisfação que rendo homenagem a Hubert Alquéres, Presidente da Academia Paulista de Educação, educador cuja trajetória reúne, com extraordinária coerência, o magistério, a gestão pública, a reflexão intelectual e o compromisso com a cultura. Sua presença à frente desta Casa honra a Academia e confere aos seus trabalhos uma combinação admirável de experiência, lucidez, cordialidade e visão de futuro.

Hubert conhece a educação a partir de muitos lugares e, justamente por isso, a compreende em sua complexidade. Foi professor na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, na Escola de Engenharia Mauá e no Colégio Bandeirantes; é diretor desta última instituição, onde sua atuação confirma uma vida inteiramente voltada à formação das novas gerações.

Como Secretário-Adjunto e Secretário de Estado da Educação de São Paulo, participou de decisões decisivas para a rede estadual, com atenção ao ensino integral, à continuidade das políticas curriculares e ao fortalecimento das escolas. Presidiu por quatro vezes o Conselho Estadual de Educação, do qual é membro desde 1998, demonstrando uma dedicação rara à construção paciente, técnica e democrática das políticas educacionais.

Sob sua presidência, a Academia Paulista de Educação encontra acolhimento para a pluralidade de ideias, estímulo para o debate qualificado.

É, especialmente, uma grande alegria prestar homenagem à acadêmica Ghislene Trigo Silveira, titular da Cadeira nº 14 da Academia Paulista de Educação, cuja trajetória expressa, com admirável consistência, uma vida dedicada à compreensão e ao aperfeiçoamento da escola brasileira. Educadora de sólida formação, pesquisadora cuidadosa e gestora experiente, Gislene reúne o rigor de quem estuda profundamente a educação e a sensibilidade de quem reconhece, em cada política pública, sua incidência concreta sobre professores, estudantes e comunidades.

Nesta Academia, Ghislene Trigo Silveira representa uma inteligência educacional generosa, precisa e indispensável. Sua palavra tem o valor de quem conhece a escola por dentro, respeita a docência em sua complexidade e acredita que as decisões educacionais devem ser sustentadas por conhecimento, diálogo e compromisso ético.

Ao saudá-la, celebramos uma educadora que transforma competência em serviço, estudo em ação e experiência em contribuição pública.

Olho para trás e vejo não apenas uma trajetória profissional, mas uma jornada pessoal de descobertas, de embates, de construções e, acima de tudo, de um compromisso imenso e irrevogável com a educação brasileira.

Preciso registrar, para agradecer, pessoas que representam marcos significativos em minha trajetória pessoal e profissional. Sou professora por causa de Dona Elisa Labela Fini, mãe querida, obrigada; fiquei professora por causa de minha professora de didática no curso Normal, dona Judith Stucci, obrigada; aprendi a direcionar e manter viva minha curiosidade intelectual com uma certa irreverência com meu orientador de doutorado, Joel Martins, obrigada; aprendi muito com chefes, políticos preciosos, dentre os quais destaco a professora Maria Helena Guimarães de Castro a quem agradeço pelas oportunidades a mim oferecidas, obrigada; aos inúmeros amigos presentes e ausentes na pessoa da querida professora Zuleika De Felice Murrie, agradeço a crença, o entusiasmo e envolvimento em todos os projetos que liderei, a riqueza das discussões que muito fortaleceram meu caminho, obrigada; à minha família, unida e apaixonada nas pessoas de minhas netas Elisa e helena aqui presentes, homenageio minha eterna professora Maria Eliza Fini, inesquecível e insubstituível.

Devo confessar a Vossas Excelências algo que talvez surpreenda a muitos: eu nunca quis ser professora.

Minha história com a educação começou quase por acaso, até mesmo por uma obrigação, quando ingressei na antiga “Escola Normal”, no Instituto Carlos Gomes, em Campinas. Naquela época, a docência não era um sonho; tanto que fiz questão de cursar o clássico simultaneamente, buscando outras rotas, outros horizontes. Eu carregava comigo o romantismo teórico de quem estuda pelos livros, acreditando que a sala de aula seria um ambiente asséptico, previsível e dócil aos meus planejamentos meticulosos e arrojados.

A vida, contudo, com sua sabedoria implacável, tratou de me desmentir. O ponto de virada — o instante em que minha alma foi definitivamente capturada pela educação — ocorreu durante um estágio-regência do curso Normal. Fui designada para dar aulas durante uma semana inteira para uma turma de 5º ano de um escola publica num bairro distante em Campinas. Eram, na linguagem da época, “moleques impossíveis”. Agitados, indisciplinados, refratários a qualquer controle tradicional. Nada, absolutamente nada do que eu havia planejado com tanto romantismo funcionou. A teoria esfarelou-se diante da realidade pulsante, barulhenta e desafiadora daquelas crianças.

Foi ali, no calor daquela sala de aula, que aprendi a lição mais valiosa de toda a minha vida profissional. Compreendi que uma proposta curricular não é um papel imposto de cima para baixo; o currículo é vida. Aprendi que precisava, antes de qualquer método, respeitar o contexto de vida daqueles alunos. Abandonei a arrogância das certezas teóricas e abracei a humildade da escuta. Mudei minhas estratégias. Estabeleci vínculos. Olhei nos olhos daquelas crianças não como recipientes a serem preenchidos, mas como sujeitos de suas próprias histórias.

O resultado foi transformador. Eles se tornaram participativos, aprenderam muito e, mais importante, me ensinaram tudo. Naquela semana, eu senti, com uma clareza que jamais me abandonou, que aquela era a trajetória que eu queria para a minha vida. A paixão pela sala de aula me arrebatou, e eu nunca mais esqueci essa lição: a educação só acontece quando há vínculos, quando há respeito ao contexto de vida dos alunos, quando a humanidade do professor encontra a humanidade do aluno.

Essa epifania guiou cada passo que dei a partir dali. Quando participei da fundação da Faculdade de Educação da UNICAMP em 1972, como professora e pesquisadora e em todos os cargos e funções que lá eu exerci, quando assumi a responsabilidade pela concepção e execução do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e do ENCCEJA; quando liderei a reestruturação curricular do “São Paulo Faz Escola” e do SARESP ou quando presidi o INEP, aquela lição da Escola Normal estava comigo.

Em cada matriz de referência que ajudei a elaborar, em cada sistema de avaliação que desenhei, minha preocupação central nunca foi a frieza dos números ou a rigidez das estatísticas. A avaliação, para mim, sempre foi um instrumento de diagnóstico para a inclusão, nunca uma ferramenta de punição. O currículo, por sua vez, deveria ser a tradução de um projeto de nação que acolhe, que emancipa e que respeita as múltiplas inteligências e realidades de nossas crianças e jovens. Por trás de cada política pública, eu via o rosto daqueles “moleques” do 5º ano e a urgência de lhes oferecer uma educação que fizesse sentido.

Mas, senhoras e senhores, não posso estar nesta tribuna, celebrando uma vida dedicada à educação, sem lançar um olhar profundo e angustiado sobre a figura central desse processo: o professor brasileiro.

Quero, neste momento solene, fazer uma defesa eloquente e intransigente da dignidade docente. Tenho temido, com dor no coração, pela saúde mental de nossos professores. Temo pelas violências cotidianas que sofrem — violências físicas em salas de aula que deveriam ter cenários de paz; violências simbólicas de um sistema que muitas vezes lhes nega o reconhecimento devido; violências estruturais de políticas que lhes exigem o impossível sem lhes dar o mínimo necessário.

O professor brasileiro tem sido, não raro, o para-raios de todas as tensões e fraturas de nossa sociedade. Exigimos que eles curem as feridas sociais, que compensem as falhas familiares, que superem as deficiências do Estado, enquanto os deixamos, muitas vezes, desamparados, exaustos e adoecidos. Isso é inaceitável. Uma nação que não protege a saúde e a dignidade de seus mestres está, irremediavelmente, hipotecando o seu próprio futuro.

Apesar de todas as adversidades, das noites mal dormidas, da exaustão e das lágrimas derramadas em silêncio por eles, eu mantenho uma fé inquebrantável na força transformadora do magistério. Eu acredito, com todas as forças da minha alma, na palavra docente.

Como tão bem expressou o filósofo Paul Ricoeur no prefácio de sua obra História e Verdade: “…creio na palavra docente porque ela chega ao coração dos homens”.

Sim, a palavra do professor não é para um mero repasse de informações. É uma palavra viva, grávida de sentido, capaz de despertar consciências, de curar desesperanças e de iluminar destinos. Quando um professor trabalha com paixão, quando ele estabelece aquele vínculo genuíno que aprendi a valorizar no meu estágio-regência, sua palavra atravessa as barreiras da indiferença e planta sementes que germinarão por gerações. A palavra docente salva vidas. Tenho sido testemunha disso.

Hoje, ao assumir esta cadeira, trago comigo não apenas meus títulos acadêmicos ou os cargos que ocupei. Trago a mulher que sou: a mãe, a avó “açucarada” que se derrete pelas netas; a mulher vaidosa que gosta de cuidar da saúde e da aparência; a amiga leal que preza os laços construídos; aquela que aprecia um bom vinho, uma boa caminhada e que não recusa um convite para dançar. Pois a educação também é isso: é celebração, é alegria, na inteireza do ser humano.

Caminhamos para o encerramento desta reflexão, mas não quero deixar-lhes palavras de lamento, e sim um chamado à ação. A educação brasileira está em uma encruzilhada histórica. Precisamos, mais do que nunca, resgatar a centralidade da relação humana no processo de ensino e de aprendizagem. Precisamos cuidar de quem cuida do nosso futuro.

Convoco todos nós — acadêmicos, gestores, formuladores de políticas públicas e a sociedade civil — a firmarmos um pacto inegociável pela valorização real, concreta e urgente do professor brasileiro. Que possamos construir escolas que sejam espaços de acolhimento, onde o currículo seja a expressão da vida e a avaliação seja a bússola para a equidade.

Termino com uma grande e luminosa esperança. A esperança de que, mesmo diante das maiores adversidades, sempre haverá um professor, em alguma sala de aula deste imenso Brasil, olhando nos olhos de seus “moleques impossíveis”, mudando suas estratégias, aprimorando seu trabalho, estabelecendo vínculos e provando que o amor e o conhecimento são as forças mais revolucionárias do universo.

Que a palavra docente continue a chegar ao coração dos homens.

E que nós tenhamos a sabedoria e a coragem de protegê-la, hoje e sempre.

Muito obrigada.”

Cerimônia de posse da professora Maria Inês Fini Terra como membro titular da Academia Paulista de Educação.. Foto: Everton Amaro / Fiesp
Cerimônia de posse . Foto: Everton Amaro / Fiesp
Cerimônia de posse. Foto: Everton Amaro / Fiesp
Cerimônia de posse. Foto: Everton Amaro / Fiesp
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